terça-feira, 4 de agosto de 2026

𝐎 𝐓𝐑𝐈𝐔𝐍𝐅𝐎 𝐃𝐎𝐒 𝐏𝐎𝐑𝐂𝐀𝐋𝐇𝐎̃𝐄𝐒 - 𝐮𝐦𝐚 𝐟𝐚́𝐛𝐮𝐥𝐚 𝐝𝐞 𝐯𝐞𝐫𝐚̃𝐨



𝑂 𝑇𝑟𝑖𝑢𝑛𝑓𝑜 𝑑𝑜𝑠 𝑃𝑜𝑟𝑐𝑎𝑙ℎ𝑜̃𝑒𝑠 é uma extraordinária fábula satírica, escrita por Jorge Ore Uel, em dois mil e picos, sendo reconhecida como uma das maiores peças de literatura insular alguma vez escrita, muito além dos magníficos trabalhos de Virginia Woolf, de James Joyce, de Halldór Laxness ou mesmo de Vitorino Nemésio.

O texto divide-se em duas partes, e apresenta-se como uma magnífica alegoria, tendo na sua génese a Revolução Açoriana que, por acidente e ao contrário da outra, colocou um rei a caminho de um trono que, todos sabemos, não lhe pertence, e para o qual não mostra capacidade absolutamente nenhuma, além da prosápia fina, decalcada dos livros de Lupin, que a irmã mais nova guardava debaixo da cama, mesmo ao lado do penico, para onde mijava durante as aflições noturnas.

As primeiras páginas do escrito reportam-se à descrição do estado das coisas, ao clima vivido na pré-revolução e a forma como a governança vinha governando a bem governada União das Ilhas Açorianas. É ainda neste capítulo que se concedem algumas linhas às intervenções públicas de SnowFatNapoleon, um moço de fora, anafado anarca e anómalo anão, analfabeto por convicção e agitador de serenidades, menos ao fim de semana, dias reservados para dois ou sete calzins tomados de esguelha pelo finório, e sempre à socapa dos convivas no interior do café da vila.

Dono de vil e descontrolada ambição, SnowFatNapoleon há muito que vinha vociferando contra o poder instalado. Certo é que, fruto de uns subterfúgios legais e outras parolices mais ou menos lícitas, mas sempre de índole questionável, lá se conseguiu impor numas eleições a que concorreu contra Ninguém, pondo-se, por isso, em bicos de pés, a caminho da governança.

A segunda parte desta obra literária, de incalculável valor histórico, debruça-se sobre a gradação crescente do poderio deste pretenso monarca; analisa o seu percurso ao longo dos anos, até chegar bem perto do poder, sendo esta ascensão motivo também de escrutínio e de crítica severa por parte do autor. Ore Uel debruça-se ainda sobre a forma como este pequenino, mas bem criado rei vai manuseando diversos cordéis de seda, determinando, dessa forma, todos os destinos da União das Ilhas Açorianas, por mais de um quarteirão de anos.

Não obstante todo o julgamento lançado, o autor concede à personagem o mérito do esforço, não deixando de se referir na obra àquelas vezes em que o manuseio dessas guitas de tecido fino e dispendioso, exigiu grande empenho e desmesurado esforço físico por parte de SnowFatNapoleon. Sempre que intentou movimentos graciosos que o levassem por passagens de estreitos acessos, lá esteve Ore Uel sublinhando que, nessas alturas, ou fora a espinha dorsal a vergar (enfermidade comum neste tipo de gente) ou foram as carnes que minguaram à custa de uma fome prolongada, com direito a espaço e voz na televisão do reino. Mérito a SnowFatNapoleon.

