domingo, 17 de maio de 2020

RUA DE PARIS EM DIA DE CHUVA


«(…) estar morto não é relevante; o que é relevante é que as pessoas se amem.»

O meu contacto com a escrita de Isabel Rio Novo é muito recente. Aconteceu via digital e já em período de pandemia, quando a autora principiou, numa rede social, uma espécie de diário intitulado «Os dias das árvores». Devo confessar que foi uma leitura esperada com entusiasmo diário, já que as quarenta entradas lá inscritas se encontram marcadas por um bom-gosto e requinte contagiantes. Fiz questão de lho transmitir. A sua escrita harmoniosa e tantas vezes sensorial estimulou-me a curiosidade e conduziu-me a outros trabalhos seus. Percebi que, não fosse a pandemia que nos assolou e a todos nos confinou, teria já acontecido o lançamento nacional do seu último romance «Rua de Paris em Dia de Chuva», publicado pela D. Quixote.
Recorrendo ao empenho, disponibilidade e bons serviços constantes da livraria Leya SolMar, consegui um exemplar, que li com avidez e raro entusiasmo. Não subsista, porém, a ideia de que esta será uma leitura rápida, porque, de facto, não é.

O romance encontra-se estruturado sobre a vida e a obra de um dos nomes mais relevantes do Impressionismo, o milionário Gustave Caillebotte, pintor, contemporâneo, amigo e, tantas vezes, mecenas de outros sequazes do movimento como Monet, Edmond Renoir, Camille Pissaro, Manet, Edgar Degas ou a americana Mary Cassatt. Longe de se esgotar numa aturada biografia do pintor, «Rua de Paris em Dia de Chuva» afigura-se como um documento de enorme valia no que à perceção do movimento impressionista concerne, desde logo as suas origens, os seus partidários e declarados inimigos, técnicas e motivos de pintura. Tudo isto nos é oferecido pela autora com generosidade e, a cima de tudo, com a propriedade de quem – e  justeza lhe seja dirigida – se dotou, domina e relaciona o vasto conhecimento histórico e artístico, brotado do chão parisiense, na ressaca das convulsões políticas, sociais e económicas que por ali foram perpetradas durante o século XIX e com a chegada do Segundo Império, os bombardeamentos à capital, o cerco da cidade, a consequente derrota na Guerra franco-prussiana e a sequente criação da Comuna de Paris.

Este há de ficar na história da literatura portuguesa como um daqueles romances cujo tempo ganha redobrada importância na compreensão integral da obra. A autora, através de um interessante e não menos apurado manuseamento da linha cronológica, gere a narrativa a partir de diferentes períodos, colocando-os ao serviço da própria história narrada. É entremeando o tempo da narração com o tempo dos acontecimentos factuais passados, que o texto se vai desenvolvendo, desde os primórdios da família Caillebotte, concretamente, desde o seu bisavô Pierre. Registe-se, contudo, que poder-se-ia «(…) principiar antes, mas há sempre um tempo que definimos como o princípio (…)». De sublinhar a interessante postura da narradora que, por diversas ocasiões, assume fazer parte de um tempo que não é o dela. Não será pelo distanciamento temporal, que ela deixa de se colocar em cena, de fazer parte do enredo e até de se autorresponsabilizar pelo próprio decurso dos acontecimentos, e tudo porque sente uma real aproximação a Gustave, por quem nutre um especial sentimento de amor, mesmo que à distância, porque para si «(…) estar morto não é relevante; o que é relevante é que as pessoas se amem.». Será por essa razão que considera que «(…) é por isso que vale a pena escrever livros, para poder conversar à distância com aqueles que amamos e que não são do nosso tempo. Que triste e pobre seria a vida se as nossas afeições estivessem limitadas àqueles com quem nos cruzamos realmente. Que longos nos pesariam os dias se aqueles que morreram antes de nós estivessem mesmo ausentes.»

Outro dos destaques neste romance é o espaço. Ele é múltiplo, mas, na essência, respeita, cronologicamente, o percurso da família Caillebotte, desde os primórdios em Domfront, na Normandia, passando pela toda arejada Paris de Haussmann com os seus modernos bulevares, até aos ambientes mais recatados e frescos, quer de Yerres, quer de Petit Gennevilliers. Excetuando o primeiro, todos os outros são descritos como espaços ricos, decorados de forma refinada, típicos da emergente classe burguesa da época, da qual Gustave fazia parte integrante por via da colossal fortuna alcançada pelo pai – Martial Caillebotte – um self made man, e, curiosamente, a personagem que mais interesse me despertou.

Ao longo da obra, a narradora descerra um número muito significativo de títulos de quadros, pintados pelos criadores já aqui referenciados ou por outros a quem não é atribuído tanto destaque. A acompanhá-los quase sempre algumas notas técnicas que adquirem intensificado interesse, já que da própria narrativa emerge a justificação de tais apontamentos. A este propósito, refira-se que há um constante equilíbrio entre a análise aos quadros, levada a efeito por Helena (professora de História de Arte, especialista em Caillebotte, e a quem a Autora recorre com alguma frequência para se documentar na redação do seu romance) e aquilo que vai sendo narrado pela própria narradora.

A minha leitura, e assumindo desde logo a minha diminuta erudição no que ao Impressionismo se refere, levou o seu tempo, porque fiz questão de a efetuar sempre com a Internet em modo on. Torna-se bem mais interessante a leitura quando acompanhada da referência pictórica.

Pese embora a componente ficcional inscrita por Isabel Rio Novo, este texto apresentar-se-á sempre como uma fonte privilegiada sobre o movimento impressionista e seus expoentes mais cintilantes, dos quais, durante muitos anos, se excluiu Gustave Caillebotte. Tal como o próprio movimento, que sentiu dificuldades de aceitação pela sociedade que restringia a arte àquela apresentada no “Salão”, não abrindo espaço aos novos talentos que rompiam com o ditame, também o pintor milionário, formado em Direito, engenheiro e construtor naval, horticultor e político, velejador premiado e colecionador de selos e de obras de arte (mecenas dos seus colegas, comprando-lhes os invendáveis), era apontado como um mero companheiro e financiador de pândegas dos tidos como verdadeiramente impressionistas talentosos.

Este é um grande romance, que deve ser lido com o tento devido, não colocando, no entanto, de parte uma apreciação “sem moderação”, como diria uma grande amiga da Literatura em geral e da poesia em particular, e deve começar desde logo pela capa, quadro pintado pelo próprio Gustave Caillebotte, e que, generosamente, empresta o título ao livro.

Isabel Rio Novo, Rua De Paris Em Dia De Chuva, D. Quixote, Lisboa, 2020 

terça-feira, 12 de maio de 2020

E DEUS TEVE MEDO DE SER HOMEM


- Se eu fosse Deus, não teria feito o Mundo assim.
 (in E Deus Teve Medo de Ser Homem)

Escrita pelo professor Daniel de Sá, esta novela apresenta-se como um documento singular, factualmente rico, e de tributo a um povo perseguido, humilhado e, repetidamente, dizimado!

A história do povo judeu é-nos aqui descrita em dois planos temporais distintos. São relatados dois momentos históricos de persecução, de aniquilamento, de subjugação. Resistindo a um arranjo cronológico fácil, Daniel de Sá intercala o seu relato, dando-nos conta quer do extermínio judeu levado a efeito pelos alemães Nazis de Hitler, em pleno Holocausto, ou “[…]“Shoa”, a palavra hebraica que os Judeus, mais propriamente do que nós, usam para designar o “Holocausto”, e que significa “Catástrofe”.”, quer do aniquilamento exercido pelos romanos, quase dois mil anos antes de II Guerra Mundial.

O autor centra a ação da novela nas atrocidades cometidas no Campo de Concentração de Auschwitz, e brinda-nos com um relato emocionado, vivo, comprometido com o descrito, o que não deixa de ser revelador da sua enorme sensibilidade e humanismo. Como referiu Joaquim Matos numa recensão à obra, “Ele fala-nos das coisas como se as tivesse vivido, como se as tivesse sentido em situações concretas, com as feridas delas decorrentes ainda abertas, no corpo e na alma.”.

