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segunda-feira, 8 de julho de 2024

LADY BOBS, O SEU IRMÃO E EU – U M ROMANCE DOS AÇORES



Apresentar um livro encerra sempre uma forte carga emocional e é um momento de grande responsabilidade. Penetrar o universo de quem produz a obra e procurar entender os motivos que levaram à sua saída para o prelo nunca é tarefa fácil, especialmente quando falamos de uma obra escrita e publicada nos anos inaugurais do século XX, há mais de um século, portanto.

Em concreto, trata-se de um texto com cerca de cento e vinte anos de idade, escrito por Jean Chamblin, uma mulher americana, com ascendência em França, nascida no Outono de 1876, e cuja vida dedicou às artes e ao ativismo. No teatro, por exemplo, desempenhou alguns papéis de relevo e alcançou algum sucesso junto da crítica da especialidade, assumindo, todavia, alguma falta de talento, o que terá originado esta viagem que sustenta toda esta narrativa romanceada.

 

“Em resumo, não tenho talento suficiente para o sucesso, nem vaidade suficiente para o fracasso. E quero ar para lutar e expulsar isto de mim.” (p. 41)

 

Por serem inúmeras as semelhanças entre factos biográficos relevantes e comuns muitos traços entre a Jean Chamblin – a autora – e Kate – a protagonista e narradora da obra – torna-se consensual considerar o livro como autobiográfico, sendo que este nasce a partir de uma viagem marítima efetuada pela autora (e pela protagonista) desde Nova Iorque até ao arquipélago dos Açores, viajando a bordo do Santa Maria, com os desígnios de encontrar descanso e um pouco de diversão, fugindo dessa forma à obscuridade em que se tornara a vida profissional. Isso mesmo é afirmado na imprensa da época, aquando da primeira publicação do romance:

 

The present story is the result of a trip to the Azores in search of rest and diversion. Having found these she proposed that others sould share her diversion if not her rest” (p. 24)

 

A autora, depois de se dedicar de forma empenhada ao estudo da educação para a infância, redireciona, então, o seu percurso profissional para a representação e para a escrita, tendo, todavia, publicado apenas este texto agora apresentado, na altura com vinte e nove anos de idade, o que em boa verdade levanta um certo mistério ainda por desvendar.

O texto é primeiramente publicado em série mensal, na revista The Critic e só posteriormente, já em finais de 1905, é publicado em livro, pela G.P. Putnam’s Sons, hoje do grupo Penguin.

Maioritariamente epistolar, o texto baseia-se no enredo criado a partir das relações estabelecidas entre um reduzido grupo de pessoas que, de forma inusitada – ou não – se reencontra nos Açores, em São Miguel, mais concretamente, e se aloja no Hotel Brown, um hotel citadino, onde hoje de situa a Pousada de Juventude de Ponta Delgada, fundado por George Brown, um jardineiro inglês contratado e trazido para a ilha por José do Canto, em 1845.

Recuperando da memória ambientes urbanos, mas também aqueles outros bucólicos e campestres onde nobres e/ou burgueses se entretinham alegremente, é-nos constantemente oferecido um panorama fidedigno da realidade ilhoa daqueles primeiros anos do século XX, seja da vida que pulsava pelas artérias da cidade, mais especificamente na Rua do Beco, hoje Rua São Francisco Xavier, seja aquela que corria pacatamente na cratera das Sete Cidades ou mesmo no pacífico vale das Furnas, onde se desenrola parte significativa da trama.

A viagem aos Açores, cuja duração se estima em cerca de três meses, desde a segunda metade de abril de 1902 até ao regresso aos Estados Unidos em julho do mesmo ano, inicia-se em Nova Iorque a bordo do Santa Maria, tendo a embarcação passado pelo Faial, São Jorge, Terceira e São Miguel.

Valendo-se de uma escrita simples, escorreita, ora em harmonia com a simpleza dos ambientes descritos, ora um pouco mais intensa e até revestida de uma comicidade em conformidade com as interações entre personagens, este é um bom exemplo de literatura de viagem, e embora se possa lamentar a ausência de referência a algumas das ilhas do arquipélago, o que nos traz imediatamente à memória a incompletude da obra «Ilhas do Infante», de Guilherme de Morais, também o reduzido destaque conferido àquelas ilhas além de São Miguel é motivo de anotação, todavia, retenhamos o que diz a autora sobre o arquipélago:

 

“Estão aqui todas, as nove ilhas dos Açores. Pequenas ilhas cheias de orações e santuários e sinos vespertinos, enfiadas num fio de água, como as dezenas nas voltas de um Rosário do Mar. […]

Acontece-nos apenas uma vez na vida sermos mesmo levantados do chão.” (p. 51)

 

 Não obstante, o que poderá, eventualmente, pecar pela curta extensão, redime-se fazendo vingar uma enorme qualidade literária, assim como uma brilhante combinação de géneros de que a autora se vai servindo ao longo da obra. Grande porção destes relatos conduz os leitores a uma narrativa de viagem verdadeiramente extraordinária, abrindo-lhes possíveis perspetivas de integração ou, pelo menos, fazendo-os apaixonar-se irremediavelmente pela realidade ilhoa:

 

Caminhámos ao longo de uma rua estreita, com casas de pedra pintadas em tons suaves de amarelos, azul e rosa, vermelho e verde, e de então em diante nunca mais os meus pés tocaram o chão, e a minha memória regista apenas o badalar dos sinos das igrejas, a passagem silenciosa de homens descalços e o misterioso capote e capelo, ou o barulho das pequenas galochas de madeira; o gincho do velho carro de madeira, com as suas rodas de madeira maciça e a sua junta de bois; o burro com a sua carga, e o rapaz pequeno com o seu cigarro; pequenas cruzes e grandes cruzes, grande igrejas e pequenas capelas – e as pessoas bondosas, à sua sombra, a saudarem-nos com simplicidade; e acima de tudo um céu tão azul como papel mata-borrão, e abaixo de tudo o estrondo do mar a bater contra o paredão de pedra negra.” (pp. 53-54)

 

