quarta-feira, 27 de julho de 2022

CASOS QUE NÃO VÊM AO ACASO



Embora seja uma conceção quase generalizada de que o conto é um género literário em franco declínio por não ser vendável, por já não se mostrar atrativo ao gosto da maioria dos leitores, cada vez mais voltados para o romance ficcional ou histórico, com o passar dos anos e com a multiplicidade de edições de sucesso, torna-se inevitável reconhecer o vigor que este tem vindo a readquirir no mundo literário português. Arriscar-se-ia até a afirmação de que o género está viçoso e que tem vivenciado dias de alguma glória, considerando as obras de grande qualidade que continuam a chegar às livrarias nacionais. Relanceando esta temporada e circunscrevendo-nos somente ao universo literário micaelense, rememoremos o sucesso das antologias de contos Avenida Marginal Calipso ou então a obra Nariz de Santo e Outros Momentos, da autoria de Tomaz Borba Vieira. Para além destes, e um ou outro que, inadvertidamente, teremos esquecido, torna-se inevitável destacarmos, também, a obra Casos Que Não Vêm Ao Acaso, da autoria de Mário Roberto, sendo a responsabilidade editorial da Artes e Letras.

Mário Roberto é um multifacetado (e não menos talentoso) artista micaelense, que aprecia “vagabundear pelas artes”. A sua reconhecida inquietude cultural e artística condu-lo da escrita à fotografia, da pintura à representação, do desenho ao cinema e a tantas outras áreas de interesse. No que se refere concretamente à escrita, e depois de algumas incursões pela poesia e texto dramático, depois de participações em volumes coletivos, apresenta-nos este Casos Que Não Vêm Ao Acaso, que se assume como o seu terceiro livro de contos, sucedendo a (A)casos da Alma e Luzsombra, ambos comercialmente esgotados. A apresentação da obra ocorreu recentemente na Igreja da Graça, em Ponta Delgada e ficou a cargo do próprio autor e da sua editora, Maria Helena Frias. Para além da apresentação do livro, dos contornos da sua conceção e dos objetivos que lhe serviram de base, houve também uma mostra de dois microfilmes, gravados durante o período de confinamento pandémico, baseados em dois dos contos presentes na obra. Digna de registo foi também a apresentação, ao piano, de uma obra de Tchaikovsky – Maio, por Amélia Vieira, jovem aluna do Conservatório Regional de Ponta Delgada, que tanto abrilhantou aquele momento.

Servindo-se de uma multiplicidade de registos, Mário Roberto reúne nesta obra mais de três dezenas de textos, cujas temáticas são amplamente diversificadas, alargando-se da acérrima crítica social e política à desfaçatez do próprio vizinho do lado, da crítica aos usos e costumes até à incompetência de diversos agentes profissionais. Há também espaço para a amizade e para o amor, há lugar para a sedução, para a mendicidade, para o direito dos animais, no fundo, o que vamos deslindando a cada texto são os principais focos de interesse do próprio autor. Uma amplitude temática assinalável que vem atestar, de certa forma, a irreverência do escritor. Curiosamente, há entre quase todos os contos um chão urbano que os perpassa e agrega: é, no fundo, retratada a vida citadina que tanto parece influenciar o modo de pensar e de agir do autor. Aliás, serão as suas vivências quotidianas e citadinas a centelha que o motiva para a escrita: não nos custa crer que grande parte dos textos presentes nesta obra terão como génese o movimento que, a cada dia, se experimenta na Rua Pedro Homem, local de eleição e de trabalho do autor. 

Valendo-se de uma linguagem clara e uma escrita escorreita, Mário Roberto varia o tom de narração a cada texto volvido, apresentando-se ora mordaz, satírico, excessivo, ora melancólico, contemplativo ou surreal. Numa ótica muito própria, certamente turvada pelo gosto individual, parece-nos que a exploração do absurdo se encontra muito bem desenvolvida em alguns destes textos, dos quais se destacam “De Como Eça de Queirós Se Encontrou Com Andy Warhol”, ou “A Cracker”. Embora possamos encontrar as raízes deste movimento no século XIX, conquanto seja um campo explorado também por Luís Rego, outro virtuoso escritor açoriano, nesses textos, Mário Roberto transporta-nos por uma espécie de nonsense à inglesa, salpicado por um humor inteligente e mordaz, o que confere um enorme regozijo, ao mesmo tempo que empresta novidade à leitura.

Este é um conjunto de contos deveras interessante, de leitura bastante agradável, alegre, viva, e que facilmente nos arranca um sorriso. Todavia, não deixa de se assumir também como palco de uma voz irreverente, avisada e cáustica, bem à imagem de Mário Roberto, o artista da cidade!  

  

Mário Roberto, Casos Que Não Vêm Ao Acaso, Artes e Letras editora, 2022

 

terça-feira, 5 de julho de 2022

A Escrava Açoriana

 

«Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura, emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim de um longo e trabalhoso dia.»

Miguel Torga, Um Reino Maravilhoso, 1941

O público-leitor exigia e Almeida Maia não desapontou. Depois do sucesso de Ilha-América (Letras Lavadas edições, 2020), o autor dá agora a conhecer A Escrava Açoriana, um extraordinário romance, alicerçado em factos verídicos, minuciosamente documentados e adornado com um expediente ficcional extremamente atrativo e, em tudo, verossímil. É recuperada a temática da emigração açoriana – presente também no seu último trabalho de grande fôlego –, mas, desta vez, a ocorrida no último quartel do século XIX, e que teve como destinos o Havai e, sobretudo, o Brasil. 

Antes de tudo o resto, importa saber que A Escrava Açoriana retrata uma história de vida difícil, de superação e de resistência; dá-nos conta de como o arrojo no feminino (em tempos brutos e másculos) pode desafiar e vencer a força das imposições sociais. É uma história de suplantação de barreiras, de preconceitos e crendices, mas é também o retrato fiel de uma sociedade misógina, entregue à miséria, à fome e ao cinzentismo, matizada assim mormente pelo distanciamento geográfico e pela negligência absoluta de um reino em luta árdua pela manutenção do poder estabelecido. Era a penúria e a indigência a escorraçarem os açorianos das suas próprias ilhas.

Rosário – a protagonista – é a representação clara da vontade e da tenacidade daqueles que almejam ser um pouco melhor, dos que procuram mais além, dos que não se resignam e ousam partir em busca da quimera. Rosário pertence ao grupo daqueles corajosos que alicerçam o progresso e a mudança social, mesmo quando essa transição não se perspetiva harmoniosa. Ela será a prova de que a evolução de uma sociedade e de um país, em geral, é tangível, somente, através da vontade das próprias pessoas. Não subsista, porém, a ideia de que estaremos ante uma mulher impoluta e de alma imaculada. Toda a heroína trava os seus combates, pelo que se pode esperar também um carácter determinado, capaz das grandes atrocidades, em busca dos objetivos a que se propôs. 

