domingo, 19 de setembro de 2021

Maldita Heroína

 

«Não serve de desculpa. Há pessoas em situações piores e não se metem na droga, mas, como tenho experiência com droga, tenho este escape.»

In publico.pt 

Numa altura em que a pobreza espreita a cada esquina, e o desemprego emerge de um momento para o outro; numa época em que a depressão familiar e a inversão de valores se entranham pelas frinchas mal calafetadas da vida e, num período em que o Estado Social parece resignado a serviços mínimos, muitos têm sido aqueles que, caídos em desespero e, sem esperança de amparo, buscam na fugacidade de um consolo intrujão o alienar dos problemas quotidianos. Partem na ânsia do esquecimento, na esperança do reencontro com momentos prazerosos e, invariavelmente, aterram nas agruras mais vis que se possam imaginar.

Fruto de toda esta conjuntura começa a ser por demais conhecida, e até bastante alarmante, a massificação de recaídas de muitos dos sobreviventes ao flagelo das drogas nos idos anos 80 e 90 do século passado, com especial incidência nos casos de heroinómanos.

Descobrir uma veia onde ainda seja possível receber com aquele agrado a fininha agulha e… deixar-se ir… partir numa jornada traiçoeira em busca da doce euforia voltou a ser a rotina de milhares de pessoas.

Em Portugal, na época áurea destes consumos, não obstante todas as políticas de combate (e algumas bem agressivas, que resultaram mesmo em cisões sociais entre os que olhavam os toxicómanos como doentes e os outros que os viam como meros criminosos), 1% da população consumia ou consumira heroína, pelo que encontrar uma família onde esse flagelo não se fizesse sentir, revelava-se uma tarefa complicada. Lia-se que a heroína não sendo exclusiva dos “feios, porcos e maus”, era uma epidemia transversal à sociedade, agravada por todos os outros problemas associados: absentismo escolar, roubos, tráfico, alcoolismo, VIH, hepatite C, overdose… morte! Segundo João Goulão – Diretor Nacional do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências –, “duas gerações foram dizimadas por consumos descontrolados”, e muitas mais seriam desse-se o caso de não se concluir atempadamente que a prevenção, assim como o acompanhamento destas pessoas, deveriam ser permanentes na agenda política do nosso país. Com efeito, deu-se um pequeno brilharete: reduziu-se a percentagem de mortes por consumo de heroína a 0,5% da população, o que provocou de imediato a visibilidade mundial do nosso país.

Na atualidade constata-se que o número de novos consumidores de heroína não é tão significativo como outrora, – os novos toxicómanos optam por um policonsumo que, não sendo tão agressivo como o da heroína, levanta também algumas discussões bem urgentes – mas a questão agudiza-se se nos cingirmos ao atual número de recaídas dos que há duas ou três décadas eram os junkies que semeavam o medo pelas principais ruas das nossas cidades. Hoje, toxicodependentes com 40 ou 50 anos de idade, assim como os seus médicos acompanhantes e outros responsáveis, apontam a situação de crise económica como um dos principais fatores para estas recaídas: o difícil acesso aos cuidados de saúde e o fim de alguns apoios têm dificultado, em larga medida, a recuperação plena destes indivíduos, e estarão na origem do triplicar das recaídas.

Numa sociedade onde a escassez de dinheiro impera, a capacidade de resposta destes serviços tão especializados tem, inevitavelmente, falhado, o que condiciona sobremaneira o tratamento continuado destes indivíduos. Se antes se assistia, por exemplo, à discriminação positiva destas pessoas em recuperação, nomeadamente em termos de empregabilidade, dizem os responsáveis que face à taxa de desemprego generalizada “não existe o à-vontade necessário para que se batam por esta questão”.

Antes elevado a inimigo público número um, e gastos milhões em prevenção e apoios sociais, o consumo desta droga parece agora suscitar pouco interesse nas pessoas com responsabilidades políticas e na sociedade em geral. É certo que outras necessidades bem mais prementes estão na calha – há hoje gente a passar fome – no entanto, urge a disponibilização de esforços, a articulação de estruturas de saúde que garantam, uma vez mais, respostas eficazes a estas pessoas. Importa impedir o recrudescimento deste flagelo, sob pena de assistirmos ao ruir de todo o esforço financeiro e social feito por aqueles que antes de nós tanto trabalharam pela erradicação do consumo desta maldita heroína!


quinta-feira, 17 de junho de 2021

«UM TEMPO A FINGIR», de João Pinto Coelho



Dúvidas subsistissem sobre o virtuosismo literário de João Pinto Coelho, o autor – galardoado com o Prémio Leya em 2017– tê-las-ia pulverizado, por completo, com o seu último romance Um Tempo a Fingir, publicado em outubro, pela D. Quixote.

Com a Segunda Guerra Mundial a surgir como pano de fundo, é aqui urdida uma narrativa robusta, que assenta no entremeio de relatos distintos sobre o desenrolar da ação: ora por Annina ora por Ulisse Bemporad, dois irmãos judeus italianos, oriundos de uma pequena localidade montanhosa, na Toscana Italiana.

Esta é uma obra densa, repleta de factos históricos marcantes, associados a outros nascidos a partir da imaginação do autor, e que atuam ao serviço da progressão narrativa. Embora estejamos ante um romance de grande fôlego, não se vislumbram aqui quaisquer pontas soltas que coloquem em causa a coesão e/ou coerência textual, pelo contrário, tudo faz sentido, tudo é verosímil, sem que nunca se tropece na pobreza do expectável: o leitor é continuamente surpreendido ao longo do texto. Como se tal não fosse já bastante, a riqueza e a pujança do discurso são notórias ao longo de toda a obra, e, mesmo sendo profundamente marcado por sentimentos de ódio, inveja ou vingança, e conhecendo-se as atrocidades cometidas ao povo judeu durante este período, esta é uma obra onde, de muitas formas, é o bem que vence o mal, onde à força bruta e máscula, muitas vezes se impõe uma sensibilidade determinada e vestida no feminino.


João Pinto Coelho, Um Tempo a Fingir, D. Quixote, outubro de 2020


domingo, 30 de maio de 2021

A Madrugada em Birkenau

 


 

 

«Não posso aceitar ser tocada. Evito ir ao cinema quando há uma fila de espera.  Quando se foi tratada como carne, é muito difícil convencer-se que se permaneceu um ser humano.»

 

in A Madrugada em Birkenau

 

                Sem quaisquer receios de cair na pobreza do lugar-comum, é justo afirmar-se que esta obra, agora publicada pela Quetzal, vem enriquecer o conjunto de documentos que importa conhecer sobre os anos da guerra e as consequências que daí advieram. A par das brilhantes narrações de Primo Levi, de Herta Müller, Laurence Rees ou de João Pinto Coelho, por exemplo, é-nos agora dada a conhecer a obra A Madrugada em Birkenau, redigida com base no relato de Simone Veil (francesa, judia, presa e deportada), assim como nos testemunhos de amigos seus que, como ela, sobreviveram às atrocidades perpetradas pelo movimento nazi.

Todos reconhecemos e nos indignamos com as constantes polémicas e, sobretudo, com os deploráveis oportunismos literários e outros em torno das questões que envolvem a II Guerra Mundial, o Holocausto ou Shoa ou a banalização do uso, por meros desígnios economicistas, da palavra Auschwitz. Eis-nos, por isso, desembocados num tempo em que se torna imperioso amplificar a voz daqueles que não procuram outra coisa além de perpetuar a memória – clara e precisa – do que foi o período mais negro da nossa História recente, sem conceder espaço a cambiantes que derivem em deformações históricas ou suavizações convenientes. Por respeito à memória dos mais de seis milhões de pessoas que pereceram, não devemos permitir brechas por onde se adentrem equívocos ou medrem ambiguidades e imprecisões. Este é um tema onde a parcialidade não poderá florescer. Como nos alerta a autora de grande porção dos testemunhos aqui reunidos, «(…) não temos o direito de reescrever a História.»

