sexta-feira, 20 de maio de 2022

Laudalino, o Fotógrafo da Maia

 


           
            Embora já a tenha citado a propósito de uma outra obra, justifica-se recuperar a frase de Sebastião Salgado, consagrado fotógrafo, reconhecido à escala global, que assumia que as suas «fotografias são o vetor entre o que acontece no mundo e as pessoas que não têm como presenciar o que acontece.»

Uma das vantagens da fotografia será a de tomar forma de pontes que nos permitam viajar até geografias distantes ou, mais maravilhoso ainda, viajar até aos nossos próprios espaços e que tão bem conhecemos, mas rasgando o tempo e mergulhando num pretérito tantas vezes surpreendente. Olhar fotografias antigas e ver outras representações daquilo que nos pertence em tempo presente, assumindo as várias reconfigurações sofridas até à data, revela-se um exercício extraordinário.

É o que acontece ao folhear o livro, Laudalino da Ponte Pacheco 1963-1975, da responsabilidade de Maria Emanuel Albergaria, Margarida Medeiros e João Leal, e brilhantemente editado pela Araucária Edições, em 2021, num volume muito cuidado, robusto e esteticamente muito bonito.

A obra surge divida em três partes, ocupando-se cada autor com uma vertente distinta: “O fotógrafo da Maia”, por Maria Emanuel Albergaria; “Continuar a viver – imagens de um quotidiano açoriano (1963-1975)”, por Margarida Medeiros; e “Os Açores dos anos 1960. As fotografias de Laudalino em contexto”, por João Leal. Estas três vertentes ou visões mantêm em comum entre elas o espaço. Embora também dediquem atenção a outros locais ilhéus ou não, nacionais ou internacionais, a freguesia da Maia, no concelho da Ribeira Grande e de origem do fotógrafo, mantem-se invariavelmente como espaço de partida (mas também de chegadas) em toda a narrativa.

Muitas das fotografias que integram este álbum são acompanhadas por informações adicionais, em jeito de legenda, e que se revelam muito úteis atendendo ao valor histórico, antropológico, social e cultural que as mesmas permitem colher. Lamenta-se que em tantas outras, essa informação tão pertinente já se tenha perdido na névoa do esquecimento. Todavia, há que reconhecer o notável esforço no sentido de dotar as imagens destes pequenos apêndices tão profícuos, considerando pessoas e/ou realidades profundamente modificadas pelo tempo.

Considerando as condições atmosféricas próprias do arquipélago (a humidade, em particular), e sabendo do efeito que as mesmas produzem sobre este tipo de material, é admirável e digno de registo a quantidade mas, sobretudo, a qualidade das fotografias eternizadas neste volume, mérito, claro está, dos conhecimentos e cuidados tidos primeiro por Laudalino da Ponte Pacheco, depois pela família herdeira e finalmente pelos responsáveis da Santa Casa da Misericórdia da Maia, (depositária de um espólio com cerca de 155.000 fotografias), que as souberam e têm sabido proteger, não obstante as condições adversas em que vivemos.

Ao folhearmos as páginas deste livro, torna-se quase inevitável a eclosão de um sentimento de empatia para com o “fotógrafo da Maia”, como era amavelmente reconhecido Laudalino Pacheco. Descrito explicitamente como um homem dinâmico, muito divertido e trabalhador, facilmente se infere a sua extrema perspicácia e cultura. Hão de perdoar-me o lugar-comum, mas falamos de um homem bem à frente do seu tempo, um visionário e uma pessoa multifacetada. Para além da dedicação à família, às suas funções profissionais na Fábrica de Tabaco da Maia e à fotografia, Laudalino da Ponte Pacheco apoiou militares durante a Guerra, desempenhou funções de socorrista, foi dirigente desportivo e membro da Junta de Freguesia da Maia. Arrendava quartos a profissionais deslocados ou a turistas, era carpinteiro, cobrava e distribuía o Açoriano Oriental e o Correio dos Açores. Vendia rádios e distribuía tabaco pelos estabelecimentos comerciais da época.  Era um homem curioso e sagaz: montou na sua casa toda a instalação elétrica anos antes da eletricidade chegar à freguesia da Maia.

A nível histórico e antropológico, este será sempre um contributo formidável, já que nos oferece a representação pictórica detalhada de diversas vivências culturais e sociais de um passado que, embora nos pareça muito longínquo quer no tempo quer no espaço, a verdade é que não se passaram assim tantos anos desde aquela realidade que ali vem documentada. Por outro lado, a evolução das vias de comunicação permitiu encurtar distâncias, pelo que o locais retratados ficam sempre a poucos minutos de viagem.

 Esta obra deverá ser encarada como um veículo de conhecimento atual e perpétuo da vontade e da tenacidade daqueles inconformados que, antes de nós, mostraram querer e saber fazer mais pela sua terra. É a prova clara de que o progresso e a alteração de comportamentos e costumes são possíveis de forma harmoniosa e sustentável e que essa capacidade está na evolução das próprias pessoas.

Maria Emanuel Albergaria, Margarida Medeiros, João Leal, Laudalino da Ponte Pacheco 1963-1975, Araucária Edições, 2021

#livrosecoisasdessas



quarta-feira, 4 de maio de 2022

Calipso na ilha da Madeira


A antologia de contos 𝑪𝒂𝒍𝒊𝒑𝒔𝒐, editada pela Letras Lavadas edições e coordenada por Cláudia Ferreira Faria e Henrique Levy, foi lançada ontem na Madeira e surge hoje em destaque num jornal daquela ilha. É um gosto enorme poder participar neste volume, onde se reflete e escreve sobre vivências insulares no feminino!

domingo, 24 de abril de 2022

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor

Há livros marcantes pelo conhecimento que veiculam, outros pelas sensações que exortam. Há aqueles que se revelam úteis na usança quotidiana, e depois há aqueles que, de tão especiais, nos trazem à lembrança pessoas extraordinárias.



Este é um desses peculiares exemplos!

sábado, 23 de abril de 2022

“Viagens de um Artista Enquanto Jovem “

 


Foi um gosto enorme assistir ao lançamento da obra Viagens de um Artista Enquanto Jovem , da autoria de Carlos Carreiro. 

O lançamento ocorreu no Teatro Micaelense e a apresentação da obra ficou a cargo da escritora Maria Brandão.

Carlos Carreiro, Viagens de um Artista Enquanto Jovem, Artes e Letras, 2021

quinta-feira, 14 de abril de 2022

É Páscoa! Aleluia! Aleluia!


“(…) e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz.

Deus ressuscitou-O ao terceiro dia (…)”

São Lucas, Actos dos Apóstolos


 

Nove horas! Os sinos repicam no alto da torre sineira da velhinha Matriz de Paços de Ferreira.

É domingo de Páscoa!


Celebrada a missa pascal e anunciada a vitória da Vida sobre a morte, eis que surgem os primeiros sinais: os fiéis juntaram-se às centenas, dispersos pelo jardim municipal, mas todos de olhos pousados na saída do velho templo; todos, sem exceção, Lhe querem lançar um olhar respeitoso de alegria, de agradecimento ou admiração profunda.


Ouve-se a Banda Musical. Primeiro muito baixinho, depois, à medida que se aproxima, com mais clareza. Dirige-se à Matriz. Veio receber Cristo com as honras que Lhe são devidas.


Está tudo pronto!


Rompem no céu dezenas de foguetes. Os pássaros esvoaçam aturdidos e sem rumo. Dois ou três cães vadios correm sarapantados em direção ao velho carvalho centenário. Vão assustados! Ninguém sabe quem ou de onde foram lançados os foguetes, e as autoridades não se mostram muito consumidas com o facto! 


