sábado, 7 de dezembro de 2019

Avenida Marginal - Ficções, Ponta Delgada

Finda a leitura de «Avenida Marginal - Ficções, Ponta Delgada», impus-me a redação de um comentário sobre a obra que, segundo afirma Maria Helena Frias – a editora –, em nota introdutória, “(…) tem grafia de escritores de renome, assim como novas vozes, que confirmam o valor criativo, literário e humanista de uma literatura notável.”. Não há como discordar!
Esta coletânea emerge como uma forma nobilíssima de homenagear Ponta Delgada; são-nos oferecidas representações distintas da própria urbe, capacitando o leitor de um vislumbre sobre a mesma, através da “sensibilidade” de onze contistas tão desiguais como Joel Neto, Nuno Costa Santos, Blanca Martín-Calero, Leonor Sampaio da Silva, Tiago Ribeiro, Maria das Mercês Pacheco, Mário Roberto, Leonardo, Carlos Tomé, Pedro Gomes ou Maria Brandão.
Se a uns, unanimemente, lhes reconhecíamos, há muito, méritos literários, outros há a quem, erradamente, se prognosticou terem sido escolhas arriscadas dentro do género. Não obstante, mostrando-se multifacetados e, tingindo as suas páginas de versatilidade criativa, foram capazes de criar ficções densas e muito bonitas, enredos curtos mas largos em significado, o que me parecem ser condições fundamentais na produção textual dentro desta tipologia, ou género literário de características tão peculiares.
Embora a civilidade me instigue à fuga da individualização (até porque apreciei sobremaneira os onze textos), não consigo deixar de enaltecer os contos de Joel Neto, de Leonor Sampaio da Silva e Pedro Gomes, por terem correspondido em pleno às mais altas expectativas que neles depositara. Por outro lado, e fator de interesse acrescido, como não destacar o conto de Mário Roberto, ele que tanto aprecia “vagabundear pelas artes” e, de igual modo, o do poeta Leonardo, que tanto divergiu das águas por onde talentosamente costuma navegar?
A apresentação pública do «Avenida Marginal» esteve a cargo de João Nuno Almeida e Sousa, que soube interpretar com fulgor, mas também com grande lucidez a essência da obra, tendo, nesse final de tarde ventoso, proferido um texto belíssimo, capaz de impelir até os mais céticos para uma leitura atenta da obra. Dentre tantas ideias ali lançadas, recordo uma que me ficou na “retina”, e que se relacionava com o facto de, por tantas vezes, não se conseguir distinguir aquilo que efetivamente é cultura e aquilo que se fica apenas pelo entretenimento.
Neste caso, não tenham dúvidas! Leiam-no, porque estarão a investir em cultura!

Aos promotores, autores e outros intervenientes, muitos parabéns!

Vários, «Avenida Marginal – Ficções, Ponta Delgada», Artes e Letras, 2019
#textosecoisasdessas

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Exposição de Autores açorianos

Exposição de Autores açorianos, na EBI da Maia, pelos alunos a turma A do 5.° ano de escolaridade.
Os autores selecionados pelos alunos foram

Paula de Sousa Lima;
Leonor Sampaio da Silva;
Malvina Sousa;
Emanuel Jorge Botelho;
Urbano Betencourt;
Joel Neto;
João Pedro Porto;
Pedro Almeida Maia.


Considerando os documentos Aprendizagens Essenciais de Português, definidas para o 5.º ano de escolaridade (2.º Ciclo do Ensino Básico), assim como O Perfil Dos Alunos À Saída Da Escolaridade Obrigatória, para além da transversalidade de lecionação da nova disciplina de História, Geografia e Cultura dos Açores (HGCA), e atendendo a que a entrevista é um dos textos não literários contemplados no programa, pareceu-nos muito interessante estes jovens alunos elaborarem uma pequena entrevista (seguindo a sua estrutura), a alguns dos autores açorianos mais proeminentes.