Trata-se de um volume em notória contracorrente, já que dá a conhecer, em primeira pessoa e escusando-se a discursos eufemísticos ou encardidos por sentimentalismos pacóvios, as atrocidades que marcaram a realidade dos judeus franceses, não apenas ao longo do período de Ocupação, mas também nos difíceis anos que se lhe seguiram. Aliás, a pujança e autenticidade destes relatos vão um pouco mais além, ao ponto de, em consciência, repor a verdade de factos brotados do imaginário de alguns e consagrados em obras tidas como best-sellers mundiais: «É preciso que se diga que encontrar qualquer pedaço de jornal era algo excecional. Fico espantada quando ouço alguns falarem de bibliotecas e de livros que liam nos campos.»

A obra abre com a narração impressionante da magistrada Simone Veil, a «personalidade preferida dos franceses», em 2010, abordando os anos da sua infância em Nice, junto da família, mas prossegue, depois, até às perseguições raciais que marcaram a atuação do Nacional Socialismo um pouco por toda a Europa. Descreve, por vezes de forma arrepiante, mas crível, a sua detenção, o desmembramento do seu núcleo familiar e a posterior deportação em condições absolutamente animalescas, assim como a vivência horrífica em diversos campos de concentração. Prossegue com a narração do regresso e o problemático retomar de vidas que haviam ficado em suspenso, para culminar, com alguns testemunhos clarividentes, mas igualmente chocantes de outros sobreviventes próximos de Veil, manifestados em jeito de diálogo com a antiga Presidente do Parlamento Europeu, e com David Teboul, redator desses testemunhos.

«Deste legado, não me é possível dissociar a lembrança sempre presente, obsessiva, mesmo, dos seis milhões de judeus exterminados pela única razão de serem judeus.» Simone Veil, falecida em 2017, com noventa anos de idade, deixa-nos aqui um verdadeiro alerta: é importante que estejamos cientes dos riscos que todos corremos ao permitirmos o recrudescimento de movimentos políticos similares aos que estiveram na origem destas barbáries. Parece-me, por isso, muito avisado manter estes testemunhos à superfície da lembrança, alertando os mais jovens e, sobretudo, os mais incautos ou desiludidos que nada devem tomar como garantido. Não esqueçamos que, hoje, em Auschwitz, o relvado é cuidado, há árvores e «até o arame farpado parece sereno», mas, não há assim tanto tempo, «O campo era o cheiro dos corpos que ardiam.»

 

 

Simone Veil, A Madrugada em Birkenau, Quetzal Editores, maio de 2021

 

Telmo R. Nunes

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Vasco Pereira da Costa

 


A propósito de Nas Escadas do Império, da autoria do virtuoso poeta, ficcionista e artista Vasco Pereira da Costa, escreveu Santos Barros:

«Não custa muito admitir que as letras açorianas ganharam, neste ano de 1978, novo fôlego com a edição em quantidade de livros a que não falta qualidade. Avultarão, por certo, dessa dezena e meia de títulos, duas obras, de ficção, verdadeiramente extraordinárias - previne-se que, uma vez por outra surgem obras merecedoras do emprego de palavras cuja justeza não obriga a temer-se o desgaste do lugar-comum. E porque são «verdadeiramente extraordinárias» as sublinho, repetindo-as. Uma, é a colectânea de contos Nas Escadas do Império de Vasco Pereira da Costa (...)».

Se além desta nos referirmos também a outras obras posteriores, como Plantador de Palavras Vendedor de Lérias, de 1984 ou Memória Breve, de 1987, parece-me muito ajustado confirmar que a «mina» literária que este autor terceirense tem vindo a escavar ao longo dos anos, se tem revelado muito profícua, tendo há muito ultrapassado «o limiar das «promessas»», elevando-o ao lugar de relevo que hoje deve ocupar, junto dos melhores contistas açorianos e nacionais.

Estamos a falar de um conjunto de contos soberbo, digno de reedições atualizadas, sob pena de, impunemente, silenciarmos uma voz que, além de nos encantar com o brilhantismo da sua poesia, se destaca como um dos grandes contadores de histórias do nosso tempo.

É uma pena o incompreensível alheamento que se abate sobre ele e a sua obra.

Vasco Pereira da Costa, Nas Escadas do Império, Centelha, Coimbra, 1978


sexta-feira, 2 de abril de 2021

AS ILHAS DE GUILHERME DE MORAIS

 


«(…) é que estas terras, eleitas de Deus, são ainda desconhecidas dos próprios açorianos, perdidos uns nos outros na bruma das ilhas afastadas.

Os açorianos são, infelizmente, os primeiros a desconhecer os Açores, isolados nos seus alcantis, como se cada ilha fosse um País diverso e longínquo.

Por isso todo o açoriano devia fazer o cruzeiro das suas ilhas: para decorar o poema de beleza que existe em cada uma, para escutar a alma que palpita em todas – Portugal.»

Embora não seja muito frequente e talvez até pouco avisado abrir um comentário a uma obra literária fazendo uso de um trecho tão extenso, a verdade é que não há como ficar indiferente à mensagem ali registada. Sendo certo que na primeira metade do século passado esta premissa teve um alcance, seguramente, bem mais amplo, a verdade é que não se evidencia nela quaisquer imprecisões, volvidos que estão quase noventa anos desde a sua redação original. 

A obra Ilhas do Infante, da autoria de Guilherme de Morais (editada pela primeira vez pela Livraria Editora Andrade, em Angra do Heroísmo) é o resultado de uma série de crónicas publicadas na imprensa regional açoriana, fruto de um cruzeiro a bordo do vetusto Vasco da Gama, o «velho Pimpão da Heróica Marinha de Guerra Portuguesa», decorria o ano de 1932. A viagem pelas ilhas celebrava «patrioticamente o V Centenário do seu Descobrimento», numa altura em que se apontava 1432 como a data de descoberta das ilhas açorianas.

Para além do texto original de Guilherme de Morais, em boa hora recuperado pela editora Artes e Letras, este excelente volume integra também três textos introitos: um da autoria de Urbano Bettencourt, onde tece preciosas anotações de contexto, adiantando também algumas de índole mais analítica,  outro da responsabilidade de José Henrique dos Santos Barros, anteriormente publicado no seu O Lavrador de Ilhas – I, e intitulado «Os Açores Num Livro de Viagens Dum Escritor Açoriano Injustamente Esquecido», onde se pode confirmar que o livro se lê «(…) ainda hoje, com bastante interesse», e outro, ainda, sob forma epistolar, em cujo remetente Ruy-Guilherme de Morais, filho de Guilherme de Morais, autor da obra original, partilha, com soberbo brilhantismo literário, informações sobre a vida e obra do seu falecido pai, com quem apenas conviveu durante seis anos, em consequência do precoce desaparecimento de Guilherme de Morais aos trinta e três anos de idade.

Qualquer um destes relatos conduz os leitores a uma narrativa de viagem verdadeiramente extraordinária, abrindo-lhes possíveis perspetivas de leitura ou, ao invés, condicionando-a irremediavelmente, sobretudo, pelas constantes alusões que são feitas às similitudes com a muito interessante obra Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão. Aliás, é o próprio Guilherme de Morais que, na sua narrativa e por diversas ocasiões (talvez em demasia), faz referência à obra de Brandão, publicada em 1927, cerca de cinco anos antes deste seu cruzeiro pelas ilhas açorianas.