A obra arranca numa Ponta Delgada campesina, a feder a peixe e a sofrer com a quebra dos rendimentos provindos da transação comercial da laranja, atividade comercial que durante anos sustentou a economia micaelense. Os morgados ressentem-se e o povo vive na penúria. Os que ousam o sonho, veem na travessia para o Brasil uma possibilidade de enriquecimento mais ou menos rápido, mais ou menos certo. Entram em cena os engajadores, trafulhas que nada mais fazem do que ludibriar pobres diabos que, depois de se empenharem no pagamento do seu bilhete ou assinarem contratos fraudulentos, se veem reféns de uma dívida paga exclusivamente através de trabalho escravo, prostituição ou outras atividades de índole similar. Após as peripécias da longa travessia até à costa brasileira, chegam todas as vicissitudes de uma emigração nas condições já descritas.

Aquando da apresentação da obra em Ponta Delgada, sugeria a Professora Susana Goulart Costa algo que conservei na retina da memória, e que se relaciona com uma possível visão da temática aqui ficcionada abandonando aquele tempo e aquele espaço. Abstraindo-nos de datas, factos e locais marcantes que sustentam a diegese, torna-se possível percecionar toda uma visão muito mais abrangente, com paralelos por toda a humanidade, e desde o início dos tempos: está aqui subjacente a ideia primária da busca incessante por melhores condições de vida, e até a adaptação do individuo às condições que o envolvem. No que se refere ao caso específico da emigração açoriana, é certo que, mesmo naquele fluxo que rumou “às califórnias de abundância” anos mais tarde, também se encontrarão bastos exemplos de viagens mais ou menos falhadas e sonhos amplamente gorados. Curiosamente, tanto neste caso agora descrito na obra em apreço, como noutros que se busquem na diáspora açoriana residente nos EUA ou no Canadá, não faltarão exemplos da saudade do “pio do milhafre”, assim como do aceno lançado pela ilha e sentido lá longe, a Oeste de “ilha-mãe”. O regresso futuro que domina a condição presente.

A Escrava Açoriana é o sexto romance do autor e aquele que melhor representa a sua maturidade literária, alicerçada em dez anos de vida dedicada à escrita. Desta vez, e fruto da sua consistência e qualidade ficcional, conta com a chancela da Cultura, uma editora de âmbito nacional que, certamente, o ajudará a cativar um público mais vasto e diversificado. Apercebamo-nos ou não, a insularidade e sequente distanciamento dos polos culturais portugueses são ainda um claro entrave àqueles açorianos que procurem transpor a barreira arquipelágica, mesmo para aqueles que pautem o seu trabalho pelo rigor, empenho e seriedade, como é o caso do autor em causa.

Este é um romance marcado pela força do feminino, desde logo pela confessa vontade do autor de eleger uma mulher como protagonista, aliás, um desígnio seu, como poderemos comprovar no texto de agradecimento com que encerra a obra. Depois, contemos também com a voz do narrador, que chega, uma vez mais, no feminino, o que se revela uma vantagem, já que carrega um pouco mais de sensibilidade e torna mais reais e credíveis todas as descrições de uma sociedade marcadamente patriarcal e machista, com todas as amorfias que tal condição acarreta. O “impulso decisivo” para esta escolha chegou com a leitura da poesia de Marianna Belmira de Andrade, assim como pela inspiração na vida de Alice Moderno, como confessou o autor no dia de apresentação da obra.

Este é um romance soberbo e bastante original, sobre uma temática amplamente ignorada por grande parte da sociedade portuguesa. Chega redigido numa prosa elegante, escorreita, mas também muito precisa, rica e minuciosa, plenamente capaz de conduzir o leitor através daquelas que foram as mutações sociais, económicas e até mesmo políticas operadas em Portugal e no Brasil, na transição do século XIX, para o século XX.

Com um olhar atento e um cuidado extremo com o detalhe histórico, mas também com uma veia criativa muito ativa, não há como deixar de aplaudir a forma brilhante como o autor traz à narrativa a peça Emigrantes, quadro icónico do pintor micaelense, Domingos Rebêlo, o que é também sintomático da enorme sensibilidade cultural do autor.

Esta é uma história dura, talvez das mais marcantes de toda a emigração açoriana e portuguesa; uma história que tinha de ser contada e, mais do que tudo, uma história que não devia repetir-se. No entanto, e permitindo-me a partilha do título de uma notícia veiculada em dezembro de 2021, por um dos meios de comunicação social mais influentes em Portugal, terei de assumir que o problema não ficou sepultado com o peso dos anos, e que ainda se encontra entre nós, não exclusivamente no Brasil ou no Havai, mas em Portugal, em nossa casa, mesmo ao nosso lado!

«O trabalho escravo continua em explorações agrícolas no Alentejo (…)». *

*in:https://cnnportugal.iol.pt/videos/trabalho-escravo-continua-no-alentejo-a-lei-existe-mas-faltam-as-condenacoes/61ca20160cf21847f0a197ef , consultado a 05 de julho de 2022

Pedro Almeida Maia, A Escrava Açoriana, Cultura Editora, 2022

#livrosecoisasdessas


segunda-feira, 4 de julho de 2022

Homenagem em Paços de Ferreira

 Ontem foi um dia muito marcante: decidiu a Câmara Municipal de Paços de Ferreira homenagear um grupo de cidadãos, em  “reconhecimento do meritório trabalho desenvolvido em prol da promoção cultural no Município de Paços de Ferreira (….)”. 

Parece-me uma iniciativa muito louvável, pelo que, além do meu profundo agradecimento, endereço-lhes também os meus parabéns.

Não pude estar, mas representou-me a minha mãe, e tão bonita que ela estava!




#livrosecoisasdessas

📷

#Câmara Município Paços de Ferreira

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Os Velhos


“Ir morrendo é pior do que morrer”

Paula de Sousa Lima, Os Velhos


É incontestável a animação literária e cultural vivenciada no arquipélago e em São Miguel, em particular. Tem sido uma temporada incomum, com fulgor extraordinário e com uma qualidade que muito nos deve orgulhar.