É Páscoa!


O cortejo que há de trazê-Lo às ruas abandona a Matriz. Já se vislumbram as crianças agitando ferozmente as sinetas que, a todos, hão de anunciar, ainda à distância, a aproximação da cruz. Por baixo da opa tingida de um vermelho já gasto, é vê-los todos aperaltados com roupas a estrear, mercadas de propósito para o domingo de Páscoa. Os mais avisados talvez se tenham lembrado de calçar uns sapatos usados, já feitos ao pé. Os mais incautos, coitados, hão de padecer! Mostram ainda o vigor que lhes escasseará logo mais, ao fim da tarde, pela hora de recolher, calcorreadas avenidas, ruas e vielas, praças, becos e travessas. A segui-las, dezenas de mancebos e homens já velhos: uns estreantes, outros repetentes. Também eles usam opas vermelhas. Os mais experientes assumem-se responsáveis pela transmissão do ofício aos mais novos e marcam o passo acelerado. Uns carregam o saco das ofertas. Coitados, são os “Judas”, como muitos fregueses lhes chamam. Nunca gostei da expressão e prefiro não a usar. Outros carregam uma pequena terrina de prata ou de estanho, onde vem santificada a água que há de benzer as casas da freguesia. Vêm lá também os leitores que, munidos de uma simples pagela, leem a oração em cada lar em que entram. E depois... bem... depois... anuncia-se o Juiz da Cruz.


Ei-Lo: Cristo que sai à rua e em breve entrará em nossas casas. Já falta pouco tempo.

As flores estão prontas. Este ano, a minha mãe colheu das azáleas brancas. Sabe que são as minhas preferidas. Foi o Filipinho, com a ajuda da Ritinha, que as acamou à entrada da nossa casa. Será por cima delas que Ele entrará!


O Compasso chegou!


É Páscoa, aleluia, aleluia!



terça-feira, 12 de abril de 2022

CONTUDO, ELA MOVE-SE… ELA, A MINORIA…

 


A publicação da revista “Atlântida” (edição LXVI), da responsabilidade do Instituto Açoriano de Cultura, assim como a chegada aos escaparates do número 5 da revista literária “Grotta”, surgida no âmbito do projeto “Arquipélago de Escritores”, foram motivos mais do que suficientes para trazer à lembrança a velhinha “Memória da água-viva”, dinamizada pelo “G.I.C.A. – Grupo de Intervenção Cultural Açoreano”, uma “revista açoreana de cultura” que tanta polémica espoletou no seio do mundo literário de então.

Por curiosidade, logo no editorial do número 0, datado de março de 1978, fazia-se referência a Galileu, citando-se a sua célebre tirada, “contudo, ela move-se…”, para se complementar, de imediato, “Ela, a minoria…”

Contornando-se quaisquer leituras políticas que possam chegar acopladas, há que reconhecer e lamentar que, tal como à data, também hoje aqueles que acreditam nestas coisas da Literatura, aqueles que ainda se deixam encantar pelas peças bonitas que se podem construir a partir das palavras representam uma ínfima minoria num oceano imenso de indiferença. É uma realidade e, por mais esforço que se faça, por mais que se trabalhe em sentido inverso, e há que reconhecer que muito se tem feito na ânsia de educar nessa vertente, os resultados tardam. É indesmentível o esforço que se faz no sentido de desenvolver nos jovens o gosto pela leitura, promovendo ao mesmo tempo o seu sentido estético e crítico; é inequívoco o dinamismo das nossas livrarias, assumindo não raras vezes o papel normalmente entregue aos centros de cultura; não olvidemos as editoras regionais que têm sido incansáveis no apoio e na promoção dos autores regionais, mais próximos do leitor; temos à disposição um Plano Regional de Leitura e uma Rede Regional de Bibliotecas Escolares que tanta diferença poderiam fazer nos hábitos dos nossos jovens alunos e leitores, houvesse nisso interesse político e fundos ajustados; existem diversas plataformas digitais que nos facilitam o acesso aos livros; temos diversas feiras do livro; recordemos os prémios literários que procuram homenagear aqueles que se fizeram maiores entre os pares. Lamentavelmente, ao nível das políticas educativas, e num arriscado relancear aos movimentos dos últimos anos, enveredou-se por caminhos sinuosos, arremessando-se milhões sobre o problema mas, quase quarenta e cinco anos após esse movimento minoritário, os indicadores educativos, culturais e sociais estão aí para quem os quiser analisar. O número que se queria aumentado, continua teimosamente num patamar menor, bastante aquém do que seria desejável numa região como os Açores.

Mas tenhamos fé. Continuemos a resistir e não esqueçamos de olhar e enaltecer aqueles que nos precederam; aqueles que, como então, continuam a remar contra a maré do alheamento e, em demonstração clara de vigor, continuam a semear, em nome de um bem maior, para além de seduzir outros a percorrer um trilho que se sabe árduo e de retorno curto.

“contudo, ela move-se…”, “Ela, a minoria…”

Move-se e tem desempenhado um trabalho assinalável. Dentre esses poucos, não há como deixar de referir os responsáveis e dinamizadores das revistas “Atlântida” e “Grotta” que, num esforço contínuo têm conseguido manter as respetivas publicações em patamares de considerável riqueza, manifestando-se no campo literário, de criação ou análise, no âmbito das Ciências Humanas ou outras. Nas edições deste ano, a aposta na vertente pictórica é também uma mais-valia considerável, sendo que, no caso da “Atlântida” vem toda engalanada com diversos trabalhos da autoria de Carlos Carreiro e, no caso da “Grotta”, se apresenta toda aperaltada com ilustrações de Pedro Evangelho Lopes.

 

Nuno Costa Santos (direção de), Grotta 5, Publiçor / Letras Lavadas Edições 2021/2022

Carlos Bessa (direção-geral), Atlântida LXVI, Instituto Açoriano de Cultura, 2021

terça-feira, 5 de abril de 2022

Avenida Marginal - O Comodato

Nutro um carinho especial pelo projeto 𝘼𝙫𝙚𝙣𝙞𝙙𝙖 𝙈𝙖𝙧𝙜𝙞𝙣𝙖𝙡𝙁𝙞𝙘𝙘̧𝙤̃𝙚𝙨, 𝙋𝙤𝙣𝙩𝙖 𝘿𝙚𝙡𝙜𝙖𝙙𝙖, da responsabilidade da editora Artes e Letras e, por isso, é uma honra enorme participar neste terceiro volume. «O Comodato» é o título do conto com que participo nesta antologia, ao lado de textos redigidos por contistas de excelência e pessoas de quem tanto gosto!

O lançamento da obra será amanhã, dia 06 de abril, pelas 18h30, no Anfiteatro Restaurante / Escola de Hotelaria, em Ponta Delgada.

Apareçam!

 

domingo, 20 de março de 2022

Avenida Marginal - Ficções Ponta Delgada


Acompanho o 𝘼𝙫𝙚𝙣𝙞𝙙𝙖 𝙈𝙖𝙧𝙜𝙞𝙣𝙖𝙡𝙁𝙞𝙘𝙘̧𝙤̃𝙚𝙨, 𝙋𝙤𝙣𝙩𝙖 𝘿𝙚𝙡𝙜𝙖𝙙𝙖 desde a sua génese e, por isso, mais do que um gosto, é uma honra das maiores poder participar neste grande projeto literário, ao lado de pessoas de quem tanto gosto!

Obrigado à Artes e Letras; obrigado, Maria Helena Frias.