Daniel de Sá consegue, de forma singular, intercalar factos de enorme relevância histórica para a Humanidade, com a ficção que vai, paulatinamente, imprimindo no seu discurso: “[…] o que acontece na novela de Daniel de Sá é o equilíbrio perfeito entre o historiador e os factos históricos e entre o ficcionista e a ficção.”, como afirma a amiga Susana Antunes, num olhar sobre esta obra.

Pela voz de Aharon Csánady Halévy, ou melhor dito, pelas memórias do padecimento deste sobrevivente ao Holocausto, Daniel de Sá parte para uma profunda análise sobre a condição humana, sobre os limites de sofrimento que poderá um homem experienciar no limite da sua vida, e sobre a implicação dos mesmos na sua existência posterior: “A minha debilidade era tão grande que julgava que morria a qualquer momento.”.

O autor conduz-nos, então, à reflexão sobre este padecimento através de um conjunto de memórias escritas pelo próprio Aharon. Paradoxalmente, a personagem tê-las-á escrito para delas se esquecer e, de alguma forma, se libertar de um passado medonho, aceitando-o, irremediavelmente: “Um homem não pode nunca esquecer voluntariamente. No entanto, eu quis fazê-lo, como quem apaga umas páginas mal escritas, mas quanto mais tenta o esquecimento por refúgio mais recorda o que não queria recordar.”.

É notória na personagem uma certa resiliência, uma aceitação de um passado que foi hediondo, e uma consciência de que o mesmo lhe moldará sobremodo a existência, nos anos subsequentes ao cativeiro. Percebe-se ainda que, só a aceitação imperativa desse passado, permitirá uma vivência digna, ditosa e, de uma forma muito otimista, até feliz! “E, depois disto, talvez eu consiga tocar violino novamente.”.

Em «E Deus Teve Medo de Ser Homem», Daniel de Sá eterniza um extraordinário paralelo entre a humanidade separada por quase dois milénios.

Valendo-se de uma personagem mística – que afirma ser o próprio Filho de Deus –, o autor produz um relato pautado ora pelo rigor histórico, ora pela ficção, sobre o período de pregação e morte do próprio Jesus Cristo. Se, nessa altura, os romanos foram capazes das maiores crueldades, passados quase dois mil anos, os alemães Nazis não se mostraram mais humanos do que os primeiros; se aqueles não revelaram grande pudor em maltratar, perseguir e, até, crucificar judeus, sem quaisquer evidências que o justificassem, estes mostraram-se completamente impiedosos, frios e inumanos ao assassinarem milhares de judeus, só em Auschwitz. Uns mataram pela cruz, outros valeram-se dos crematórios!

«E Deus Teve Medo de Ser Homem» é uma novela avassaladora, um retrato cru de dois períodos particularmente negros desta humanidade em evolução. Decorrente da sua leitura, é percetível o grotesco retrocesso civilizacional a que uma mente brilhante, mas completamente perturbada, nos sujeitou, em meados do século passado.

A expensas do brutal padecimento de todo um povo, foi percebida tardiamente a ignomínia e a perigosidade de discursos racistas, xenófobos de índole separatista, e dos quais julgávamos estar a salvo. Lamentavelmente, o presente oferece-nos sinais de alerta, bem mais próximos e arreigados do que seria desejável, o que nos leva à questão: até quando estaremos seguros?

No crepúsculo da II Grande Guerra, concretamente, em 1946, Primo Levi lembrava, em «A Trégua», o "breve submisso / toque da alvorada", prognosticando que “Em breve ouviremos de novo / O toque de comando estrangeiro: / «Wstawać»” ou o “chamamento”.

Estejamos alerta, portanto!

A terminar, deixo-vos transcrita a INVOCAÇÃO que o próprio Daniel de Sá nos oferece:
«Nenhum livro fica completo sem o leitor. Dos que já escrevi, este será, sem dúvida, o que mais há-de depender da maneira como for lido para que tenha valido a pena escrevê-lo.»

[publicado em nov. 16 e revisitado em maio 20]

Daniel de Sá, 《E Deus Teve Medo de Ser Homem》, Ed. Salamandra, 1997

domingo, 3 de maio de 2020

ENLOUQUECER É MORRER NUMA ILHA

Filho da disponibilidade e bons serviços da livraria Leya SolMar, chegou-me esta semana a obra “Enlouquecer É Morrer Numa Ilha”, da autora micaelense Maria Brandão.
Confesso que sentia alguma curiosidade nesta leitura, fruto, sobretudo, das conceções formalizadas a partir do seu antecessor, “Corpo Triplicado”, (2018), ambos editados pela Companhia das Ilhas.
Este é um livro de fugas! Este é um livro de partidas! Este é um livro onde se maneia a busca da felicidade. Este é, portanto, um livro sobre a condição humana.
A diegese assenta num espaço partido em diversas geografias mundiais, embora haja uma substancial preponderância entregue à dicotomia entre um espaço ilhéu, encarado como opressivo, e a sempre airosa, cosmopolita e não menos libertadora atmosfera suíça.
Ao longo do texto, distingue-se claramente o antagonismo entre ambos; embora de natureza europeia, um e outro não se poderiam apresentar mais afastados entre si, e não apenas no que à questão económica se refere. Aliás, não será esse o principal motor de fuga de grande parte das personagens, antes a busca de uma redenção individual, bem longe do useiro insular.
A ilha é tida como espaço nefasto, castrador e do qual se torna imperioso abalar. É um espaço feio e imundo, causador de “repulsa de tão decadente”, um local onde se propaga o preconceito desmedido; onde se percebem os esgares trocistas e as risadas galhofeiras. Um sítio onde os dedos são apresentados em riste àqueles que ousam a diferença. Um local povoado por “gente feia, patibular, banhas a transbordar de gangas apertadas, bocas abertas em carantonhas desdentadas.” Ali o sufoco é em demasia e sente-se o anseio de evasão. “Doentio é este lugar. Tens de perceber uma coisa: aqui a nossa vida e examinada desde o berço, a nossa privacidade devassada com meticuloso frenesim. Aqui a mentira surge ao ritmo dos olhares cruzados dos vizinhos, os boatos propagam-se como o fedor a bosta e enxofre”.
Por outro lado, é-nos servido um cenário cosmopolita, sofisticado e liberal num dos países mais ricos do mundo, e onde convivem harmoniosamente milhões de pessoas de múltiplas nacionalidades. Um local onde as personagens se assumem integralmente, abrigadas de preconceitos, de culpas e de opressões injustificadas. Um espaço onde se dá o encontro com o tão desejado sossego, onde todos já perceberam e agem de acordo com a noção de que a diferença não é para ser tolerada, mas antes para ser aceite.
Em “Enlouquecer É Morrer Numa Ilha”, assiste-se à consistência de um estilo arrojado, impactante e, de alguma forma, disruptivo, inteligível já em “Corpo Triplicado”, e ao qual a autora parece dar preferência, colocando-o ao serviço de temáticas que, sendo controversas, são também o retrato de uma sociedade que se esforça por manter em equilíbrio as aparências que lhe conferem estabilidade.
Divórcios, traições, homossexualidade, múltiplas relações, homofobia, oportunismo, refugiados, casamento por interesse são alguns dos temas abordados e nenhum é tratado de forma simplista, ou sequer descrito com recurso a floreados ou eufemismos: “A mulher com sexo escrito na testa, determinada a não passar as noites sozinha, consumia o séquito de admiradores como triângulos de Toblerone ao domingo: com sofreguidão e um remorso difuso que combatia com uma aula de aero kick, um pai-nosso e três avé-marias.”
Em momento algum é nomeada a ilha, mas facilmente se reconhecerão similitudes com o quotidiano açoriano e micaelense, em particular. Não raras vezes, o leitor (insular e não só) sente-se arremessado para diante de um espelho e, a partir de lá, impelido a uma autorreflexão, por mais superficial que ela seja, questionando-se sobre a sua forma de ver e, sobretudo, de lidar com a diferença.