Um dos livros lançados e, seguramente, um dos mais esperados foi Os Velhos, o mais recente romance de Paula de Sousa Lima, autora, entre outros de O Outro Lado do Mundo (Prémio de Humanidades Daniel de Sá), Pretérito Quase Perfeito e Outros Contos, Variações em Dor Maior, Os Últimos Dias de Pôncio Pilatos ou O Paraíso (Finalista do Prémio Leya). O seu lançamento ocorreu na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, tendo sido responsável pela apresentação pública, o professor e crítico literário Vamberto Freitas, que a todos presenteou com uma intervenção de excelência.

A escolha de Os Velhos para título desta obra é perfeita, sendo por aí mesmo que se inicia o forte abalo nas convicções do leitor. Ainda antes de abrirmos o livro e de o folhearmos é, de imediato, evocado um mundo para o qual olhamos muitas vezes com desconforto, ou, pelo menos, relanceamos com um espírito longínquo e reticente: a velhice. Não me custa crer que haja quem o vá preterir nos escaparates, pela conveniência de não se confrontar com o assunto que ali vem explanado. Estudado antropologicamente, não é incomum furtarmo-nos ao tema, talvez por a velhice representar a condição final do Ser Humano, por não gostarmos de enfrentar o limiar da passagem para a dimensão seguinte, ou, talvez ainda, por ser nessa fase que teremos de abandonar, em definitivo, aquela ideia tonta que nos alimenta a mocidade e idade adulta e que se relaciona com a imortalidade. Só aí, quando já ecoarem os passos de um caminho inevitável e sem retorno, é que nos daremos conta da nossa própria finitude. Paula de Sousa Lima lança já um alerta para aqueles mais incautos. Por outro lado, mesmo não assumindo ainda essa condição etária, a velhice de outrem, de um familiar próximo, por exemplo, é encarada, demasiadas vezes, como um verdadeiro empecilho na engrenagem do dia-a-dia: todos temos as nossas obrigações e contas para pagar, e, por isso, precisamos de tempo e disponibilidade física e mental para desenvolvermos a nossa atividade profissional. Há também o imperativo dos ginásios ou das corridas ao fim do dia, aqueles encontros das quintas-feiras com os amigos de sempre, as mil e uma atividades extracurriculares dos filhos e, claro, restando algum tempo, pois que se empregue no restabelecimento de energias numa qualquer socialização que se agende. Ficam os velhos para trás.

Em Os Velhos é intensa a crítica social, sobretudo à forma como, tantas vezes, são tratados os nossos idosos, como são preteridos e/ou ludibriados em troca das trivialidades que nos vão alimentando o ego e, sobretudo, a carteira. Colocam-se a nu as fragilidades de um sistema de apoios sociais que, quando funciona, fá-lo muito deficitariamente. Mostra-se, sem pudor, como se maltratam aqueles que mais mimados e protegidos deviam ser. Se quiséssemos assumir uma postura simplista neste comentário, poderíamos apenas escrever que Paula de Sousa Lima redigiu um belo livro sobre pessoas velhas e as suas circunstâncias pessoais e familiares. Mas, pelo contrário, se optarmos por dar conta de uma leitura mais séria e aprofundada do volume em apreço, então teremos de enunciar que foi escrito um livro extraordinário sobre a sociedade atual e sobre a hierarquização dos valores que a regem, especificamente, sobre a forma como lidamos com as pessoas integradas nos escalões etários mais altos. «(…) são estes os dias modernos, implacáveis, que não deixam lugar aos velhos, que determinam esconder os velhos, apartá-los da vida (…)»

Valendo-se das vivências de três personagens principais, da história do nosso próprio país, assim como de uma estrutura assente em duas sequências divididas em vários andamentos, onde se entremeiam analepses com o tempo da narração, Paula de Sousa Lima retrata e censura toda uma sociedade patriarcal, com especial enfoque naquela da segunda metade do século XX, onde, acoberto dos imperativos de uma Ditadura velhaca, o poder do homem sobre a mulher era tido como normal, e, por isso, o espancamento e violação, o agrilhoar da mulher numa pocilga ou expulsá-la de casa, o adultério ou a censura eram atos desculpáveis e causados exclusivamente pelo comportamento feminino. 

Embora expectável considerando as obras já publicadas e pelo que vai escrevendo regularmente na imprensa regional, não podemos deixar de sublinhar o meticuloso cuidado empregue no discurso, na sintaxe, na semântica e na morfologia, pelo que, como sempre, ler Paula de Sousa Lima é também expandir o conhecimento da Língua: «(…) diz-se aborreceu, mas a palavra é fracota, melhor seria exasperou, desesperou, enfureceu, agastou, assanhou, enraiveceu, encolerizou, embraveceu, irou, danou (…)»

Dir-se-ia que foi um verdadeiro ato de coragem escrever desta forma sobre esta temática. Para além de se assumir como um texto profundamente inovador, vem, ao mesmo tempo, contribuir para a discussão que, por estes dias, volta à montra da nossa sociedade, e que se relaciona com a despenalização da morte medicamente assistida. Sendo certo que não é questão exclusiva dos mais velhos, não deixa de ser verdade que são eles quem mais a procura e deseja, pelo que também aqui se poderão colher argumentos para consolidar opiniões.  

Como tão bem enunciou Vamberto Freitas na apresentação desta obra, Paula de Sousa Lima demonstrou a “original capacidade de fazer arte com um tema proibitivo”. Embora seja triste e angustiante; conquanto seja errado e condenável colocarmos os nossos velhos nesse patamar tão rebaixado é esta a verdade crua em que vivemos. Nesse sentido, tenhamos também a capacidade de fazer arte com quem nos precedeu e assegurou que hoje pudéssemos deter uma existência integrados numa sociedade moderna, mas que se quer um pouco mais justa e aperfeiçoada.

Que este Os Velhos nos inculque as perguntas certas e nos guie até às respostas que realmente fazem a diferença.

Paula de Sousa Lima, Os Velhos, Letras Lavadas edições, 2022

📷 Letras Lavadas edições

terça-feira, 14 de junho de 2022

NARIZ DE SANTO E OUTROS MOMENTOS



Há autores que, de tão especiais, nos marcam profundamente, seja pela substância, seja pela forma daquilo que partilham. É caso de Tomaz Borba Vieira, cuja obra literária (e não só) tenho acompanhado com redobrado interesse e especial agrado, desde há já muitos anos. Além de virtuoso pintor, Tomaz Borba Vieira manifesta-se também como um escritor talentoso, um exímio contador de histórias e uma pessoa absolutamente admirável! Dito isto, mais do que um gosto, foi uma honra das maiores poder ler e prefaciar a sua mais recente obra Nariz de Santo e Outros Momentos, editado pela Letras Lavadas Edições. Partilho convosco trechos desse prefácio, transcritos na página da editora. https://www.letraslavadas.pt/en/nariz-de-santo-e-outros-momentos/

 “(…) Ao primeiro contacto, notará o leitor alguns dos traços mais enraizados na escrita de Tomaz Borba Vieira, e que se consubstanciam por uma aparente simplicidade de difícil execução, e por uma contínua fluidez, sem grandes derivas à órbita do supérfluo, o que lhe confere um andamento aprazível e capaz de suster a atenção do leitor. Tomaz Borba Vieira é, como percebemos, um contador de histórias, tornando-se praticamente impossível dissociar estas marcas discursivas da figura autoral.