O objetivo geral do trabalho passa por dar a conhecer a toda a comunidade escolar não apenas os escritores, como também algumas das suas obras de referência. Para tal, foi organizada uma exposição de trabalhos biobibliográficos efetuados a partir da informação recolhida nas referidas entrevistas.
Foi um sucesso!

domingo, 6 de outubro de 2019

O terrorista elegante

Terrorista e elegante: será possível conjugar estes dois termos em um só indivíduo?
Sim, é possível. E quem o confirma são dois dos mais brilhantes contistas da literatura lusófona contemporânea: Mia Couto e José Eduardo Agualusa.
Perdoem-me o desrespeito alfabético, concedendo o posto primaz ao moçambicano, mas, do meu ponto de vista, ele é um dos maiores, um dos que mais contentamento sinto ao ler. Como eu, tantos outros o rotulam como um excecional contador de histórias, um ‘fazedor’ de palavras com uma imaginação que não parece conhecer fim. De qualquer forma, não me faltariam também ricos adjetivos para qualificar o angolano, caso o propósito agora passasse pela constatação do talento literário destes homens.
A obra, um conjunto de três novelas inicialmente previstas para a dramatização, encerra a curiosidade de ter sido escrita a quatro mãos. Ainda no introito, somos informados que ao escreverem «O terrorista elegante» os autores, sentados a uma mesa e num ambiente completamente descontraído, “rindo e brincando”, apostaram “na negação da ideia de que a criação literária é sempre um ato profundamente solitário”. Eu creio que assim é, e por isso não deixa de ser curioso também que as restantes duas composições tenham sido escritas a partir de cidades diferentes, fazendo-se os autores valer da cumplicidade entre ambos, sendo que um ia adindo texto ao escrito do outro, e isto como quem joga prazerosamente uma singela partida de ping-pong!
A perpassar toda a obra ondulam odores (benévolos ou perniciosos), gostos, cenários idílicos e citadinos e, claro, as temperaturas aquecidas e tipicamente africanas, que se traduzem não apenas nos corpos transpirados pela pujança do astro-rei, mas, sobretudo, nas abordagens sensuais ao eterno desejo do feminino, e que ambos autores tão bem souberam diluir nas entrelinhas mais agradáveis destas novelas.
Embora não se encontre explícita a autoria deste ou daquele excerto, essa informação perde relevância e interesse ao longo da leitura. Ainda que no início nos sintamos tentados a encontrar o rasto de um ou de outro autor, com o avançar da obra, essa necessidade perde relevância e, assim que nos damos conta, deixamo-nos ir ao sabor do deleite da leitura. Naturalmente, e em abono da verdade, aqui e além distinguem-se estilos e encontram-se vestígios. Leia-se a título de exemplo a passagem “Desta vez, sonhei. Sonhei, ora essa, não: pesadelei”, que pertence, claramente, ao indelével traço de Mia Couto.
As temáticas abordadas nas narrativas são díspares, muito embora na génese de todas se perceba a presença constante de um elemento: a morte.
Na primeira novela da obra, «O terrorista elegante», que empresta título ao livro, é referido um angolano com especiais ligações a grupos terroristas internacionais. Suspeito de tentativa de atos dessa índole em território nacional, é detido em Lisboa e conduzido a interrogatório. Ainda que com alguma relutância, podemos extrapolar a ideia de que os autores quiseram lançar aqui uma fina crítica à forma de atuação, assim como a alguns métodos utilizados pelas forças de segurança, em casos de detenção. Durante o inquérito, o inusitado acontece e o prisioneiro leva a que os seus inquiridores comecem a questionar-se a si próprios. 
A segunda diegese, «Chovem amores na rua do matador», tem como protagonista Baltazar Fortuna, um pinga-amor cinquentão que procura redenção íntima e, para tal, vê-se na obrigação de matar as três mulheres com quem viveu ao longo da sua vida.
A terceira e última novela, «A caixa preta», refere-se a uma família desestruturada pela guerra, onde avó e neta vivem sozinhas, reféns do tempo e da memória, embrenhadas em segredos e assuntos proibidos, entretanto trazidos ao presente pela inesperada presença e morte de alguém…
 Ao lermos a informação de contracapa, “Dois dos maiores autores de língua portuguesa juntam-se para proveito e alegria dos seus leitores”, constatamos que ainda bem que se deu este acaso! Foi uma reunião muito feliz e, mais importante, resultou numa obra globalmente harmoniosa e cerzida pelo enorme talento de ambos.
Foi, de facto, um gosto reencontrar-me com estes senhores!
Uma palavra de apreço à Quetzal que, entre outros, teve o mérito de criar este volume, do qual é impossível não sublinhar o belíssimo design de capa, da autoria de Rui Rodrigues.

Mia Couto e José Eduardo Agualusa. «O terrorista elegante», Quetzal Editores, 1.ª edição, 2019.

#livrosecoisasdessas


segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Heroína

(Diz o DN que aumentaram os consumos e mortes por overdose em Portugal. Tenho pena que assim seja.)