Ainda que encarasse os Açores como «uma visão do Paraíso», e visse este como um «livro de paisagens», a riqueza deste Ilhas do Infante encontra-se alojada, sobretudo, na leitura que conseguir penetrar além do ato meramente descritivo e contemplativo, pese embora, este, per se, seja já digno de assentamento. Servindo-se muitas vezes de uma linguagem luxuriante, mas nem por isso menos lúcida, Guilherme de Morais dá-nos conta desta sua «peregrinação sentimental» pelo arquipélago (que muito lhe exaltou o «açorianismo»), não olvidando de, a trechos, lançar o seu olhar expositivo e, subliminarmente, crítico sobre a vivência social, económica, política, no fundo, sociológica, nos Açores, na primeira metade do século XX.

Esta é uma obra que precisa de ser lida com calma, (re)construindo mentalmente cada imagem, saboreando cada descrição, para assim conseguir trazer à memória cada recanto, cada visão, cada ângulo ou ponto de vista descritos. Mesmo considerando a incompletude em termos de ilhas (encontra-se omissa a narração da visita à ilha Terceira), assim como as diferentes “profundidades” consignadas a cada ilha (fruto, sobretudo, do tempo de estada do Vasco da Gama em cada porto) este relato propicia uma visão distinta do arquipélago e, mesmo os afortunados que já calcorrearam as nove ilhas que o compõem, terão aqui uma oportunidade de se apropriar de uma outra visão que lhes é oferecida a partir do longínquo ano de 1932. Para aqueles outros que se encontram em processo de “ilharização”, esta obra reveste-se, então, de uma valia redobrada, dando-lhes a conhecer uma visão do passado que sustenta hoje a realidade que todos conhecemos.

Apreciei sobremodo todos os capítulos, «Intermezzo», incluído; de todos retirei considerações, mas, não há como deixar de enaltecer a atenção conferida à ilha de Santa Maria, da qual destacaria o excerto dedicado a São Lourenço: «Se me preguntarem onde está o segredo, o "quid" desta maravilha, não saberei dizer, ninguém o saberá dizer. É talvez este conjunto desarmónico, este destrambelho de cores, atropelando-se, repelindo-se, o verde das vinhas em luta com o vermelho vivo dos telhados, com o azul do mar e o ouro da praia e tudo isto, afinal, confundindo-se, amalgamando-se ao mesmo tempo, num gral imaginário onde os olhos se perdem, numa visão daltónica, tontos de beleza emotiva.

Há paisagens que se não pintam porque não há cores que as possam trasladar, com fidelidade, da natureza. Essas, só a música, na sua portentosa faculdade interpretativa, as pode reproduzir.

S. Lourenço pertence ao número das paisagens musicais».

A par da refinada prosa poética que perpassa toda a obra, esta edição contempla ainda um conjunto de doze sonetos que atesta a «alta sensibilidade» de Guilherme de Morais e que comprova também que o seu desaparecimento precoce parece ter ceifado ao solo de criação açoriano o brilhantismo de uma pena que ainda teria muito para oferecer. Cabe-nos congratular aqueles que, sabiamente, souberam resgatar a sua obra do esquecimento, trazendo-a aos escaparates da vida, repondo, dessa forma, alguma justiça na injustiça com que se reveste sempre uma morte prematura.

 

Guilherme de Morais, Ilhas do Infante,  Artes e Letras, 2019

quinta-feira, 25 de março de 2021

MORANGOS DO OESTE

 



Ontem, cumpridas todas as responsabilidades profissionais, cada vez mais distanciadas e desinteressantes, e as outras de índole pueril e de alegre proximidade – que incluem a substituição da fralda (felizmente, sem grandes malefícios olfativos), a renovação da vestimenta e o lanche adequado a um bojo cada vez mais requintado e ditador – , esperámos pela hora certa e, assim que a Susana “arriou do serviço” (usando a vetusta expressão da minha avó materna), rumámos a oeste, até à freguesia da Candelária. Decidimos visitar, enfim, a quinta do senhor Cláudio e arrigar-lhe à terra uns quantos morangos para sobremesa. Já muito me tinham dito acerca da simpatia do senhor Cláudio, da sua inusitada forma de receber bem as pessoas que lhe assomam à porta, mas nunca tivera a oportunidade de lhe estender a mão num cumprimento afetuoso. Por via do vírus que a todos amedronta, também não lha estendi ontem, mas o nosso olhar disse tudo. Ficou genuinamente feliz por nos receber e nós genuinamente felizes por ali estarmos. Feitas as apresentações, quis falar com o Filipinho e dedicou-lhe mais tempo do que seria expectável. Conversou e brincou com ele e, claro, ganhou-lhe a confiança. Em boa verdade, a nossa também. Abriu-nos as portas da sua exploração morangueira, explicou-nos o negócio, falou-nos de um revés que tivera devido a uma intempérie, mas do qual não valia a pena falar muito, porque já passara, mostrou-nos os morangos mais doces e, depois de nos esclarecer sobre como se colhem sem danificar a planta, foi-se embora, lançando-nos um inesperado «fiquem à vontade, comam os que quiserem e, se precisarem, eu estou por aí». 

Quando este inverno pandémico tiver abalado, sucumbido à bruxaria mais bondosa que a ciência há de conseguir parir, havemos de nos deter, encarar o passado e, de lá, resgatar tudo o que de bom tivermos conseguido criar, vencendo dessa forma e em absoluto este combate que dura há já tempo demasiado. Torna-se imperioso, por isso, construir hoje as lembranças futuras e, sobretudo, continuar com a nossa preciosa responsabilidade de proporcionar aos nossos filhos essa construção. O Filipinho adorou. Comeu uns quantos morangos e escolheu outros tantos para trazer para casa, por isso, estou certo de que uma das suas memórias boas será o dia de ontem, o dia em que fomos à quinta do senhor Cláudio, onde colhemos da sua amizade e genuína simpatia.

Visitem a quinta do senhor Cláudio. Fica aqui: https://www.facebook.com/Quinta-Por-do-Sol-Produ%C3%A7%C3%A3o-de-Morangos-979849788764912/?ref=py_c

segunda-feira, 22 de março de 2021

HERÓIS AO DOMINGO

 


O Filipinho dorme. Retempera energias do frenesim matinal. Oiço-lhe a respiração através do comunicador instalado no seu quarto e aquieto-me. Deixo cair, então, o olhar sobre o relvado recém cortado e percebo uma bola esquecida entre o baloiço, cada vez mais pequeno, e um jovem carvalho-alvarinho que tarda a florescer. Aquele golo marcado de pé direito assinalou o fim da brincadeira e, ao chamamento da Susana, preparamo-nos para o almoço.

Ao regressar, pela primeira vez e sem que nada o fizesse prever, disse-me que eu era o seu herói.... O seu herói, eu? Enchi-me de orgulho e senti uma incontrolável vaidade. Sem saber bem como lhe responder, abracei-o e lancei-lhe uma generosa porção de beijos. Claro que nos atrasamos para o almoço, mas é domingo e o Filipe disse-me que eu era o seu herói e aos heróis tudo se perdoa!

A minha Primavera não começa hoje; dura há quase três anos!

quinta-feira, 18 de março de 2021

Manual dos Dias Cavos


Os poetas - bem sabemos - são almas generosas, mas há uns que teimam em ser mais poetas do que outros! O professor Emanuel Jorge Botelho é um destes, ele que passou a "dar a cada palavra a [sua] palavra de honra".