Como em outras obras suas, também em Nariz de Santo e Outros Momentos são narradas, de forma quase singela, múltiplas vivências e outras tantas viagens sentimentais a diferentes épocas e geografias. Com efeito, as balizas temporais definidas pelo autor fazem-nos calcorrear a sua própria memória, resgatando desse passado um tempo vivido intensamente junto da família e amigos mais ou menos próximos. (…)

Desta vez, apresenta-nos quinze narrativas muito bem cuidadas, repletas de apontamentos históricos, psicológicos e sociais vistos e filtrados a partir da sua cosmovisão, conferida por toda uma vida repartida por diversas geografias mundiais, sem, todavia, renegar a sua conceção primeira de freguês de uma simples povoação, onde, invariavelmente, buscava o retemperar de forças, o reajustar de emoções e até a inspiração. São-nos oferecidos pequenos relances de outros tantos rasgos temporais, onde nos é possível vislumbrar a riqueza das relações familiares, dos hábitos sociais e quotidianos, onde podemos observar as relações de amizade entre  pessoas muito simples ou outras de maior relevo histórico-cultural, onde poderemos apreciar a comicidade fina que perpassa toda a obra e onde poderemos ainda encontrar a centelha que motiva Tomaz Borba Vieira e que se alarga num espectro desde a Pintura à Biologia, da Náutica à Religião, da História à Geografia, entre tantas outras.

Não que necessária fosse mais alguma confirmação, mas este Nariz de Santo e Outros Momentos vem atestar a maturidade e a robustez literária que Tomaz Borba Vieira já alcançou no seio das letras açorianas; vem confirmar, em definitivo, o seu lugar junto dos nomes maiores da literatura de raiz açoriana.” 

 📷 Letras Lavadas Edições

Tomaz Borba Vieira, Nariz de Santo e Outros Momentos, Letras Lavadas Edições, 2022

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Laudalino, o Fotógrafo da Maia

 


           
            Embora já a tenha citado a propósito de uma outra obra, justifica-se recuperar a frase de Sebastião Salgado, consagrado fotógrafo, reconhecido à escala global, que assumia que as suas «fotografias são o vetor entre o que acontece no mundo e as pessoas que não têm como presenciar o que acontece.»

Uma das vantagens da fotografia será a de tomar forma de pontes que nos permitam viajar até geografias distantes ou, mais maravilhoso ainda, viajar até aos nossos próprios espaços e que tão bem conhecemos, mas rasgando o tempo e mergulhando num pretérito tantas vezes surpreendente. Olhar fotografias antigas e ver outras representações daquilo que nos pertence em tempo presente, assumindo as várias reconfigurações sofridas até à data, revela-se um exercício extraordinário.

É o que acontece ao folhear o livro, Laudalino da Ponte Pacheco 1963-1975, da responsabilidade de Maria Emanuel Albergaria, Margarida Medeiros e João Leal, e brilhantemente editado pela Araucária Edições, em 2021, num volume muito cuidado, robusto e esteticamente muito bonito.

A obra surge divida em três partes, ocupando-se cada autor com uma vertente distinta: “O fotógrafo da Maia”, por Maria Emanuel Albergaria; “Continuar a viver – imagens de um quotidiano açoriano (1963-1975)”, por Margarida Medeiros; e “Os Açores dos anos 1960. As fotografias de Laudalino em contexto”, por João Leal. Estas três vertentes ou visões mantêm em comum entre elas o espaço. Embora também dediquem atenção a outros locais ilhéus ou não, nacionais ou internacionais, a freguesia da Maia, no concelho da Ribeira Grande e de origem do fotógrafo, mantem-se invariavelmente como espaço de partida (mas também de chegadas) em toda a narrativa.

Muitas das fotografias que integram este álbum são acompanhadas por informações adicionais, em jeito de legenda, e que se revelam muito úteis atendendo ao valor histórico, antropológico, social e cultural que as mesmas permitem colher. Lamenta-se que em tantas outras, essa informação tão pertinente já se tenha perdido na névoa do esquecimento. Todavia, há que reconhecer o notável esforço no sentido de dotar as imagens destes pequenos apêndices tão profícuos, considerando pessoas e/ou realidades profundamente modificadas pelo tempo.

Considerando as condições atmosféricas próprias do arquipélago (a humidade, em particular), e sabendo do efeito que as mesmas produzem sobre este tipo de material, é admirável e digno de registo a quantidade mas, sobretudo, a qualidade das fotografias eternizadas neste volume, mérito, claro está, dos conhecimentos e cuidados tidos primeiro por Laudalino da Ponte Pacheco, depois pela família herdeira e finalmente pelos responsáveis da Santa Casa da Misericórdia da Maia, (depositária de um espólio com cerca de 155.000 fotografias), que as souberam e têm sabido proteger, não obstante as condições adversas em que vivemos.

Ao folhearmos as páginas deste livro, torna-se quase inevitável a eclosão de um sentimento de empatia para com o “fotógrafo da Maia”, como era amavelmente reconhecido Laudalino Pacheco. Descrito explicitamente como um homem dinâmico, muito divertido e trabalhador, facilmente se infere a sua extrema perspicácia e cultura. Hão de perdoar-me o lugar-comum, mas falamos de um homem bem à frente do seu tempo, um visionário e uma pessoa multifacetada. Para além da dedicação à família, às suas funções profissionais na Fábrica de Tabaco da Maia e à fotografia, Laudalino da Ponte Pacheco apoiou militares durante a Guerra, desempenhou funções de socorrista, foi dirigente desportivo e membro da Junta de Freguesia da Maia. Arrendava quartos a profissionais deslocados ou a turistas, era carpinteiro, cobrava e distribuía o Açoriano Oriental e o Correio dos Açores. Vendia rádios e distribuía tabaco pelos estabelecimentos comerciais da época.  Era um homem curioso e sagaz: montou na sua casa toda a instalação elétrica anos antes da eletricidade chegar à freguesia da Maia.

