domingo, 2 de dezembro de 2018

Homenagem ao professor Emanuel Jorge Botelho

Entre tantos outros méritos e motivos de interesse, o encontro literário "Açores Arquipélago de Escritores” homenageia – com irrefutável justeza – Emanuel Jorge Botelho, o homem que prometeu dar a cada palavra a sua palavra de honra!
Parabéns!
17.nov.18 || Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas


Poetas do nosso tempo

Os poetas - bem sabemos - são almas generosas, mas há uns que teimam em ser mais poetas do que outros! Obrigado, Daniel!
Foto: Capa de "Buarquianas", de Daniel Gonçalves

Há nesta imagem um poema por escrever!


domingo, 25 de novembro de 2018

Ao Xico


Passaram já uns dias desde que a encontrei numa esplanada, bem no centro da cidade de Ponta Delgada. A tarde estava soalheira e a temperatura convidava a uma pausa. Sentei-me na única mesa disponível e percebi o espaço bem mais concorrido do que seria de esperar, fruto, é evidente, da nova vaga turística que não aprendeu ainda a distinguir épocas, para gáudio dos empresários locais. Esperei pelo empregado que, apenas a custo, poderei qualificar de diligente, pelo menos no que à arte de servir às mesas diz respeito, já que, dali, o observei largos minutos, enquanto flirtava com uma italiana loira, de tez clara e com o que parecia ser um apetite voraz pelo produto regional. Assim que me ouviu tossicar um pouco mais alto do que a boa educação recomenda, dirigiu-se a mim e, desfazendo-se em mesuras, assentou o meu pedido. Relevei. O sol, embora baixo, parecia empenhar-se em aquecer-me o coração e tudo parecia alinhado com os trâmites da felicidade. Não valia a pena o aborrecimento de uma chamada de atenção. Além disso, a moça era bonita e ele parecia, deveras, entusiasmado com a situação. Tirei do bolso o bloco de apontamentos e, quando me preparava para anotar algo de que agora não me recordo, vi-a pela primeira vez. Escrevia num Moleskine preto por pautar e usava uma Parker prateada, de tinta permanente, preta. As melhores! Uma figura elegante! Trajava um distinto anorak (prefiro a palavra em francês, por me parecer mais cosmopolita), mas claramente desajustado à temperatura que se fazia sentir. Por baixo, o que parecia ser uma casaca masculina em tons de vermelho com uma camiseta branca, muito simples. A ganga das calças ia sobrando ao longo das pernas e, nos pés, umas sapatilhas imaculadamente brancas, de solas brancas e cordões brancos. Marca da moda. Não cheguei a perceber o seu rosto, os óculos escuros e desmesurados não mo permitiram. Pela aparência geral, não teria mais de vinte e cinco anos. Notei que chorava. Chorava em silêncio e sozinha. Creio que o choro em solidão é o pior deles todos: corrói mais do que qualquer outro, por não se poder repartir; tem vontade própria; é de difícil extinção e exala sempre uma dor insanável. Em quase quarenta anos, recordo-me de ter chorado assim não mais do que três vezes! Envergando uma postura quase paternal, quis aproximar-me para a acudir! Ainda lancei um olhar como que a pedir licença para o fazer mas, nesse instante, naquele fim de tarde, aquela figura fina levantou-se e, pelo meio de um grupo de turistas eufóricos, desapareceu pelas ruas limítrofes. Ainda me levantei perscrutando a sua silhueta, mas em vão… Desapontado, mais com minha inoperância do que com qualquer outra coisa, deixei-me cair na cadeira de onde pulara momentos antes e dirigi os sentidos para o local de onde aquela mulher se levantara. Reparei que deixara um rasto perfumado e, na base da mesa, um pequeno papel dobrado em duas partes indistintas. Olhei de soslaio para um lado e para outro e reparei que a vida continuava indiferente às minhas preocupações: um homem estrangeiro na mesa ao lado bebericava a sua cerveja preta e, de livro em punho, não se apercebia de nada em redor. Estava absorto na leitura do grande Gabo. A sua escolha recaíra no “Cem Anos de Solidão”, uma belíssima edição em castelhano, se não me atraiçoou o vislumbre rápido e comprometido. Apesar do excesso de peso – há que dizê-lo – percebia-se requinte no gosto literário. À direita, o empregado de mesa ainda cortejava a sua italiana, que não se mostrava nada envergonhada perante os avanços atrevidos deste Don Juan micaelense. Levantei-me. Avancei e subtraí o manuscrito à mesa abandonada. Num ápice, regressei. Esperei um pouco. Recuperei o fôlego e olhei aquele papel. Parecia tratar-se uma folha do seu caderno sem qualquer remetente ou destinatário. Na página frontal, apenas repetida a palavra “Xico”, com letras trémulas, quase garatujadas. Voltei-a e, depois de ler a missiva que lá fora escrita, percebi o choro, a angústia e o vazio que aquela mulher trazia consigo. 
Morrera-lhe parte de si!