A agir a partir do ponto mais remoto e, segundo o escritor Paúl Branda Ou, mais tremendo e solitário do reino, SnowFatNapoleon sustentava-se numa ínfima, quase insignificante parcela de povo e apresentava-se sempre a trote, montado numa espécie de vaca anã, anafada e sem grande serventia, tal como o jóquei que lhe pesava no dorso. O dito levava constantemente a sua avante e quase sempre à custa de tricas e mexericos, tramas e intrigas, fazendo o povo crer em mixórdias, publicando aldrabices nos panfletos do reino, sem que a polícia ou os tribunais pudessem atuar condignamente.

Restava o Senhor Padre, que bem pedia a Deus por ele, discorrendo nas homilias de domingo sobre a condição humana e sobre como deve o homem atuar com o próximo. Paleio dito em vão. Napoleon só via os seus interesses e, por algumas vezes, os da sua própria mulher.

SnowFatNapoleon enquanto jovem era um achista, achava sempre alguma coisa sobre tudo; na idade adulta tornou-se tudólogo, uma espécie de caudilho pequenino, um ser tentacular com viço nas salas importantes dos palácios da nossa praça e com conhecimentos relevantes nas cortes de outros reinos. Vinte e muitos anos de perreupeupeu deram-lhe aquele aspeto douto, assertivo, para além de lhe conferir um lastro que sustentava a sua atuação política cada vez mais ignóbil e irresponsável. SnowFatNapoleon já não era aquele moço que veio de outro reino longínquo e tentou ganhar a vida da forma mais fácil que pôde. Ele agora é um monstro controlador, alguém que continua a atuar de esguelha, mas cujas ações impactam num grande número de pessoas. SnowFat sabe agora exatamente o que fazer para ludibriar meio mundo, mas especialmente aquelas poucas dezenas de incautos lá do ponto mais longínquo do reino, evitando, dessa forma, sentar o rabo no xilindró do trabalho ordinário, diário e de proveito curto.

SnowFatNapoleon tornou-se mimeticamente naquilo que maldisse; está feito num burguês, num alarve ataviado pela falácia de um poder régio que nunca terá nem merece, mas continua abrigado, não pela escuridão da taberna da vila, mas por um ror de linhas legais, que lhe conferem a imunidade de fazer praticamente tudo aquilo que quer.

Jorge Ore Uel fecha a obra com um posfácio de grande qualidade estética e substancial valor humanista, exortando o leitor à continuidade da luta democrática justa e sem quaisquer atropelos legais ou tráfico de influências. Encoraja o combate político sem recurso a maledicências, respeitando a opinião alheia e sobretudo sem lançar ao vento suspeições sobre o trabalho sério de outrem, até porque, seja na União das Ilhas Açorianas, no longínquo reino do Alentejo ou mesmo em França, a inveja será sempre pecado capital.

Em 𝑂 𝑇𝑟𝑖𝑢𝑛𝑓𝑜 𝑑𝑜𝑠 𝑃𝑜𝑟𝑐𝑎𝑙ℎ𝑜̃𝑒𝑠, SnowFatNapoleon não triunfa, acaba por sair derrotado e, dando-se conta da sua própria inutilidade, vexado pelas tristes figuras que vinha fazendo na narrativa e humilhado por não ter conseguido qualquer voto nas últimas eleições a que concorrera, decidiu regressar ao seu reino longínquo, bem do outro lado do mar. Lá arribado, e sem eira nem beira, acaba por morrer de fome, uma vez que o dinheiro do reembolso da sua passagem aérea demorou muito a ser pago e o corpo, habituado que estava ao filé mignon por conta do contribuinte, gritava por sustento.

Foi o fim de SnowFatNapoleon, um rei que nunca chegou a ter um trono.

𝐌𝐎𝐑𝐀𝐋 𝐃𝐀 𝐅𝐀́𝐁𝐔𝐋𝐀: 𝐎 𝐪𝐮𝐞 𝐚 𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐞𝐳𝐚 𝐧𝐚̃𝐨 𝐝𝐚́, 𝐒𝐚𝐥𝐚𝐦𝐚𝐧𝐜𝐚 𝐧𝐚̃𝐨 𝐞𝐦𝐩𝐫𝐞𝐬𝐭𝐚!