A leitura que conseguir penetrar além do ato meramente descritivo e contemplativo, pese embora, este, per se, seja já digno de assentamento, resultará numa enorme tela, onde foi pintada a traço fino e delicado muito que seriam os Açores e os açorianos no início do século XX. Mas, convenhamos, nem tudo eram rosas…

 

“Há momentos em que trocaria todas as nove ilhas dos Açores por uma boa chávena de café.” (p. 102)

 

Servindo-se muitas vezes de uma linguagem luxuriante, mas nem por isso menos lúcida, Jean Chamblin dá-nos conta das belezas naturais do arquipélago, não olvidando de, a trechos, lançar o seu olhar expositivo e, subliminarmente, crítico sobre a vivência social, económica, no fundo, sociológica, nos Açores, nesses primeiros anos do século XX, servindo-se, para tal, de Lady Bobs, uma personagem inglesa, de bom coração, mas revestida por uma personalidade altiva, marcadamente aristocrática, e levemente afetada pela rudeza das ilhas e particularmente pela incultura de algum do povo açoriano:

“- Pergunto-me por que não morrem todas estas crianças. Olha para elas! Vê aqueles bebés vestidos com uma só peça de roupa, amarrada sob os braços, enquanto se sentam nestes frios chãos de pedra. É chocante. Surpreende-me que uma só delas sobreviva.” (p. 128)

 

Esta é uma obra que precisa de ser lida com calma, (re)construindo mentalmente cada imagem, saboreando cada descrição, para assim conseguir trazer à memória cada recanto, cada visão, cada ângulo ou ponto de vista descritos. Mesmo considerando a incompletude em termos de ilhas visitadas, assim como as diferentes “profundidades” consignadas a cada ilha (fruto, sobretudo, do tempo de estada do Santa Maria em cada porto) este relato propicia uma visão distinta do arquipélago e, mesmo os afortunados que já calcorrearam as nove ilhas que o compõem, terão aqui uma oportunidade de se apropriar de uma outra visão que lhes é oferecida a partir do longínquo ano de 1902. Para aqueles outros que se encontram em processo de “ilharização”, esta obra reveste-se, então, de uma valia redobrada, dando-lhes a conhecer uma visão do passado que sustenta hoje a realidade que todos reconhecemos, assente não apenas numa trama viva e extremamente interessante, mas também num conjunto de fotografias, que, em uníssono possibilitam novas camadas percetivas, muitas vezes, inalcançáveis, seja pela acentuada lonjura geográfica, ou pela falta de acesso à eternização destes rasgos históricos temporalmente distantes, como é o caso aqui hoje referido.

Como posteriormente o fizeram Raul Brandão, Guilherme de Morais e outros, esta é mais uma das muitas vozes (açorianas ou não açorianas) que tão bem soube engrandecer as nossas ilhas, descrevendo-as com os melhores adjetivos, captando-lhe os mais exuberantes espaços, mas sem nunca cair na tentação de uma condescendência bacoca e ilusória, tornando-se por isso em um dos expoentes que tanto enobrece a cada vez mais robusta literatura de viagens que tem os Açores como palco. Foi, portanto, em boa hora que Manuel Menezes de Sequeira, lisboeta radicado e encantado na ilha das Flores, decidiu dá-lo a conhecer aos leitores portugueses, traduzindo e apontando esta edição com preciosas notas de contexto geográfico e temporal, e que em tanto favorecem a compreensão da narrativa, pelos seus leitores contemporâneos.

Por isto mesmo, a ele, a minha vénia e o meu agradecimento pela coragem e labor tidos na publicação deste texto que, de outra forma, muito provavelmente, acabaria por desaparecer nas profundezas mais escuras do esquecimento.


Jean Chamblin, «Lady Bobs, o Seu Irmão e Eu, Um Romance dos Açores», Letras Lavadas, junho 2024


 

sábado, 6 de janeiro de 2024

A Força das Sentenças



«Estar doente sem direito a cura é algemar a esperança, decapitar a fé. 

Um homem pode adoecer de qualquer coisa, mas não lhe roubem a luz ao fundo.»

in A Força das Sentenças, Pedro Almeida Maia

 

O último mês de 2023 revelou-se excecional para o mundo literário açoriano. Encerrámos o ano a festejar a vitória de Pedro Almeida Maia, que arrecadou o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes 2023, com a sua mais recente obra, A Força das Sentenças.

Os jurados Idalina Rodrigues, Mila Mariano e Carlos Café decidiram, por unanimidade, distinguir esta novela de entre cento e vinte obras a concurso «[…] pela atualidade do tema, pela originalidade e pela criatividade […]». Foi ainda destacada a «[…] linguagem metafórica evidente na preocupação do autor em causar impacto no leitor […]» traço aliás distintivo da escrita de Almeida Maia, tendo sido já colocada em evidência em outros trabalhos seus. A obra vencedora deste prémio, atribuído pela Câmara Municipal de Portimão, «[…] com o objetivo de promover e estimular a criação literária.», foi editadapela On y va e já se encontra disponível para comercialização.

Dividida em vinte e cinco capítulos, esta novela traz à luz do presente a condição final de um doente de Alzheimer, assim como todas as adaptações familiares e logísticas que o avançar da doença acarreta. Repetidas falhas de memória de acontecimentos recentes (a contrastar com a nitidez de um passado vivido há muito), confusões constantes, desorientações geográficas, dificuldades no cumprimento das rotinas de higiene, vestuário e outras ditam o diagnóstico e o destino de um homem viúvo que, em busca de um acompanhamento mais eficaz, se vê obrigado a trocar o seu Alentejo de quarenta anos por uma nova moradia na cidade de Coimbra

Almeida Maia redigiu um texto marcadamente realista, decerto assente em vasta informação recolhida, o que lhe conferiu a oportunidade de manter um discurso coerente, firme e objetivo do princípio ao fim da novela, mesmo considerando a progressão da doença, que redundou numa expetável gradação crescente de angústia e sofrimento. Por outras palavras, há uma progressão natural do discursoque surge paralelamente ao desenvolvimento da própria doença da personagem.

