Consta que os primeiros marinheiros que cá chegaram, deram a ilha como desabitada.
Redondo engano. Deus já cá estava. Há muito tempo.
Emanuel Jorge Botelho, 30 Crónicas, 2017
Foi Sebastião Salgado (1944-2025), consagrado fotógrafo brasileiro, que afirmou que as suas «fotografias são um vetor entre o que acontece no mundo e as pessoas que não têm como presenciar o que acontece». Dito de outra forma, por certo mais tosca e simplista, uma das conveniências da fotografia passa pela representação de pontes, de travessias que nos permitem aceder a realidades distintas e, tantas vezes, inalcançáveis, seja pela acentuada lonjura geográfica, seja porque retratam um rasgo histórico temporalmente distante.
É precisamente o que acontece na obra em apreço. Num livro-objeto devidamente pensado e maturado pela quietude insular, dá-se a conhecer a profunda transformação que se opera na relação das pessoas com o mar. Se antes a condição Insularity nos chegava mesclada por uma conotação pesadíssima, onde a fatalidade da omnipresença marítima se impunha e era “a ilha a defender-se de ser água”; se antes se vivia o tempo em que a própria condição ilhoa era o motivo de repulsa e motor de êxodo, atualmente um novo paradigma desponta e, de repente, vive-se e saboreia-se uma nova realidade, a Islandness, onde a celebração do mar toma lugar central na vida das pessoas. É o ser humano a abrir-se, a adaptar-se e a receber todos proveitos oriundos do Atlântico. Ao folhear este livro respira-se essa mutação, facilmente se percebe o crescimento humano operado e a relação próxima do Homem com o mar; este deixa de ser nefasto e passa a ser encarado por aquele como uma nova extensão da própria vida humana. Dessa forma, são-nos apresentadas dezenas de imagens, captadas ao longo dos últimos anos, na ilha de São Miguel, Açores, assumindo-se cada uma delas como um autêntico convite para que partamos à descoberta desta magnífica ilha.
Para além da reconhecida qualidade pictórica, o carácter inovador deste álbum assenta também na forma como a seleção, organização e disposição de cada uma das imagens acautela uma linha narrativa, que conduz o leitor/visualizador por uma viagem única ao longo dos 744 km2 de massa que formam a Ilha Verde, e sempre com a singularidade da presença do mar como elemento visual fundamental. E talvez seja esta mesmo a centelha deste livro: a presença do mar! Este é o Mar dos Açores, um mar áspero, rude, que não se deixa domar pelos mais fracos, mas é também um que convoca, que apela e que impele à travessia e à liberdade. O Atlântico ilhéu é diferente do que banha o litoral do continente. Como tão bem escreveu Emanuel Jorge Botelho, açoriano, micaelense e poeta dos maiores «o mar é como os deuses, porque não é deste mundo.» É comprometido com esta invocação que se move Marco Costa, professor, fotógrafo autodidata, marido, pai e surfista, há mais de vinte anos a residir em São Miguel. Conhecedor da maioria dos segredos deste local encantado a que chama “casa”, vem captando a beleza luxuriante da ilha, a luz, o azul e o verde nos seus gradientes multivariados. Através de um certo voyeurismo fotográfico, e fazendo emergir a cada click a sensibilidade da sua expressão artística, tem retratado as belezas exuberantes da ilha, assim como as vivências de ilhéus e de visitantes, colecionando memórias, fotografias e experiências que partilha agora com o público em geral.
Como já se percebeu, o oceano deixou de ser periférico no dia-a-dia das gentes da ilha, e tem assumido uma posição cada vez mais preponderante. Não é de erosão marítima de que agora se fala, nem sequer dos riscos que o mar acarreta. O mar agora abraça a ilha num enlevo caprichoso, distende-a até onde o olhar alcança, traz potencialidades e abre caminhos que antes não eram sequer sonhados. Pacificou-se, pois, esta relação Homem-Mar! E desta convivência sã e sobretudo amistosa nasceu este livro agora apresentado, que, pela quantidade, mas, sobretudo, pela qualidade do acervo trabalhado, apresentado e documentado, poderá assumir-se como um marco referencial no estudo histórico-cultural e até desportivo dos Açores e de São Miguel, em particular, destacando-se formas de ser, de estar e de interagir de ilhéus e turistas com o oceano. Não obstante, tenhamos presente que este volume não se reduz à documentação de desportos de mar, pese embora a sua presença seja uma constante. Outra grande valia deste livro está relacionada com a meteorologia açoriana. Se sabíamos da severidade da orografia ilhoa, o autor serve-nos a famigerada dicotomia atmosférica que caracteriza o arquipélago: céus azuis e límpidos, convidativos à fotografia tipo postal turístico, lado-a-lado com os céus de chumbo, pesados e ameaçadores que também caracterizam esta região do Atlântico Norte.
Grande parte das imagens irão reter-nos o olhar, seja pela sua natureza conceitual, seja pela beleza dos elementos que a compõem ou mesmo pelo enquadramento escolhido pelo fotógrafo. Nessas não tenhamos pressa, demoremo-nos e apreciemo-las, porque «A força da fotografia consiste em conservar disponíveis instantes que o fluxo normal do tempo imediatamente substitui.»
Telmo R. Nunes
Ponta Delgada, 28 de agosto de 2025















