📷gerada com recurso a Inteligência Artificial, já que o autor não teve tempo nem disposição de recorrer a sua Inteligência Natural para fotografar SnowFatNapoleon ao vivo e cores.

domingo, 12 de julho de 2026

Atlântico 744

 Consta que os primeiros marinheiros que cá chegaram, deram a ilha como desabitada.

Redondo engano. Deus já cá estava. Há muito tempo.

Emanuel Jorge Botelho, 30 Crónicas, 2017


Foi Sebastião Salgado (1944-2025), consagrado fotógrafo brasileiro, que afirmou que as suas «fotografias são um vetor entre o que acontece no mundo e as pessoas que não têm como presenciar o que acontece». Dito de outra forma, por certo mais tosca e simplista, uma das conveniências da fotografia passa pela representação de pontes, de travessias que nos permitem aceder a realidades distintas e, tantas vezes, inalcançáveis, seja pela acentuada lonjura geográfica, seja porque retratam um rasgo histórico temporalmente distante.


É precisamente o que acontece na obra em apreço. Num livro-objeto devidamente pensado e maturado pela quietude insular, dá-se a conhecer a profunda transformação que se opera na relação das pessoas com o mar. Se antes a condição Insularity nos chegava mesclada por uma conotação pesadíssima, onde a fatalidade da omnipresença marítima se impunha e era “a ilha a defender-se de ser água”; se antes se vivia o tempo em que a própria condição ilhoa era o motivo de repulsa e motor de êxodo, atualmente um novo paradigma desponta e, de repente, vive-se e saboreia-se uma nova realidade, a Islandness, onde a celebração do mar toma lugar central na vida das pessoas. É o ser humano a abrir-se, a adaptar-se e a receber todos proveitos oriundos do Atlântico. Ao folhear este livro respira-se essa mutação, facilmente se percebe o crescimento humano operado e a relação próxima do Homem com o mar; este deixa de ser nefasto e passa a ser encarado por aquele como uma nova extensão da própria vida humana. Dessa forma, são-nos apresentadas dezenas de imagens, captadas ao longo dos últimos anos, na ilha de São Miguel, Açores, assumindo-se cada uma delas como um autêntico convite para que partamos à descoberta desta magnífica ilha. 

Para além da reconhecida qualidade pictórica, o carácter inovador deste álbum assenta também na forma como a seleção, organização e disposição de cada uma das imagens acautela uma linha narrativa, que conduz o leitor/visualizador por uma viagem única ao longo dos 744 km2 de massa que formam a Ilha Verde, e sempre com a singularidade da presença do mar como elemento visual fundamental. E talvez seja esta mesmo a centelha deste livro: a presença do mar! Este é o Mar dos Açores, um mar áspero, rude, que não se deixa domar pelos mais fracos, mas é também um que convoca, que apela e que impele à travessia e à liberdade. O Atlântico ilhéu é diferente do que banha o litoral do continente. Como tão bem escreveu Emanuel Jorge Botelho, açoriano, micaelense e poeta dos maiores «o mar é como os deuses, porque não é deste mundo.» É comprometido com esta invocação que se move Marco Costa, professor, fotógrafo autodidata, marido, pai e surfista, há mais de vinte anos a residir em São Miguel. Conhecedor da maioria dos segredos deste local encantado a que chama “casa”, vem captando a beleza luxuriante da ilha, a luz, o azul e o verde nos seus gradientes multivariados. Através de um certo voyeurismo fotográfico, e fazendo emergir a cada click a sensibilidade da sua expressão artística, tem retratado as belezas exuberantes da ilha, assim como as vivências de ilhéus e de visitantes, colecionando memórias, fotografias e experiências que partilha agora com o público em geral.