  “Em memória do nosso Xico – a epístola que não queria ter escrito 

O nosso Xico partiu, mas sei que ainda deambula entre nós, a apaziguar-nos a mágoa! Se fecho os olhos, ainda oiço o cavalgar dos seus quilos a menos, em redor da nossa casa. Vejo-o sentado à porta de entrada, de cauda em pêndulo, à espera que a Susana lhe lance um sorriso ou uma palavra de carinho. Sem grande esforço, vejo-o correr pelo relvado, de forma inglória, perseguindo pardais ou pombas que teimavam em desafiá-lo com voos rasantes. Por vezes, oiço-o ladrar enervado com os melros-negros que – criminosos – lhe surripiavam, sempre que podiam, a ração do interior do canil. Olho para o que resta das palmeiras, das iucas-mansas ou das camélias que ele foi desarranjando ao longo do tempo e percebo, finalmente, que não havia mesmo problema algum, como o seu olhar triste me parecia querer indicar, quando o fechava de castigo, ainda com o focinho sujo de terra e com vestígios de raízes soltas. Foi a Susana que lhe escolheu o nome, no dia em que chegou a nossa casa e, desde esse momento, considerámo-lo como membro da nossa família. Era muito mais do que o nosso cão: o Xico era um Ser que adensava a nossa vida, que a tornava mais preenchida, que a animava e cobria de felicidade. Mesmo que não nos apercebêssemos disso todos os dias que o tivemos connosco, a tristeza e o vazio que agora sentimos comprovam a falta que ele nos faz. Como uma laranja que não chegou a amadurecer e cai desamparada da árvore, também o nosso Xico tombou, deixando toda uma vida por viver. Talvez por isso, nem ontem nem hoje, vieram os pardais, nem as pombas, nem os melros-negros! 
Crê que foste amado, Xico! 

S&T 

 Telmo R. Nunes a 25 novembro de 2018

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

in Açoriano Oriental


Encontro Literário “Açores Arquipélago de Escritores”
Agora que se apagam as luzes e as cadeiras vagam, há que fazer um justo reconhecimento à realização do encontro literário, “Açores Arquipélago de Escritores”.
São Miguel e Ponta Delgada, em particular, já mereciam um acontecimento cultural desta natureza, desta qualidade e envergadura. As sessões foram de uma riqueza literária imensa: houve conversas interessantíssimas com pessoas igualmente interessantes e com as quais habitualmente só nos cruzamos nas páginas dos livros. Houve lançamentos de obras, cursos, apresentação de filmes, sessões direcionadas às escolas e às crianças, debates, mesas redondas onde fervilharam ideias estimulantes e, como não podia deixar de ser, as devidas homenagens àqueles que serão os maiores entre pares. A nossa cidade, mas também a nossa ilha e os Açores foram, de facto, um “porto de cruzamento de diferentes culturas e literaturas (…)”.
Gostei do que vi e do que ouvi; gostei dos que abrilhantaram os diversos palcos e nos enriqueceram com as suas ideias. Não foi necessário expender grande esforço para apreciar, com redobrada atenção, as intervenções de oradores como Onésimo Teotónio de Almeida, João de Melo, Daniel Gonçalves, Joel Neto, Emanuel Jorge Botelho, Gonçalo M. Tavares, Pedro Mexia, João Pedro Porto, entre outros.
Como se afirmou amiúde ao longo daqueles dias, inaugurar um encontro literário com esta pujança e sucesso, acarreta uma pressão imensa para os envolvidos na sua organização, já que a fasquia se encontra agora num patamar de excelência que, certamente, será mantida nos encontros que se hão de suceder.
Registei, com especial agrado, o empenho em descentralizar as várias sessões por diversos locais da cidade e da ilha, fazendo chegar o livro a um público mais vasto e, sobretudo, mais diversificado, mas sublinhei também, e com grande satisfação, a paridade de género entre os autores convidados. Enriquecer o programa do encontro com nomes como Renata Correia Botelho, Paula de Sousa Lima, Leonor Sampaio Silva, Mariana Magalhães e Cristina Quental (todas autoras que figuram no PRL), Isabel Rio Novo, Diana Marcum (vencedora de um Pulitzer), Clara Macedo Cabral, Lélia Nunes, Filipa Martins, Dulce Garcia, entre outras senhoras, foi uma verdadeira mais-valia que, certamente, em muito contribuiu para o sucesso do evento.
Da perspetiva da assistência, na qual me situo, este encontro literário foi um êxito estrondoso que em muito engrandece, primeiramente, a Literatura e depois Ponta Delgada, São Miguel e os Açores, em geral. Julgo que entramos agora na rota dos grandes acontecimentos literários que se realizam no nosso país e, aberta esta janela, haja discernimento por parte das entidades oficiais para perpetuá-la.
Por tudo isto e mais, e porque ninguém louva aquilo que não gosta, a todos os envolvidos, mas com especial destaque ao curador do encontro, o multifacetado Nuno Costa Santos, assim como aos parceiros que se uniram a este projeto, um reconhecido obrigado!
Para o ano, cá vos esperamos!
Telmo R. Nunes

21 de novembro de 2018

sábado, 25 de agosto de 2018

In Açoriano Oriental



Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias

Começam a rarear os bons adjetivos que qualifiquem condignamente a obra ficcional de Joel Neto, um dos expoentes mais cintilantes do atual panorama literário português. “Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias” é o último romance do autor de “Arquipélago” ou “Vida no Campo”, e nele é feita uma apologia ao amor, nas mais diversas formas de o sentir.