 «O casamento deu-se por mor de uma antiga combinação entre dois velhos patriarcas. Embora fosse da conhecença a falta de afeição entre os nubentes, o pacto prevaleceu já que afiançava o direito de comodato sobre uns quantos alqueires de terra, bem no alto do Pico da Rocha da Relva. Em poucos anos de convivência conjugal, bem humedecida por um bafo másculo a aguardente de bagaço, um odor pestilento a cigarros caseiros e pela submissão no feminino, nasceram quatro filhos, mais uns dois — que se tenha sabido — que, pobres crianças, não chegaram a borrar fralda além do dia em que Albina os pariu.»

 

"O Comodato", Telmo R. Nunes (in) 𝘼𝙫𝙚𝙣𝙞𝙙𝙖 𝙈𝙖𝙧𝙜𝙞𝙣𝙖𝙡𝙁𝙞𝙘𝙘̧𝙤̃𝙚𝙨, 𝙋𝙤𝙣𝙩𝙖 𝘿𝙚𝙡𝙜𝙖𝙙𝙖 𝙉𝟯, Ed. Artes e Letras, 2022.


quinta-feira, 3 de março de 2022

Um Deus À Beira Da Loucura

 


«Para mim, o que nos acontecia era a confirmação do enorme fracasso do Homem como ser criado para a vida»

In Um Deus À Beira Da Loucura

 

Por altura do aniversário natalício de Daniel de Sá (2 de março de 1944) calhei retirar à estante uma das suas obras. O acaso trouxe-me Um Deus À Beira Da Loucura, novela publicada em 1990, e vencedora do Prémio “Nunes da Rosa”, daquele mesmo ano. Para o intento que me movera, aquele pequeno volume era perfeito. Subtraído o trecho pretendido, fotografei-lhe a capa – aliás, lindíssima, da autoria de Álamo de Oliveira –, e, ao devolvê-la, cuidei que seria da mais elementar justeza conceder-lhe um pouco mais de tempo e atenção, pelo que encetei uma nova leitura.

Embora não muito extenso, falamos de um texto robusto, gerado a partir de situações factuais e de reconhecido valor histórico, como é o caso do Holocausto ou “Shoa”, palavra hebraica usada pelos Judeus para designar aquele período, combinadas com outras de génese ficcional, mas igualmente significativas e que, em conjunto e num equilíbrio notável entre factos e ficção, sustêm uma narrativa bem representativa dos ideais de humanismo e religiosidade que todos reconhecemos em Daniel de Sá e na sua obra.

Lera-a havia já alguns anos, mas lembrava-me, ainda, com alguma clareza das categorias que a suportam: a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, a inominável inópia distintiva dos Campos de Concentração e, depois, a vivência pungente de dois condenados ao padecimento nazi. Imbuído pela aspereza do tempo retratado, ao que se juntou a recordação das anormalidades ali perpetradas, confesso que o reencontro com aquelas personagens me comoveu particularmente. Talvez a colossal ignomínia que, por estes dias, volta a assolar o Leste do velho continente europeu não seja alheia a esse sentimento. Por outro lado, convenhamos que é sempre muito custoso afastar da retina da memória a aflição daqueles seis milhões de pessoas que tombaram ante a loucura desmedida de uns desprezíveis nacionalistas.

            «A primeira vez que o vi claramente perturbado foi num dia em que nos obrigaram a trabalhar nos fornos crematórios. Era uma experiência a que não sei como se podia resistir. A visão daqueles corpos torturados, em que parecia que a morte não cumprira mais do que uma acção de misericórdia, apavorava. Era como se tivessem morrido muito tempo antes de pararem de respirar».

Não fiquemos, todavia, com a impressão de que o texto se esvazia com descrições aterradoras do que terá sido o tempo naqueles campos de morte. Embora também as haja, e de grande qualidade literária, o leitor é exortado a caminhar também por um percurso paralelo ao da narrativa da maldade e do ódio. Para tal, e como acontece um pouco por toda a sua obra, ora de forma mais velada, ora de forma mais explícita, Daniel de Sá socorre-se de referências bíblicas, dos ideais de Fé em Cristo e da confiança em Deus, no fundo, serve-se da sua própria religiosidade, enfatizando relações de proximidade e/ou afastamento entre Deus e o homem, para, dessa forma, procurar explicações plausíveis que justifiquem tamanha barbárie ali praticada.

«Se Deus serve para permitir que isto aconteça, mais valia não existir Deus nem homens.»

Valendo-se de um discurso expressamente filosófico, e numa análise à condição humana e às suas crenças mais elementares, Daniel de Sá idealiza um personagem místico, que afirma ser o próprio filho de Deus, Cristo feito homem e regressado para junto destes (o que se viria a reproduzir, mais tarde, na novela E Deus Teve Medo De Ser Homem), para, através da sua argumentação e atitude, explorar comportamentos humanos, ali pautados, fundamentalmente, pela fraqueza e pela descrença:

«(…) acusava ainda Deus, como sempre, da Sua culpa de não existir, e revoltava-me inutilmente contra os homens, que nos torturavam na mais absurda matança programada que o seu Deus inexistente consentira.»

Tenhamos presente ainda as interrogações lançadas sobre a origem dos seres, assim como a cuidada exploração da causalidade filosófica, numa tentativa clara de justificar o incompreensível:

«É fácil imaginar quantos pormenores tiveram de coincidir para que sobreviesse tal tragédia ao meu amigo. Bastava ter falhado um (…)»

Hoje, todos reconhecemos e nos indignamos com as constantes polémicas e, sobretudo, com os deploráveis oportunismos literários que envolvem a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, em particular. Ao contrário de tantos, Daniel de Sá consegue, de uma forma muito realista e precisa, retratar aquele período sem conceder espaço a cambiantes que derivem em deformações históricas ou suavizações convenientes. O seu discurso é perfeitamente capaz de conduzir o leitor na viagem ao interior daqueles espaços funestos por demais, sem permitir, todavia, brechas por onde se adentrem equívocos ou medrem ambiguidades e imprecisões. Este é um tema onde a parcialidade não pode florescer. Como nos alertou Simone Veil, ela própria prisioneira em Birkenau, «(…) não temos o direito de reescrever a História». Nesta novela, Daniel de Sá mostra-nos apenas como a tentou compreender.

 

 

Daniel de Sá, Um Deus À Beira Da Loucura, Secretaria Regional de Educação e Cultura, 1990

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

MADALENA

 



O primeiro contacto com a escrita de Isabel Rio Novo aconteceu não há muito tempo. Vivia-se já em época pandémica e ocorreu quando a autora principiou, numa rede social, uma espécie de diário intitulado Os Dias das Árvores. Estimulado pela sua escrita, seguiram-se as leituras dos romances Rio do Esquecimento, A Febre das Almas Sensíveis e, sobretudo, Rua de Paris em Dia de Chuva, um dos livros que mais apreciei naquele ano, aliás, finalista do Prémio Europeu de Literatura e do Prémio de Narrativa do PEN Clube, o que tão bem atesta a qualidade literária ali conferida.

Madalena (vencedor do Prémio Literário João Gaspar Simões) é o título do novo livro da autora, um empolgante romance lançado recentemente pela D. Quixote e que vem cimentar a posição cimeira que a autora ocupa no panorama literário português mais recente.