Como já se percebeu, o oceano deixou de ser periférico no dia-a-dia das gentes da ilha, e tem assumido uma posição cada vez mais preponderante. Não é de erosão marítima de que agora se fala, nem sequer dos riscos que o mar acarreta. O mar agora abraça a ilha num enlevo caprichoso, distende-a até onde o olhar alcança, traz potencialidades e abre caminhos que antes não eram sequer sonhados. Pacificou-se, pois, esta relação Homem-Mar! E desta convivência sã e sobretudo amistosa nasceu este livro agora apresentado, que, pela quantidade, mas, sobretudo, pela qualidade do acervo trabalhado, apresentado e documentado, poderá assumir-se como um marco referencial no estudo histórico-cultural e até desportivo dos Açores e de São Miguel, em particular, destacando-se formas de ser, de estar e de interagir de ilhéus e turistas com o oceano.  Não obstante, tenhamos presente que este volume não se reduz à documentação de desportos de mar, pese embora a sua presença seja uma constante. Outra grande valia deste livro está relacionada com a meteorologia açoriana. Se sabíamos da severidade da orografia ilhoa, o autor serve-nos a famigerada dicotomia atmosférica que caracteriza o arquipélago: céus azuis e límpidos, convidativos à fotografia tipo postal turístico, lado-a-lado com os céus de chumbo, pesados e ameaçadores que também caracterizam esta região do Atlântico Norte. 

Grande parte das imagens irão reter-nos o olhar, seja pela sua natureza conceitual, seja pela beleza dos elementos que a compõem ou mesmo pelo enquadramento escolhido pelo fotógrafo. Nessas não tenhamos pressa, demoremo-nos e apreciemo-las, porque «A força da fotografia consiste em conservar disponíveis instantes que o fluxo normal do tempo imediatamente substitui.»

Telmo R. Nunes

Ponta Delgada, 28 de agosto de 2025


domingo, 4 de janeiro de 2026

Fantasia da Possibilidade, de Maria João Fraga




Apresentar o livro de outrem é sempre uma tarefa que se reveste de alguma complexidade e, não raras vezes, de extrema dificuldade. Penetrar os pensamentos do autor, e perceber a génese do seu trabalho, revela-se um sempre exercício interessante, mas nem sempre de fácil execução. Ora, esta é uma complexidão que aumenta exponencialmente neste caso em particular, e isto porque nos referimos a um livro que se sustenta em duas temáticas que têm tanto de complexas como de universais: o amor e o crime; o desejo e o logro. Ora, trazê-los à mesma narrativa, mesclando-os e trabalhando-os em paralelo é, desde logo, anúncio de uma leitura revestida de enorme subjetividade e de onde se excluiu de imediato uma interpretação completamente linear.  Em a Fantasia da Possibilidade, o leitor será impelido a manter a sua atenção em constante alerta, assim como se verá obrigado a fazer emergir, a todo o momento, a sua sensibilidade e capacidade interpretativa. Não obstante a extensão do texto – que o baliza entre o conto e a novela, embora mais próximo desta do que daquele, dadas as categorias da própria diegese–, esta será uma leitura a carecer de uma atenção demorada, pois há por estas páginas muito daquilo que nós – sociedade atual – somos. Tenhamos, pois, a calma necessária e saibamos munirmo-nos das armas necessárias para enfrentar a batalha que aqui vem retratada. 

Como referido anteriormente, as temáticas essenciais aqui afloradas são o amor e o crime – temas recorrentes desde sempre na literatura mundial e que estão ainda longe de se esgotar. A autora conseguiu, com reconhecida mestria, tecer uma trama que retrata o amor na sua versão mais pura, mas também aquilo que de pior se reveste a sociedade atual. Somos confrontados com verdadeiras ignomínias levadas a efeito por Pedro, um predador digital, que encontra na ingenuidade de Mariana a possibilidade de se servir e alimentar os seus próprios desígnios. Escudado por um perfil digital mavioso e valendo-se de fotografias agradáveis à vista, assim como de uma lábia apurada, usa e abusa da crédula Mariana, sem que esta perceba que está a ser vítima de uma verdadeira fraude, uma trapaça que resultará em consequências bem gravosas.