Podia ser Morgan Freeman, mas não era.”: eis a entrada que nos conduz a uma viagem no tempo, desde 2017 até 1939, com paragens obrigatórias em diferentes épocas e geografias mundiais. “Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias” arranca na Lisboa contemporânea, mas rapidamente se muda até uma Nova Iorque dos finais do século passado, onde C. Devon Fitzhugh, um excêntrico personagem, incita José Filemom Abke Marques, o narrador do romance, a escrever um livro, buscando a verdade sobre a presença de um agente nazi na ilha do Faial, arquipélago dos Açores.

A partir deste ponto, a ação desenvolve-se numa malha bastante complexa, mas nem por isso menos coerente. Com efeito, coerência e coesão entre todas as linhas narrativas nunca são colocadas em causa, e o rigor do detalhe encontra-se sempre presente ao longo de toda a diegese. Neste particular, sublinho o número de personagens enunciado na tábua inicial do romance – cerca de cem –, para que percebamos o trabalho hercúleo que o autor despendeu nesta intrincada teia de relações, para que da leitura resultasse – como resulta – uma escorreita sensação de que tudo se funde harmoniosamente.

O livro, que se divide em 5 partes, perpassa diversas épocas históricas e outros tantos pontos do globo, mas poder-se-á afirmar que o âmago do plot se reporta à ilha do Faial, nos idos anos 30 e 40 do século passado, a partir de onde o narrador se vê obrigado a reconstituir a vida de um familiar recém-falecido – Hansi Abke. Neste período, e com a II Guerra Mundial em pano de fundo, é-nos servida uma cidade da Horta cosmopolita, alegre, jovial, visitada amiúde por estrelas de cinema, desportistas e outros famosos de renome internacional, dos quais se destacam a bailarina Mitzi Mayfair ou o aviador Antoine de Saint-Exupéry, que amaravam no porto da Horta a bordo, entre outros, dos potentes Yankee Clipper, da Pan American.

Inversamente ao clima de guerra e à mortandade que cobriam de sangue quase toda a Europa continental, vivia-se então na pequena ilha do Faial um peculiar alheamento de todo aquele cenário dantesco. Ingleses e alemães conviviam em sã harmonia, fruto, sobretudo, da exploração dos cabos telegráficos, tão frutuosos na primeira metade do século passado. Uns e outros bailavam na Sociedade Amor da Pátria, faziam piqueniques nos locais mais idílicos da ilha, jogavam partidas de bridge, de ténis ou de croquet. Vivia-se um clima de aparente letargia face ao implodir de uma guerra com efeitos tão devastadores para ambas as partes.

«Natália (…) descrevia o naufrágio do U-581 ao largo da ilha do Pico, após um combate com uma flotilha de destroyers ingleses, em pleno Canal, a que muita gente pudera assistir a partir da doca da Horta (…)».

Ainda que de forma inusitada, todos na ilha pareciam querer assumir o papel de espetadores apáticos perante partição da Europa e do mundo.

Tal como em outras obras, também nesta, Joel Neto manifesta uma relação de amor com as ilhas açorianas, não se deixando cair, contudo, na tentação de se ater apenas a elas. A partir das ilhas dos Açores, mas olhando-as e integrando-as cuidadosamente num mundo mais amplo e complexo, ele compreende e (des)escreve um dos mais importantes acontecimentos da história de toda a humanidade. A sua cosmovisão, a sua concepção do mundo encontram-se bem patentes em cada uma das 420 páginas que perfazem a obra, mantendo, ainda assim, a génese discursiva na ilha, que nunca é deixada para trás. Não obstante tratar-se de um exercício de difícil execução (e isto é distintivo apenas dos grandes autores), ele vê os Açores como parte integrante de um mundo; o arquipélago é colocado lado a lado com geografias tão diversas como Lisboa, Nova Iorque, Friburgo, Porto Alegre ou Praga e, em momento algum, se nota ‘um forçar’ da açorianidade, antes se deixa transparecer um sentimento telúrico harmoniosamente integrado na mundividência própria do autor.

A este propósito não há como não recordar a mónita lançada por Daniel de Sá aos escritores açorianos, onde apelava que não cedessem aos lugares-comuns quando se tratasse de “cantar a terra”. Joel Neto interpreta isto na perfeição, não se inibindo de retratar os Açores sempre como parte de um todo maior, e fá-lo sem que isso belisque, um pouco que seja, a sua condição de ilhéu açoriano. Fá-lo com grande mestria, sem renegar, jamais, as origens que o trouxeram a este patamar de excelência, onde agora se encontra. Percebe-se que as fronteiras que a ilha impõe não foram suficientes para, de alguma forma, lhe manietar um espírito integral.