Servindo-se de um interessante manuseio da linha cronológica, Isabel Rio Novo assenta este romance em três momentos narrativos, expondo com detalhe e inquestionável brilhantismo, não apenas a história de uma professora doente oncológica, como também de grande parte da sua ascendência materna, até aos idos de 1920. Acontecimentos passados, outros presentes e outros ainda “vivenciados” sob a forma de sonho são desfiados ao longo da diegese, acabando por criar entre si sinergias temporais, que depois assomam a um tempo presente, onde tudo se integra e faz sentido, «como um rio certo, que corre da nascente à foz».

Iniciada a leitura de Madalena são percetíveis traços característicos da autora, destacando-se, desde logo, o recrudescido cuidado com que se mune, domina e relaciona informação detalhada e fidedigna sobre o narrado, conferindo-lhe, dessa forma, uma veracidade, dir-se-ia, quase sensorial. Noutros trabalhos seus, sublinhou-se a mescla entre uma «(…) escrita romanesca e escrita biográfica, em aliança, com um surpreendente registo autobiográfico», neste particular, considerando a invocação prévia da memória dos avós, tem-se como possível que a autora tenha combinado factos reais, fundindo-os com expediente ficcional.

Se em termos temáticos poderíamos ser levados a pensar que a obra se atém a um sofrido rol das vivências oncológicas desta jovem professora de História, a verdade é que somos amplamente surpreendidos por uma robusta análise à condição humana e à forma como encaramos a vida e a morte. Somos chamados à razão quando nos mostram que o tempo que nos resta na âmbula da vida pode «assumir novas dimensões»; é-nos dado o alerta, a todos nós – incautos –, que pensamos «na morte como numa dívida distante». Isabel Rio Novo soca-nos as convicções e as falsas seguranças, lançando à vitrina da vida a imprevisibilidade da nossa própria finitude, «Se as pessoas soubessem que iam morrer, se as pessoas soubessem que iam morrer, não suportariam as suas vidas.» Todavia, são também narradas histórias de vida e formas mais ou menos dignas de as vivermos. São apresentadas relações marcadas pelo mistério, pela traição, pela tragédia e pela morte, mas também outras pautadas pela dedicação familiar e pelo amor conjugal. Para tal, é desenvolvida a eterna dicotomia entre o bem e o mal, entre o correto e o pernicioso, consubstanciando-se estas posições pelo antagonismo que representam personagens extremamente bem caracterizadas e que assumem posições antípodas perante vivências múltiplas, como sejam o matrimónio ou a parentalidade, por exemplo.

Uma palavra ainda para a capa do livro, adornada por uma belíssima reprodução da obra «Les feuilles mortes», uma escolha absolutamente pertinente e que, de todas as formas, introduz o leitor pela temática do próprio texto.  

Apropriando-me de uma expressão utilizada bastas vezes por um crítico literário português, creio ser seguro afirmar que, hoje, ler Isabel Rio Novo já se tornou numa «experiência literária» de excelência, dada a sua constante pertinência e originalidade. Embora não tenha lido ainda toda a sua obra ficcional, não me custa reconhecer que a mesma se sustenta em níveis de qualidade evidentes e ao alcance de uns poucos virtuosos.

 

Isabel Rio Novo, Madalena, D. Quixote, 2022


segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

FECHADURA DO CORVO

 



Notava Raul Brandão em «As Ilhas Desconhecidas» que «nunca houve no Corvo um assassinato ou um roubo», ideia reforçada posteriormente por Guilherme de Morais, que, na sua obra «Ilhas do Infante», se referiu àquela ilha como «um viveiro das mais lídimas virtudes dos velhos portugueses.» 

Certo é que as portas corvinas, mesmo escancaradas, ostentaram durante anos, fechaduras artesanais, feitas de madeira e equipadas com um sistema muito simples, montado com uma pequena tranca e uma chave, também elas de madeira. Hoje, a par dos barretes típicos dos corvinos, as fechaduras assumem-se como verdadeiros ícones identitários da vida sociocultural da ilha, um tesouro que merece ser preservado.


Esta tarde, a buzina do carteiro trouxe-me a minha réplica. Fez-ma o David T.P., da Carpintaria Corvo, e enviou-ma com grande requinte e amizade!

Visitem-no aqui: https://www.facebook.com/Aparas-de-Madeira-Woodworking-solutions-107331895003302

domingo, 9 de janeiro de 2022

CINEMA AO DOMINGO DE MANHÃ


Talvez por hoje ser domingo e eu ter sido roubado ao sono pelo cacarejar inclemente dos vinte mil galos que o nosso bom vizinho da frente mantém soltos no palco em que se tornou a nossa rua, ou simplesmente por ter sido assaltado pelas saudades da minha infância, lembrei-me das manhãs de domingo dos meus cinco, seis e sete anos de idade. Sem esforço sou atirado ao passado e passo a habitar novamente a casa da rua da Bela Rosa, contribuindo sobremaneira para o frenesim que a distância de trinta e muitos anos não conseguiu silenciar. Era o dia de Missa para os meus pais, e, mais do que tudo o resto, era o dia do cinema para nós os três.

Em movimentações que enchiam a casa, o meu pai buscava na paciência da minha mãe o último aprumo no nó da gravata ou a vitória sobre aquele vinco que teimava conspurcar a alvura da camisa, enquanto ela, num corrupio, se arranjava e ultimava o almoço que a R.M. deixara adiantado de véspera, antes de abalar de fim de semana. Ao Cláudio, ao Filipe e a mim cabia-nos deixar a mesa posta. Normalmente, com a presença dos meus avós eram sete os pratos que preenchiam a mesa de alegria e sorrisos. Hoje já não são tantos!

- Vamos embora, que está na hora, meninos! – advertia o meu pai.

Era já em transe que entrávamos naquele Renault 4L que o meu pai manteve a brilhar durante mais de vinte anos. O que eu gostava daquele carro! Entre os três, lutávamos para saber quem ocupava o lugar das pontas, junto aos vidros e quem seguia sentado no lugar do meio, muito menos confortável e sem grande visibilidade para o exterior. Talvez por ser o mais novo e, por isso, desprovido de grande argúcia, era normalmente eu quem perdia a contenda e me via arrumado entre os meus irmãos. A minha mãe era sempre a última a chegar. De todas as vezes, tínhamos de a esperar e, não raras ocasiões, o meu pai via-se obrigado a soar o cláxon do Renault, o que a deixava furiosa! Seja como for, a espera valia sempre a pena. Assim que batia com a porta de casa e nos captava a atenção, era vê-la chegar deslumbrante, dando corpo à finura e ao bom-gosto, e quando se adentrava no veículo, o seu perfume inebriava-nos os sentidos.

Da rua da Bela Rosa até à avenida Antero de Chaves - homem importante e da família -, a viagem não demorava mais do que cinco minutos de recomendações e alertas: «Se o filme terminar antes da Missa, não saiam da frente da porta»; «Nada de tratantadas»; «Juízo», eram algumas das advertências gastas a cada semana.  A sala de cinema ficava no antigo quartel dos Bombeiros Voluntários de Paços de Ferreira, e, chegados, era um gosto ver a criançada a lançar-se dos carros (alguns ainda em movimento) em direção à bilheteira, procurando garantir um lugar no balcão, onde a visibilidade sobre a sala era muito melhor e a elevação lhes conferia a falaciosa ideia de superioridade sobre os espetadores que se sentavam na plateia. Por norma, era o meu pai que nos pagava o bilhete da sessão, por isso, vexados que ficávamos por lhe pedir mais dinheiro, era a minha mãe que nos adocicava o palato, dando-nos vinte ou trinta escudos para comprarmos as pipocas mais doces de que tenho memória.