Desta forma, são diversas as vezes em que nós cidadãos de carácter e de princípios bem definidos, nos sentiremos esmurrados pela ação deste indivíduo interesseiro, ignóbil e de má rês.  

Não obstante, poderá facilmente o leitor colocar-se no lugar da personagem principal ou, pelo menos, reconhecer as peripécias narradas em contexto real, mais próximo ou mais afastado, e isto porque o que aqui vem retratado já aconteceu a um familiar, a um amigo ou a um amigo de um amigo. De facto, o crime em contexto digital tem aumentado exponencialmente e, segundo os relatos a que vamos tendo acesso, têm sido cada vez mais elaborados e, de tal forma convincentes, que as vítimas nem se apercebem de que estão a ser enredadas pela selvajaria de criminosos sem escrúpulos. São verdadeiros predadores à solta, que se movem acoberto da obscuridade Internet e das redes sociais, com objetivo único de satisfazer aquilo que é o seu desejo e ânsia, sem, em momento algum, considerar os efeitos nefastos que o seu comportamento poderá espoletar na vida das vítimas. Não me estenderei muito mais neste campo, pois os oradores que se seguirão falarão com muito mais propriedade sobre estas questões em particular.

Fantasia da Possibilidade é uma narrativa que se apresenta dividida em duas partes, correspondendo cada uma delas a um estádio distinto da relação entre os dois personagens principais. Inicialmente, e como em qualquer história onde o amor é presença, há o enamoramento, a sedução, a conquista; é o momento do belo e do júbilo; fantasia-se com a possibilidade de uma relação feliz e acalenta-se a esperança de uma conexão singular entre os protagonistas. Os problemas começam a desenhar-se pouco depois: não se encontrando os intervenientes no mesmo estádio de envolvimento, não parece haver compromisso de uma das partes; os desejos de um aparentam estar consumados, enquanto os de outro fervilham com o brotar da relação. Começam as colisões e as desavenças e, por entre avanços e retrocessos, por entre embates mais ou menos pessoais – crenças divergentes e traços de personalidade antagónicos – dá-se uma rutura, iniciando-se dessa forma a segunda parte da obra, onde nos é servida, talvez, a centelha de toda a narrativa: os efeitos que uma relação desnivelada e crespa podem causar a uma pessoa vulnerável.

Esta é uma obra atual e de relevância assumida. Tenhamos presente que, mesmo em contexto escolar e desde tenra idade, tem havido a preocupação institucional de sensibilizar os utilizadores da Internet e das redes sociais, em particular, para a possibilidade de ocorrências desta índole. Ora, a publicação deste a Fantasia da Possibilidade é sintomático da preocupação e sensibilidade cívica da autora. Atentemos nos objetivos subjacentes a esta publicação, expressos pela própria, no introito com que abre a obra: “[…] pretende-se informar os utilizadores das redes sociais sobre a vulnerabilidade a que estão expostos, não só pelas várias vidas fictícias com que deparam e interagem, mas inclusive face a pessoas que julgam conhecer.” e “[…] divulgar uma mensagem de cautela e de incentivar a procura de apoio nas entidades competentes […]”. A atestar esta preocupação manifestada pela autora, cremos que não terá sido fruto do acaso que a obra feche com os testemunhos impactantes de três especialistas no âmbito das problemáticas abordadas: Dra. Marta Rêgo, psiquiatra; Dr. Pedro Gomes, psicólogo clínico e ainda uma fonte do Departamento de Investigação Criminal da Polícia Judiciária de Ponta Delgada. 