Por se retratar um período histórico que, pessoalmente, muito me diz, e pelo qual nutro especial interesse, confesso que a leitura que efetuei terá sido bem mais fugaz e sentimental do que propriamente técnica, mas confesso que não me arrependo. É um romance apaixonante, daqueles capazes de nos extasiar desde a primeira à última página.

Vale a pena ler autores açorianos!


Telmo R. Nunes
a 19 de agosto de 2018

domingo, 29 de abril de 2018

O mar

«o mar é como os deuses, porque não é deste mundo.»
 Emanuel Jorge Botelho, 30 crónicas (Vol. I), Letras Lavadas Edições || Artes e Letras Editora

sábado, 24 de março de 2018

Mercado tradicional


Há dois tipos de pessoas no mundo: os que apreciam os mercados tradicionais ao sábado de manhã, e os outros. Agrada-me pertencer ao primeiro grupo -- fascina-me a paleta de cores servida e à disposição do olhar; inebria-me o cheiro fresco a fruta colhida há pouco; seduz-me o pulsar das gentes que ali procuram a recompensa pela tez marcada pelo trabalho!

sábado, 17 de março de 2018

In Açoriano Oriental

A propósito de «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares Nos Três Últimos Séculos», redigido por Antero de Quental:

Por ocasião da comemoração do 175.º aniversário de Antero de Quental, recuperei a obra decorrente da intervenção com que o autor abriu as Conferências do Casino, decorria o ano de 1871.

Primeira parte: Eu diria que um livro se cumprirá assim que conseguir marcar, de forma indelével, o seu leitor, impelindo-lhe questões interiores e exigindo-lhe, ao mesmo tempo, respostas absolutas. Uma leitura destas deverá potenciar mutações de pensamento e, consequentemente, mudanças de atitude, ou, pelo contrário, reforçará, cabalmente, crenças e traços de personalidade. 
Haverá um elevado número de fatores endógenos e outros tantos exógenos que condicionarão uma leitura assim tão marcante, desde logo o estádio etário do leitor, a sua maturidade intelectual e desenvolvimento sensorial, o rol de vivências, assim como os meios familiar, socioeconómico ou demográfico, entre outros. Para que o fenómeno se dê, e uma leitura assim ocorra, terá de se agregar um conjunto de circunstâncias a que, ousadamente, designaria de ‘casualidades felizes’. 
Este, a que hoje me reporto, abalou-me crenças e convicções. Infligiu-me grande inquietude de pensamento, agitando, ao mesmo tempo, a génese das origens, as fundações da minha própria educação. 
Segunda parte: Um grande filósofo, pensador e professor incentivou-me certa vez a leitura do texto «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares Nos Três Últimos Séculos», redigido por Antero de Quental: «- É fundamental! Devemos primeiro perceber o passado do nosso país, para melhor perspetivarmos o seu futuro» – aconselhava. 
Adquiri a obra, encetei a leitura e percebi por que motivo me fora recomendada, por que razão sobrevivera este texto não apenas ao constante passar do tempo, como também ao encerramento das próprias Conferências de onde brotara. Embora tido agora como atemporal, foi redigido a propósito do dia 27 de maio de 1871, por ocasião da abertura das “Conferências do Casino”, as tais dos grandes vultos do “Grupo do Cenáculo”, os da “Geração de 70”, as mesmas proibidas por Portaria do Ministério do Reino, em junho desse mesmo ano!
O texto – maravilhoso – agradou-me sobremodo, não apenas pelo retrato da sociedade civil de então, (com a qual ainda se podem estabelecer paralelos formidáveis) mas também, e essencialmente, porque me inculcou no espírito umas tantas questões às quais não consegui dar resposta imediata e me consumiram a quietude durante largo período.
Segundo Antero, as causas que estariam na base da decadência dos povos peninsulares passariam pelos Descobrimentos de novos mundos, pelo Absolutismo régio e pela transformação do Catolicismo, por via do Concílio de Trento.
As duas primeiras razões apontadas, embora inegavelmente complexas, são de clara perceção; a explanação sugerida é elucidativa e, corroborando-a ou não, ali ficam demonstrados possíveis fundamentos para o atraso no desenvolvimento da Península, comparativamente com os países europeus. A terceira e última razão aludida foi a que me suscitou grande desassossego e me conduziu a uma jornada ao âmago das minhas certezas.

Atente-se:
“Ora, a liberdade moral, apelando para o exame e a consciência individual, é rigorosamente o oposto do Catolicismo do concílio de Trento, para quem a razão humana e o pensamento livre são um crime contra Deus…” 
ou ainda:

“Na sessão 14ª de Trento é a consciência cristã definitivamente encerrada. Sem confissão não há remissão de pecados! A alma é incapaz de comunicar com Deus, senão por intermédio do padre!”