O autor de A Escrava Açoriana optou por abordar um tema substancialmente diferente daqueles sobre os quais tem escrito, todavia, fê-lo com o rigor a que já habituou os seus leitores. A preferência pela narração autodiegética, portanto em primeira pessoa gramatical, faz aqui toda a diferença, já que acentua o realismo da própria doença, abrindo ao leitor janelas pelas quais pode visualizar aforma como um cérebro cansado e em fase de demência se comporta, quando afetado pela doença. Esta será, seguramente, a maior riqueza deste texto, sendo, ao mesmo tempo, sintomático do virtuosismo do autor, por ele próprio se ter emprestado essa posição tão delicada e especial. 

A Força das Sentenças, escrita em memória de Hélder Corrêa Melo, é, em muitos momentos, um texto pesaroso, sobretudo, quando o próprio doente atravessamomentos de pálida lucidez e se apercebe, ainda que vagamente, da sua situação clínica e de como ela condiciona a vida dos que o rodeiam: «Não tenho conseguido agradar à minha filha e não sei o porquê de isto estar a acontecer. Continuo a tentar ser eu mesmo, apesar da doença.»; «Esta doença veio rasgar-me a vida e destroçar a felicidade da minha filha. Sou maior empecilho do que ajuda, maior entrave do que facilitador. O melhor é mesmo desaparecer.»

Típicos desta forma de demência (cada vez mais prevalente na população mundial), são os sintomas comportamentais obsessivo-compulsivos, e Almeida Maia teve o cuidado de os incluir nesta narrativa: a intransigência ante a mudança de local de determinados objetos, os diversos episódios com o pudim de coalhada ou com a rede esticada no jardim exterior da moradia são exemplos disso mesmo.

Aqui são amplamente honrados todos os doentes de Alzheimer e até outros que padecem de outros tipos de demências. Almeida Maia oferece-nos um texto muito bem estruturado, conferindo o tempo certo a cada estádio da própria doença, e sempre em direção ao inevitável, numa cadência equilibrada, que envolve o leitor, retendo-o na leitura. Nunca revela uma atitude paternalista, e expõe ao leitor a doença em toda a sua severidade. Digna de referência é também a visão sobre o cuidador do doente, dando nota da exigência requerida para que o acompanhamento seja o mais eficaz possível.

A obra culmina com o brilhantismo de um Epílogo que terá, forçosamente, de inculcar diversas questões sobre a nossa própria existência, sobre a nossa condição humana e sobre a forma como nos movemos enquanto membros integrantes de uma comunidade. Temos entre mãos um livro que espelha fielmente as vicissitudes de uma temática muito atual, muito angustiante e sempre demasiado dolorosa. Foi escrito numa linguagem pertinenteajustada e assente no estilo próprio a que o autor nos habituou. Convenhamos que não foi por mero acaso que Almeida Maia se destacou de entre os cento e vinte trabalhos levados a concurso e ganhou mais este prémio, que tão bem reconhece o excelente percurso que o autor tem vindo a trilhar.

 

Pedro Almeida Maia, A Força das Sentenças, On Y Va, dezembro de 2023

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

9 Poetas 9 Línguas


É gosto participar neste projeto e integrar este conjunto de pessoas que tanto admiro e cuja escrita tanto gosto. Não sendo poeta, confesso que me deu gozo ver a singeleza dos meus versos traduzida em 8 línguas tão distintas como o francês, inglês, alemão, castelhano, neerlandês, esloveno, italiano e tétum. 

É um volume muito bonito, asseado por uma belíssima fotografia de capa da autoria de Marco Costa, meu amigo de sempre.

Está de parabéns a coordenadora desta edição, a infatigável e muito querida Professora Helena Chrystello, por mais este trabalho, que tanto dignifica a cultura e literatura açorianas.

domingo, 8 de outubro de 2023

Os Últimos do Estado Novo



José Pedro Castanheira será por muitos reconhecido como um dos grandes nomes do jornalismo português, sobretudo a partir do último quartel do século XX e até aos nossos dias. Embora com formação de base em Economia, desde cedo enveredou pelo jornalismo, tendo feito uma pós-graduação na área e trabalhado em jornais de grande destaque, como são exemplos “A Luta”, “O Jornal” e, durante quase trinta anos, o “Expresso”, onde se dedicou afincadamente à grande reportagem e ao indispensável, mas cada vez mais raro, jornalismo de investigação. 

Vencedor de inúmeros prémios, de onde se destacam alguns dos mais prestigiados atribuídos em Portugal, é autor e coautor de diversas obras de referência, das quais sobressaem «Jorge Sampaio: uma biografia» (2 vol., 2012/2017) e «Volta aos Açores em 15 Dias» (2022), a sua primeira incursão literária fora do âmbito jornalístico e que lhe valeu a distinção com o “Grande Prémio de Literatura de Viagem APE – Maria Ondina Braga”. A propósito deste, o autor esteve recentemente em périplo pelo nosso arquipélago (pelo qual sente especial atração), dando a conhecer a todos esta obra singular, que granjeia, com toda a justiça, o seu lugar junto dos mais belos livros de viagens que têm os Açores como ponto de referência. Como se escreveu a propósito desse extraordinário diário de bordo, VA15D - como o autor decidiu nomeá-lo - é «o sentimento ilhéu [que] lhe molda as ilhargas do coração.»

Volvido praticamente um ano após essa publicação, chega agora aos escaparates das melhores livrarias nacionais «Os Últimos Do Estado Novo», um extraordinário volume editado pela Tinta da China e que tem como móbil primário um olhar completamente inusitado sobre diferentes protagonistas do Estado Novo: seus colaboradores e apoiantes, mas também aqueles que lutaram contra a opressão e as políticas intimidatórias e de repressão. Castanheira não inclina a sua atenção para os de sempre, para os grandes vencedores e que, a cada ano, são justamente lembrados aquando da comemoração da Revolução dos Cravos. Ao invés, o autor lança o seu olhar sobre os perdedores. «Dos fracos não reza a história», assim se abre a apresentação do livro assinada pelo próprio José Pedro Castanheira, acrescentando pouco depois que, «Dos fracos, mas também dos acabados, dos abatidos, dos esgotados, dos desistentes, dos covardes, dos derrotados – dos últimos.» Efetivamente, se nos detivermos a pensar, quando mencionados, são-no meramente para servir de contraponto à glória investida nos lutadores vitoriosos. 