Encontrados os lugares certos, sentia-se a efervescência da amizade, ao mesmo tempo que se travavam as guerrilhas mais atrozes que se possam imaginar: sobre as nossas cabeças, nuvens de milho estourado voavam de um lado para outro, pelo menos até as luzes se apagarem e reclamarem assim a atenção de todos para a exibição que, em segundos, teria início.

Que saudades dos domingos de manhã da minha infância, que saudade daquelas sessões de cinema que começavam assim que o meu pai entreabria a porta do meu quarto e, com a doçura da sua voz, anunciava que estava na hora de acordar.  

 

fotografia: https://www.jornaldosclassicos.com



terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O Pirata das Flores

 



O Pirata das Flores foi o último romance lido no ano que findou, tendo sido também o primeiro contacto com a obra ficcional de Tiago Salazar. O móbil que me alavancou o interesse foi a apresentação do livro em Ponta Delgada, da responsabilidade da florentina Ana Monteiro, e que ocorreu integrada no evento literário «Arquipélago de Escritores». Recordo o entusiasmo com que a apresentadora se referiu ao texto, e, sem dúvida, o modo pertinente como o enquadrou no tempo e no espaço; a forma como deu a conhecer aquelas gentes – que são também as suas gentes –, assim como sublinho a exatidão do detalhe histórico, cultural e geográfico que ali foi assinalado.

Trata-se de um romance histórico e de aventura que expõe a viagem do florentino António de Freitas que, desiludido com as aprendizagens e os saberes ministrados no Seminário de Angra e revoltado com o seu «medíocre destino», decide virar o curso da sua vida e embarcar em demanda de apetecíveis tesouros e outras riquezas, entregando-se, pois, ao corso, à pirataria, no fundo, convertendo-se ao crime em busca desse garante financeiro. Tiago Salazar, lisboeta e autor, entre outras, das obras A Escada de Istambul e O Magriço, estrutura o seu último romance em duas partes distintas, ocupando-se a primeira dos antecedentes e de todas as peripécias da viagem, destacando-se as diversas etapas e aventurosos encontros até alcançar os mares do Oriente, e a segunda dedicada à vivência em Macau, onde António de Freitas e o seu fiel companheiro abriram todas as portas e cometeram todos os pecados na busca obstinada de riqueza.

Naturalmente de ficção, a obra em apreço (lavrada num registo leve, mas muito cuidado, especialmente no campo lexical) inspira-se na figura histórica de António de Freitas, um açoriano da ilha das Flores, nascido já nos finais do século XVIII e que, pelas razões já referenciadas, se tornou num famoso pirata que terá feito fortuna com todo o tipo de negócios ilícitos, destacando-se o tráfico de ópio (embora na altura regularizado), as casas de jogo, os bordéis ou a compra de crianças pagãs.

Ao contrário do que seria expectável, António de Freitas permitiu-se regressar a casa, desembarcando na ilha das Flores a salvo com a família e com todos os seus haveres acumulados, decorria o ano de 1846. Talvez buscando expiação, dedicou-se à filantropia e empenhou parte da sua fortuna proporcionando a todos condições de vida mais condignas, destacando-se a construção de uma igreja, pela qual o lugar do Mosteiro viu a sua elevação a freguesia, por decreto de Dona Maria II, no ano de 1850.

Os restos mortais de António de Freitas encontram-se depositados na ilha das Flores, num túmulo sem quaisquer epitáfios visíveis, mas ornado pelo cruzar de duas tíbias encimadas por uma caveira, símbolo inequívoco da pirataria. Neste romance, e com um (grande) esforço por apartar do olhar da consciência a forma como António terá atingido os seus intentos, consegue-se captar o seu espírito: aguerrido e aventureiro, pertinaz e sonhador, afinal, características inerentes a todo o povo açoriano, que, desde há muito, busca na emigração o sustento das suas ânsias.

Tiago Salazar, O Pirata das Flores, Oficina do Livro, novembro de 2021

sábado, 20 de novembro de 2021

PONTA DELGADA EM FOTOGRAFIA


Sebastião Salgado, consagrado fotógrafo brasileiro, afirmava que as suas «fotografias são um vetor entre o que acontece no mundo e as pessoas que não têm como presenciar o que acontece». Dito de outra forma, certamente mais tosca e simplista, uma das conveniências da fotografia passará pela representação de pontes, de travessias que nos permitem chegar até realidades distintas e, muitas vezes, inalcançáveis, seja pela acentuada lonjura geográfica, ou pela eternização de um rasgo histórico temporalmente distante. É precisamente o que acontece na obra em apreço. Num livro-objeto de qualidade superior e graficamente muito bonito são-nos oferecidas perspetivas sobre urbe de Ponta Delgada, desde 1860 até 1960, melhor dito, são-nos dadas a conhecer as diversas reconfigurações da cidade de Ponta Delgada, que se compreendem entre meados do século XIX, até meados do século XX, ou como previne o autor, será um trabalho «balizado por dois eventos marcantes na memória da cidade: primeiro a construção do porto artificial, cuja pedra inicial foi lançada em Setembro de 1860, e, segundo, a obra da Avenida Infante Dom Henrique, cujos trabalhos, iniciados em 1948, se prolongaram por toda a década de 1950-1960».

O lançamento deste álbum de memória ocorreu recentemente na Igreja de Todos-os-Santos, reconhecida por muitos como Igreja do Colégio dos Jesuítas, um espaço singular, carregado de história e que, curiosamente, surge também retratado em algumas das composições que integram o livro. Segundo Pedro Pascoal de Melo, o autor, em nota preliminar, a obra «Ponta Delgada: Memórias Fotográficas (1860-1960) pretende consubstanciar, em papel e de forma perene, a exposição com o mesmo nome – inserida nas comemorações do 475º aniversário da elevação de Ponta Delgada a cidade (…) numa organização conjunta da Câmara Municipal de Ponta Delgada e do Instituto Cultural de Ponta Delgada».


A obra surge-nos dividida em capítulos, ocupando-se cada um com determinado espaço geográfico ou perspetiva o que, em boa verdade, se afigura como um suporte de enorme valia na perceção e localização exata dos espaços. Para mais, cada fotografia é acompanhada por informações adicionais, em formato de legenda (em muitos casos cruciais, considerando realidades profundamente transformadas), onde, além de aspetos técnicos a considerar, se poderão também colher informações históricas de relevo e que nos guiam através de uma viagem ao passado dos nossos próprios lugares, acrescentando-lhes substância, conferindo-lhes interesse, ou, em muitos casos, revelando particularidades até agora ocultadas pela névoa do desconhecimento.


Pela quantidade e, sobretudo, pela qualidade do acervo aqui trabalhado, apresentado e documentado, esta obra assume-se como um marco referencial no estudo histórico-cultural da cidade de Ponta Delgada, não apenas no que ao edificado concerne, mas também no âmbito dos seus usos e costumes, tradições e festividades. Algumas das imagens que fazem desta obra uma obra tão singular eram já conhecidas do grande público, outras há que, sendo parte integrante de coleções particulares, se apresentam como inéditas, pelo que apreciá-las se revelou um gosto imenso. Neste particular, permito-me destacar a espetacularidade das imagens presentes no capítulo «A Cidade Vista do Céu», assim como um friso, em formato de apêndice, composto por um conjunto de seis imagens e que representa toda a orla marítima de Ponta Delgada, entre o Forte de São Brás e a Calheta de Pêro de Teive, vista, naturalmente, do mar.