domingo, 26 de abril de 2020

Flores de Quarentena

Cumpridas as cada vez mais compridas obrigações profissionais e domésticas, decidimos - a Susana e eu - dar um passeio pela mata que nos rodeia a casa. Assim que se apercebeu da saída iminente, o Filipinho ficou felicíssimo e correu de imediato para o portão. Regozijava e, em boa verdade, nós também! Nestes dias de confinamento, estes espaços circundantes granjeiam uma dimensão que até agora não possuíam. Hoje, vemo-los como uma extensão benigna da nossa própria liberdade, e facilmente percebemos a sorte que temos, comparativamente com a de alguns amigos que se veem obrigados a cumprir o distanciamento social confinados em pequenos apartamentos citadinos.
A tarde terminava, mas nem por isso se apresentava menos convidativo o passeio. O sol, ainda alto, aquecia-nos a pele acendendo uma sensação de benévolo conforto, e à medida que nos embrenhamos na vegetação, o chilrear dos pássaros convertia-se na melodia perfeita. 
Saímos com a intenção de colher flores. A Susana gosta muito de iluminar a sala com jarras vestidas de todas as cores. Embora não mo diga, sei que aprecia também o perfume que se adentra, assim que as coloca no local que lhes estava destinado há muito. Ela sabe fazer aqueles arranjos, quase profissionais, combinando verdura e flores na medida exata. Eu também gosto de as ver ali, assim como de sentir o seu perfume pela casa, mas o que mais aprecio é o tempo partilhado e, essencialmente, as memórias que, a partir delas, o Filipe e nós mesmos vamos criando.
A Susana colheu uns jarros viçosos e novos. Aguentarão uns bons dias. O Filipe e eu escolhemos uns malmequeres-amarelos.
Hoje foi um dia bom!

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Nove horas

Nove horas! Os sinos rebatem no alto da torre sineira da velhinha Matriz de Paços de Ferreira.
É domingo de Páscoa!
Celebrada a missa pascal e anunciada a vitória da Vida sobre a morte, eis que surgem os primeiros sinais: os fiéis juntaram-se às centenas, dispersos pelo jardim municipal, mas todos de olhos pousados na saída do velho templo; todos, sem exceção, Lhe querem lançar um olhar respeitoso de alegria, de agradecimento ou admiração profunda.
Ouve-se a Banda Musical. Primeiro muito baixinho, depois, à medida que se aproxima, com mais clareza. Dirige-se à Matriz. Veio receber Cristo com as honras que Lhe são devidas.
Está tudo pronto!
Rompem o céu dezenas de foguetes. Os pássaros esvoaçam aturdidos e sem rumo. Dois ou três cães vadios correm sarapantados em direção ao velho carvalho centenário. Vão assustados! Ninguém sabe quem ou de onde foram lançados os foguetes, e as autoridades não se mostram muito consumidas com o facto! É Páscoa!
O cortejo que há de trazê-Lo às ruas abandona a Matriz.
Já se vislumbram as crianças agitando ferozmente as sinetas que, a todos, hão de anunciar, ainda à distância, a aproximação da cruz. Por baixo da opa tingida de um vermelho já gasto, é vê-los todos aperaltados com roupas a estrear mercadas de propósito para o domingo de Páscoa. Os mais avisados talvez se tenham lembrado de calçar uns sapatos usados, já “feitos ao pé”. Os mais incautos, coitados, hão de padecer! Mostram ainda o vigor que lhes escasseará logo mais, ao fim da tarde, pela hora de recolher, calcorreadas avenidas, ruas e vielas, praças, becos e travessas.
A segui-las, dezenas de mancebos e homens já velhos: uns estreantes, outros repetentes. Também eles usam opas vermelhas. Os mais experientes assumem-se responsáveis pela transmissão “do ofício” aos mais novos e marcam o passo acelerado. Uns carregam o saco das ofertas. Coitados, são os “Judas”, como muitos fregueses lhes chamam. Nunca gostei da expressão e prefiro não a usar. Outros carregam uma pequena terrina de prata ou de estanho, onde vem santificada a água que há de benzer as casas da freguesia. Vêm lá também os leitores que, munidos de uma simples pagela, leem a oração em cada lar em que entram. E depois... bem... depois... anuncia-se o Juiz da Cruz.
Ei-Lo: Cristo que sai à rua e em breve entrará em nossas casas. Já falta pouco tempo.
As flores estão prontas. Este ano, a minha mãe colheu das azáleas brancas. Sabe que são as minhas preferidas. Foi o Filipinho, com a ajuda da Ritinha, que as acamou à entrada da nossa casa.
Será por cima delas que Ele entrará!
O Compasso chegou!
É Páscoa, aleluia, aleluia!

📷 Cristo Rei, Paços de Ferreira

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Os dias adejam


Os dias adejam mais ou menos indistintos por um calendário cada vez mais comprido e de contornos sobejamente desconhecidos.
Ao contrário do que vamos lendo aqui ou vendo acolá, cá em casa, ainda não nos rebelamos contra toda esta situação: temos encarado este período de quarentena de forma tranquila, mas, ao mesmo tempo, de forma responsável e profundamente crítica, por não ser coisa pouca a que está em risco! Ao contrário do que temos percebido, consideramos pouco prudente a tomada de decisões precipitadas e denunciadoras de um cansaço excessivo, fruto do confinamento, e que se traduzem num sobejo de confiança, que nos parece injustificado e até perigoso, colocando mesmo em causa o esforço de tantos ao longo de tanto tempo. A este propósito, não percebemos como pode alguém ponderar a abertura de escolas ao mesmo tempo que se encerram de forma compelida lares de idosos e outras instituições iminentemente em risco de contágio generalizado. Simplesmente não nos parece correto…
Atendo-nos ao que podemos controlar, criámos as nossas novas rotinas e, talvez por isso, estejamos a conseguir lidar com esta realidade com relativa harmonia respirando, até, com alguma confiança. A presença constante do Filipinho tem-se revelado uma ajuda formidável; o labor e a atenção a que nos sujeita rege-nos a maior parte do dia e, depois de cuidarmos dele e de atimarmos outras responsabilidades quotidianas e profissionais, resta-nos pouco tempo, que procuramos aproveitar da melhor forma.
A Susana tem aprimorado a cozedura de pão, e eu continuo a fazer os iogurtes. O dela está cada vez melhor, os meus não passam daquilo! Para além das façanhas culinárias e dos afazeres domésticos tradicionais, temos reservado tempo para a escrita e mantido algumas leituras em dia: aguardo – com ânsia assumida – pelas entradas nos diários “Os Dias das Árvores”, de Isabel Rio Novo, e no “Mensagem do avô”, de António Mota, assim como procuro não perder um capítulo do recente projeto “Bode Inspiratório”. Para além destas preciosidades digitais, encetei a leitura de «O Beco da Liberdade», de Álvaro Laborinho Lúcio, e percebo agora por que razão o próprio fez questão de sublinhar repetidas vezes, no lançamento da obra em Ponta Delgada, que o texto em nada era autobiográfico… Um tratante, aquele juiz Guilherme Augusto Marreiro Lessa.
Temos procurado lembrar que este tempo de quarentena é também de Quaresma e que se vive, a partir de hoje, o Tríduo Pascal.
Decidimos manter as tradições que conseguirmos e, sob o olhar curioso do nosso pequeno Filipe, tingiremos hoje os ovos de Páscoa, usando, como em casa materna, cascas soltas de cebola. A Susana não conhecia esta tradição nortenha, mas vive-a com redobrado empenho, o que me deixa bastante satisfeito. Fruto dos tempos e do tempo, mercámos, por correio eletrónico, as provisões necessárias e confecionaremos um almoço pascal que se assemelhe o mais possível ao que as nossas mães fariam, com gosto redobrado, para toda a família.  Na lista incluímos um pão de ló de Margaride e um de Ovar, uns pacotinhos de amêndoas e um ovo de chocolate para o Filipe. A mãe achou-o demasiado grande, eu olho para ele e vejo um miminho em jeito de recompensa por tudo o que lhe é subtraído esta Páscoa!
O Livro dos Livros também já está aberto na página certa. O texto exposto será Evangelho da missa dominical e é segundo São João. Embora não devesse ser necessário, vem recordar-nos que a morte foi vencida pela ressurreição e que, nessa medida, há que ser paciente e ter esperança em dias melhores!