Durante os vinte e oito anos de trabalho no semanário “Expresso”, coube ao autor a tarefa de organizar a fórmula comemorativa da data, preferencialmente uma que se distinguisse pela diferença e inovação. Sendo partidário da ideia de que o «25 de Abril foi o acontecimento mais marcante do século XX português, não apenas para [si], mas para a esmagadora maioria dos portugueses», foi-se interrogando que diferentes razões teriam justificado uma tão prolongada ditadura no nosso país, «a mais longa ditadura pessoal do século XX». Mantendo por premissas estas dúvidas, partiu «à procura das razões que explicariam a espantosa longevidade do Estado Novo», ao que se seguiram diversos contactos, telefonemas, viagens, muitas conversas com pessoas pertencentes “à máquina” que manteve toda aquela estrutura a funcionar durante tantos anos, pessoas ligadas ao partido único, à PIDE, e a outras estruturas de grande relevo. Desses trabalhos, realizados ao longo dos anos, destacam-se o último diretor da censura, o último presidente do partido único, o último responsável do campo de concentração do Tarrafal, os membros do último Governo da ditadura, o último secretário pessoal de Marcello Caetano, o último deportado, os últimos presos políticos, a última entrevista dada por Oliveira Salazar. 

É a partir desses trabalhos jornalísticos que surge o título do livro agora em apreço, assumindo-se imediatamente como inevitável: «Os Últimos do Estado Novo».

A obra chega dividida em capítulos, que surgem organizados numa linha cronológica invertida, ou seja, abre o volume o acontecimento mais recente, “O Último Diretor do Campo do Tarrafal”, encerrando-o o acontecimento mais longínquo na linha temporal, “O Último Plenário Dos Sindicatos Corporativos”.

Este é um livro surpreendente e factualmente muito rico, recheado de inúmeros pormenores extremamente interessantes que, por motivos que ultrapassam a compreensão, não surgem nos compêndios escolares e, por isso, facilmente passam ao lado do conhecimento da maior parte da população portuguesa atual. 

Não raras vezes, para não arriscar todos os anos, ouvimos que a comemoração da efeméride se encontra gasta, que já não prende a atenção nem  motiva a participação dos mais jovens, que são sempre os mesmos intervenientes, tendência que poderia ser contrariada se o ensino desta importantíssima página da nossa história se assumisse um pouco mais completa, lançando os dois lados da contenda aos jovens alunos, relatando-lhes todos os pormenores que se vieram a assumir de grande relevo, como corajosamente o faz José Pedro Castanheira, assumindo, desde logo, que não se cansa «de dizer que o mundo, na vida, na história e, portanto, no jornalismo, como relato que deve ser da realidade e do quotidiano, há muito mais cores e matizes para além do preto e do branco (…)». Dar voz aos outros, àqueles que não venceram, não significa glorificá-los, muito menos dar-lhes razão.

Ao longo desta aliciante leitura, não se sentem quaisquer tendências para incriminar ou mesmo para desculpar quem quer que seja. Há, ao longo de toda a obra, uma notória isenção por parte do autor. Ele questiona, relata, cita documentos e entrevistas, pelo que o leitor terá sempre a possibilidade de muito bem ajuizar a história, agora que toma conhecimento de todos os contornos.

Outra das grandes vantagens deste volume é a vivacidade impregnada na própria leitura, sobretudo, pelo recurso e integração de diversas tipologias de texto. Há, naturalmente, o narrativo, com peças jornalísticas ricas e de elevado valor histórico, o descritivo, com inclusão de trechos absolutamente incríveis, destacando-se dois, por muitos, completamente desconhecidos: o episódio da rendição de Marcello Caetano, que pega numa arma sugerindo o seu próprio suicídio, caso o poder não fosse entregue a Spínola e, o melhor deles todos, a última entrevista de Oliveira Salazar, concedida a Roland Faure, destacado jornalista francês que já o entrevistara antes por duas vezes, tendo o caudilhe assumido que ainda era o Presidente do Conselho, quando, na prática, já havia sido substituído em setembro de 1968, portanto, vários meses antes, encontrando-se o velho ditador a viver, desde então, uma farsa encenada por todos quantos o rodeavam, membros do Governo inclusivamente. A contribuir para a cadência da leitura, destaca-se ainda uma fabulosa entrevista a Pedro Feytor Pinto – o último porta-voz de Marcello Caetano –, de onde sobressai a pertinácia e o arrojo de um homem fiel ao regime e preocupado com as questões mais prementes do seu tempo: a Guerra do Ultramar e as relações internacionais de Portugal. Ainda nesta entrevista e de elevado grau de interesse, é a sua perspetiva sobre os acontecimentos ocorridos em Moçambique, no final de 1972, naquele que ficou conhecido como o Massacre de Wiryamu, um horrendo vexame internacional para Portugal, e do qual, incompreensivelmente, ainda hoje pouco se fala…

De interesse suplementar, refira-se ainda a possibilidade que o autor concedeu a antigos presos políticos, para que estes pudessem, anos depois, colocar perguntas diversas aos seus carcereiros, nomeadamente a Eduardo Fontes, o último diretor do campo do Tarrafal. As respostas são singulares, e conduzem o leitor à dúvida, pelo que se reitera o interesse de se escutar ambos os lados da contenda.

Já o capítulo “Os Últimos Presos Políticos” oferece diversas vantagens, mas destaca-se a ignomínia de que eram capazes alguns agentes da PIDE que, mesmo sabendo da queda do regime, procuraram extorquir avultadas maquias aos presos que ainda mantinham sob custódia e isto, mesmo sabendo que, em breves horas, os teriam de libertar. 