Ponta Delgada: Memórias Fotográficas (1860-1960) é a representação atual e perpétua da vontade e da tenacidade daqueles que, antes de nós, mostraram querer e saber fazer mais da nossa cidade; é a prova evidente de que o progresso e a adaptação dos espaços são possíveis de forma harmoniosa e sustentável e que essa capacidade está na evolução das próprias pessoas. Como refere Maria José Lemos Duarte, antiga Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, em nota introdutória, «Que este livro (…) nos orgulhe pelo seu caminho percorrido e nos inspire pela coragem do seu sonho feito obra».  


A terminar, um especial agradecimento aos fotógrafos e colecionadores destas belíssimas imagens que aqui nos são emprestadas, assim como uma particular congratulação ao autor, aos promotores da obra e à respetiva editora pelo magnífico trabalho concebido.


Pedro Pascoal de Melo, Ponta Delgada: Memórias Fotográficas (1860-1960), Artes e Letras Editora, setembro de 2021

domingo, 14 de novembro de 2021

MORREU O SENHOR CUSTÓDIO

 


Melhor dito, morreu-me o senhor Custódio. Foi a minha mãe quem me deu a notícia, aliás, tem sido ela, coitada, a assumir a funesta missão de me trazer o pesaroso desaparecimento dos vizinhos da minha infância. Pessoas amigas que são avós, pais, mães, tios de outros tantos amigos de sempre. Um após outro, são cada vez mais aqueles que partem, o que faz com que eu seja cada vez menos, diminuído pelas vivências que com eles seguem para a dimensão seguinte, reduzindo-me à inevitabilidade da solidão. Dir-me-ão que me restam as memórias, mas a memória é bem mais verosímil quando partilhada, quase como em um diálogo onde são necessários dois interlocutores, onde um vai confirmando a premissa do outro, caso contrário, não se distingue da ficção mais ou menos fundida por lembranças esbatidas ou caldeadas por afetos e saudades.

Julgo que já se rezou a missa do sétimo dia pela sua alma. Tive muita pena dele, coitado do senhor Custódio! Cabisbaixo e de feição fechada de onde só muito excecionalmente nascia um sorriso, gostava muito de mim e dos meus irmãos. Era uma figura solitária que sempre me intrigou. Víamo-lo sempre sozinho, ao longe nos campos, ora de fardo de palha às costas, ora com elas vergadas a arrigar à terra as daninhas que ameaçavam cobrir o cebolo. Outras vezes, víamo-lo a roçar erva ou a carregar sacas de farinha que trazia do moinho dos Costas, no regato da Cerejinha. Em dias de chuva dedicava-se às gamelas de cimento e, embora não lhe conhecesse quaisquer animais, nunca lhe faltavam comedouros e bebedouros para vender. Sabia fazer de tudo, mas confesso que nunca vi ninguém podar uma vinha com a destreza com que ele o fazia: lançava a escada à banca da ramada, por vezes arriscava até no bardo e, como a um maestro, era um gosto vê-lo esbracejar por entre a folhagem que se ia soltando e vestindo o chão com cores outonais. Não abrandava nem parava; não se distraía do trabalho e só lhe ouvíamos a voz quando precisava que lhe chegássemos mais um molho de fiteiras com que amarrava as vides, direcionando-as pelos arames certos e protegendo-as dos rigores do inverno.

Durante anos, tal como o senhor Albino, a senhora Glória da Ribeirinha, o senhor Abel ou o Chico da senhora Aurora, o senhor Custódio nunca faltou a uma sementeira ou a uma apanha da batata na nossa casa, e em setembro era vê-lo chegar à vinha, silencioso, de escada de doze ao ombro e uma tesoura de poda na mão, pronto para arrancar à ramada as americanas mais doces. Mesmo assim, nunca soube muito mais acerca dele. A verdade é que nunca me questionei; sempre julguei que conhecia tudo o que havia para conhecer sobre aquela figura esguia, de palavras poucas e pele curtida pela aspereza da jorna. Agora que é já tarde demais percebo o erro e arrependo-me por não ter arriscado as perguntas certas! Não sei, sequer, se a sua partida deixou uma viúva ou até prole que lhe chore a ausência a cada dia. Hei de perguntar à minha mãe, talvez ela saiba.

Na minha rua, morreram-me a senhora dona Aurora e a senhora dona Glória, o senhor Avelino e a senhora dona Rosa, o senhor Henrique, o senhor José e o senhor Bernardino, morreu o senhor Arnaldo, o senhor António e agora o senhor Custódio… Com eles vai morrendo também parte da minha infância, e até o tímido caudal de água que, esforçado, impelia a mó contra a dureza do milho enxuto na eira, secou de tristeza e o moinho, que antes cobria de alvura o senhor Custódio, ficou por ali, largado à imensidão do abandono…

sábado, 6 de novembro de 2021

RAMPAS E GUITARRAS

 



Hoje, enquanto regressava a casa, vi o R. e fiquei verdadeiramente desolado. Foi meu aluno há muitos anos, pelo que andará agora pelos trinta e poucos. Seguia com a companheira, que não terá celebrado ainda os vinte e cinco, embora ninguém arrisque menos de quarenta.

Não me recordo que ele tivesse sido um bom aluno, mas sei que era um moço de categoria: vivia cheio de sonhos e parecia ter vontade de os concretizar. Certa vez, pediu-me e a outra colega que lhe redigíssemos um projeto que engendrara para a construção de um Skate Park, bem no centro da freguesia. «Se for uma coisa bem amanhadinha, o Presidente da Junta paga as rampas, professor! É só trabalhar nisso!», garantia com a voz polida pela esperança num futuro promissor. Infelizmente para o R., não se concretizaram nem as rampas, nem o futuro.

Encontrava-me parado no trânsito quando o vi passar. A humidade pesava e a quentura era farta, mas isso não parecia incomodá-lo. Ao primeiro vislumbre percebi que continuava a sobreviver no lado de lá, na margem mais triste e mais negra da vida, e o seu aspeto cada vez mais debilitado e cadavérico não agoirava nada de auspicioso. Seguia de passo em brasa pela Rua da Boa Nova, em direção à zona da Pranchinha, pois claro! Cruzei-me com ele defronte do Estabelecimento Prisional e não consegui evitar de pensar na ironia daquele andamento fugidio, precisamente ali, naquele espaço onde reina a reclusão. Fiquei com a leve impressão de que também me vira. Todavia, tolhido talvez por uma réstia de discernimento, preferiu cravar a vergonha no chão a ter de enfrentar a minha expressão. Mentira-me na última vez que faláramos, e, ainda assim, senti-me tocado pela compaixão. Não terminara o seu tratamento, nem estava curado. Não procurara emprego, nem ajudara a companheira a percorrer os trilhos da desintoxicação. Também não procuraram recuperar os filhos que, em boa hora, os senhores da Lei colocaram a salvo, abrigados sob a asa protetora da família mais próxima.

Depois de abandonar a escola, ainda o soube entretido entre a música e o arranjo caseiro de automóveis. O R. era habilidoso na mecânica e desenrascado com a guitarra. Julguei que seria esse o rumo que tomaria. Afinal, a Escola não lhe falhara miseravelmente. Havia Valores em desenvolvimento e um cidadão em formação.

Entretanto, seduzido pela ilusão do “amor e uma cabana”, saiu de casa e depressa veio a prole: nasceu um, depois outro e ainda mais um, e com eles chegaram todos os encargos e obrigações, assim como os primeiros desleixos e outras incúrias bem mais graves…

Trouxe-me à realidade o cláxon do Fiesta que desesperava numa das perpendiculares. Desculpando-me, ainda lancei o olhar ao retrovisor, perscrutando, mas já não os vi. Senti pena dele. Sabia que dali a uns minutos – poucos – estaria caído numa qualquer valeta, vencido pelo insidioso logro de um mundo benévolo, sem responsabilidades, nem deveres. Já o via submergir num oceano intrujão, iniciando mais uma viagem trapaceira a um lugar onde espero que haja, pelo menos, umas rampas ou umas guitarras com que o R. possa, enfim, aprender a brincar com os filhos.