terça-feira, 14 de abril de 2020

Dias atípicos

Vivemos dias atípicos, conturbados e de certezas escassas. Editam-se umas rotinas, enquanto outras, as mais sacramentais e de razão pueril, são mantidas com afinco e alguma resiliência.
Temo-nos desdobrado: a Susana está, como eu, a trabalhar a partir de casa; o Filipe, infatigável e satisfeito como nunca o víramos, retém-nos constantemente a atenção e o olhar. Está tão bonito e mostra-se tão feliz! Temos confecionado todas as refeições e temos sabido manter a casa nos parâmetros de arrumação e limpeza a que a nossa Sónia nos habituou...
A Susana fez pão e eu iogurtes!
O relvado está aparado e sem trevo. Dei cabo das costas a mondá-lo, mas, pela primeira vez em quarenta anos, arriguei um de quatro folhas. Lembrei-me, de imediato, daquele terceto do Emanuel Jorge Botelho: "já restam poucos trevos inteiros. / daqueles que dão quatro folhas / às cinco letras da sorte.". Tão bonito! Sequei a relíquia e guardei-a junto do poema!
Os carros estão lavados, a bicicleta e a mota oleadas. Também montamos um baloiço para o petiz, oferta dos tios e que esperava há tempo o tempo certo.
Temos visto as notícias, respeitado as indicações que nos são prestadas e lamentado o evoluir desta situação. Ouvimos o número de mortos aqui e além e, de imediato, averiguamos se esse número é inferior ao do dia anterior… Atemo-nos ao número… Meu Deus, será por aqui que começa a nossa desumanização? Quero crer que não. Com efeito, fazemo-lo, porque nos queremos imbuir da esperança ingénua de que este pesadelo está a chegar ao fim. Mas não está. Não me parece que este vírus esteja a dar sinais de abrandamento.
Temos acreditado no profissionalismo das pessoas que, pela responsabilidade que assumiram, têm combatido este vírus nas linhas mais avançadas desta guerra.
 Para além de tudo isto, temos feito algumas leituras. Terminei «A Trégua», do Primo Levi e, adindo-lhe as considerações que havia formulado do «Se Isto É Um Homem» – o seu precursor – sublinhei a ideia de que a humanidade está a ser, uma vez mais, colocada à prova. As grandes batalhas travamo-las agora, com lamentáveis perdas e inevitáveis privações, enquanto a caminhada final que nos conduzirá de regresso a casa, fá-la-emos mais tarde, só mais tarde, mas munidos da certeza de que nada será igual…
Mia Couto escrevia “Não se regressa nunca (…)”, mas o trevo continuará a aparecer e o relvado continuará a precisar de monda…

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A Vida no Campo – Os Anos da Maturidade Volume II


A propósito do diário «A Vida no Campo», do escritor terceirense Joel Neto, escrevi em 2016 que, tal “Como Torga conseguiu engarrafar o sol que brilha sobre o “rio de oiro”, também Joel Neto conseguiu aprisionar em «A Vida no Campo», a essência da ilha, a essência de todo um arquipélago e de tudo isto a que, comummente, designamos por ser ilhéu!”. Continua atual! Ainda bem!
Finda a leitura do volume II deste diário, parece-me justo aditar que o autor vive em demanda de uma certa redenção que lhe parece escapar a cada entrada que vai acrescentando. Ao folhear cada uma das páginas, é notória uma ânsia visceral de reencontro com o passado. Poder-se-á afirmar haver uma necessidade primária de contacto com o tempo ido, já que é desenvolvido um trabalho robusto no sentido de recuperar e perpetuar essa memória de uma realidade há muito vivenciada mas que, paralelamente, existe ainda – e bem arreigada –, constituindo o quotidiano de muitos dos que o autor conhece, respeita e quer enaltecer. No fundo, quererá exaltar a lembrança daquele que também ele já foi, bem antes das memórias lisboetas, universitárias, jornalísticas…
Não subsista, contudo, a ideia de que este segundo volume (ou o anterior) se limita a uma escrita complacente e caridosa para com os terceirenses, concretamente, para com os do lugar dos Dois Caminhos, na freguesia de Terra Chã. Ao invés, ficaram imortalizadas nestas páginas sentidas homenagens e honestos tributos aos homens e mulheres que, com o autor, repartem a serenidade bucólica que ali se pode espreitar, mas também que dali arrigam à terra, e à força do braço, o sustento de cada dia.
 Mesmo em outras obras suas, onde a trama diverge para outras geografias, é notória a relação umbilical que o autor conserva com a ilha de Jesus Cristo e com os Açores: ele parte sempre da ilha; ele sedia-se no arquipélago; ele coloca os Açores como centro do seu imaginário para, a partir desse ponto e valendo-se da mundividência que foi acumulando, encetar o relato das suas experiências com aquela voz tranquila que caracteriza as suas diegeses. Neste segundo volume de «A Vida no Campo» não é diferente e, seja em Lisboa ou San Jose, New Bedford ou Providence, em Ovar, Torres Novas ou Óbidos, Freiburg im Breisgu ou Porto Alegre, Joel Neto não se consegue dissociar da sua açorianidade, da sua condição de ilhéu açoriano da Terceira, da freguesia Ribeira Chã, filho pródigo do lugar dos Dois Caminhos, embora suspeite que esse nunca terá sido o seu desejo…
Tal como no outro volume, a cada entrada deste diário é-nos servido “um retrato pictórico altamente contagiante e esteticamente belo, sem abdicar, jamais, de um realismo e veracidade ímpares”, ilustrando, dessa forma, o que ainda é a vivência quotidiana em qualquer uma das nove ilhas dos Açores.
O segundo volume deste diário ganhou o apêndice «Os anos da maturidade», o que na prática lhe assenta muito bem, dada consistência que a escrita do autor vem adquirindo de obra para obra. Pese embora tenha falhado a leitura de um ou outro livro seu (dos de início de carreira literária), creio que será seguro falar de um Joel Neto anterior a «Arquipélago» e de um outro posterior a esse que será o seu primeiro grande sucesso nacional, a que se seguiu o incontornável «Meridiano 28», na minha opinião, a sua Magnum opus até à data.
Em jeito de remate, e porque ainda me faz todo o sentido, ouso terminar da forma com que finalizei o comentário à leitura do primeiro volume deste diário:
“Com as devidas cautelas e distanciamentos que a geografia literária impõe, talvez os mais afoitos possam agora afirmar que, com o livro em punho, sair-se da ilha não mais seja a pior forma de nela ficar: poderemos agora levá-la connosco, transportá-la um pouco mais próximo do coração, à distância de uma leitura fugaz, arrebatada e, porque não, apaixonada!”
Ao autor, outra vez, os meus parabéns!
Telmo R. Nunes

sábado, 7 de dezembro de 2019

Avenida Marginal - Ficções, Ponta Delgada

Finda a leitura de «Avenida Marginal - Ficções, Ponta Delgada», impus-me a redação de um comentário sobre a obra que, segundo afirma Maria Helena Frias – a editora –, em nota introdutória, “(…) tem grafia de escritores de renome, assim como novas vozes, que confirmam o valor criativo, literário e humanista de uma literatura notável.”. Não há como discordar!
Esta coletânea emerge como uma forma nobilíssima de homenagear Ponta Delgada; são-nos oferecidas representações distintas da própria urbe, capacitando o leitor de um vislumbre sobre a mesma, através da “sensibilidade” de onze contistas tão desiguais como Joel Neto, Nuno Costa Santos, Blanca Martín-Calero, Leonor Sampaio da Silva, Tiago Ribeiro, Maria das Mercês Pacheco, Mário Roberto, Leonardo, Carlos Tomé, Pedro Gomes ou Maria Brandão.
Se a uns, unanimemente, lhes reconhecíamos, há muito, méritos literários, outros há a quem, erradamente, se prognosticou terem sido escolhas arriscadas dentro do género. Não obstante, mostrando-se multifacetados e, tingindo as suas páginas de versatilidade criativa, foram capazes de criar ficções densas e muito bonitas, enredos curtos mas largos em significado, o que me parecem ser condições fundamentais na produção textual dentro desta tipologia, ou género literário de características tão peculiares.
Embora a civilidade me instigue à fuga da individualização (até porque apreciei sobremaneira os onze textos), não consigo deixar de enaltecer os contos de Joel Neto, de Leonor Sampaio da Silva e Pedro Gomes, por terem correspondido em pleno às mais altas expectativas que neles depositara. Por outro lado, e fator de interesse acrescido, como não destacar o conto de Mário Roberto, ele que tanto aprecia “vagabundear pelas artes” e, de igual modo, o do poeta Leonardo, que tanto divergiu das águas por onde talentosamente costuma navegar?
A apresentação pública do «Avenida Marginal» esteve a cargo de João Nuno Almeida e Sousa, que soube interpretar com fulgor, mas também com grande lucidez a essência da obra, tendo, nesse final de tarde ventoso, proferido um texto belíssimo, capaz de impelir até os mais céticos para uma leitura atenta da obra. Dentre tantas ideias ali lançadas, recordo uma que me ficou na “retina”, e que se relacionava com o facto de, por tantas vezes, não se conseguir distinguir aquilo que efetivamente é cultura e aquilo que se fica apenas pelo entretenimento.
Neste caso, não tenham dúvidas! Leiam-no, porque estarão a investir em cultura!