É um texto farto em frases duras, pelo menos, para quem cresceu e foi educado no seio de uma família que se reja sob os preceitos do Catolicismo. 
Terceira parte: Então, Cristianismo ou Catolicismo? Haverá ou não lugar a ‘um Cristianismo’ fora dos ditames do Catolicismo? Este amordaça e amedronta os seguidores, os crentes? Inibe-os ou não de viver em pleno o Cristianismo; inibe-lhes ou não a vivência em Cristo? Não será já o Catolicismo uma adulteração humana daquilo que deveria ter sido a fé Cristã, pura e simples, individual e, ao mesmo tempo, coletiva?
A noção genérica em que creio passa pelo Cristianismo como a génese da religião, a base de sustentação, o pilar que conduz à crença em Deus - Pai, Jesus Cristo - Filho, acompanhados pela força de um Espírito Santo. Tenho como certa a base em Jesus Cristo e que se trata, sobretudo, de sentimento. No que ao Catolicismo concerne, instigaram-me a crença de que ‘caminhava lado a lado’ com o Cristianismo, numa demanda que dura há já mais de dois milénios. Transmitiram-nos que uma completava a outra, mas, ponderando, necessitará o Cristianismo de qualquer complemento? 
Hoje percebo mais facilmente aqueles que encaram o Catolicismo com algum distanciamento, que o veem como uma forma ou instituição, e que o reduzem a uma norma que modela a forma de viver e de sentir o Cristianismo. Percebo que o encarem como uma mera disciplina a seguir, que será (ou não) dispensável. Percebo que questionem se serão necessários estes preceitos concebidos pelos homens que nos antecederam para que se consiga viver em plenitude o Cristianismo...
Com efeito, ao olhar para todos os cerimoniais que se nos apresentam quotidianamente, o que se vê para além de encenações quase teatralizadas, e, em alguns casos, até idolatrias? Por que razão há cerimoniais e datas rigidamente estabelecidas para que se possa cumprir plenamente a vivência em Cristo? – bem sei que a qualquer altura se pode fazer a remissão dos pecados, mas naquelas datas específicas deve-se fazê-lo, sob pena de se cometer um “pecado maior”. E por que razão é necessário um intermediário para fazê-lo? Não será este um caminho de inibição? E recordemos, também, as atrocidades cometidas pelo Santo Ofício ao serviço destes preceitos católicos… 
Que lugar deixa o Catolicismo às liberdades individuais? Tudo é regido por preceitos estritamente definidos: aquele que se rebele será herege, o que hoje não carregará o peso de outros tempos, é certo, mas, ainda assim, será apontado como diferente, pelo menos!
Não terá ido o Catolicismo um pouco longe de mais, adulterando as aspirações despretensiosas, simples, mas, ao mesmo tempo, plenas e sacras do Cristianismo? Esta igreja assim estruturada, que lugar deixa ao sentimento simples, espontâneo e sincero?
Naturalmente, o disserto anteriano é substancialmente mais vasto, rico e prodigioso do que aquilo que alguma vez poderia aqui deixar apontado. Na edição da obra que possuo, prefaciada pelo professor Eduardo Lourenço, usam-se expressões como «memorável intervenção» ou «referência mítica» e, aludindo a ideia inicial deste escrito, creio que cumpre ‘religiosamente’ a sua função maior: impelir questões, exigindo respostas!
Não será este o intento final de todo e qualquer bom texto?
Telmo R. Nunes
16 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 1 de março de 2018

Vamos falar de Literatura?