De “O Último Governo da Ditadura” extrai-se informação muito vasta sobre o destino das 36 pessoas que integravam o dito elenco governativo, Marcello Caetano, inclusivamente. É um trabalho um pouco mais exaustivo, embora em nada maçador, pelo contrário, e que nos dá a perspetiva não apenas dos receios daqueles que perderam, mas também da condescendência e do humanismo dos que tomaram posse. Aliás, torna-se muito interessante perceber a abertura do novo estado democrático ante alguns dos protagonistas da caída ditadura, integrando-os em cargos públicos e alguns de grande destaque nacional. 

Uma palavra breve de reconhecimento pela disponibilização de bastos registos fotográficos, grande parte deles integrante de arquivos particulares, pelo que, não fosse o profissionalismo do autor, certamente nunca chegariam ao conhecimento do público. De registo ainda a completude do índice onomástico, que, por certo, tanto jeito trará a quem se debruce sobre este livro numa perspetiva de estudo mais aprofundado. 

Está de parabéns o autor pela compilação de todos estes trabalhos, alguns agora melhorados e aumentados, contribuindo desta forma tão enriquecedora e rigorosa para aclarar dúvidas, desfazer imbróglios ou, pelo menos, para lançar novas perspetivas sobre o desenrolar dos acontecimentos deste importantíssimo naco da história recente do nosso País.


José Pedro Castanheira, «Os Últimos Do Estado Novo», Tinta da China, 2023

P.S.  O lançamento de «Os Últimos do Estado Novo», acontece esta segunda-feira, dia 9 de Outubro, às 19h00, na Fundação Calouste Gulbenkian, e será apresentado pelos filhos de Mário Soares e Marcello Caetano, Isabel Soares e Miguel Caetano, respetivamente.


#livrosEcoisasdessas

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Raiz Comovida, de Cristóvão de Aguiar


(Uma moeda a quem chegue com a leitura até ao fim do artigo. É extenso, eu sei.)

RAIZ COMOVIDA, UM TRATADO DE LINGUAGEM; UM RETRATO ANTROPOLÓGICO 

Fruto da curiosidade, assim como de avisadas sugestões que foram chegando, encetei, recentemente, a leitura de «Raiz Comovida», o I primeiro volume da obra completa de Cristóvão de Aguiar, uma trilogia romanesca que engloba as obras «A Semente e a Seiva», «Vindima de Fogo» e «O Fruto e o Sonho». 

Tendo sido Cristóvão de Aguiar “um dos principais responsáveis pela afirmação cultural dos Açores após o 25 de Abril”, como bem afirmou Mário Mesquita, é muito provável que me chegue a censura pelo atraso com que enceto a leitura desta obra de referência da literatura açoriana, ou, pelo menos, que me surjam conselhos sobre como priorizar as minhas opções literárias. Num assumido e até um pouco envergonhado "mea culpa", responderei, sem quaisquer constrangimentos, que terão toda a razão, estivesse eu mais atento, não me teria escapado a sentença de João de Melo, notável escritor açoriano, que se referiu a este texto como “uma experiência linguística sem precedentes”, motivo mais do que suficiente para lhe lançar um cuidado olhar. 

Não obstante, por saber tratar-se de uma leitura de relevo e, por isso, antecipá-la demorada, marcada, muitas vezes, por idiossincrasias linguísticas e outras dificuldades lexicais, como um linguajar popular ilhéu, bem arredado dos cânones escolarizados e urbanos tradicionais (não raras vezes há de o leitor valer-se do Glossário que encerra a obra), optei, primeiramente, por ler outras obras do autor, destacando-se o «Braço Tatuado» (Publicações Dom Quixote) almejando, dessa forma, a entrada no universo literário do autor, antes de me aventurar neste Raiz Comovida. Tolice minha, confesso! Não me custa adiantar que não haverá o que nos prepare para a leitura deste livro: um verdadeiro tratado da linguagem, revestido por um brilhantismo literário como há muito não lia.

Há neste volume uma verdadeira homenagem, para além de um retrato fiel, a todo aquele mundo rural e açórico de que já poucos terão memória, e refiro-me não apenas à riqueza do linguajar popular das gentes rurais micaelenses, onde o erudito não tinha lugar, mas também, e sobretudo, às imagens sociológica, económica, religiosa, que aqui nos são dadas a conhecer, e que versam temas quotidianos tão díspares como a importância da matança do porco para a economia familiar, as sempre muito curiosas e por vezes bem acesas disputas entre associações musicais vizinhas, os diversos rituais religiosos, muitas vezes esvaziados de Fé, mas sempre vividos com grande fulgor social, não olvidando as curiosas peripécias ocorridas quer em momentos sacros quer em profanos, os namoricos, sejam os permitidos e à janela, sejam aqueles ocultados pela tenacidade de um amor proibido, mas aqui também se alude à emigração, às idas para a América das oportunidades, as que seguiam os trâmites legais, mas também as outras, as fugas “embarcadas de calhau”, a homossexualidade e tantos outros. No fundo, retrata-se a dureza (e por que não dizer miséria?) da jorna, uma constante nos mais diversos meios de subsistência que a ilha tinha à disposição, oferecendo em troca nada mais do que a mísera “côdea de pão”, que, dividida pelos que se sentavam à mesa, mal dava para matar a fome.

Cristóvão de Aguiar oferece-nos, então, um quadro antropológico centrado na ruralidade ilhoa “isolada e empobrecida”, e que se espraia pelas primeiras décadas da segunda metade do século XX, desenhando uns Açores idos, mas cuja história convém conhecer, pelo que, em boa hora, a Edições Afrontamento eternizou, por ocasião dos cinquenta anos de vida literário do autor, toda a sua obra em diversos volumes.

Quando se fala de Cristóvão de Aguiar torna-se frequente a referência a sua forma complexa de ser e de se relacionar com os outros, menção compensada, de imediato, pelos rasgados elogios à qualidade da sua escrita. Miguel Real (conceituado crítico literário), por exemplo, assume dificuldade para discernir qual das obras literárias pode ser considerada a mais importante obra romanesca açoriana pós-25 de Abril de 1974, se a trilogia de «Raiz Comovida», se o volume singular de «Gente Feliz Com Lágrimas», do virtuoso escritor João de Melo, sendo que não alcançando resposta que o satisfaça, assume que “são duas obras que enfileiram na galeria dos grandes romances da história literária portuguesa do século XX.”