Aos promotores, autores e outros intervenientes, muitos parabéns!

Vários, «Avenida Marginal – Ficções, Ponta Delgada», Artes e Letras, 2019
#textosecoisasdessas

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Exposição de Autores açorianos

Exposição de Autores açorianos, na EBI da Maia, pelos alunos a turma A do 5.° ano de escolaridade.
Os autores selecionados pelos alunos foram

Paula de Sousa Lima;
Leonor Sampaio da Silva;
Malvina Sousa;
Emanuel Jorge Botelho;
Urbano Betencourt;
Joel Neto;
João Pedro Porto;
Pedro Almeida Maia.


Considerando os documentos Aprendizagens Essenciais de Português, definidas para o 5.º ano de escolaridade (2.º Ciclo do Ensino Básico), assim como O Perfil Dos Alunos À Saída Da Escolaridade Obrigatória, para além da transversalidade de lecionação da nova disciplina de História, Geografia e Cultura dos Açores (HGCA), e atendendo a que a entrevista é um dos textos não literários contemplados no programa, pareceu-nos muito interessante estes jovens alunos elaborarem uma pequena entrevista (seguindo a sua estrutura), a alguns dos autores açorianos mais proeminentes.

O objetivo geral do trabalho passa por dar a conhecer a toda a comunidade escolar não apenas os escritores, como também algumas das suas obras de referência. Para tal, foi organizada uma exposição de trabalhos biobibliográficos efetuados a partir da informação recolhida nas referidas entrevistas.
Foi um sucesso!

domingo, 6 de outubro de 2019

O terrorista elegante

Terrorista e elegante: será possível conjugar estes dois termos em um só indivíduo?
Sim, é possível. E quem o confirma são dois dos mais brilhantes contistas da literatura lusófona contemporânea: Mia Couto e José Eduardo Agualusa.
Perdoem-me o desrespeito alfabético, concedendo o posto primaz ao moçambicano, mas, do meu ponto de vista, ele é um dos maiores, um dos que mais contentamento sinto ao ler. Como eu, tantos outros o rotulam como um excecional contador de histórias, um ‘fazedor’ de palavras com uma imaginação que não parece conhecer fim. De qualquer forma, não me faltariam também ricos adjetivos para qualificar o angolano, caso o propósito agora passasse pela constatação do talento literário destes homens.
A obra, um conjunto de três novelas inicialmente previstas para a dramatização, encerra a curiosidade de ter sido escrita a quatro mãos. Ainda no introito, somos informados que ao escreverem «O terrorista elegante» os autores, sentados a uma mesa e num ambiente completamente descontraído, “rindo e brincando”, apostaram “na negação da ideia de que a criação literária é sempre um ato profundamente solitário”. Eu creio que assim é, e por isso não deixa de ser curioso também que as restantes duas composições tenham sido escritas a partir de cidades diferentes, fazendo-se os autores valer da cumplicidade entre ambos, sendo que um ia adindo texto ao escrito do outro, e isto como quem joga prazerosamente uma singela partida de ping-pong!
A perpassar toda a obra ondulam odores (benévolos ou perniciosos), gostos, cenários idílicos e citadinos e, claro, as temperaturas aquecidas e tipicamente africanas, que se traduzem não apenas nos corpos transpirados pela pujança do astro-rei, mas, sobretudo, nas abordagens sensuais ao eterno desejo do feminino, e que ambos autores tão bem souberam diluir nas entrelinhas mais agradáveis destas novelas.
Embora não se encontre explícita a autoria deste ou daquele excerto, essa informação perde relevância e interesse ao longo da leitura. Ainda que no início nos sintamos tentados a encontrar o rasto de um ou de outro autor, com o avançar da obra, essa necessidade perde relevância e, assim que nos damos conta, deixamo-nos ir ao sabor do deleite da leitura. Naturalmente, e em abono da verdade, aqui e além distinguem-se estilos e encontram-se vestígios. Leia-se a título de exemplo a passagem “Desta vez, sonhei. Sonhei, ora essa, não: pesadelei”, que pertence, claramente, ao indelével traço de Mia Couto.
As temáticas abordadas nas narrativas são díspares, muito embora na génese de todas se perceba a presença constante de um elemento: a morte.
Na primeira novela da obra, «O terrorista elegante», que empresta título ao livro, é referido um angolano com especiais ligações a grupos terroristas internacionais. Suspeito de tentativa de atos dessa índole em território nacional, é detido em Lisboa e conduzido a interrogatório. Ainda que com alguma relutância, podemos extrapolar a ideia de que os autores quiseram lançar aqui uma fina crítica à forma de atuação, assim como a alguns métodos utilizados pelas forças de segurança, em casos de detenção. Durante o inquérito, o inusitado acontece e o prisioneiro leva a que os seus inquiridores comecem a questionar-se a si próprios. 
A segunda diegese, «Chovem amores na rua do matador», tem como protagonista Baltazar Fortuna, um pinga-amor cinquentão que procura redenção íntima e, para tal, vê-se na obrigação de matar as três mulheres com quem viveu ao longo da sua vida.
A terceira e última novela, «A caixa preta», refere-se a uma família desestruturada pela guerra, onde avó e neta vivem sozinhas, reféns do tempo e da memória, embrenhadas em segredos e assuntos proibidos, entretanto trazidos ao presente pela inesperada presença e morte de alguém…
 Ao lermos a informação de contracapa, “Dois dos maiores autores de língua portuguesa juntam-se para proveito e alegria dos seus leitores”, constatamos que ainda bem que se deu este acaso! Foi uma reunião muito feliz e, mais importante, resultou numa obra globalmente harmoniosa e cerzida pelo enorme talento de ambos.
Foi, de facto, um gosto reencontrar-me com estes senhores!
Uma palavra de apreço à Quetzal que, entre outros, teve o mérito de criar este volume, do qual é impossível não sublinhar o belíssimo design de capa, da autoria de Rui Rodrigues.

Mia Couto e José Eduardo Agualusa. «O terrorista elegante», Quetzal Editores, 1.ª edição, 2019.

#livrosecoisasdessas


sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Pouca Terra

Possivelmente, a mesma ilha - grande e fechada - que se defendeu "de ser água por detrás dos muros das arribas", e "que durante muito tempo só se abriu para deixar sair gente", é-nos agora retratada e descrita como a "obra perfeita" do vulcão, como terra povoada por gente; cidade com gente lá dentro, com "lugares ermos e misteriosos", e onde se fala de amor... Lugar de silêncio e de luz, de festa e de sombra.
A obra, prefaciada pelo poeta da ilha do sol, Daniel Gonçalves, é muito mais do que um rol de textos e imagens. Aliás, quão redutor seria afirmar que este é um conjunto de fotografias legendadas pela subtileza de uma rica prosa poética, ou, do mesmo modo, um texto ilustrado por imagens capazes de nos reter os sentidos?
Não!
《Pouca Terra》 é bem mais do que isso! É muito mais! Estamos perante uma declaração de amor à ilha, ao arquipélago; aqui foi perpetuada, em forma de texto e de imagem, a condição humana que, desta vez, se quis ilhoa!