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Independentemente do que se possa sentir pela Literatura produzida nos Açores ou pelos autores açorianos, permitir-me-ei julgar que, com toda a justeza, estes deveriam ser acarinhados por todos, sem exceção. No entanto, tenho lido que, por cá, não haverá uma divulgação adequada ou, pelo menos, suficiente das obras dos autores regionais. Não sei se corroboro esta ideia, mas, confrontando-a com a realidade de outras regiões do país, parece-me, pelo menos, digna de reflexão séria.
Entremos, por exemplo, na livraria Bertrand de Ponta Delgada e vejamos, com algum cuidado, a prateleira que espreita ao fundo, anunciando a todos quantos ali passem: “Autores Locais”. Ora, não conheço estante com propósito similar em qualquer outra loja desta distribuidora nacional.
Depois, recorde-se o dinamismo da livraria Leya Solmar, esse “centro cultural” ao serviço da literatura de raiz açoriana, bem no centro da cidade de Ponta Delgada: lançamentos, tertúlias, “Livros do ano”, encontro com escritores, montras permanentes e exclusivamente dedicadas aos nossos autores.
Recordemos, também, a pujança que agora demonstra o Centro Natália Correia, no que ao lançamento de obras de autores locais diz respeito.
Por outro lado, entrando numa das mais concorridas superfícies comerciais da ilha de São Miguel e dos Açores – Solmar, em São Gonçalo –, facilmente somos cativados pelas estantes exclusivas e repletas de livros de autores açorianos. Adite-se que as mesmas se encontram em local de grande destaque. Embora, pessoalmente, não aprecie a compra de literatura nestes espaços, a verdade é que eles existem, e são, efetivamente, uma forma prática de colocar o livro próximo do leitor.
Tenhamos em mente, também, o espaço semanal que os principais jornais da ilha conferem à recensão literária, tantas vezes dedicada à literatura produzida no arquipélago. Não sendo o ótimo, é já significativo e digno de registo!
Relembremos, entre tantas atividades de grande valia promovidas pelas editoras regionais, a “Festa do Livro dos Açores”, dinamizada pela Publiçor/Letras Lavadas, onde, à beira-mar e em plena época turística, centenas de títulos de autores açorianos puderam ser dados a conhecer…
Considere-se o destaque que “Temática Açores” traz aos autores locais! Um apêndice da CDU (Classificação Decimal Universal), a “Temática Açores” cataloga e deposita as obras de autores e temas açorianos em prateleira própria, conferindo-lhes claro destaque. Isto não é frequente fora do arquipélago! Em qualquer biblioteca fora dos Açores iremos encontrar a poesia de Antero bem próxima da do Camões, por ambos serem dois grandes poetas portugueses. Por cá, em algumas bibliotecas, um é açoriano, outro é português, e, por isso, “habitam” estantes distintas.
Atentemos no empenho que a Associação de Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental tem vindo a despender junto dos atuais discentes e respetiva comunidade educativa, no sentido de promover a obra e o patrono daquela instituição.
Consideremos as Antologias de Autores Açorianos Contemporâneos (ed. AICL, Calendário de Letras) lançadas recentemente, uma, inclusivamente, bilingue, numa tentativa de fazer chegar aos nossos emigrantes o que de melhor se escreve pelos Açores, e outra privilegiando o texto dramático, tantas vezes encarado como “parente pobre” da nossa Literatura. Não esqueçamos os “Cadernos (e suplementos) de Estudos Açorianos”, onde vida e obra de 33 autores (!) são disponibilizados para consulta gratuita. Recordemos, ainda, a recente edição da “Bibliografia Geral da Açorianidade”, que contempla cerca de 19500 verbetes, inscritos em dois tomos de 800 páginas cada, totalmente dedicadas ao trabalho literário produzido sobre os Açores, açorianos e tudo que à Açorinidade respeita.
Por outro lado, tenhamos presente o empenho da SREC na integração da disciplina de História Geografia e Cultura dos Açores, na matriz curricular dos alunos açorianos. Creio tratar-se de um espaço onde facilmente se disseminarão os principais textos dos maiores vultos da Literatura produzida no arquipélago.
Contemos com os prémios literários (dois, pelo menos, de âmbito nacional) que privilegiam obras inéditas, referenciáveis aos Açores.
Tenhamos em mente que os Açores dispõem de um Plano Regional de Leitura próprio que, aproveitado em subaproveitamento, destaca dezenas de obras de alguma forma relacionadas com o arquipélago.
E depois, bem, depois há o esforço desenvolvido em cada Unidade Orgânica do sistema regional de educação. Embora creia que o oposto também possa ocorrer, julgo que, na grande maioria das escolas do arquipélago, os escritores açorianos são muito acarinhados, quer por alunos, quer pela generalidade do pessoal docente. Na realidade que conheço, são colocadas em prática diversas atividades específicas de promoção da Literatura produzida por cá. A cada ano letivo são trabalhados muitos autores, seja a nível biobibliográfico, seja através de oficinas de escrita ou a partir da sua própria produção textual, no apoio ao desenvolvimento de competências fundamentais. Sob a orientação dos professores de Português, algumas destas atividades são realizadas pelos alunos, em estreita colaboração com os próprios escritores, o que favorece sobremodo a aquisição de conceitos e/ou desenvolvimento de competências. Outras são levadas a efeito com a cooperação de Bibliotecas e outras entidades exteriores à escola. Refiram-se, também, os sempre enriquecedores encontros de alunos com autores, onde se incendeiam de curiosidade auditórios a abarrotar. Não menos importantes são as atividades desenvolvidas no interior das salas de aula, onde o professor de Português coloca em prática a silenciosa responsabilidade de difundir junto dos mais jovens aqueles textos de raiz açoriana de reconhecida qualidade literária.
Por tudo isto e mais, não creio que o problema esteja na difusão deficiente ou desadequada da obra dos autores açorianos. Eventualmente, considerando o todo nacional, até concebo que essa dúvida se coloque, mas, convenhamos, também não há especial destaque conferido aos escritores minhotos, alentejanos ou algarvios. É certo e desejável que mais e melhor poderá ser feito, mas é, também, inegável o esforço que se tem produzido no sentido de engrandecer os “nossos nomes de referência”!
Do meu ponto de vista, o motivo de tais considerações encontra-se no fraco volume de vendas que estas obras arrecadam. No entanto, a explicação encontrar-se-á a jusante de todo este processo. De uma forma geral, as pessoas leem muito pouco, e, quando por algum motivo o fazem, dão preferência, quase sempre, aquele escritor da moda, aquele que até escreve umas “frases bonitas”, e as transforma em posts coloridos por essas redes sociais fora.
Bem sabemos que, tendencialmente, não valorizamos o que é nosso, mas, no que à Literatura produzida nos Açores diz respeito, parece-me até que muito se tem conseguido, e ainda bem! Tudo aquilo que se puder fazer para engrandecer a Literatura de raiz açoriana será, com certeza, bem-vindo por todos aqueles que honram este “arquipélago de escritores”!
Afinal, como já afirmou um reputado crítico literário português, “Há qualidade açoriana para um Prémio Nobel”.
A todos, boas leituras!
Telmo R. Nunes
a 28 de fevereiro de 2018