 

Ao R., aluno e amigo.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

METROSIDERO DA ESCOLA DA MAIA

 


Enquanto aguardo por mais uma reunião, daquelas que prometem, com afinco, acabar com o insucesso dos alunos, deixo cair os olhos sobre o recreio da escola e demoro-me a pensar na sorte que aqueles miúdos têm por usufruírem de um espaço daqueles. Ao contrário do que se percebe em outras paragens, encontra-se enraizada neles uma cultura de preservação dos espaços e do edificado; percebe-se um sentido de responsabilidade e respeito pelo que lhes pertence a todos, e talvez seja esse o segredo da Escola da Maia que, já entrada na segunda dezena de anos de vida, ostenta ainda um aspeto apreciável, exibindo-se toda aperaltada a quem nela perlongue o olhar. Mérito da educação e cidadania de quem por lá cresceu e daqueles que ainda ali calcorreiam o seu percurso de vida. 


Para além de uma elegante fachada, um aspeto cuidadosamente asseado e muito mais que se poderia acrescentar, recebe-nos, à direita de quem entra, um majestoso Metrosidero excelsa, um magnífico exemplar desde sempre muito estimado por toda a comunidade. Como retribuição, esta árvore de porte assinalável, cuida-nos diariamente do olhar, acariciando-o com a sua beleza extraordinária. Já ali trabalhei com os alunos algumas vezes, abrigados à sombra da sua frondosa roupagem. Foram aulas de poesia, penso. Cuidei que dessa forma pudesse contar com a sua ajuda na inspiração dos jovens poetas e não me enganei. De todas as vezes, os resultados superaram as expetativas, e nem as abelhas que por ali abundam, impediram o alumiar daquelas pequenas centelhas poéticas, instigadas, por certo, pelas mágicas faúlhas daquela árvore de fogo, como também é conhecida. 


Gosto muito daquele Metrosidero. Desperta-me a curiosidade e, ao contrário de outras árvores que se mostram robustas ou bonitas, o Metrosidero da Escola da Maia exibe força e beleza a partir de um corpo singular. A ciência de quem os estudou antes de nós ensina-nos que se conseguem adaptar a diversas contrariedades; dizem-nos, também, que são árvores rijas, vigorosas e que superam quase todas as adversidades que se lhes impõem: resistem a tempestades, vencem a salinidade excessiva, crescem e florescem em solos pobres e de nutrientes parcos. Há aqueles que conseguem crescer em rochas, veja-se!


É com um olhar de esperança lançado pela janela da sala onde aguardo por mais uma reunião, daquelas que prometem, com afinco, acabar com o insucesso dos alunos, que me dou conta das similitudes entre o Metrosidero da Escola da Maia e grande parte dos nossos alunos. Um e outros lutam com apego contra os reveses que a vida lhes apresenta, mas sem nunca esmorecer, resistindo estoicamente.  Alturas haverá de galhos mais secos ou flor mais mirrada, mas mesmo sem aquelas condições que se julgam ser as ideais, um e outros hão de medrar e de florescer. Do pouco, fazem muito e vão resistindo, superando-se e reinventando-se. Do pouco, fazem muito e vão mimando o olhar de quem por ali vai ficando e os vai vendo crescer.


📷 https://jb.utad.pt/especie/Metrosideros_excelsa

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

«NÃO HOUVE SUCESSO COM O PROSUCESSO»



É uma das frases que podemos ler na edição de hoje do Açoriano Oriental, integrada no Relatório da Avaliação Externa do ProSucesso. Embora seja um crítico acérrimo deste documento e de grande parte das medidas e/ou projetos lá inscritos, desde a sua discussão pública em 2015, penso que ninguém na Região poderá estar satisfeito com as conclusões que nos são apresentadas por este relatório, elaborado pela UAç.


A verdade é que perdemos muito tempo e gastámos muitos recursos, sem que as tão almejadas metas – as intermédias – tenham sido amplamente alcançadas, pelo menos com a seriedade que se impõe! E não se perspetiva, também, que as finais venham a sê-lo. Atendo-me à realidade que conheço e com a qual trabalho há muitos anos de forma séria e exigente, não se alavancou coisa nenhuma, pelo contrário. Aos motivos de preocupação à data, aditam-se agora outros, fruto, sobretudo, da permissividade e um certo facilitismo subjacentes a algumas das medidas e/ou projetos descritos naquele malogrado programa, muitos daqueles adotados em diferentes Unidades Orgânicas. Pelo contrário, outros que até se revelaram de grande valia, foram, paradoxalmente, desaparecendo à medida que os bons resultados iam surgindo. Lembro-me, por exemplo, do “Crédito Horário” atribuído a algumas áreas curriculares disciplinares, e que tanto contribuía para a consolidação efetiva de conhecimentos e desenvolvimento de competências. 


“Uma manta de retalhos”, assim se referiu a nova Secretária de Educação aos projetos integrados neste ProSucesso. Não que se revista de grande novidade para quem olha e pensa a Escola, mas, após a leitura da informação veiculada hoje, o sentimento que perpassa é a desilusão. Não obstante, considerando que os atores que tutelam a Educação são agora outros, e que estarão verdadeiramente preocupados com as aprendizagens e competências dos alunos, oxalá não se perca aqui mais uma oportunidade de se valorizar a Escola e a Educação nos Açores. Tomara que se vislumbre, de uma vez por todas, a direção do foco das medidas a implementar. Creio que fica agora mais claro que o problema nunca esteve em Conselhos Executivos e, muito menos, nos professores ou na qualidade da sua docência. A verdade é que, dos elencados no Prosucesso, os Eixos de Ação onde, realmente, se viu empenho e trabalho foram o da «promoção do desenvolvimento profissional dos docentes», e o «foco na qualidade das aprendizagens dos alunos», o que é o mesmo que dizer que os professores foram os únicos comprometidos com «a redução da taxa de abandono precoce da educação e da formação» e com «o aumento do sucesso escolar em todos os níveis e ciclos de ensino, em sintonia com a Estratégia Europeia para a Educação e Formação, Europa 2020».


Reitero o que pensava há seis anos, por altura da discussão pública deste documento: “Há que criar oportunidades para que os alunos possam ultrapassar as suas dificuldades, há que investir no garante de horas docentes para o devido acompanhamento aos alunos em dificuldades. Há que perceber que só se melhora treinando. Há que perceber que a escola não pode ser um espaço de recreio constante, nem de ocupação de tempos livres.”, assim como há que incentivar e premiar o esforço e o empenho. Há que perceber ainda que, embora os recursos sejam limitados, os fundos canalizados para a educação terão de ser encarados como investimento e nunca como despesa. 


Como em Governos anteriores, voltou a pedir-se, muito recentemente, um pacto de regime em torno da Educação. Embora tenha sérias dificuldades em crer neste tipo de acordos, considerando que os próprios políticos envolvidos dificilmente se alinham em alguma matéria, estou expectante que desta vez sejam ouvidos, com atenção, aqueles que trabalham todos os dias com os alunos e que, com eles, vão tentando conquistar um futuro promissor e de verdadeiro sucesso pessoal e profissional.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

O Cão Dos Olhos Dourados

 

João de Melo é, como sabemos, um dos expoentes mais cintilantes da nossa riquíssima Literatura portuguesa contemporânea. É um autor que reúne consenso. Quando dele ou da sua obra se fala são sempre os bons adjetivos que emergem e adornam a conversa. Lembro-me de ter falado com ele uma vez apenas, na Livraria Leya SolMar, em Ponta Delgada. Um encontro casual, muito breve e marcado pelo embaraço que me embargou a voz e turvou o pensamento durante todo o tempo. Recordo que nesse dia corroborei a boa impressão que já havia formulado acerca do homem além do autor: afável, educado, ponderado e sempre com uma palavra de incentivo dirigida a quem o interpela. Não será por mero acaso que outros grandes do panorama literário português se lhe referem como “mestre”.