Uma palavra de apreço também para a artista que ilustra a capa deste livro, já que o faz de forma admirável, conduzindo, desde logo, o leitor para o contexto que o espera no interior das páginas que se seguirão!

A terminar, gostaríamos de exortar a autora a não parar por aqui, a servir-se da sua alargada mundividência e a continuar a escrever sobre a vida, sobre as relações interpessoais e sobre a forma como todos poderemos evoluir enquanto seres humanos, tornando-nos cada vez mais melhores pessoas, mais empáticas e, sobretudo, mais bondosas umas com as outras.

A PIDE PELO OLHAR DE CASTANHEIRA



Histórias da PIDE Quando Salazar Mandava é o mais recente livro de José Pedro Castanheira, o mesmo autor, entre outros, de Os Últimos do Estado Novo (Tinta da China, 2023) ou Volta Aos Açores Em Quinze Dias(Tinta da China, 2022).

Neste volume, o jornalista do Expresso, agora aposentado, reúne seis das inúmeras reportagens que produziu sobre a PIDE/DGS, ao longo da sua riquíssima carreira jornalística. São histórias que contextualizam informação que, muitas vezes, nos chega dispersa e avulsa e, por isso, são de leitura muito recomendada. Ademais, é um texto extremamente interessante, com um valor histórico enorme e que resgata do esquecimento episódios absolutamente incríveis, alguns dignos de guião cinematográfico!

Pese embora a coesão textual que perpassa as seis narrativas que compõem este volume, assim como a constância da qualidade de escrita a que já nos habituou o autor, não quero deixar de destacar as reportagens sobre a vergonhosa detenção e consequente prisão de Calouste Gulbenkian, o homem mais rico do mundo, durante o seu refúgio em Portugal, por agentes da então chamada PVDE, (designação antecessora de PIDE), decorria o ano de 1942. Um episódio que envergonhou o país a nível internacional e, por isso, ocultado de quase todos os registos de então.

A segunda reportagem que me merece especial destaque refere-se à postura e conduta do Presidente Craveiro Lopes ante os poderes instalados. Foi uma descoberta interessante e, sobretudo, um acentuar da impressão que já tinha de Salazar e das suas políticas.

Por último, a minha predileta, a reportagem sobre a atuação do ex inspetor da PIDE Rosa Casaco, o seu envolvimento na morte do General Humberto Delgado e a forma como José Pedro Castanheira, um jornalista, conseguiu contactar o ex operacional da PIDE, agendar um encontro e entrevistar um homem que, há vinte e quatro anos, era procurado pela Interpol. A reportagem saiu no Expresso em duas edições consecutivas e o impacto que teve foi de tal forma estrondoso, que todos acusaram as diferentes polícias de incompetência e lassidão. Os ecos deste trabalho notável do jornalista do Expresso fizeram com que as autoridades reforçassem o seu empenho, o que redundou na captura de Casaco, dois meses depois da publicação da primeira parte da reportagem.

Para além destas, há ainda a dramática história de D. Eurico Dias Nogueira, Bispo no Niassa, em Moçambique, constantemente vigiado pela PIDE, a história do Crime de Belas, perpetrado por nomes grados da cultura portuguesa e ainda a reportagem da inesperada e não menos arrojada visita de Ievtuchenku, um poeta russo, que se deslocou a Portugal em 1967, a convite de Snu Abacassis, a sua editora em Portugal, e responsável pela Dom Quixote.

A boa notícia é que este é o volume um, pelo que tudo indica que, em breve, teremos um novo conjunto de narrativas tão peculiares como as que agora reveem a luz dos escaparates, reunidas num segundo volume.

Está de parabéns o autor por mais este excelente trabalho, que vem confirmar que o jornalismo sério, empenhado e livre ainda faz a diferença, mesmo à distância de mais de meio século dos factos narrados.


José Pedro Castanheira, Histórias da PIDE Quando Salazar Mandava, Tinta da China, 2025.

Telmo R. Nunes