A nível histórico e antropológico, este será sempre um contributo formidável, já que nos oferece a representação pictórica detalhada de diversas vivências culturais e sociais de um passado que, embora nos pareça muito longínquo quer no tempo quer no espaço, a verdade é que não se passaram assim tantos anos desde aquela realidade que ali vem documentada. Por outro lado, a evolução das vias de comunicação permitiu encurtar distâncias, pelo que o locais retratados ficam sempre a poucos minutos de viagem.

 Esta obra deverá ser encarada como um veículo de conhecimento atual e perpétuo da vontade e da tenacidade daqueles inconformados que, antes de nós, mostraram querer e saber fazer mais pela sua terra. É a prova clara de que o progresso e a alteração de comportamentos e costumes são possíveis de forma harmoniosa e sustentável e que essa capacidade está na evolução das próprias pessoas.

Maria Emanuel Albergaria, Margarida Medeiros, João Leal, Laudalino da Ponte Pacheco 1963-1975, Araucária Edições, 2021

#livrosecoisasdessas



quarta-feira, 4 de maio de 2022

Calipso na ilha da Madeira


A antologia de contos 𝑪𝒂𝒍𝒊𝒑𝒔𝒐, editada pela Letras Lavadas edições e coordenada por Cláudia Ferreira Faria e Henrique Levy, foi lançada ontem na Madeira e surge hoje em destaque num jornal daquela ilha. É um gosto enorme poder participar neste volume, onde se reflete e escreve sobre vivências insulares no feminino!

domingo, 24 de abril de 2022

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor

Há livros marcantes pelo conhecimento que veiculam, outros pelas sensações que exortam. Há aqueles que se revelam úteis na usança quotidiana, e depois há aqueles que, de tão especiais, nos trazem à lembrança pessoas extraordinárias.



Este é um desses peculiares exemplos!

sábado, 23 de abril de 2022

“Viagens de um Artista Enquanto Jovem “

 


Foi um gosto enorme assistir ao lançamento da obra Viagens de um Artista Enquanto Jovem , da autoria de Carlos Carreiro. 

O lançamento ocorreu no Teatro Micaelense e a apresentação da obra ficou a cargo da escritora Maria Brandão.

Carlos Carreiro, Viagens de um Artista Enquanto Jovem, Artes e Letras, 2021

quinta-feira, 14 de abril de 2022

É Páscoa! Aleluia! Aleluia!


“(…) e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz.

Deus ressuscitou-O ao terceiro dia (…)”

São Lucas, Actos dos Apóstolos


 

Nove horas! Os sinos repicam no alto da torre sineira da velhinha Matriz de Paços de Ferreira.

É domingo de Páscoa!


Celebrada a missa pascal e anunciada a vitória da Vida sobre a morte, eis que surgem os primeiros sinais: os fiéis juntaram-se às centenas, dispersos pelo jardim municipal, mas todos de olhos pousados na saída do velho templo; todos, sem exceção, Lhe querem lançar um olhar respeitoso de alegria, de agradecimento ou admiração profunda.


Ouve-se a Banda Musical. Primeiro muito baixinho, depois, à medida que se aproxima, com mais clareza. Dirige-se à Matriz. Veio receber Cristo com as honras que Lhe são devidas.


Está tudo pronto!


Rompem no céu dezenas de foguetes. Os pássaros esvoaçam aturdidos e sem rumo. Dois ou três cães vadios correm sarapantados em direção ao velho carvalho centenário. Vão assustados! Ninguém sabe quem ou de onde foram lançados os foguetes, e as autoridades não se mostram muito consumidas com o facto! 


É Páscoa!


O cortejo que há de trazê-Lo às ruas abandona a Matriz. Já se vislumbram as crianças agitando ferozmente as sinetas que, a todos, hão de anunciar, ainda à distância, a aproximação da cruz. Por baixo da opa tingida de um vermelho já gasto, é vê-los todos aperaltados com roupas a estrear, mercadas de propósito para o domingo de Páscoa. Os mais avisados talvez se tenham lembrado de calçar uns sapatos usados, já feitos ao pé. Os mais incautos, coitados, hão de padecer! Mostram ainda o vigor que lhes escasseará logo mais, ao fim da tarde, pela hora de recolher, calcorreadas avenidas, ruas e vielas, praças, becos e travessas. A segui-las, dezenas de mancebos e homens já velhos: uns estreantes, outros repetentes. Também eles usam opas vermelhas. Os mais experientes assumem-se responsáveis pela transmissão do ofício aos mais novos e marcam o passo acelerado. Uns carregam o saco das ofertas. Coitados, são os “Judas”, como muitos fregueses lhes chamam. Nunca gostei da expressão e prefiro não a usar. Outros carregam uma pequena terrina de prata ou de estanho, onde vem santificada a água que há de benzer as casas da freguesia. Vêm lá também os leitores que, munidos de uma simples pagela, leem a oração em cada lar em que entram. E depois... bem... depois... anuncia-se o Juiz da Cruz.


Ei-Lo: Cristo que sai à rua e em breve entrará em nossas casas. Já falta pouco tempo.

As flores estão prontas. Este ano, a minha mãe colheu das azáleas brancas. Sabe que são as minhas preferidas. Foi o Filipinho, com a ajuda da Ritinha, que as acamou à entrada da nossa casa. Será por cima delas que Ele entrará!


O Compasso chegou!


É Páscoa, aleluia, aleluia!



terça-feira, 12 de abril de 2022

CONTUDO, ELA MOVE-SE… ELA, A MINORIA…

 


A publicação da revista “Atlântida” (edição LXVI), da responsabilidade do Instituto Açoriano de Cultura, assim como a chegada aos escaparates do número 5 da revista literária “Grotta”, surgida no âmbito do projeto “Arquipélago de Escritores”, foram motivos mais do que suficientes para trazer à lembrança a velhinha “Memória da água-viva”, dinamizada pelo “G.I.C.A. – Grupo de Intervenção Cultural Açoreano”, uma “revista açoreana de cultura” que tanta polémica espoletou no seio do mundo literário de então.