Leonor Sampaio da Silva (textos), Carlos Carvalho (imagens), 《Pouca Terra》, Companhia das Ilhas, 2019

terça-feira, 20 de agosto de 2019

O Carteiro de Pablo Neruda

Negociadas umas curtas tréguas com fraldas e biberões, e considerando o outono que, assim parece, arribou antes do calendário o ditar, consegui pegar num dos livros que, há tempo, sentia vontade de ler. Já há anos lhe relanceara os sentidos, mas sem lhe prestar a merecida atenção.
Terminada agora a leitura desta extraordinária novela, de Antonio Skármeta, era meu intuito encetar um comentário mais rigoroso sobre o texto, mas as tréguas que me permitiram a leitura da obra terminaram e chegou a hora do biberão das cinco!
Seja como for, leiam-na! A minha edição é a da fotografia e, segundo me dizem, nasceu da comemoração do cinquentenário da editora Dom Quixote!
De resto, um abraço a cada um!

Antonio Skármeta, 《O Carteiro de Pablo Neruda》, Dom Quixote, 2015

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

in Açoriano Oriental


“Ler na Livraria” ao sábado de manhã

Para além do prazeroso reencontro com pessoas que partilham o gosto pela Literatura, as sessões “Ler na Livraria”, promovidas pelos responsáveis pela icónica LeyaSolmar, em Ponta Delgada, revestem-se da grande vantagem de trazerem ao conhecimento ou, pelo menos, à memória obras de referência que, por um ou outro motivo, se encontravam na obscuridade do esquecimento. Foi o caso de «Descobri Que Era Europeia», da autora açoriana Natália Correia, naquele sábado selecionado e comentado pela professora e escritora Leonor Sampaio Silva.
A edição que possuo – da editora Ponto de Fuga, março de 2018 – é a mais recente e é um pouco mais alargada do que a obra original, uma vez que se refere, ao contrário da primeira, às três viagens que a autora de «A Ilha de Circe» efetuou aos Estados Unidos da América: a primeira em 1950, com apenas vinte e seis anos, a segunda em 1978, a convite da Brown University e a última em 1983, em representação do então Presidente da República, General Ramalho Eanes, por ocasião da comemoração, naquele país, do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
Apesar de se reportar a três momentos temporais distintos e outras tantas viagens, o âmago do texto incide, essencialmente, no relato da primeira viagem àquele país. Nele, Natália procura retratar a essência do “american way of life”, assimilado através de inúmeras incursões por cidades da costa leste dos Estados Unidos da América, nomeadamente, Boston, Washington ou Nova Iorque, colocando-o em contraponto com a sua própria visão europeísta.
Apesar de se tratar de uma “obra de início de carreira”, como outros a catalogaram, Natália Correia adensa-a com uma interessante conjugação de géneros, pressagiando, claramente, o virtuosismo literário que lhe viria a ser reconhecido, posteriormente. Investidas pelo relato de viagem, reportagem, texto diarístico, prosa ficcional ou poesia criam um todo estruturalmente harmonioso e de leitura bastante interessante. O que poderia ter sido apenas um texto híbrido, descritivo e sem grandes linhas orientadoras, revela-se um documento profético (até no que à política económica da Europa concerne), exuberante e de uma profunda riqueza literária, onde a autora analisa comparativamente e em constância, o modo de vida de um lado e do outro do Atlântico.
Nesta viagem há ainda uma profunda jornada autorreflexiva até ao íntimo da própria autora que assume, aliás, que principia a expedição com muitas questões por responder, «Trouxe curiosidades para a América (…)», sendo que, no regresso, a poucas ou nenhumas conseguiu dar resposta plenas, «Nenhuma das minhas curiosidades foi satisfeita.». Não obstante, conclui que americanos e europeus são «estruturalmente diferentes» e o seu desapontamento com «a terra prometida» fá-la perceber que o seu lugar no mundo passará sempre pelo velho continente. Embora encontre no «Novo Mundo» laivos civilizacionais aceitáveis (quase sempre assentes em origens europeias), nomeadamente em contacto direto com algumas pessoas ou em visita a determinados espaços – galerias de arte, por exemplo – há por diversas vezes referência à falta de raízes daquele país, à superficialidade da sua cultura estética, o que lhe causa um monumental desencanto.
Serão, aliás, esses sentimentos de desilusão e frustração, cumulativamente com a sua integridade intelectual e consequente afastamento do ‘politicamente correto’, associados a uma escrita crua, corrosiva, pautada por disfemismos, ironia e por um sentido de humor apuradíssimo, que levaram a que muitos considerassem este texto «de cabal antipatia pelo american way of life (…)», como ficou registado pela mão da própria autora à partida para a sua segunda viagem aos EUA.
Natália Correia, fruto talvez da sua personalidade assumidamente mal-humorada, não se inibiu de, textualmente, apoucar muitos dos que, de certa forma, a terão exasperado durante esta viagem: ora pela vivência de situações envoltas em falta de idoneidade, «(…) percebi que a pressurosa ajuda do homenzinho, insistindo em retirar os embrulhos do táxi, obedecia a intuitos bem poucos generosos.», ora pela interação com indivíduos cujos discursos chegavam a ser insultuosos à inteligência da autora,  «O homem conhece a Europa. Esteve em Espanha e quer saber que língua se fala em Portugal. Foi a este sujeito que estive para responder que em Portugal éramos todos mudos. Mas não o fiz, com receio de que ele acreditasse…».
No atinente à segunda e derradeira viagens àquele país, percebe-se uma certa pacificação da autora com a região: «Regresso agora à América do Norte, e o impacto europeizante que me acolhe encandeia-me logo à chegada. Que modificação se operou
nesta caminhada do tempo, não tão longa para justificar esta drástica
rutura do velho isolacionismo norte-americano face à vida europeia, ao
ponto de ter eu a sensação de me achar numa Europa que já não encontro na sua velha colocação geográfica e cultural?», no entanto, claramente insuficiente para que lhe suscite qualquer tipo de especial deslumbramento. 
A terminar, deixo-vos duas citações retiradas do texto de 1950 que considero dignas de registo, talvez pela atualidade com que se revestem:
«O protesto é uma democracia de recurso.»
«(…) o meu ceticismo ante os meandros da política internacional inclinava-me a não acreditar na “pureza de intenções dos países empenhados em defender os interesses de outras nações”»

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

grotta #3


Apesar de serem muitos os motivos de interesse, não há como deixar de destacar a esplêndida entrevista ao professor Emanuel Jorge Botelho, assim como todo o seu belíssimo texto poético! Com efeito, o seu discurso é revelador “ de quem, com os anos, foi depurando a palavra, conservando só o essencial aos olhos do leitor.”

Aos promotores deste projeto, muitos parabéns! A evolução é evidente e a continuidade impõe-se!



quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Predo-me


Predo-me
Por não poder partir a palavra,
Pondo-a no patamar da emoção,
Pronunciá-la como me surge
                                          aos olhos,
A beleza vestida de perfeição.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

A Fajã de Cima ou como a bota de cano se tornou mais atraente que o salto alto

Tanto quanto é do meu conhecimento, esta obra inaugura uma via nas letras açorianas: uma espécie de nonsense à inglesa, polvilhado por uma comicidade fina e pouco habitual na literatura que por cá se produz, num texto que é, como afirma Nuno Costa Santos, “uma viva declaração de amor à freguesia da Fajã de Cima […]”.
Quem disse que o absurdo não está na moda?
Parabéns, Luís!

domingo, 2 de dezembro de 2018

Homenagem ao professor Emanuel Jorge Botelho

Entre tantos outros méritos e motivos de interesse, o encontro literário "Açores Arquipélago de Escritores” homenageia – com irrefutável justeza – Emanuel Jorge Botelho, o homem que prometeu dar a cada palavra a sua palavra de honra!
Parabéns!
17.nov.18 || Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas


Poetas do nosso tempo

Os poetas - bem sabemos - são almas generosas, mas há uns que teimam em ser mais poetas do que outros! Obrigado, Daniel!
Foto: Capa de "Buarquianas", de Daniel Gonçalves

Há nesta imagem um poema por escrever!