FOLHA DE CÁLCULO


resta-me uma aspa

para fechar o dia de hoje,

e um naco de amargura

capaz de dobrar a noite


já não sei chamar pelo nome

as palavras com que me digo,

aquelas a que a mão, rasa de tempo,

ia dando casa na memória


os dias são agora coisa que me custa,

demoras de gosto ácido

hasteadas no logro da alegria


é tão bom olhar-te de mansinho, meu amor,

e esperar que o silêncio

traga o pó que nos protege. 


«Manual dos Dias Cavos», Emanuel Jorge Botelho, Averno, 2021

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

AVENIDA MARGINAL - FICÇÕES, PONTA DELGADA

 

Não há muitos dias, e a propósito de um outro livro, contrariei a opinião, cada vez mais arreigada, de que o conto estaria ultrapassado, que se encontraria em franco declínio e de morte anunciada por não ser vendável nem atrativo aos olhos dos leitores. Continuo a pensar da mesma forma. O género está vivo e a verdade é que nos têm chegado obras de qualidade superior que comprovam esse vigor literário.

O mais recente exemplo e, seguramente, um dos mais aguardados, foi o Avenida Marginal - Ficções, Ponta Delgada, que segue já no seu segundo número, sucedendo ao do ano de 2019 e que inaugurou uma série fascinante e que se espera duradoira.

Se a estreia da coletânea se deu com a pujança e sucesso que todos reconhecemos, colocando o desafio dos “novos” num patamar de excelência, os contistas deste ano não se atrapalharam e conseguiram manter a fasquia o que, em abono da verdade, se afigurava tarefa hercúlea.

Assumindo novamente o ar de homenagem à cidade mais populosa dos Açores, esta compilação reúne a voz de onze autores tão singulares como João de Melo, Judite Canha Fernandes, Catarina Ferreira de Almeida, João Pedro Porto, Eleonora Marino Duarte, Daniela Sousa Medeiros, Bernardo Rodrigues, Diogo Ourique, Gina Ávila Macedo, Ana Monteiro ou Daniel Gonçalves. Tal como no número que lhe antecede, repete-se a aposta numa mescla de nomes consagrados com outros que, não sendo escolhas óbvias, se mostraram capazes de, fruto do trabalho, empenho e, inevitavelmente, bastante talento, conferirem aos seus textos versatilidade criativa, assumindo-se aptos a “criar ficções densas e muito bonitas, enredos curtos mas largos em significado, o que me parecem ser condições fundamentais na produção textual dentro desta tipologia ou género literário de características tão peculiares”.

Como diria uma amiga e profunda conhecedora da literatura de raiz açoriana, confesso que apreciei sem qualquer moderação os onzes contos que nos são apresentados e, de todos, retive considerações que guardarei apenas na memória, assim me instiga a civilidade e o facto de não querer assumir o ingrato papel de spoiler perante os futuros leitores da obra. Não obstante, quero sublinhar a coragem com que se traz à esfera literária (e também pública) temáticas que, por representarem lutas pessoais, ganham aqui redobrado valor!

Com este segundo número de Avenida Marginal – Ficções, Ponta Delgada, esta coletânea cimenta a sua posição no rol de iniciativas que engrandecem literariamente o arquipélago, a par de outras, das quais se destacariam os Colóquios da Lusofonia, o Arquipélago de Escritores, os diferentes Prémios Literários, a Festa do Livro dos Açores ou o Plano Regional de Leitura.

Esta obra vem corroborar a ideia, cada vez mais assumida, de que urge olhar o arquipélago literário dos Açores além de Antero Quental, Natália Correia ou de Vitorino Nemésio. Apesar de considerar que a estes se devam reservar lugares cimeiros e reguladores, há muitos valores a despontar e outros já bem vincados neste chão a que muitos já arriscam chamar de literatura açoriana. Procuremo-los, com a garantia de que as nossas ânsias literárias não sairão defraudadas, bem pelo contrário.

Está de parabéns a editora Artes e Letras, na pessoa da Maria Helena Frias, que soube “resistir e insistir”, apesar de todas as adversidades. Como ela: “Queremos literatura. Queremos cultura.”

Avenida Marginal – Ficções, Ponta Delgada |n.º 2, Artes e Letras, 2020  
#livrosecoisasdessas

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

A Nova Índia aos Olhos de Anamika

 


Não há muito tempo li um livro que adorei. Babyji, exemplarmente redigido por Abha Dawesar, escritora indiana duma capacidade de escrita muito acima da média. É daqueles livros que nos agarram desde a primeira página até à última (340).

Devo dizer que quando o comprei, tinha apenas como referência uma breve, mas muito cativante sinopse publicada na Visão, mas decorrendo a acção na Índia, mais me “aguçou o apetite”, isto porque sou simplesmente doido por aquele país, aquela cultura fascina-me desde longa data.

Anamika, ou Babyji, como carinhosamente é chamada pelos que lhe são mais próximos, vive em Nova Deli e é uma estudante excepcional, é genial a Física Quântica, adora estudar, e procura sempre superar tudo e todos para não desapontar ninguém, já que é olhada por seus pares como exemplo a seguir. Mantém com a directoria da escola onde estuda uma relação muito próxima, já que representa todos os estudantes do seu colégio. Sente-se orgulhosa disso mesmo, é o orgulho dos seus pais, mas sente o peso que acarreta, a posição que ocupa na sua micro – sociedade.

“Em casa, lê o Kamasutra às escondidas e, no seu esforço para crescer, atrai as atenções de homens e mulheres, rapazes e raparigas. Ávida de experiências e saber, questiona a justiça e a relevância do sistema de castas indiano, o conservadorismo do país e questões morais e intelectuais tais como a homossexualidade e a religião.” É descrita uma adolescente que para além de sofrer com as mudanças próprias inerentes à sua idade, é ainda perturbada por uma inteligência e espírito crítico muito acima da média, muito além do que a sua idade lhe deveria exigir! Os próprios amigos de Anamika não a entendem quando os questiona sobre algo, está quase sempre para além do seu conhecimento, mas não a criticam por isso. Admiram-na!

Babyji, não encontrando as respostas que pretende pelos meios convencionais, procura-as de outras formas. Será através da prática sexual que vai encontrar muitas das soluções aos seus problemas.

Ousada, já que o sexo é, ainda hoje, tema tabu neste país de raízes tão peculiares, esta adolescente, em busca de si própria envolve-se em diversas relações de amor, umas hetero, outras homossexuais, o que lhe poderia valer a qualquer momento fortes reprimendas e mesmo castigos demasiado pesados para a sua inocência. Desafiou toda uma moral intrínseca, duma sociedade ultra – conservadora, uma família regida pelos velhos costumes, mas descobre sempre aquilo a que se propõe.

Romances com as mais cobiçadas colegas do colégio, com o detestável rufia da escola, com a empregada da sua casa, amores escaldantes com amigas de sua mãe ou com o pai do seu melhor amigo, Anamika, passa a encarar cada relação sua como uma panóplia, como uma fonte de respostas à sua mente tão ávida de conhecimento adulto, conhecimento que não considera de forma nenhuma ser precoce.

Realmente a não perder. É adorável, entusiasmante, embora considere que por algumas vezes a autora se tenha deixado levar pela paixão, pelo querer expor o que tanto se preza naquele país por manter escuso ao resto do mundo: o preconceito ou em última análise o racismo advindo única e simplesmente de forma hereditária ou por via das tradições.