Por curiosidade, logo no editorial do número 0, datado de março de 1978, fazia-se referência a Galileu, citando-se a sua célebre tirada, “contudo, ela move-se…”, para se complementar, de imediato, “Ela, a minoria…”

Contornando-se quaisquer leituras políticas que possam chegar acopladas, há que reconhecer e lamentar que, tal como à data, também hoje aqueles que acreditam nestas coisas da Literatura, aqueles que ainda se deixam encantar pelas peças bonitas que se podem construir a partir das palavras representam uma ínfima minoria num oceano imenso de indiferença. É uma realidade e, por mais esforço que se faça, por mais que se trabalhe em sentido inverso, e há que reconhecer que muito se tem feito na ânsia de educar nessa vertente, os resultados tardam. É indesmentível o esforço que se faz no sentido de desenvolver nos jovens o gosto pela leitura, promovendo ao mesmo tempo o seu sentido estético e crítico; é inequívoco o dinamismo das nossas livrarias, assumindo não raras vezes o papel normalmente entregue aos centros de cultura; não olvidemos as editoras regionais que têm sido incansáveis no apoio e na promoção dos autores regionais, mais próximos do leitor; temos à disposição um Plano Regional de Leitura e uma Rede Regional de Bibliotecas Escolares que tanta diferença poderiam fazer nos hábitos dos nossos jovens alunos e leitores, houvesse nisso interesse político e fundos ajustados; existem diversas plataformas digitais que nos facilitam o acesso aos livros; temos diversas feiras do livro; recordemos os prémios literários que procuram homenagear aqueles que se fizeram maiores entre os pares. Lamentavelmente, ao nível das políticas educativas, e num arriscado relancear aos movimentos dos últimos anos, enveredou-se por caminhos sinuosos, arremessando-se milhões sobre o problema mas, quase quarenta e cinco anos após esse movimento minoritário, os indicadores educativos, culturais e sociais estão aí para quem os quiser analisar. O número que se queria aumentado, continua teimosamente num patamar menor, bastante aquém do que seria desejável numa região como os Açores.

Mas tenhamos fé. Continuemos a resistir e não esqueçamos de olhar e enaltecer aqueles que nos precederam; aqueles que, como então, continuam a remar contra a maré do alheamento e, em demonstração clara de vigor, continuam a semear, em nome de um bem maior, para além de seduzir outros a percorrer um trilho que se sabe árduo e de retorno curto.

“contudo, ela move-se…”, “Ela, a minoria…”

Move-se e tem desempenhado um trabalho assinalável. Dentre esses poucos, não há como deixar de referir os responsáveis e dinamizadores das revistas “Atlântida” e “Grotta” que, num esforço contínuo têm conseguido manter as respetivas publicações em patamares de considerável riqueza, manifestando-se no campo literário, de criação ou análise, no âmbito das Ciências Humanas ou outras. Nas edições deste ano, a aposta na vertente pictórica é também uma mais-valia considerável, sendo que, no caso da “Atlântida” vem toda engalanada com diversos trabalhos da autoria de Carlos Carreiro e, no caso da “Grotta”, se apresenta toda aperaltada com ilustrações de Pedro Evangelho Lopes.

 

Nuno Costa Santos (direção de), Grotta 5, Publiçor / Letras Lavadas Edições 2021/2022

Carlos Bessa (direção-geral), Atlântida LXVI, Instituto Açoriano de Cultura, 2021

terça-feira, 5 de abril de 2022

Avenida Marginal - O Comodato

Nutro um carinho especial pelo projeto 𝘼𝙫𝙚𝙣𝙞𝙙𝙖 𝙈𝙖𝙧𝙜𝙞𝙣𝙖𝙡𝙁𝙞𝙘𝙘̧𝙤̃𝙚𝙨, 𝙋𝙤𝙣𝙩𝙖 𝘿𝙚𝙡𝙜𝙖𝙙𝙖, da responsabilidade da editora Artes e Letras e, por isso, é uma honra enorme participar neste terceiro volume. «O Comodato» é o título do conto com que participo nesta antologia, ao lado de textos redigidos por contistas de excelência e pessoas de quem tanto gosto!

O lançamento da obra será amanhã, dia 06 de abril, pelas 18h30, no Anfiteatro Restaurante / Escola de Hotelaria, em Ponta Delgada.

Apareçam!

 

domingo, 20 de março de 2022

Avenida Marginal - Ficções Ponta Delgada


Acompanho o 𝘼𝙫𝙚𝙣𝙞𝙙𝙖 𝙈𝙖𝙧𝙜𝙞𝙣𝙖𝙡𝙁𝙞𝙘𝙘̧𝙤̃𝙚𝙨, 𝙋𝙤𝙣𝙩𝙖 𝘿𝙚𝙡𝙜𝙖𝙙𝙖 desde a sua génese e, por isso, mais do que um gosto, é uma honra das maiores poder participar neste grande projeto literário, ao lado de pessoas de quem tanto gosto!

Obrigado à Artes e Letras; obrigado, Maria Helena Frias.

 «O casamento deu-se por mor de uma antiga combinação entre dois velhos patriarcas. Embora fosse da conhecença a falta de afeição entre os nubentes, o pacto prevaleceu já que afiançava o direito de comodato sobre uns quantos alqueires de terra, bem no alto do Pico da Rocha da Relva. Em poucos anos de convivência conjugal, bem humedecida por um bafo másculo a aguardente de bagaço, um odor pestilento a cigarros caseiros e pela submissão no feminino, nasceram quatro filhos, mais uns dois — que se tenha sabido — que, pobres crianças, não chegaram a borrar fralda além do dia em que Albina os pariu.»

 

"O Comodato", Telmo R. Nunes (in) 𝘼𝙫𝙚𝙣𝙞𝙙𝙖 𝙈𝙖𝙧𝙜𝙞𝙣𝙖𝙡𝙁𝙞𝙘𝙘̧𝙤̃𝙚𝙨, 𝙋𝙤𝙣𝙩𝙖 𝘿𝙚𝙡𝙜𝙖𝙙𝙖 𝙉𝟯, Ed. Artes e Letras, 2022.


quinta-feira, 3 de março de 2022

Um Deus À Beira Da Loucura

 


«Para mim, o que nos acontecia era a confirmação do enorme fracasso do Homem como ser criado para a vida»

In Um Deus À Beira Da Loucura

 

Por altura do aniversário natalício de Daniel de Sá (2 de março de 1944) calhei retirar à estante uma das suas obras. O acaso trouxe-me Um Deus À Beira Da Loucura, novela publicada em 1990, e vencedora do Prémio “Nunes da Rosa”, daquele mesmo ano. Para o intento que me movera, aquele pequeno volume era perfeito. Subtraído o trecho pretendido, fotografei-lhe a capa – aliás, lindíssima, da autoria de Álamo de Oliveira –, e, ao devolvê-la, cuidei que seria da mais elementar justeza conceder-lhe um pouco mais de tempo e atenção, pelo que encetei uma nova leitura.

Embora não muito extenso, falamos de um texto robusto, gerado a partir de situações factuais e de reconhecido valor histórico, como é o caso do Holocausto ou “Shoa”, palavra hebraica usada pelos Judeus para designar aquele período, combinadas com outras de génese ficcional, mas igualmente significativas e que, em conjunto e num equilíbrio notável entre factos e ficção, sustêm uma narrativa bem representativa dos ideais de humanismo e religiosidade que todos reconhecemos em Daniel de Sá e na sua obra.