Os problemas surgiram há cerca de cinco anos e meio, mais coisa, menos coisa…
O dia era, presumivelmente, o meu “dia feliz”; completava o meu décimo segundo aniversário e vivia-se o dia 12 desse mês.
Acordei feliz. Deixava a criancice para trás e ingressava na equipa dos adolescentes. Sonhara e planeara uma festa de arromba, com todos os meus amigos e familiares mais próximos; receberia inúmeros presentes e seria o centro de todas as atenções e o recetáculo de todos os mimos e carinhos.
Com efeito, naquele dia recebi muita coisa, mas nada do que ansiava…
Ao contrário do que era habitual, meu pai chegou a casa logo após a hora de almoço, aliás, foi acarretado para casa por essa hora. Vinha completamente bêbado, cheirava a vómito e praguejava como nunca o ouvira antes. Pelo que vim a descobrir mais tarde, nessa manhã fora chamado ao escritório do patrão que o despediu ”sem apelo nem agravo”. Segundo meu pai, “aquele filho de uma grande pu%&&$a  roubara-lhe o chão” debaixo dos seus pés.
Não queríamos acreditar. E agora?

Os meses seguintes foram devastadores:
Estranhamos
Perguntamos
Apanhamos
                                                                      Cintos
                                                                              Vassouras
                                                                                            Ferros
                                            Brados
                                                     Gritos
                                                             Sangue
                                                                       Choro
A postura decaiu. Nunca mais consegui olhar aquele homem e nele reconhecer meu pai. Levantava-se bem tarde. Saía de casa.
                                                                              Ébrio
                                                                                     Violência


Empenhou a casa, perdeu-a para o vinho. Arrendamos um casebre.
Minha mãe transformou-se num saco de porrada. Desesperou e, do desespero, imitou-o: nasceu-lhe o vício.
                                                                                                 Ébrio,
                                                                                                 ébria.
Nunca tínhamos o que comer e o pouco dinheiro que entrava, destinava-se ao vinho.
Ia à escola quando não tinha de curar os ferimentos de um ou de outro. Quando as escaramuças eram violentamente audíveis, um ou outro vizinho mais corajoso entrava pelo pardieiro adentro e resgatava-me para sua casa. No dia seguinte, já sabia que, ao regressar, levaria pancada do meu pai ou teria de acompanhar minha mãe ao hospital, onde já me conheciam bastante bem.
Foram meses assim.
                                                              Institucionalizado
                 Gritos
                          Revolta
                                     Dor
                                                                                                                                Medo
                                                                                                                                Medo
                                                                                                                                Muito


                Porquê?
                         Porquê eu?
                                       Não!

                                                                                                                                 Medo
                                                                                                                                 Medo
                                                                                                                                 Muito

Hoje, 12 de dezembro de 1994, faço 17 anos e já sei que não vou receber nem presentes, nem carinhos, nem mimos, nem merd#% nenhuma!
Vou olhar pela minha vida e fazer o que sempre fiz desde que para aqui me atiraram: tratarei dos “profs”, que teimosamente insistem que eu devia reaprender a ler, no intervalo cravarei dinheiro e outras cenas aos putos, e de tarde irei pelas ruas  em busca de alguma cena que me renda algum…
Assim que tiver o suficiente, compro-a no sítio do costume.
Talvez por hoje ser o meu aniversário me façam um desconto…
À noite, se conseguir, volto para casa!

(O texto e imagens são da minha autoria, mas não têm qualquer relação entre si.)

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Pouca Terra

Possivelmente, a mesma ilha - grande e fechada - que se defendeu "de ser água por detrás dos muros das arribas", e "que durante muito tempo só se abriu para deixar sair gente", é-nos agora retratada e descrita como a "obra perfeita" do vulcão, como terra povoada por gente; cidade com gente lá dentro, com "lugares ermos e misteriosos", e onde se fala de amor... Lugar de silêncio e de luz, de festa e de sombra.
A obra, prefaciada pelo poeta da ilha do sol, Daniel Gonçalves, é muito mais do que um rol de textos e imagens. Aliás, quão redutor seria afirmar que este é um conjunto de fotografias legendadas pela subtileza de uma rica prosa poética, ou, do mesmo modo, um texto ilustrado por imagens capazes de nos reter os sentidos?
Não!
《Pouca Terra》 é bem mais do que isso! É muito mais! Estamos perante uma declaração de amor à ilha, ao arquipélago; aqui foi perpetuada, em forma de texto e de imagem, a condição humana que, desta vez, se quis ilhoa!