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

in Açoriano Oriental


Encontro Literário “Açores Arquipélago de Escritores”
Agora que se apagam as luzes e as cadeiras vagam, há que fazer um justo reconhecimento à realização do encontro literário, “Açores Arquipélago de Escritores”.
São Miguel e Ponta Delgada, em particular, já mereciam um acontecimento cultural desta natureza, desta qualidade e envergadura. As sessões foram de uma riqueza literária imensa: houve conversas interessantíssimas com pessoas igualmente interessantes e com as quais habitualmente só nos cruzamos nas páginas dos livros. Houve lançamentos de obras, cursos, apresentação de filmes, sessões direcionadas às escolas e às crianças, debates, mesas redondas onde fervilharam ideias estimulantes e, como não podia deixar de ser, as devidas homenagens àqueles que serão os maiores entre pares. A nossa cidade, mas também a nossa ilha e os Açores foram, de facto, um “porto de cruzamento de diferentes culturas e literaturas (…)”.
Gostei do que vi e do que ouvi; gostei dos que abrilhantaram os diversos palcos e nos enriqueceram com as suas ideias. Não foi necessário expender grande esforço para apreciar, com redobrada atenção, as intervenções de oradores como Onésimo Teotónio de Almeida, João de Melo, Daniel Gonçalves, Joel Neto, Emanuel Jorge Botelho, Gonçalo M. Tavares, Pedro Mexia, João Pedro Porto, entre outros.
Como se afirmou amiúde ao longo daqueles dias, inaugurar um encontro literário com esta pujança e sucesso, acarreta uma pressão imensa para os envolvidos na sua organização, já que a fasquia se encontra agora num patamar de excelência que, certamente, será mantida nos encontros que se hão de suceder.
Registei, com especial agrado, o empenho em descentralizar as várias sessões por diversos locais da cidade e da ilha, fazendo chegar o livro a um público mais vasto e, sobretudo, mais diversificado, mas sublinhei também, e com grande satisfação, a paridade de género entre os autores convidados. Enriquecer o programa do encontro com nomes como Renata Correia Botelho, Paula de Sousa Lima, Leonor Sampaio Silva, Mariana Magalhães e Cristina Quental (todas autoras que figuram no PRL), Isabel Rio Novo, Diana Marcum (vencedora de um Pulitzer), Clara Macedo Cabral, Lélia Nunes, Filipa Martins, Dulce Garcia, entre outras senhoras, foi uma verdadeira mais-valia que, certamente, em muito contribuiu para o sucesso do evento.
Da perspetiva da assistência, na qual me situo, este encontro literário foi um êxito estrondoso que em muito engrandece, primeiramente, a Literatura e depois Ponta Delgada, São Miguel e os Açores, em geral. Julgo que entramos agora na rota dos grandes acontecimentos literários que se realizam no nosso país e, aberta esta janela, haja discernimento por parte das entidades oficiais para perpetuá-la.
Por tudo isto e mais, e porque ninguém louva aquilo que não gosta, a todos os envolvidos, mas com especial destaque ao curador do encontro, o multifacetado Nuno Costa Santos, assim como aos parceiros que se uniram a este projeto, um reconhecido obrigado!
Para o ano, cá vos esperamos!
Telmo R. Nunes

21 de novembro de 2018

sábado, 25 de agosto de 2018

In Açoriano Oriental



Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias

Começam a rarear os bons adjetivos que qualifiquem condignamente a obra ficcional de Joel Neto, um dos expoentes mais cintilantes do atual panorama literário português. “Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias” é o último romance do autor de “Arquipélago” ou “Vida no Campo”, e nele é feita uma apologia ao amor, nas mais diversas formas de o sentir.

Podia ser Morgan Freeman, mas não era.”: eis a entrada que nos conduz a uma viagem no tempo, desde 2017 até 1939, com paragens obrigatórias em diferentes épocas e geografias mundiais. “Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias” arranca na Lisboa contemporânea, mas rapidamente se muda até uma Nova Iorque dos finais do século passado, onde C. Devon Fitzhugh, um excêntrico personagem, incita José Filemom Abke Marques, o narrador do romance, a escrever um livro, buscando a verdade sobre a presença de um agente nazi na ilha do Faial, arquipélago dos Açores.

A partir deste ponto, a ação desenvolve-se numa malha bastante complexa, mas nem por isso menos coerente. Com efeito, coerência e coesão entre todas as linhas narrativas nunca são colocadas em causa, e o rigor do detalhe encontra-se sempre presente ao longo de toda a diegese. Neste particular, sublinho o número de personagens enunciado na tábua inicial do romance – cerca de cem –, para que percebamos o trabalho hercúleo que o autor despendeu nesta intrincada teia de relações, para que da leitura resultasse – como resulta – uma escorreita sensação de que tudo se funde harmoniosamente.

O livro, que se divide em 5 partes, perpassa diversas épocas históricas e outros tantos pontos do globo, mas poder-se-á afirmar que o âmago do plot se reporta à ilha do Faial, nos idos anos 30 e 40 do século passado, a partir de onde o narrador se vê obrigado a reconstituir a vida de um familiar recém-falecido – Hansi Abke. Neste período, e com a II Guerra Mundial em pano de fundo, é-nos servida uma cidade da Horta cosmopolita, alegre, jovial, visitada amiúde por estrelas de cinema, desportistas e outros famosos de renome internacional, dos quais se destacam a bailarina Mitzi Mayfair ou o aviador Antoine de Saint-Exupéry, que amaravam no porto da Horta a bordo, entre outros, dos potentes Yankee Clipper, da Pan American.

Inversamente ao clima de guerra e à mortandade que cobriam de sangue quase toda a Europa continental, vivia-se então na pequena ilha do Faial um peculiar alheamento de todo aquele cenário dantesco. Ingleses e alemães conviviam em sã harmonia, fruto, sobretudo, da exploração dos cabos telegráficos, tão frutuosos na primeira metade do século passado. Uns e outros bailavam na Sociedade Amor da Pátria, faziam piqueniques nos locais mais idílicos da ilha, jogavam partidas de bridge, de ténis ou de croquet. Vivia-se um clima de aparente letargia face ao implodir de uma guerra com efeitos tão devastadores para ambas as partes.

«Natália (…) descrevia o naufrágio do U-581 ao largo da ilha do Pico, após um combate com uma flotilha de destroyers ingleses, em pleno Canal, a que muita gente pudera assistir a partir da doca da Horta (…)».

Ainda que de forma inusitada, todos na ilha pareciam querer assumir o papel de espetadores apáticos perante partição da Europa e do mundo.

Tal como em outras obras, também nesta, Joel Neto manifesta uma relação de amor com as ilhas açorianas, não se deixando cair, contudo, na tentação de se ater apenas a elas. A partir das ilhas dos Açores, mas olhando-as e integrando-as cuidadosamente num mundo mais amplo e complexo, ele compreende e (des)escreve um dos mais importantes acontecimentos da história de toda a humanidade. A sua cosmovisão, a sua concepção do mundo encontram-se bem patentes em cada uma das 420 páginas que perfazem a obra, mantendo, ainda assim, a génese discursiva na ilha, que nunca é deixada para trás. Não obstante tratar-se de um exercício de difícil execução (e isto é distintivo apenas dos grandes autores), ele vê os Açores como parte integrante de um mundo; o arquipélago é colocado lado a lado com geografias tão diversas como Lisboa, Nova Iorque, Friburgo, Porto Alegre ou Praga e, em momento algum, se nota ‘um forçar’ da açorianidade, antes se deixa transparecer um sentimento telúrico harmoniosamente integrado na mundividência própria do autor.

A este propósito não há como não recordar a mónita lançada por Daniel de Sá aos escritores açorianos, onde apelava que não cedessem aos lugares-comuns quando se tratasse de “cantar a terra”. Joel Neto interpreta isto na perfeição, não se inibindo de retratar os Açores sempre como parte de um todo maior, e fá-lo sem que isso belisque, um pouco que seja, a sua condição de ilhéu açoriano. Fá-lo com grande mestria, sem renegar, jamais, as origens que o trouxeram a este patamar de excelência, onde agora se encontra. Percebe-se que as fronteiras que a ilha impõe não foram suficientes para, de alguma forma, lhe manietar um espírito integral.