A história em si é mesmo bastante agradável à leitura recreativa, mas o que mais me apaixonou nesta obra foi indubitavelmente a forma como a Abha tão bem soube caracterizar a sociedade indiana actual.

Muito embora não tenha sido uma nova descoberta, a forma como é descrita a estratificação da sociedade em castas é deveras adorável. O preconceito dos Brâmane (ricos e nobres) face ao pobre e às profissões consideradas menos relevantes, a superstição daqueles em relação aos desfavorecidos e o nojo com que são olhados os Párias ou os condenados aos trabalhos mais sórdidos e mal pagos, é retratada de uma forma avassaladora, muito cuidada e extremamente elucidativa.

Abha Dawesar consegue despir todo um país de forma sensual, e põe a nu, aos olhos do mundo, todo o preconceito que em pleno século XXI ainda existe no seu país natal.

Objectivo alcançado, já que segundo a própria, foi a isso mesmo que se propôs inicialmente.

Eu recomendo!

 Abha Dawesar, Babyji, Edições Asa, 2007

Telmo R. Nunes a 18/04/08


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

After Dark: Os Passageiros da Noite

 


Sempre que conversávamos sobre Literatura o diálogo recaía invariavelmente no mesmo autor: Haruki Murakami.

            - Já leste algum livro dele? Qual o que mais gostaste? – Perguntava com um brilho nos olhos, com um entusiasmo que nunca lho reconhecia noutros escritores.

            - Não! Ainda não o li. – Respondia com uma pontinha de vergonha pautada por um trago seco e tímido, típico de quem deveria já ter feito alguma coisa importante mas que, sem qualquer razão aparente, ainda não o fez... O meu constrangimento adensava-se à medida que o seu alvoroço crescia nos relatos que ia fazendo de todas as obras suas que lera. Contava-me praticamente todo o enredo dos livros, fazia-o mesmo sem se aperceber, para no final rematar com a frase “ (…) mas não me quero alongar mais, não vá demolir-te agora o prazer de uma excelente leitura!”.

            Confesso que numa das últimas vezes que procurei a minha livraria, lembrei-me dessa minha grande amiga e, por ela, estive com uma obra dele entre mãos, “Kafka à Beira-Mar”, um texto de 2006 e, porventura, o seu maior sucesso, mas devo dizer que não o trouxe, embora não me assole agora o motivo pelo qual isso aconteceu. Em abono da verdade não me recordo do título pelo qual o decidi trocar, conquanto nunca o tenha revelado antes.

            Incrédula com a minha quase teimosia, com a minha forte resistência em ler o seu herói, essa grande amiga e companheira de viagens literárias, decidiu ofertar-me com, segundo ela, uma relíquia, uma obra-prima do seu autor predilecto. – “Já não tens desculpa! Agora lê e diz qualquer coisa depois. Se não valesse a pena não te falaria nele” – aditou ela ao embrulho que me acabava de dar.

            Num aspecto, pelo menos, sabia que tinha razão, se não houvesse ali qualidade, nunca me iria falar dele!

            Assim, o título da oferta era o mesmo que presta título a este texto, “After Dark – Os Passageiros da Noite” – e devo dizer que até a composição exterior é bastante agradável à vista, o que, infelizmente, não consigo ainda deixar de prestar atenção no momento da compra.

            Claro está que antes de começar, procurei aqui e ali por informação relativa ao que iria ler e, devo dizer que a primeira impressão com que fiquei foi pouco auspiciosa. Lembro-me mesmo de pensar que o enredo desta obra era manifestamente pouco interessante – um relato iniciado e terminado numa noite apenas. Como pano de fundo a cidade de Tóquio e todas as vivências possíveis numa noite/madrugada sombria e fria – não era bem isto que esperava! Ainda assim comecei e devo dizer que em poucas páginas alterei por completo a minha postura face ao que lia. Ela tinha razão! Murakami é mesmo um escritor de excelência, é dotado duma capacidade rara de “fazer brotar magia do nada”. A narração é efectivamente feita num espaço temporal demasiado curto, mas nem por isso deixa de ser um texto sublime, fantástico, com uma riqueza poética absolutamente divinal. Um músico pouco prendado com queda para o Direito, uma estudante brilhante de dezanove anos extremamente reflexiva para a idade, sua irmã que, estranhamente dorme há meses, a poderosa e sanguinária máfia japonesa, um Love Hotel de qualidade duvidosa, “escoltados” pelos crimes que só a noite consegue esconder, formam em uníssono uma trama que é, sem qualquer dúvida, um gáudio à alma. É uma narração que tem tanto de imaginário como de autêntico, é o relato de enredos de um mundo tão real que poderia muito bem ser o nosso!

Foram duzentas e vinte páginas de puro regozijo, de descoberta e de admiração por este autor que agora me deram a conhecer. Foi o início de uma leitura que se vislumbra agora como duradoira, dada a obra que o mesmo possui. Fico extremamente agradecido a quem mo apresentou e, por isso mesmo, não posso deixar de o recomendar a quem ainda não o conhece – vale muito a pena!

 Haruki Murakami, After Dark : Os Passageiros da Noite», Casa das Letras, 2008

Telmo R. Nunes

03/Março /2009

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A Distância que nos Uniu

 

            Um jovem casal de estudantes conhece-se e, por entre o rebuliço das suas vidas académicas, apaixonam-se de forma intensa. Vivem, durante algum tempo, um amor desmedido mas, por força do destino, vêem-se subjugados a uma separação geograficamente forçada. Sem grandes recursos para a contrariar, optam por oprimir o sentimento que os une, na esperança vã que o mesmo se dilua com o tempo.

                Por entre uma trama repartida por várias cidades europeias, este casal de amantes reencontra-se anos depois, ateando-se-lhes novamente o amor que nunca deixaram de sentir um pelo outro, catapultando-os de imediato para um passado tão afectuoso. Ainda que em condições deveras antagónicas e visivelmente adversas, o destino encarrega-se de se fazer cumprir, culminando esta história numa união previsível mas, contudo, de contornos completamente inesperados.

                “A Distância que nos Uniu” é o primeiro romance da jornalista Patrícia Carreiro mas, dada a forma como o escreve e mormente pela imaginação que lhe impõe, dir-se-ia que é já uma autora francamente traquejada.

                A ela, os meus sinceros parabéns!

(Texto de 2010)

Patrícia Carreiro, A Distância Que Nos Uniu, Edições Macaronésia, 2009

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

INSULARIDADE E "ILHARIZAÇÃO"