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Quem tem amigos...


Não percebi muito bem como tal terá acontecido, mas a verdade é que só quando fui arquivar a Revista GROTTA #2 é que depreendi que não comprara a número 1, correspondente ao ano de 2016! Ups...
Livrarias, hipermercados, vendas online » ESGOTADA!

Palavra puxa palavra, contacto puxa contacto... Chegou hoje!
Nice!


sábado, 10 de fevereiro de 2018

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Treasure Island



Eu sempre acreditei que o Capitão Flint, o Long John Silver e jovem Hawkins tinham passado por Ponta Delgada! Aqui fica a prova cabal!


Esta sim é a verdadeira "Ilha do Tesouro"!

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

na ausência do GPS...

«(…) decide comprar um mapa e, se lhe tivessem feito a pergunta se ia viajar, responderia afirmativamente. Precisava de encontrar novamente o caminho que atrás deixara perdido. Sentia a falta daquela seguridade típica de quem percorre o trilho com a certeza de encontrar aquilo que deseja e, por isso, resolveu comprá-lo.
Seria um mapa pequeno, nada de muito complicado. Não teria ruas, nem estradas, nem locais, nem nomes, nem nada. Aliás, no seu mapa não haveria nada escrito ou impresso. Seria apenas uma folha em branco onde, a custo, iria então desenhar a estrada pela qual pretendia caminhar.
No local de venda, por certo, haveria vários. Alguns até bem mais bonitos! Uns maiores, outros mais coloridos, alguns novos, outros gastos pelo tempo. Mas por esses já ela se tinha guiado e o resultado nunca fora muito auspicioso. Ao fim de pouco mais de três passadas, invariavelmente, verificava que estava completamente perdida, o que a obrigava sempre a um recuo indesejado.
Agora, com o seu novo mapa, a jornada seria um pouco diferente. Tomaria a direcção certa e, aos poucos, alcançaria o tão desejado descanso.»


Telmo Nunes, Inês A Dualidade de uma Vida, Págs. 60 – 61 Chiado Editora, 2012

sábado, 2 de dezembro de 2017

In Açoriano Oriental

O Outro Lado do Mundo - Prémio de Humanidades Daniel de Sá
“Aqui, onde as águas têm o apelo da quietude,
o meu pensamento contraria-as”
in, O Outro Lado do Mundo,
Paula de Sousa Lima