Por estes dias, está o autor novamente de parabéns. O seu mais recente romance, Livro de Vozes e Sombras foi reconhecido com mais um galardão. Após o “Grande Prémio de Literatura dst”, chega agora o “Prémio Literário Urbano Tavares Rodrigues”. Um justo reconhecimento considerando a riqueza (literária, estética, histórica…) daquela obra. Talvez agora possamos deixar cair, em definitivo, aquela ideia de que a sua obra completa ficaria, para sempre, refém do seu livro Gente Feliz Com Lágrimas.

À margem destes títulos de grande fôlego, João de Melo encontrou ainda tempo para nos surpreender com a sua primeira narrativa infantil, O Cão Dos Olhos Dourados, publicado em agosto, pela D. Quixote. Com a qualidade de escrita que todos lhe reconhecemos e à qual já nos habituou, mas completamente acessível a leitores mais novos, João de Melo dá-nos a conhecer a singular história de um cão muito especial. É-nos contada a fantástica aventura de "Nick", um cão “pacífico, mansinho” a quem só “lhe faltava falar”. A narrativa é apresentada de forma emotiva e sempre muito comprometida, ficando essa função a cargo de um pai de família, claramente tocado pelo amor, e que, de forma pedagógica, procura resolver todos os problemas à medida que estes vão surgindo. Coincidência, ou talvez nem tanto, o livro, lançado em agosto, aborda de forma muito evidente a questão do abandono dos animais, um flagelo que se repete anualmente, durante o período das férias de verão e que traz à montra da vida a negligência de alguns adotantes. Para além da amizade e do amor, do companheirismo é a pedagogia da adoção responsável que aqui está bem vincada o que, tratando-se de um livro destinado a crianças e jovens, se reveste de uma valia assinalável, considerando o contributo prestado à formação e desenvolvimento de personalidades.

Procurámos tentear a leitura desta obra e conseguimos que durasse alguns dias. Em todos, a exploração do texto foi consubstanciada por momentos muito agradáveis e vividos em família. Lemos o "Nick" (como nos pedia o pequeno Filipinho) a três vozes: a da mãe, a minha e a dele, que através das belíssimas ilustrações de Célia Fernandes, também já recriava e nos narrava as aventuras do seu próprio Nick.

De facto, e como tão bem o regista João de Melo, «As crianças hão de ser sempre a promessa e a esperança de um mundo melhor para os homens e para os animais». Por esta razão e por tantas outras, ao autor é agora reclamada a continuidade da escrita dentro deste mundo mágico que é a Literatura infantojuvenil.

João de Melo, O Cão Dos Olhos Dourados, D. Quixote, agosto, 2021


domingo, 19 de setembro de 2021

Maldita Heroína

 

«Não serve de desculpa. Há pessoas em situações piores e não se metem na droga, mas, como tenho experiência com droga, tenho este escape.»

In publico.pt 

Numa altura em que a pobreza espreita a cada esquina, e o desemprego emerge de um momento para o outro; numa época em que a depressão familiar e a inversão de valores se entranham pelas frinchas mal calafetadas da vida e, num período em que o Estado Social parece resignado a serviços mínimos, muitos têm sido aqueles que, caídos em desespero e, sem esperança de amparo, buscam na fugacidade de um consolo intrujão o alienar dos problemas quotidianos. Partem na ânsia do esquecimento, na esperança do reencontro com momentos prazerosos e, invariavelmente, aterram nas agruras mais vis que se possam imaginar.

Fruto de toda esta conjuntura começa a ser por demais conhecida, e até bastante alarmante, a massificação de recaídas de muitos dos sobreviventes ao flagelo das drogas nos idos anos 80 e 90 do século passado, com especial incidência nos casos de heroinómanos.

Descobrir uma veia onde ainda seja possível receber com aquele agrado a fininha agulha e… deixar-se ir… partir numa jornada traiçoeira em busca da doce euforia voltou a ser a rotina de milhares de pessoas.

Em Portugal, na época áurea destes consumos, não obstante todas as políticas de combate (e algumas bem agressivas, que resultaram mesmo em cisões sociais entre os que olhavam os toxicómanos como doentes e os outros que os viam como meros criminosos), 1% da população consumia ou consumira heroína, pelo que encontrar uma família onde esse flagelo não se fizesse sentir, revelava-se uma tarefa complicada. Lia-se que a heroína não sendo exclusiva dos “feios, porcos e maus”, era uma epidemia transversal à sociedade, agravada por todos os outros problemas associados: absentismo escolar, roubos, tráfico, alcoolismo, VIH, hepatite C, overdose… morte! Segundo João Goulão – Diretor Nacional do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências –, “duas gerações foram dizimadas por consumos descontrolados”, e muitas mais seriam desse-se o caso de não se concluir atempadamente que a prevenção, assim como o acompanhamento destas pessoas, deveriam ser permanentes na agenda política do nosso país. Com efeito, deu-se um pequeno brilharete: reduziu-se a percentagem de mortes por consumo de heroína a 0,5% da população, o que provocou de imediato a visibilidade mundial do nosso país.

Na atualidade constata-se que o número de novos consumidores de heroína não é tão significativo como outrora, – os novos toxicómanos optam por um policonsumo que, não sendo tão agressivo como o da heroína, levanta também algumas discussões bem urgentes – mas a questão agudiza-se se nos cingirmos ao atual número de recaídas dos que há duas ou três décadas eram os junkies que semeavam o medo pelas principais ruas das nossas cidades. Hoje, toxicodependentes com 40 ou 50 anos de idade, assim como os seus médicos acompanhantes e outros responsáveis, apontam a situação de crise económica como um dos principais fatores para estas recaídas: o difícil acesso aos cuidados de saúde e o fim de alguns apoios têm dificultado, em larga medida, a recuperação plena destes indivíduos, e estarão na origem do triplicar das recaídas.

Numa sociedade onde a escassez de dinheiro impera, a capacidade de resposta destes serviços tão especializados tem, inevitavelmente, falhado, o que condiciona sobremaneira o tratamento continuado destes indivíduos. Se antes se assistia, por exemplo, à discriminação positiva destas pessoas em recuperação, nomeadamente em termos de empregabilidade, dizem os responsáveis que face à taxa de desemprego generalizada “não existe o à-vontade necessário para que se batam por esta questão”.

Antes elevado a inimigo público número um, e gastos milhões em prevenção e apoios sociais, o consumo desta droga parece agora suscitar pouco interesse nas pessoas com responsabilidades políticas e na sociedade em geral. É certo que outras necessidades bem mais prementes estão na calha – há hoje gente a passar fome – no entanto, urge a disponibilização de esforços, a articulação de estruturas de saúde que garantam, uma vez mais, respostas eficazes a estas pessoas. Importa impedir o recrudescimento deste flagelo, sob pena de assistirmos ao ruir de todo o esforço financeiro e social feito por aqueles que antes de nós tanto trabalharam pela erradicação do consumo desta maldita heroína!