Conquanto não possa invocar as “razões afetivas” que outros moveram até ao apelo à leitura, posso, todavia, concordar com esses quando o adjetivam de “magistral” e o classificam como uma “referência inestimável”, porque, em boa verdade, é disso mesmo que falamos. 

Cristóvão de Aguiar nasceu no Pico da Pedra, na ilha de São Miguel, onde iniciou a sua formação académica, tendo depois ingressado na Universidade de Coimbra, onde frequentou o Curso de Filologia Germânica, interrompido pela mobilização para a Guerra Colonial, tendo prestado serviço na Guiné. Finda essa campanha militar, regressa a Coimbra, terminando os seus estudos e encetando um período profícuo em termos literários e profissionais. Ao longo dos anos, ganhou diversos prémios, tendo sido agraciado com o grau de comendador da Ordem do Infante Dom Henrique, pelo então Senhor Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio.

Sobre este autor, escreveu Luis Fagundes Duarte: “[…] o escritor que até hoje melhor conseguiu seguir os rastos daquela esteira de pó, desenhada pelos mortos e outras ausências, que define o percurso da tradição cultural que nos identifica como membros de uma comunidade - a comunidade açoriana.” 


Atrevo-me a deixar um estímulo à leitura, na esperança de que outros se possam sentir impelidos a ler esta maravilha da literatura açoriana.

“24 - Namoros de Janela Baixa

No tocante às raparigas casadoiras, era demais tamanha aperreação; pareciam freiras arrochadas no convento da casa; tudo quanto passa das marcas não dá muito certo; já lá diziam os antigos, com alguma razão, quem muito aperta, pouco arrocha; aperreadas dentro de quatro paredes durante dia e noite, só tinham licença de aparecer um nico à janela nas tardes pasmadas dos domingos e dias santos e, mesmo assim, nada de rédea solta, que as coriscas das mães eram umas cegonas, sempre de olho arregalado e nariz empinado, a farejar se havia mouro na costa, não fosse algum mais manhoso comer-lhe a filha de longe com olhares cobiçosos ou dar-lhe umas palavrinhas de boca pequena; mas a Divina Providência não se deixa dormir, e não há pior semente do que a da língua; o Ti Clemente Bufão tinha duas filhas gémeas, duas belas fêmeas, e o pai “gavava-se” de que não havia nenhum “fideputa” que se consolasse de as namorar e desfrutar, isto porque de uma vez bispou um fralda cagada qualquer rondando-lhe a casa, e o rapaz não era nenhuma peste, mas o Ti Clemente achava lá na sua que nenhuma das filhas regia para ele; vai daí, ao chegar ao fundamento de que o rapaz andava mesmo arrastando a asa lá pelas suas bandas, pregou as janelas da frente, e nenhuma das raparigas se podia chegar a elas; com as janelas pregadas a sete pregos, o Ti Clemente julgava que não podia haver mais dúvidas quanto a malícias de olhos ou falas de boca pequena entre eles; enganou-se redondamente; nunca mais houve, na verdade, a mais pequenina pitada de olhares trocados nem arreganho meiguiceiro de dentes; estava o Ti Clemente mui descansado e satisfeito com o seu tèsto proceder, quando, um belo dia, a mulher lhe veio dar a saber que ambas as filhas estavam cheias como vacas quase a parir; e mais, estavam pejadas do mesmo candeeiro de folheta, “inté” se dizia, por pilhéria, que uma delas estava de barriga do Divino Espírito Santo e o certo é que um dos “chinchins” ficou mesmo com o apelido de Menino Jesus; o Ti Clemente não queria acreditar no que ouvia à mulher e subiu aos arames da ruindade; ficou de cabeça desarrematada, queria à fina força pôr uma demanda em tribunal, mas, vendo que pouco ou nada amanhava, a não ser consumição e falatório ainda mais grande, pois o rapaz devia casamento às duas e só com uma se podia casar; com o desgosto, pegou o Ti Clemente em si e embarcou para a terra da América; uma das gémeas casou mais tarde com o rapaz que a tinha enganado, os pequenos tratavam-se por irmãos, chegando a zoar pela freguesia que aquilo era uma noite com uma e outra com a outra, o jogo da vez e outra, como no do pião - uma grande escândula que aconteceu na freguesia e neste ponto dou razão aos antigos quando diziam que quem muito aperta, pouco arrocha; se as raparigas tinham derriço que principiava nas festas do Divino ou nas da Senhora da Boa Viagem, penavam os olhos da cara para darem dois dedos de conversa com o noivo, que andava numa arredouça, para baixo e para cima, ou, “intance”, se as pernas pediam descanso, ia servindo de espeque a alguma parede ali ao pé, na mira de uma ocasião mais coisa e tal para despejar a saquinha dos sentimentos; as mais das vezes, era trabalho botado ao vento, e o rapaz ficava mais brabo que o mar das Calhetas, quando, por riba, lhe sopra o mata-vacas e não havia outro remédio senão esperar com paciência pelo Domingo que vinha […].” (págs. 129, 130)