Por se retratar um período histórico que, pessoalmente, muito me diz, e pelo qual nutro especial interesse, confesso que a leitura que efetuei terá sido bem mais fugaz e sentimental do que propriamente técnica, mas confesso que não me arrependo. É um romance apaixonante, daqueles capazes de nos extasiar desde a primeira à última página.

Vale a pena ler autores açorianos!


Telmo R. Nunes
a 19 de agosto de 2018

domingo, 29 de abril de 2018

O mar

«o mar é como os deuses, porque não é deste mundo.»
 Emanuel Jorge Botelho, 30 crónicas (Vol. I), Letras Lavadas Edições || Artes e Letras Editora

segunda-feira, 9 de abril de 2018

sábado, 24 de março de 2018

Mercado tradicional


Há dois tipos de pessoas no mundo: os que apreciam os mercados tradicionais ao sábado de manhã, e os outros. Agrada-me pertencer ao primeiro grupo -- fascina-me a paleta de cores servida e à disposição do olhar; inebria-me o cheiro fresco a fruta colhida há pouco; seduz-me o pulsar das gentes que ali procuram a recompensa pela tez marcada pelo trabalho!

sábado, 17 de março de 2018

In Açoriano Oriental

A propósito de «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares Nos Três Últimos Séculos», redigido por Antero de Quental:

Por ocasião da comemoração do 175.º aniversário de Antero de Quental, recuperei a obra decorrente da intervenção com que o autor abriu as Conferências do Casino, decorria o ano de 1871.

Primeira parte: Eu diria que um livro se cumprirá assim que conseguir marcar, de forma indelével, o seu leitor, impelindo-lhe questões interiores e exigindo-lhe, ao mesmo tempo, respostas absolutas. Uma leitura destas deverá potenciar mutações de pensamento e, consequentemente, mudanças de atitude, ou, pelo contrário, reforçará, cabalmente, crenças e traços de personalidade. 
Haverá um elevado número de fatores endógenos e outros tantos exógenos que condicionarão uma leitura assim tão marcante, desde logo o estádio etário do leitor, a sua maturidade intelectual e desenvolvimento sensorial, o rol de vivências, assim como os meios familiar, socioeconómico ou demográfico, entre outros. Para que o fenómeno se dê, e uma leitura assim ocorra, terá de se agregar um conjunto de circunstâncias a que, ousadamente, designaria de ‘casualidades felizes’. 
Este, a que hoje me reporto, abalou-me crenças e convicções. Infligiu-me grande inquietude de pensamento, agitando, ao mesmo tempo, a génese das origens, as fundações da minha própria educação. 
Segunda parte: Um grande filósofo, pensador e professor incentivou-me certa vez a leitura do texto «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares Nos Três Últimos Séculos», redigido por Antero de Quental: «- É fundamental! Devemos primeiro perceber o passado do nosso país, para melhor perspetivarmos o seu futuro» – aconselhava. 
Adquiri a obra, encetei a leitura e percebi por que motivo me fora recomendada, por que razão sobrevivera este texto não apenas ao constante passar do tempo, como também ao encerramento das próprias Conferências de onde brotara. Embora tido agora como atemporal, foi redigido a propósito do dia 27 de maio de 1871, por ocasião da abertura das “Conferências do Casino”, as tais dos grandes vultos do “Grupo do Cenáculo”, os da “Geração de 70”, as mesmas proibidas por Portaria do Ministério do Reino, em junho desse mesmo ano!
O texto – maravilhoso – agradou-me sobremodo, não apenas pelo retrato da sociedade civil de então, (com a qual ainda se podem estabelecer paralelos formidáveis) mas também, e essencialmente, porque me inculcou no espírito umas tantas questões às quais não consegui dar resposta imediata e me consumiram a quietude durante largo período.
Segundo Antero, as causas que estariam na base da decadência dos povos peninsulares passariam pelos Descobrimentos de novos mundos, pelo Absolutismo régio e pela transformação do Catolicismo, por via do Concílio de Trento.
As duas primeiras razões apontadas, embora inegavelmente complexas, são de clara perceção; a explanação sugerida é elucidativa e, corroborando-a ou não, ali ficam demonstrados possíveis fundamentos para o atraso no desenvolvimento da Península, comparativamente com os países europeus. A terceira e última razão aludida foi a que me suscitou grande desassossego e me conduziu a uma jornada ao âmago das minhas certezas.

Atente-se:
“Ora, a liberdade moral, apelando para o exame e a consciência individual, é rigorosamente o oposto do Catolicismo do concílio de Trento, para quem a razão humana e o pensamento livre são um crime contra Deus…” 
ou ainda:

“Na sessão 14ª de Trento é a consciência cristã definitivamente encerrada. Sem confissão não há remissão de pecados! A alma é incapaz de comunicar com Deus, senão por intermédio do padre!”

É um texto farto em frases duras, pelo menos, para quem cresceu e foi educado no seio de uma família que se reja sob os preceitos do Catolicismo. 
Terceira parte: Então, Cristianismo ou Catolicismo? Haverá ou não lugar a ‘um Cristianismo’ fora dos ditames do Catolicismo? Este amordaça e amedronta os seguidores, os crentes? Inibe-os ou não de viver em pleno o Cristianismo; inibe-lhes ou não a vivência em Cristo? Não será já o Catolicismo uma adulteração humana daquilo que deveria ter sido a fé Cristã, pura e simples, individual e, ao mesmo tempo, coletiva?
A noção genérica em que creio passa pelo Cristianismo como a génese da religião, a base de sustentação, o pilar que conduz à crença em Deus - Pai, Jesus Cristo - Filho, acompanhados pela força de um Espírito Santo. Tenho como certa a base em Jesus Cristo e que se trata, sobretudo, de sentimento. No que ao Catolicismo concerne, instigaram-me a crença de que ‘caminhava lado a lado’ com o Cristianismo, numa demanda que dura há já mais de dois milénios. Transmitiram-nos que uma completava a outra, mas, ponderando, necessitará o Cristianismo de qualquer complemento? 
Hoje percebo mais facilmente aqueles que encaram o Catolicismo com algum distanciamento, que o veem como uma forma ou instituição, e que o reduzem a uma norma que modela a forma de viver e de sentir o Cristianismo. Percebo que o encarem como uma mera disciplina a seguir, que será (ou não) dispensável. Percebo que questionem se serão necessários estes preceitos concebidos pelos homens que nos antecederam para que se consiga viver em plenitude o Cristianismo...
Com efeito, ao olhar para todos os cerimoniais que se nos apresentam quotidianamente, o que se vê para além de encenações quase teatralizadas, e, em alguns casos, até idolatrias? Por que razão há cerimoniais e datas rigidamente estabelecidas para que se possa cumprir plenamente a vivência em Cristo? – bem sei que a qualquer altura se pode fazer a remissão dos pecados, mas naquelas datas específicas deve-se fazê-lo, sob pena de se cometer um “pecado maior”. E por que razão é necessário um intermediário para fazê-lo? Não será este um caminho de inibição? E recordemos, também, as atrocidades cometidas pelo Santo Ofício ao serviço destes preceitos católicos… 
Que lugar deixa o Catolicismo às liberdades individuais? Tudo é regido por preceitos estritamente definidos: aquele que se rebele será herege, o que hoje não carregará o peso de outros tempos, é certo, mas, ainda assim, será apontado como diferente, pelo menos!
Não terá ido o Catolicismo um pouco longe de mais, adulterando as aspirações despretensiosas, simples, mas, ao mesmo tempo, plenas e sacras do Cristianismo? Esta igreja assim estruturada, que lugar deixa ao sentimento simples, espontâneo e sincero?
Naturalmente, o disserto anteriano é substancialmente mais vasto, rico e prodigioso do que aquilo que alguma vez poderia aqui deixar apontado. Na edição da obra que possuo, prefaciada pelo professor Eduardo Lourenço, usam-se expressões como «memorável intervenção» ou «referência mítica» e, aludindo a ideia inicial deste escrito, creio que cumpre ‘religiosamente’ a sua função maior: impelir questões, exigindo respostas!
Não será este o intento final de todo e qualquer bom texto?
Telmo R. Nunes
16 de fevereiro de 2018