Numa das suas, cada vez mais interessantes, crónicas, escrevia Nuno Costa Santos que nunca lhe fizera confusão viver numa ilha, nunca sentira claustrofobia nem nunca agoniara por se ver rodeado de mar. Animava a premissa com o assombro dos seus amigos continentais, ao perceberem essa sua pacificação com o natural isolamento criado pelo mar imenso e, rematando com afinco, lançava: «A ideia de que o ilhéu é um ser prisioneiro entre vagas vem-se tornando cada vez mais num cliché que convém mais a uma poesia gasta da vivência insular do que à realidade quotidiana.». 
Dei comigo a pensar sobre o assunto e, vejo-me impelido a confessar que sinto uma certa inveja sã daqueles que, como ele, são imunes ao sentimento de clausura ilhoa.
Eu sou açoriano de coração – por ter nascido nas bandas de lá –, que, não sendo condição inferior, é talvez suficiente para me apartar dessa pacificação que o cronista parece sentir. Não será, naturalmente, sentimento exclusivo dos nados e criados ilhéus, mas parece andar mais arredado dos que aqui arribam e procuram assentar, mesmo daqueles que muito desbravem em sentido inverso (e tem sido uma constante, a todos os níveis). Por vezes, só por vezes, invade-me esse sentimento de aprisionamento, misturado, é certo, com a inevitável saudade nial. Quem a conhece saberá que é uma sensação tramada, quase depressiva, mitigada apenas com a colaboração da nossa Sata Internacional!
Dir-me-ão que estarei a caldear identidade, génese, saudade. Talvez tenham razão, mas o que me sobra dessa amálgama parece ser precisamente o sentimento referenciado na aludida crónica, aquela vontade de levantar âncora e abalar, ainda que por curto período…
Há muitas formas de viver os Açores, e a minha, não sendo a mais benévola, não me faz sentir, de forma alguma, um ser marginal nestas ilhas onde todos cabem! Muito me dá a ilha e prefiro encarar essa mescla de sentimentos como um “apelo da terra que me pariu”, ou um aguçar do sentimento de pertença, que jamais quero perder. Prefiro justificá-la assim a procurar na ilha insuficiências que expliquem a minha vontade de existir também do lado de lá!
Sim, sinto a insularidade, mas procuro viver bem com ela. 
Daniel de Sá falava-nos de uma “dupla insularidade”, quando se referia às ilhas orientais, eu estarei ainda (e para sempre) em processo de "ilharização"… 

Ao Nuno, um especial agradecimento!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

«Lado de Cá» – Contos de Tomaz Borba Vieira

 


Embora seja opinião quase generalizada de que o conto é, cada vez mais, um género literário em franco declínio, que não é vendável por já não ser atrativo ao olhar da maioria dos leitores, cada vez mais interessados no romance, a verdade é que continuam a chegar às livrarias obras portuguesas de qualidade assinalável, e que nos parecem querer provar exatamente o contrário, que o género está vivo e goza até de algum vigor literário!

Num exercício rápido de memória, circunscrito ao universo arquipelágico recente, permito-me rememorar obras como O Carcereiro da Vila, do próprio Tomaz Borba Vieira, Pretérito Quase Perfeito e Outros Contos, de Paula de Sousa Lima, Corpo Triplicado, de Maria Brandão, Contos Bizarros, de João Pedro Porto, Avenida Marginal Ficções, Ponta Delgada, da responsabilidade da editora Maria Helena Frias, e que segue já na sua segunda edição, e, claro, as obras O Outro Lado do Mundo, de Paula de Sousa Lima e Mau Tempo e Má Sorte Contos Pouco Exemplares, de Leonor Sampaio da Silva, ambas reconhecidas com a atribuição do Prémio Humanidades Daniel de Sá.

Para além de todos os referenciados, e outros que, injustamente, terei olvidado, é impreterível agora referirmo-nos, também, a Lado de Cá, redigido pelo “Educador, Pintor, Escritor, Agente Cultural” Tomaz Borba Vieira e editado recentemente pela editora Letras Lavadas.

Mesmo antes de quaisquer leituras ou alusões ao texto, torna-se impossível passar indiferente ao livro-objeto, tal a sua assinalável beleza, bom-gosto, formato e material selecionado. Há uma harmonia, dir-se-á, quase imprescindível, entre o texto e o livro que o suporta. As mais-valias gráficas e icónicas são um contributo fundamental para a apropriação das próprias narrativas que lá estão inscritas. E não me refiro somente às ilustrações da autoria do próprio Tomaz Borba Vieira, embora estas corporizem um conjunto soberbo de desenhos que surgem a par do texto, conferindo-lhe interesse adicional. Não raras vezes há de atrasar a leitura, por os sentidos ficarem retidos na imagem que ali acompanha o escrito. A este propósito, refere José Maria da França Machado no prefácio da obra, citando o próprio autor que «Uma coisa é ilustrar um livro, outra é ir escrevendo e desenhando. Por vezes o texto aparece primeiro, outras o desenho. Nalguns casos ambos ao mesmo tempo», o que deixa claro que, tal como acontecera em O Carcereiro da Vila, por exemplo, a componente pictórica está longe de se encontrar subjugada ao texto, limitando-se a ilustrá-lo. Estará antes ao serviço das próprias diegeses, conferindo-lhes mais uma dimensão, além da que deslindamos pela interpretação textual que vamos operando ao longo da leitura. Como já o referi a propósito de O Carcereiro da Vila, este é um território muito distinto da arte, e o meu conhecimento é manifestamente curto para me poder alongar em análises com alguma comodidade. Não obstante, reitero a ideia que foi um prazer imenso folhear o livro e corroborar na imagem a interpretação feita a partir do texto.

Os contos aqui trazidos serão lidos de um só fôlego, considerando a extensão e, essencialmente, o interesse que suscitam. O aproximar da última página carrega um sentimento de frustração, e isto porque, finda a obra, povoa o pensamento a ideia de que a leitura terá sabido a pouco…

Poder-se-á assumir que a estrutura destas narrativas remonta à génese da própria literatura, e à sua tradição oral, claro está! Não excluiria mesmo a hipótese de estes contos terem sido efabulados a partir de situações reais, vivenciadas ou relatadas ao autor e agora resgatadas pelo próprio Tomaz Borba Vieira. Na sua aparência simples, estes contos cerzem-se com linhas fundamentais que ajudam a perceber e a explicar a complexidade humana, a forma de ser e de estar das nossas gentes. São histórias que se repetem ao longo da História e as quais quis o autor eternizar em suporte apropriado.

Os contos da autoria do professor Tomaz Borba Vieira são, para mim, motivo de encantamento. Dos que tenho lido, serão os dele os que mais se aproximam dos afamados “casos”, a que ele próprio se refere em obras anteriores, e aos quais também Daniel de Sá, por vezes, aludia. Os mesmos “casos” que ganhavam vida e nuances mais açucaradas ou mais acres, consoante a empatia pelos envolvidos na contenda. Era nas esquinas mais concorridas das freguesias ou mesmo nos bancos de jardim, onde, abrigados do calor em tarde soalheira, respeitáveis fregueses os repartiam com homens mais novos ou mancebos imberbes.

Em Lado de Cá, Tomaz oferece-nos três histórias muito bem contadas. A forma como ele no-las conta é singela e esse será o grande segredo da sua escrita. Dominar e servir-se da simplicidade narrativa é coisa, deveras, complexa e, por isso, ao alcance apenas de uns poucos virtuosos. Tomaz Borba Vieira é um deles e fá-lo com mestria!

Tomaz Borba Vieira, Lado de Cá, Letras Lavadas Edições, 2020


domingo, 20 de dezembro de 2020

«Causas da Decadência dos Povos Peninsulares Nos Três Últimos Séculos», por Antero de Quental

 


(Por ocasião do recente falecimento de Eduardo Lourenço, prefaciador desta obra singular de Antero de Quental, recuperei o texto com que o açoriano abriu as Conferências do Casino, decorria, então, o ano de 1871).

Um grande filósofo, pensador e professor incentivou-me certa vez a leitura do texto «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares Nos Três Últimos Séculos», redigido por Antero de Quental: «É fundamental! Devemos primeiro perceber o passado do nosso país, para melhor perspetivarmos o seu futuro» -, aconselhou.

Adquiri a obra, encetei a leitura e percebi por que motivo me fora recomendada, por que razão sobrevivera este texto não apenas ao constante passar do tempo, como também ao encerramento das próprias Conferências de onde brotara. Embora tido agora como atemporal, foi redigido a propósito do dia 27 de maio de 1871, por ocasião da abertura das “Conferências do Casino”, as tais dos grandes vultos do “Grupo do Cenáculo”, os da “Geração de 70”, as mesmas proibidas por Portaria do Ministério do Reino, em junho desse mesmo ano!