Por imposição laboral, vi-me obrigado a faltar à chamada de apresentação das obras galardoadas com o “Prémio de Humanidades Daniel de Sá”, referente ao ano de 2016. Tive pena! Gostaria de lá ter estado para, condignamente, homenagear os autores premiados: no Ensaio, Pierluigi Bragaglia, e na Criação Literária, Paula de Sousa Lima.
Relativamente ao Ensaio Novas Luzes sobre Povoamento e Topónimos das Flores e Corvo: João da Fonseca e António Carneiro no Reino, em São Tomé e Príncipe, em Cabo Verde e nos Açores (sécs. XV-XVI), de Bragaglia, confesso que não li, muito embora, considerando a exigência imposta neste “Prémio de Humanidades Daniel de Sá”, presuma tratar-se de uma obra de qualidade superior, pelo que a sua leitura não há de atrasar.
Relativamente a O Outro Lado do Mundo, da autoria da professora e escritora Paula de Sousa Lima, encetei a leitura logo que me foi possível - a curiosidade a isso obrigou, e ainda bem que assim foi!
Surge-nos um texto requintado quer na forma, quer pelo conteúdo que nos é oferecido. N´O Outro Lado do Mundo, nem tudo são rosas e contentamentos! Por se tratar de uma narrativa localizada, essencialmente, na ilha de São Miguel, não nos fiquemos pela elementar presunção de que leremos somente sobre agradáveis passeios em tardes soalheiras ao longo das verdejantes cumeeiras que, do alto, entreveem e protegem a lagoa de todos os amores. Como fica expresso no derradeiro texto deste livro, e em jeito de epílogo, há que considerar o «desassossego» da própria autora, o seu afastamento da «quietude» propagada pelo suave andamento do mar que a todos nos confina. Não! Aqui reproduz-se o outro lado desse mundo lisonjeiro, polido e mavioso; nele encontraremos o reverso do luzente buliço citadino, «Um lado onde nada se acerta pelas certezas que foram instituídas pela boa sociedade, aquela que só peca se o pecado puder ficar escondido numa conchinha (…)É-nos arremessada a vida tal como ela é: sem recurso a eufemismos, adornos ou embelezamentos falaciosos. Por aqui deambulam viciados em cocaína com tendências suicidas, uns sem-abrigoque todos conhecem e para os quais nunca há tempo, mendigos acompanhados por cães esqueléticos que também são lazarentos; convivem homens e mulheres que «bebem vinho manhoso pela garrafa ou pelo pacote», e cujos dentes são «escuros da podridão vinda das entranhas carcomidas pelo álcool»; vagueiam ex-reclusos que não arranjam trabalho por terem lavado a honra em águas manchadas pelo adultério; descreve-se friamente a sujidade de «indigentes, tomados pelo vício», ou as rotinas atrozes de uma «puta fina» caída em desgraça e tomada pela idade. Aqui assume-se «A condição humana desencarnada daquilo que a torna aceitável (…)». O ‘ultraje’ é desenhado capítulo após capítulo, afinal, somos colocados diante a «cloaca social da cidade».
A cada trecho, a autora – que domina com mestria a arte de bem escrever – consegue que o leitor sorva cada vez mais este outro lado da vida. Por via do relato veiculado pelo narrador – um mudo que se assume como observador de episódios vários, e os narra com uma subtileza rara – vemo-nos impelidos a, interiormente, mapear as diferentes dimensões da vida que coexistem no mesmo espaço físico. A obra assume-se como um claro convite à análise a esta dicotomia entre o lado benigno e aceitável da vida e esse outro escuso que, por conveniência, procuramos sempre ocultar nos recônditos do esquecimento.
Apesar do distanciamento que a ficção impõe, a autora localiza todos estes episódios na cidade de Ponta Delgada. Neste particular, poderão os leitores locais afigurar-se como favorecidos por lhes ser mais acessível situar in loco a ação narrada, dado o recurso à toponímia atual da maior cidade do arquipélago. Como o fizera o ‘poeta da cidade’, Emanuel Jorge Botelho, na obra 30 Crónicas, também Paula de Sousa Lima manifestou neste O Outro Lado do Mundo um verdadeiro ato de amor pela urbe, «Conheço-lhe o espaço: cada rua, cada travessa, cada passeio, cada esquina, cada recanto, cada jardim, cada contorno de sombra que se enrosca no corpo das casas».
O Outro Lado do Mundo é também e ainda um notável hino ao Humanismo. Aliás, esta será, certamente, a característica mais arreigada a toda a obra. Encontramo-lo bem patente na forma como a autora - pelos olhos do narrador - vê o meio que a envolve, condiciona e, em certa medida, protege. É colocado em evidência o modo como a «boa sociedade» olha para os mais desfavorecidos, cujos trajetos de vida divergiram dos tidos como exemplares. Para aqueles, dar uma esmola não é mais do que «alimentar vícios» de quem «precisa é de trabalho». Em pleno Convento da Esperança, senhoras e senhores distintos insistem em reclamar para si a misericórdia divina, clamando pelos favores do Senhor Santo Cristo dos Milagres, mas, uma vez no exterior, são incapazes de perceber porque «não limpam o Campo» daqueles que a sociedade sacode «como moscas inoportunas». Por oposição, onde a maioria vislumbra apenas a escória social, o narrador (que é da mesma forma um vizinho extremoso, um prudente sobrinho e um verdadeiro amigo do seu amigo) vê «gente», gente que age apenas como gente. «Não é bonito, não é edificante. É humano». Renega-se a altivez e o pretensiosismo e, em contraste, enaltece-se a condição humana do Ser.
Os méritos desta obra recaem, ainda, no que ao aspeto formal concerne e, reservas existissem sobre o virtuosismo da autora finalista do Prémio Leya 2016, pode afirmar-se que estamos perante uma obra que será, no mínimo, uma referência da literatura contemporânea produzida nos Açores. O leitor é constantemente surpreendido: o expectável não acontecerá. Recordo com agrado as situações dialogais, na sua forma pouco convencional, assim como o recurso a mecanismos de narração de difícil manejo, mas que, em larga medida, dotam o texto de um ritmo energético, que tão bem lhe assenta.
A terminar, uma palavra de apreço e alento a todos os promotores e intervenientes neste prémio. Depois da obra Mau Tempo e Má Sorte - Contos Pouco Exemplares, em 2014, da autoria da professora Leonor Sampaio Silva, surge-nos este O Outro Lado do Mundo, como seu digníssimo sucessor, elevando a fasquia da qualidade a níveis que, em larga medida, dignificam o patrono que empresta nome a este Prémio Literário!
A todos, mas especialmente aos galardoados, muitos parabéns!

            Telmo R. Nunes

a 23 de novembro de 2017