Lera-a havia já alguns anos, mas lembrava-me, ainda, com alguma clareza das categorias que a suportam: a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, a inominável inópia distintiva dos Campos de Concentração e, depois, a vivência pungente de dois condenados ao padecimento nazi. Imbuído pela aspereza do tempo retratado, ao que se juntou a recordação das anormalidades ali perpetradas, confesso que o reencontro com aquelas personagens me comoveu particularmente. Talvez a colossal ignomínia que, por estes dias, volta a assolar o Leste do velho continente europeu não seja alheia a esse sentimento. Por outro lado, convenhamos que é sempre muito custoso afastar da retina da memória a aflição daqueles seis milhões de pessoas que tombaram ante a loucura desmedida de uns desprezíveis nacionalistas.

            «A primeira vez que o vi claramente perturbado foi num dia em que nos obrigaram a trabalhar nos fornos crematórios. Era uma experiência a que não sei como se podia resistir. A visão daqueles corpos torturados, em que parecia que a morte não cumprira mais do que uma acção de misericórdia, apavorava. Era como se tivessem morrido muito tempo antes de pararem de respirar».

Não fiquemos, todavia, com a impressão de que o texto se esvazia com descrições aterradoras do que terá sido o tempo naqueles campos de morte. Embora também as haja, e de grande qualidade literária, o leitor é exortado a caminhar também por um percurso paralelo ao da narrativa da maldade e do ódio. Para tal, e como acontece um pouco por toda a sua obra, ora de forma mais velada, ora de forma mais explícita, Daniel de Sá socorre-se de referências bíblicas, dos ideais de Fé em Cristo e da confiança em Deus, no fundo, serve-se da sua própria religiosidade, enfatizando relações de proximidade e/ou afastamento entre Deus e o homem, para, dessa forma, procurar explicações plausíveis que justifiquem tamanha barbárie ali praticada.

«Se Deus serve para permitir que isto aconteça, mais valia não existir Deus nem homens.»

Valendo-se de um discurso expressamente filosófico, e numa análise à condição humana e às suas crenças mais elementares, Daniel de Sá idealiza um personagem místico, que afirma ser o próprio filho de Deus, Cristo feito homem e regressado para junto destes (o que se viria a reproduzir, mais tarde, na novela E Deus Teve Medo De Ser Homem), para, através da sua argumentação e atitude, explorar comportamentos humanos, ali pautados, fundamentalmente, pela fraqueza e pela descrença:

«(…) acusava ainda Deus, como sempre, da Sua culpa de não existir, e revoltava-me inutilmente contra os homens, que nos torturavam na mais absurda matança programada que o seu Deus inexistente consentira.»

Tenhamos presente ainda as interrogações lançadas sobre a origem dos seres, assim como a cuidada exploração da causalidade filosófica, numa tentativa clara de justificar o incompreensível:

«É fácil imaginar quantos pormenores tiveram de coincidir para que sobreviesse tal tragédia ao meu amigo. Bastava ter falhado um (…)»

Hoje, todos reconhecemos e nos indignamos com as constantes polémicas e, sobretudo, com os deploráveis oportunismos literários que envolvem a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, em particular. Ao contrário de tantos, Daniel de Sá consegue, de uma forma muito realista e precisa, retratar aquele período sem conceder espaço a cambiantes que derivem em deformações históricas ou suavizações convenientes. O seu discurso é perfeitamente capaz de conduzir o leitor na viagem ao interior daqueles espaços funestos por demais, sem permitir, todavia, brechas por onde se adentrem equívocos ou medrem ambiguidades e imprecisões. Este é um tema onde a parcialidade não pode florescer. Como nos alertou Simone Veil, ela própria prisioneira em Birkenau, «(…) não temos o direito de reescrever a História». Nesta novela, Daniel de Sá mostra-nos apenas como a tentou compreender.

 

 

Daniel de Sá, Um Deus À Beira Da Loucura, Secretaria Regional de Educação e Cultura, 1990

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

MADALENA

 



O primeiro contacto com a escrita de Isabel Rio Novo aconteceu não há muito tempo. Vivia-se já em época pandémica e ocorreu quando a autora principiou, numa rede social, uma espécie de diário intitulado Os Dias das Árvores. Estimulado pela sua escrita, seguiram-se as leituras dos romances Rio do Esquecimento, A Febre das Almas Sensíveis e, sobretudo, Rua de Paris em Dia de Chuva, um dos livros que mais apreciei naquele ano, aliás, finalista do Prémio Europeu de Literatura e do Prémio de Narrativa do PEN Clube, o que tão bem atesta a qualidade literária ali conferida.

Madalena (vencedor do Prémio Literário João Gaspar Simões) é o título do novo livro da autora, um empolgante romance lançado recentemente pela D. Quixote e que vem cimentar a posição cimeira que a autora ocupa no panorama literário português mais recente.

Servindo-se de um interessante manuseio da linha cronológica, Isabel Rio Novo assenta este romance em três momentos narrativos, expondo com detalhe e inquestionável brilhantismo, não apenas a história de uma professora doente oncológica, como também de grande parte da sua ascendência materna, até aos idos de 1920. Acontecimentos passados, outros presentes e outros ainda “vivenciados” sob a forma de sonho são desfiados ao longo da diegese, acabando por criar entre si sinergias temporais, que depois assomam a um tempo presente, onde tudo se integra e faz sentido, «como um rio certo, que corre da nascente à foz».

Iniciada a leitura de Madalena são percetíveis traços característicos da autora, destacando-se, desde logo, o recrudescido cuidado com que se mune, domina e relaciona informação detalhada e fidedigna sobre o narrado, conferindo-lhe, dessa forma, uma veracidade, dir-se-ia, quase sensorial. Noutros trabalhos seus, sublinhou-se a mescla entre uma «(…) escrita romanesca e escrita biográfica, em aliança, com um surpreendente registo autobiográfico», neste particular, considerando a invocação prévia da memória dos avós, tem-se como possível que a autora tenha combinado factos reais, fundindo-os com expediente ficcional.