O texto – maravilhoso – agradou-me sobremodo, não apenas pelo retrato da sociedade civil de então, (com a qual ainda se podem estabelecer paralelos formidáveis) mas também, e essencialmente, porque me inculcou no espírito umas tantas questões às quais não consegui dar resposta imediata e me consumiram a quietude durante largo período.

Segundo Antero, as causas que estariam na base da decadência dos povos peninsulares passariam pelos Descobrimentos de novos mundos, pelo Absolutismo régio e pela transformação do Catolicismo, por via do Concílio de Trento.

As duas primeiras razões apontadas, embora inegavelmente complexas, são de clara perceção; a explanação sugerida é elucidativa e, corroborando-a ou não, ali ficam demonstrados possíveis fundamentos para o atraso no desenvolvimento da Península, comparativamente com os países europeus. A terceira e última razão aludida foi a que me suscitou grande desassossego e me conduziu a uma jornada ao âmago das minhas certezas.

Atente-se:

Ora, a liberdade moral, apelando para o exame e a consciência individual, é rigorosamente o oposto do Catolicismo do concílio de Trento, para quem a razão humana e o pensamento livre são um crime contra Deus…”

ou ainda:

Na sessão 14ª de Trento é a consciência cristã definitivamente encerrada. Sem confissão não há remissão de pecados! A alma é incapaz de comunicar com Deus, senão por intermédio do padre!”

É um texto farto em frases duras, pelo menos, para quem cresceu e foi educado no seio de uma família que se reja sob os preceitos do Catolicismo.

Então, Cristianismo ou Catolicismo? Haverá ou não lugar a ‘um Cristianismo’ fora dos ditames do Catolicismo? Este amordaça e amedronta os seguidores, os crentes? Inibe-os ou não de viver em pleno o Cristianismo; inibe-lhes ou não a vivência em Cristo? Não será já o Catolicismo uma adulteração humana daquilo que deveria ter sido a fé Cristã, pura e simples, individual e, ao mesmo tempo, coletiva?

A noção genérica em que creio passa pelo Cristianismo como a génese da religião, a base de sustentação, o pilar que conduz à crença em Deus – Pai, Jesus Cristo – Filho, acompanhados pela força de um Espírito Santo. Tenho como certa a base em Jesus Cristo e que se trata, sobretudo, de sentimento. No que ao Catolicismo concerne, instigaram-me a crença de que “caminhava lado a lado” com o Cristianismo, numa demanda que dura há já mais de dois milénios. Transmitiram-nos que uma completava a outra, mas, ponderando, necessitará o Cristianismo de qualquer complemento?

Hoje percebo mais facilmente aqueles que encaram o Catolicismo com algum distanciamento, que o veem como uma forma ou instituição, e que o reduzem a uma norma que modela a forma de viver e de sentir o Cristianismo. Percebo que o encarem como uma mera disciplina a seguir, que será (ou não) dispensável. Percebo que questionem se serão necessários estes preceitos concebidos pelos homens que nos antecederam para que se consiga viver em plenitude o Cristianismo…

Com efeito, ao olhar para todos os cerimoniais que se nos apresentam quotidianamente, o que se vê para além de encenações quase teatralizadas, e, em alguns casos, até idolatrias? Por que razão há cerimoniais e datas rigidamente estabelecidas para que se possa cumprir plenamente a vivência em Cristo? – bem sei que a qualquer altura se pode fazer a remissão dos pecados, mas naquelas datas específicas deve-se fazê-lo, sob pena de se cometer um “pecado maior”. E por que razão é necessário um intermediário para fazê-lo? Não será este um caminho de inibição? E recordemos, também, as atrocidades cometidas pelo Santo Ofício ao serviço destes preceitos católicos…

Que lugar deixa o Catolicismo às liberdades individuais? Tudo é regido por preceitos estritamente definidos: aquele que se rebele será herege, o que hoje não carregará o peso de outros tempos, é certo, mas, ainda assim, será apontado como diferente, pelo menos!

Não terá ido o Catolicismo um pouco longe de mais, adulterando as aspirações despretensiosas, simples, mas, ao mesmo tempo, plenas e sacras do Cristianismo? Esta igreja assim estruturada, que lugar deixa ao sentimento simples, espontâneo e sincero?

Naturalmente, o disserto anteriano é substancialmente mais vasto, rico e prodigioso do que aquilo que alguma vez poderia aqui deixar apontado. Na edição da obra que possuo, prefaciada pelo recentemente falecido professor Eduardo Lourenço, usam-se expressões como «memorável intervenção» ou «referência mítica» e, aludindo a ideia inicial deste escrito, creio que cumpre religiosamente a sua função maior: impelir questões, exigindo respostas!

Não será este o intento final de todo e qualquer texto de referência?

Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, Edições Tinta da China, 2008


quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

“Ler na Livraria” ao sábado de manhã

Para além do prazeroso reencontro com pessoas que partilham o gosto pela Literatura, as sessões “Ler na Livraria”, promovidas pelos responsáveis pela icónica livraria LeyaSolmar, em Ponta Delgada, revestem-se da grande vantagem de trazerem ao conhecimento ou, pelo menos, à memória obras de referência que, por um ou outro motivo, se encontravam na obscuridade do esquecimento. Foi o caso de «Descobri Que Era Europeia», da autora açoriana Natália Correia, naquele sábado selecionado e comentado pela professora e escritora Leonor Sampaio Silva.

A edição que possuo – da editora Ponto de Fuga, março de 2018 – é a mais recente e é um pouco mais alargada do que a obra original, uma vez que se refere, ao contrário da primeira, às três viagens que a autora de «A Ilha de Circe» efetuou aos Estados Unidos da América: a primeira em 1950, com apenas vinte e seis anos, a segunda em 1978, a convite da Brown University e a última em 1983, em representação do então Presidente da República, General Ramalho Eanes, por ocasião da comemoração, naquele país, do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.

Apesar de se reportar a três momentos temporais distintos e outras tantas viagens, o âmago do texto incide, essencialmente, no relato da primeira viagem àquele país. Nele, Natália procura retratar a essência do “american way of life”, assimilado através de inúmeras incursões por cidades da costa leste dos Estados Unidos da América, nomeadamente, Boston, Washington ou Nova Iorque, colocando-o em contraponto com a sua própria visão europeísta.

Apesar de se tratar de uma “obra de início de carreira”, como outros a catalogaram, Natália Correia adensa-a com uma interessante conjugação de géneros, pressagiando, claramente, o virtuosismo literário que lhe viria a ser reconhecido, posteriormente. Investidas pelo relato de viagem, reportagem, texto diarístico, prosa ficcional ou poesia criam um todo estruturalmente harmonioso e de leitura bastante interessante. O que poderia ter sido apenas um texto híbrido, descritivo e sem grandes linhas orientadoras, revela-se um documento profético (até no que à política económica da Europa concerne), exuberante e de uma profunda riqueza literária, onde a autora analisa comparativamente e em constância, o modo de vida de um lado e do outro do Atlântico.

Nesta viagem há ainda uma profunda jornada autorreflexiva até ao íntimo da própria autora que assume, aliás, que principia a expedição com muitas questões por responder, «Trouxe curiosidades para a América (…)», sendo que, no regresso, a poucas ou nenhumas conseguiu dar resposta plenas, «Nenhuma das minhas curiosidades foi satisfeita.». Não obstante, conclui que americanos e europeus são «estruturalmente diferentes» e o seu desapontamento com «a terra prometida» fá-la perceber que o seu lugar no mundo passará sempre pelo velho continente. Embora encontre no «Novo Mundo» laivos civilizacionais aceitáveis (quase sempre assentes em origens europeias), nomeadamente em contacto direto com algumas pessoas ou em visita a determinados espaços – galerias de arte, por exemplo – há por diversas vezes referência à falta de raízes daquele país, à superficialidade da sua cultura estética, o que lhe causa um monumental desencanto.