A terminar, e porque já longa vai a prosa, talvez não fosse descabido, um olhar um pouco mais acutilante por parte da Secretaria Regional da Educação e dos Assuntos Culturais sobre estas pessoas que, através do seu trabalho, reconhecido virtuosismo e talento, para além de um assinalável comprometimento que já vem de longe, souberam eternizar cabalmente o que é isto de se ser açoriano. Nesse sentido, parece-nos imperioso, que sejamos um pouco mais arrojados, e sobretudo mais ecléticos, e tenhamos a coragem de conceder atenção à literatura de qualidade, atempando esse reconhecimento, para que possa ser celebrado condignamente: Não nos causaria quaisquer pruridos ver o nome de Daniel de Sá como patrono da EBI da Maia, assim como o de Cristóvão de Aguiar na da Ribeira Grande ou de João de Melo na do Nordeste, como aliás já acontece em outras unidades orgânicas de região. Entre outros, Dias de Melo e Vasco Pereira da Costa merecem, há muito, uma reedição dos seus belíssimos contos, sob pena de caírem no olvido coletivo; Pedro da Silveira, Emanuel Félix e Marcolino Candeias são relembrados quase exclusivamente pela iniciativa privada, e que atingem um público muito reduzido. Relembro, ainda, Fernando Aires, o expoente mais cintilante da diarística nos Açores e um dos melhores do país, e não tenho conhecimento de quaisquer iniciativas governamentais, no sentido de eternizar a obra e relembrar o homem. Houve o descerrar de uma placa em sua residência, mas a cargo da família e, apenas mais tarde, uma outra da responsabilidade da autarquia. Embora abra espaço a informação que me possa ter escapado, não obstante as diligências tomadas, parece-me francamente pouco, para retribuir o tanto que o autor nos deixou. Não haverá, nas nossas escolas, leitores interessados em ler os seus diferentes diários? Que se dissemine a obra. E os virtuosos Urbano Bettencourt ou Emanuel Jorge Botelho, em que têm contribuído os responsáveis governativos no sentido de prestar o justo tributo, ou, pelo menos, legitimamente reconhecer os tão profícuos trabalhos que têm desenvolvido ao longo de décadas, seja resgatando do esquecimento nomes que merecem um pouco mais de atenção, seja pela proficiente obra que ambos têm vindo a desenvolver. 

Há aqueles que, não residindo em território arquipelágico, muito se têm batido pelos Açores e pelas suas gentes, seja no Continente, seja na Diáspora, carregando muito da nossa terra até aos novos mundos, dando a conhecer, ensinando, incorporando os Açores e as vivências açorianas na mundividência alargada que se exige aos novos habitantes destes novos mundos. 

Eu corroboro aquela máxima que garante que a génese de um povo reside na sua cultura, pelo que descredibilizá-la será, em última instância, desvirtuar toda a história desse povo, lançando-o a um deus-dará cultural, e substancialmente pernicioso. Estou certo de que não será a pretensão deste elenco governativo, que já mostrou bastas vezes ser capaz de tratar a Cultura com o cuidado que se impõe, por isso, é da mais inteira justeza olhar para estas pessoas e para o seu trabalho, procurando dignificar umas e outro, conforme é seu legítimo merecimento, pelo tanto que nos têm dado.

Cristóvão de Aguiar, «Raiz Comovida», Edições Afrontamento, 2015

terça-feira, 1 de agosto de 2023

A MONTANHA COBRIU-SE DE LAVA E OUTRAS ESTÓRIAS


O professor Carlos Fagundes, florentino de nascença, apaixonado pela ilha do Pico e desde há muito radicado em Paredes, concelho nortenho de Portugal Continental, lançou recentemente o seu segundo livro, intitulado «A Montanha Cobriu-se de Lava e Outras Estórias», um conjunto de narrativas que têm o Pico como chão da sua ação. É inegável a riqueza do trabalho que o autor tem vindo a desenvolver no âmbito cultural, antropológico e até de índole histórico, direcionando-nos o olhar e a atenção para factos, vivências ou eventos de crucial importância, mas que, por algum motivo, tombaram na escuridão do esquecimento. Se com «Entre o Mar e a Rocha» – o seu primeiro livro – o tinha conseguido, a verdade é que não desapontou e nesta segunda incursão pela narrativa curta conseguiu manter a divícia da sua prosa, a fineza vocabular, a vivacidade narrativa e o interesse geral, captando a atenção do leitor desde a primeira à última estória narradas. 

Como acontecera com o seu antecessor, neste volume, o autor dá a conhecer uns Açores substancialmente diferentes dos que hoje se assumem como expoente turístico nacional e europeu. Em cada estória é aberta uma janela para um passado não muito distante – décadas 60 e 70 do Século XX –, mas, felizmente para todos, consideravelmente diferente da realidade em que hoje vivemos. Sem que com isso se procure quaisquer alusões políticas, será caso para sublinhar o tanto que evoluímos em tão pouco tempo. 

O título que empresta nome ao livro é o mesmo da narrativa de abertura, e recupera a crise sismovulcânica ocorrida no Pico, no início do Século XVIII, assim como a peste bubónica que afetou o Faial pela mesma altura. Uma vez mais, o autor parte de uma forte componente histórica para desenvolver as suas narrativas, intercalando eventos factuais com a necessária componente ficcional, criando, dessa forma, um ambiente de verosimilhança que, entre outros, capta a atenção do leitor.

Como foi já apontado por outros leitores, há no livro uma narrativa que se destaca das demais, não apenas por extravasar o universo picoense mas, sobretudo, por se assumir com premissas e qualidade suficientes para algo de maior monta: a viagem de um petiz a bordo do vetusto “Carvalho Araújo”, desde a ilha das Flores até São Miguel, onde viria a prosseguir estudos, ingressando no Seminário Menor de Santo Cristo. Esta narrativa nasce da memória do próprio autor, que realizou esta mesma viagem e a descreve com admirável minúcia, oferecendo-nos um relato tão preciso e impressionante que ninguém ousaria afirmar tratar-se de uma memória com mais de cinquenta anos. Nessa medida, seria muito conveniente eternizar este período tão interessante numa outra obra, eventualmente um romance ou mesmo um livro de memórias.

Permitindo-nos uma pequena deriva, tem sido muito interessante verificar em conversas ou em leituras diversas, a forma como diferentes autores açorianos (Professor Carlos Fagundes incluído) se referem ao “Carvalho Araújo” e às suas viagens. Descrevem-nas sempre como muito difíceis, salientando, particularmente, o tempo despendido em cada viagem, assim como as recorrentes dificuldades gástricas, mas fazem-no sempre com muito enlevo, detalhe e até com um notório resquício de saudade. Tenhamos presente a importância que o velho paquete trazia à vida das pessoas e à economia açoriana e madeirense, em geral, justificando-se, talvez por isso, um certo romantismo em torno destas travessias atlânticas, fossem abordo desta ou de outras embarcações da “Empresa Insulana de Navegação”. 