Se em termos temáticos poderíamos ser levados a pensar que a obra se atém a um sofrido rol das vivências oncológicas desta jovem professora de História, a verdade é que somos amplamente surpreendidos por uma robusta análise à condição humana e à forma como encaramos a vida e a morte. Somos chamados à razão quando nos mostram que o tempo que nos resta na âmbula da vida pode «assumir novas dimensões»; é-nos dado o alerta, a todos nós – incautos –, que pensamos «na morte como numa dívida distante». Isabel Rio Novo soca-nos as convicções e as falsas seguranças, lançando à vitrina da vida a imprevisibilidade da nossa própria finitude, «Se as pessoas soubessem que iam morrer, se as pessoas soubessem que iam morrer, não suportariam as suas vidas.» Todavia, são também narradas histórias de vida e formas mais ou menos dignas de as vivermos. São apresentadas relações marcadas pelo mistério, pela traição, pela tragédia e pela morte, mas também outras pautadas pela dedicação familiar e pelo amor conjugal. Para tal, é desenvolvida a eterna dicotomia entre o bem e o mal, entre o correto e o pernicioso, consubstanciando-se estas posições pelo antagonismo que representam personagens extremamente bem caracterizadas e que assumem posições antípodas perante vivências múltiplas, como sejam o matrimónio ou a parentalidade, por exemplo.

Uma palavra ainda para a capa do livro, adornada por uma belíssima reprodução da obra «Les feuilles mortes», uma escolha absolutamente pertinente e que, de todas as formas, introduz o leitor pela temática do próprio texto.  

Apropriando-me de uma expressão utilizada bastas vezes por um crítico literário português, creio ser seguro afirmar que, hoje, ler Isabel Rio Novo já se tornou numa «experiência literária» de excelência, dada a sua constante pertinência e originalidade. Embora não tenha lido ainda toda a sua obra ficcional, não me custa reconhecer que a mesma se sustenta em níveis de qualidade evidentes e ao alcance de uns poucos virtuosos.

 

Isabel Rio Novo, Madalena, D. Quixote, 2022


segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

FECHADURA DO CORVO

 



Notava Raul Brandão em «As Ilhas Desconhecidas» que «nunca houve no Corvo um assassinato ou um roubo», ideia reforçada posteriormente por Guilherme de Morais, que, na sua obra «Ilhas do Infante», se referiu àquela ilha como «um viveiro das mais lídimas virtudes dos velhos portugueses.» 

Certo é que as portas corvinas, mesmo escancaradas, ostentaram durante anos, fechaduras artesanais, feitas de madeira e equipadas com um sistema muito simples, montado com uma pequena tranca e uma chave, também elas de madeira. Hoje, a par dos barretes típicos dos corvinos, as fechaduras assumem-se como verdadeiros ícones identitários da vida sociocultural da ilha, um tesouro que merece ser preservado.


Esta tarde, a buzina do carteiro trouxe-me a minha réplica. Fez-ma o David T.P., da Carpintaria Corvo, e enviou-ma com grande requinte e amizade!

Visitem-no aqui: https://www.facebook.com/Aparas-de-Madeira-Woodworking-solutions-107331895003302

domingo, 9 de janeiro de 2022

CINEMA AO DOMINGO DE MANHÃ


Talvez por hoje ser domingo e eu ter sido roubado ao sono pelo cacarejar inclemente dos vinte mil galos que o nosso bom vizinho da frente mantém soltos no palco em que se tornou a nossa rua, ou simplesmente por ter sido assaltado pelas saudades da minha infância, lembrei-me das manhãs de domingo dos meus cinco, seis e sete anos de idade. Sem esforço sou atirado ao passado e passo a habitar novamente a casa da rua da Bela Rosa, contribuindo sobremaneira para o frenesim que a distância de trinta e muitos anos não conseguiu silenciar. Era o dia de Missa para os meus pais, e, mais do que tudo o resto, era o dia do cinema para nós os três.

Em movimentações que enchiam a casa, o meu pai buscava na paciência da minha mãe o último aprumo no nó da gravata ou a vitória sobre aquele vinco que teimava conspurcar a alvura da camisa, enquanto ela, num corrupio, se arranjava e ultimava o almoço que a R.M. deixara adiantado de véspera, antes de abalar de fim de semana. Ao Cláudio, ao Filipe e a mim cabia-nos deixar a mesa posta. Normalmente, com a presença dos meus avós eram sete os pratos que preenchiam a mesa de alegria e sorrisos. Hoje já não são tantos!

- Vamos embora, que está na hora, meninos! – advertia o meu pai.

Era já em transe que entrávamos naquele Renault 4L que o meu pai manteve a brilhar durante mais de vinte anos. O que eu gostava daquele carro! Entre os três, lutávamos para saber quem ocupava o lugar das pontas, junto aos vidros e quem seguia sentado no lugar do meio, muito menos confortável e sem grande visibilidade para o exterior. Talvez por ser o mais novo e, por isso, desprovido de grande argúcia, era normalmente eu quem perdia a contenda e me via arrumado entre os meus irmãos. A minha mãe era sempre a última a chegar. De todas as vezes, tínhamos de a esperar e, não raras ocasiões, o meu pai via-se obrigado a soar o cláxon do Renault, o que a deixava furiosa! Seja como for, a espera valia sempre a pena. Assim que batia com a porta de casa e nos captava a atenção, era vê-la chegar deslumbrante, dando corpo à finura e ao bom-gosto, e quando se adentrava no veículo, o seu perfume inebriava-nos os sentidos.

Da rua da Bela Rosa até à avenida Antero de Chaves - homem importante e da família -, a viagem não demorava mais do que cinco minutos de recomendações e alertas: «Se o filme terminar antes da Missa, não saiam da frente da porta»; «Nada de tratantadas»; «Juízo», eram algumas das advertências gastas a cada semana.  A sala de cinema ficava no antigo quartel dos Bombeiros Voluntários de Paços de Ferreira, e, chegados, era um gosto ver a criançada a lançar-se dos carros (alguns ainda em movimento) em direção à bilheteira, procurando garantir um lugar no balcão, onde a visibilidade sobre a sala era muito melhor e a elevação lhes conferia a falaciosa ideia de superioridade sobre os espetadores que se sentavam na plateia. Por norma, era o meu pai que nos pagava o bilhete da sessão, por isso, vexados que ficávamos por lhe pedir mais dinheiro, era a minha mãe que nos adocicava o palato, dando-nos vinte ou trinta escudos para comprarmos as pipocas mais doces de que tenho memória.

Encontrados os lugares certos, sentia-se a efervescência da amizade, ao mesmo tempo que se travavam as guerrilhas mais atrozes que se possam imaginar: sobre as nossas cabeças, nuvens de milho estourado voavam de um lado para outro, pelo menos até as luzes se apagarem e reclamarem assim a atenção de todos para a exibição que, em segundos, teria início.

Que saudades dos domingos de manhã da minha infância, que saudade daquelas sessões de cinema que começavam assim que o meu pai entreabria a porta do meu quarto e, com a doçura da sua voz, anunciava que estava na hora de acordar.  

 

fotografia: https://www.jornaldosclassicos.com