Serão, aliás, esses sentimentos de desilusão e frustração, cumulativamente com a sua integridade intelectual e consequente afastamento do ‘politicamente correto’, associados a uma escrita crua, corrosiva, pautada por disfemismos, ironia e por um sentido de humor apuradíssimo, que levaram a que muitos considerassem este texto «de cabal antipatia pelo american way of life (…)», como ficou registado pela mão da própria autora à partida para a sua segunda viagem aos EUA.

Natália Correia, fruto talvez da sua personalidade assumidamente mal-humorada, não se inibiu de, textualmente, apoucar muitos dos que, de certa forma, a terão exasperado durante esta viagem: ora pela vivência de situações envoltas em falta de idoneidade, «(…) percebi que a pressurosa ajuda do homenzinho, insistindo em retirar os embrulhos do táxi, obedecia a intuitos bem poucos generosos.», ora pela interação com indivíduos cujos discursos chegavam a ser insultuosos à inteligência da autora,  «O homem conhece a Europa. Esteve em Espanha e quer saber que língua se fala em Portugal. Foi a este sujeito que estive para responder que em Portugal éramos todos mudos. Mas não o fiz, com receio de que ele acreditasse…».

No atinente à segunda e à derradeira viagens àquele país, percebe-se uma certa pacificação da autora com a região: «Regresso agora à América do Norte, e o impacto europeizante que me acolhe encandeia-me logo à chegada. Que modificação se operou
nesta caminhada do tempo, não tão longa para justificar esta drástica
rutura do velho isolacionismo norte-americano face à vida europeia, ao
ponto de ter eu a sensação de me achar numa Europa que já não encontro na sua velha colocação geográfica e cultural?», no entanto, claramente insuficiente para que lhe suscite qualquer tipo de especial deslumbramento.

A terminar, deixo-vos duas citações retiradas do texto de 1950 que considero dignas de registo, talvez pela atualidade com que se revestem:

«O protesto é uma democracia de recurso.»

«(…) o meu ceticismo ante os meandros da política internacional inclinava-me a não acreditar na “pureza de intenções dos países empenhados em defender os interesses de outras nações”»

A todos, um abraço dos maiores!

Natália Correia, Descobri Que Era Europeia, Ponto de Fuga, 2018


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

.::Mar Estéril::.



Já não há água que fecunde este mar,

Nem fogo que acalente esta chama.

Das entranhas verdes e húmidas 

(Alvíssaras prometidas)

Vertem agora prantos enlutados e inábeis.


Um vazio arrefecido e triste

Tomou lugar nas violentas vagas,

Carreando a cada preia-mar 

Vontades e desânimos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

.::Mar de Saudade ::.


Quando um mar inteiro

Jorrava da torneira aberta,

Ninguém ousava o revés.

Finda a torrente quente,

Fica apenas saudade

           de não sentir saudade.

sábado, 31 de outubro de 2020

Sala de Espelhos


Em boa hora se reuniu em obra única (primeiro volume da obra completa) este conjunto de textos do poeta e professor Urbano Bettencourt, escritos a propósito de «solicitações diversas» que lhe foram apresentadas: colóquios, palestras ou participações em volume coletivo.

Tal como enunciado em «Os Postes E As Linhas» - texto introito deste volume -, este Sala De Espelhos, agora lançado pela Companhia das Ilhas, «Trata-se (…), de um livro sobre literatura (e cultura) açoriana (...)». Sendo em tudo verdade, surge-me, no entanto, esta afirmação como um pouco redutora! Creio que este volume reúne todos os preceitos para se tornar uma referência que se afigurará mesmo como um documento incontornável e valioso sobre a temática. Com conhecimento e devidas cautelas, muito do que aqui fica dito, mesmo considerando a «incompletude» em termos de autores, poderá muito bem ser extrapolado para um âmbito mais abrangente, tornando redutora a ideia de que cada ensaio se cinge a determinada obra. Não será difícil, por exemplo, inferir a realidade arquipelágica a partir do texto «Raul Brandão nos Açores – um viajante abismado», escrito tendo por base a incontornável obra As Ilhas Desconhecidas. Neste sentido e considerando a erudição e minúcia impostas em cada texto (traços indissociáveis do próprio autor), creio ser de elementar justeza referirmo-nos, desde já, a este novo Sala De Espelhos como um marco referencial e de relevo maior para a compreensão da literatura produzida na Macaronésia, com especial incidência naquela que tem os Açores como solo de criação.

São quarenta os ensaios aqui partilhados, cuja leitura, estudo e considerações contribuirão sobremodo para alicerçar, disseminar e até mesmo perpetuar o conhecimento produzido a partir desta literatura de alma açórica e não só. Será esta, portanto, uma ponte que visa o encurtamento de distâncias, onde se procura dirimir a marginalização a que as literaturas de raiz insular têm sido sujeitas, de resto, como sublinha o autor numa referência a Maria Alzira Seixo, logo no início da obra.

Atendo-me ao que me dita a civilidade não irei destacar a leitura de um ou de outro ensaio, até porque essa seria uma tarefa hercúlea, considerando não apenas a heterogeneidade como também e sobretudo a riqueza de cada um em particular. Tenhamos presente que o autor lança o seu olhar sobre nomes como os de Roberto de Mesquita, Côrtes-Rodrigues, Raul Brandão, Vitorino Nemésio, Manuel Ferreira, Natália Correia, Dias de Melo, Pedro da Silveira, Eduíno de Jesus, Fernando Aires, José Martins Garcia, J. H. Santos Barros, Álamo de Oliveira, João de Melo, Daniel de Sá, Joel Neto, Nuno Costa Santos, João Pedro Porto, entre outros. Não obstante, há dois trechos que gostaria de sublinhar e partilhar convosco, ambos retirados de «Ser Ilhéu – E Salvar-se Pelos Livros», um texto incrível, de cariz autobiográfico, nascido a partir de memórias das vivências de um petiz, em plena década de cinquenta do século passado, na freguesia da Piedade, ilha do Pico e de nascença do autor:

«E nunca li o romance de Max du Veuzit. Na sua não-leitura, ele acabou, mesmo assim, por integrar o conjunto daqueles pequenos textos que me ensinaram a ultrapassar o óbvio e o imediato e a embrenhar-me na realidade outra que a imaginação nos avança (…)»

Torna-se inevitável questionar o que é feito desta capacidade de imaginar, de recriar o real a partir da leitura? Por que razão deixaram as nossas crianças de relevar mundos melhores e mais próximos daqueles que a sua pueril consciência constrói?

«(…) mas o tempo tem o dom de esculpir e dar novos contornos à matéria outrora informe, aparando as suas linhas dissonantes.»

Um simples, «Que assim seja!»

Estou convencido que, muito em breve, começaremos a ouvir e a ler sobre esta belíssima obra da autoria do virtuoso poeta e professor Urbano Bettencourt. Embora a apresentação pública ocorra a 6 de novembro, o livro já se encontra disponível nos locais habituais e plataformas digitais, pelo que urge a sua aquisição e leitura!

A todos, um abraço dos maiores!

 Urbano Bettencourt, Sala De Espelhos, Companhia das Ilhas, outubro, 2020