A riqueza desta obra não se esgota no que fica dito, passando também pelo detalhe e subtileza com que o autor se muniu para caracterizar o povo português e açoriano, em particular. Assuntos triviais da vida quotidiana e outros de maior relevo histórico são tratados com delicadeza e aparente simplicidade, o que, já sabemos, é de dificílima execução. Por entre estas páginas há muito daquilo que nos faz portugueses açorianos, desde logo a capacidade de reação perante as adversidades resultantes das diferentes calamidades naturais que recorrentemente nos assolam, assim como o humanismo e a generosidade daqueles que, mesmo de parcos recursos, não hesitam no momento de disponibilizar o pouco de que dispõem ante miséria do vizinho, ou mesmo do desconhecido. Outra das características transversais a muitos destes textos é o recurso ao sentido de humor, mesmo naquelas situações que se revestem de risco e perigosidade. 

Como escreveu Manuel Serpa no interessante prefácio que abre a obra, “É sempre com redobrada expetativa que acolhemos as novas iniciativas literárias do Carlos Fagundes”, que tem trilhado um percurso em crescendo, pautado pelo brilho da qualidade literária e revestido de um enorme interesse sociocultural. É muito importante que haja quem se disponha a eternizar modos de vida, usos e costumes idos que, de outra forma, cairiam miseravelmente no olvido, perdendo-se, assim, muito daquilo do que fomos e do que está na génese do que hoje somos. Quando encontramos quem o faça, com a vantagem de o fazer com mestria literária, cabe-nos, naturalmente, agradecer e, com ânsia assumida, esperar pela obra que se seguirá.

Carlos Fagundes, «A Montanha Cobriu-se de Lava e Outras Estórias», Letras Lavadas edições, 2023  

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Prosas Às Quartas


Num olhar mais ou menos atento sobre o panorama literário açoriano, torna-se impossível ficar indiferente ao número e à qualidade de iniciativas que visam a promoção da leitura, da escrita e do livro, de uma maneira geral. É um claro motivo de orgulho, parecendo-nos muito salutar esta vontade de assumir um dinamismo que, cremos, não encontrará paralelo no resto do país: lançamento de livros, reedições de outros, festivais literários, colóquios, feiras do livro, prémios literários (alguns de âmbito nacional), um Plano Regional de Leitura próprio (embora em vivência de um período mais ou menos letárgico), os modernos BookToks, a recuperação das vetustas bibliotecas itinerantes ou os Clubes de Leitura que pululam são alguns dos bons exemplos. Em uníssono, estas atividades têm redundado em relatos otimistas, dando conta do aumento do número de vendas, que se espera, se traduza num efetivo aumento do número de leitores.

Para além do que fica dito, esta temporada literária ficará marcada, ainda, pela dinamização de alguns cursos de escrita criativa, uma atividade que, não sendo muito usual entre nós, pelo menos enquanto atividade aberta ao público em geral, apresenta um conjunto de mais-valias muito interessante, desde logo, o desenvolvimento de competências de escrita: a qualidade textual, as estruturas e microestruturas textuais específicas de cada género, para além do normal desenvolvimento vocabular e de técnicas narrativas.

Ora, um desses cursos foi o coordenado pela professora Paula de Sousa Lima, reconhecida escritora açoriana que, munida do seu pragmatismo habitual, o tornou público em setembro último: “Amigos, vou dar, na Escola Secundária das Laranjeiras, um Curso de Escrita Criativa. Decorrerá uma vez por semana, em horário a combinar, e é gratuito. Podem inscrever-se na Escola. Aguardo-vos.” A este apelo responderam cinco pessoas, Carla Couto, Isabel Silva, Margarida Viveiros, Sofia Estrela e Vera Cymbron.

Segundo palavras da própria coordenadora, “a literatura não se pode ensinar”, pelo que foi o amor que todas lhe dedicam que as levou até àquele espaço de partilha, a cada quarta-feira, e durante todo este ano letivo que agora termina. Tendo optado pelo modo narrativo como base do Curso, houve trabalho no âmbito de diversas modalidades textuais, que se estenderam desde a “descrição, ao diálogo, a reflexão…”, e que resultaram numa expressão de enorme talento, com a criação de textos de qualidade reconhecida, por parte de todas as intervenientes.

Chegadas ao final do ano letivo, e dada a qualidade e consistência apresentadas, considerou a Coordenadora não ser “legítimo […] deixar os textos delas votados ao olvido na penumbra do (seu) computador”, e, em boa hora, se decidiu pela publicação deste volume, que granjeou o nome de Prosas Às Quartas, (um nome que assenta na perfeição) por ser tão difícil a escolha de outro, considerando a diversidade textual que ali vem expressa.

Pese embora a heterogeneidade apresentada, há no Humanismo um denominador comum. Torna-se frequente ler sobre a condição humana e as inter-relações que se vão criando ao longo da existência, para além das vicissitudes típicas entre personagens que são mais ou menos próximas: expiação, doença, casamentos, relação entre pais e filhos, a força e a fraqueza humanas, mas também a sexualidade, a saudade, a coragem. Embora a civilidade sugira o contrário, até porque é notória a qualidade em qualquer um dos textos apresentados pelas cinco autoras, não há como deixar de sublinhar e enaltecer – até – a forma extremamente bela e claramente talentosa como se optou por encerrar este volume. Foi uma agradabilíssima surpresa, o corolário de muito talento, e de quem se exige mais e mais.

Às escritoras que aqui se apresentam, muitos parabéns pelo trabalho desenvolvido e pelo arrojo e qualidade com que cunharam os textos agora editados. Há que manter essa chama viva e continuar a escrever, colocando em prática todas as sugestões que terão recebido ao longo de todos estes meses. À Coordenadora deste projeto, muitos parabéns pelo dinamismo e persistência, por todo esse amor à língua portuguesa e pelos constantes e elevados contributos com que tem engrandecido a nossa Literatura.

Vários (Coordenação de Paula de Sousa Lima), Prosas Às Quartas, Letras Lavadas edições, 2023