Leonor Sampaio da Silva (textos), Carlos Carvalho (imagens), 《Pouca Terra》, Companhia das Ilhas, 2019

terça-feira, 20 de agosto de 2019

O Carteiro de Pablo Neruda

Negociadas umas curtas tréguas com fraldas e biberões, e considerando o outono que, assim parece, arribou antes do calendário o ditar, consegui pegar num dos livros que, há tempo, sentia vontade de ler. Já há anos lhe relanceara os sentidos, mas sem lhe prestar a merecida atenção.
Terminada agora a leitura desta extraordinária novela, de Antonio Skármeta, era meu intuito encetar um comentário mais rigoroso sobre o texto, mas as tréguas que me permitiram a leitura da obra terminaram e chegou a hora do biberão das cinco!
Seja como for, leiam-na! A minha edição é a da fotografia e, segundo me dizem, nasceu da comemoração do cinquentenário da editora Dom Quixote!
De resto, um abraço a cada um!

Antonio Skármeta, 《O Carteiro de Pablo Neruda》, Dom Quixote, 2015

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

in Açoriano Oriental


“Ler na Livraria” ao sábado de manhã

Para além do prazeroso reencontro com pessoas que partilham o gosto pela Literatura, as sessões “Ler na Livraria”, promovidas pelos responsáveis pela icónica LeyaSolmar, em Ponta Delgada, revestem-se da grande vantagem de trazerem ao conhecimento ou, pelo menos, à memória obras de referência que, por um ou outro motivo, se encontravam na obscuridade do esquecimento. Foi o caso de «Descobri Que Era Europeia», da autora açoriana Natália Correia, naquele sábado selecionado e comentado pela professora e escritora Leonor Sampaio Silva.
A edição que possuo – da editora Ponto de Fuga, março de 2018 – é a mais recente e é um pouco mais alargada do que a obra original, uma vez que se refere, ao contrário da primeira, às três viagens que a autora de «A Ilha de Circe» efetuou aos Estados Unidos da América: a primeira em 1950, com apenas vinte e seis anos, a segunda em 1978, a convite da Brown University e a última em 1983, em representação do então Presidente da República, General Ramalho Eanes, por ocasião da comemoração, naquele país, do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
Apesar de se reportar a três momentos temporais distintos e outras tantas viagens, o âmago do texto incide, essencialmente, no relato da primeira viagem àquele país. Nele, Natália procura retratar a essência do “american way of life”, assimilado através de inúmeras incursões por cidades da costa leste dos Estados Unidos da América, nomeadamente, Boston, Washington ou Nova Iorque, colocando-o em contraponto com a sua própria visão europeísta.
Apesar de se tratar de uma “obra de início de carreira”, como outros a catalogaram, Natália Correia adensa-a com uma interessante conjugação de géneros, pressagiando, claramente, o virtuosismo literário que lhe viria a ser reconhecido, posteriormente. Investidas pelo relato de viagem, reportagem, texto diarístico, prosa ficcional ou poesia criam um todo estruturalmente harmonioso e de leitura bastante interessante. O que poderia ter sido apenas um texto híbrido, descritivo e sem grandes linhas orientadoras, revela-se um documento profético (até no que à política económica da Europa concerne), exuberante e de uma profunda riqueza literária, onde a autora analisa comparativamente e em constância, o modo de vida de um lado e do outro do Atlântico.
Nesta viagem há ainda uma profunda jornada autorreflexiva até ao íntimo da própria autora que assume, aliás, que principia a expedição com muitas questões por responder, «Trouxe curiosidades para a América (…)», sendo que, no regresso, a poucas ou nenhumas conseguiu dar resposta plenas, «Nenhuma das minhas curiosidades foi satisfeita.». Não obstante, conclui que americanos e europeus são «estruturalmente diferentes» e o seu desapontamento com «a terra prometida» fá-la perceber que o seu lugar no mundo passará sempre pelo velho continente. Embora encontre no «Novo Mundo» laivos civilizacionais aceitáveis (quase sempre assentes em origens europeias), nomeadamente em contacto direto com algumas pessoas ou em visita a determinados espaços – galerias de arte, por exemplo – há por diversas vezes referência à falta de raízes daquele país, à superficialidade da sua cultura estética, o que lhe causa um monumental desencanto.
Serão, aliás, esses sentimentos de desilusão e frustração, cumulativamente com a sua integridade intelectual e consequente afastamento do ‘politicamente correto’, associados a uma escrita crua, corrosiva, pautada por disfemismos, ironia e por um sentido de humor apuradíssimo, que levaram a que muitos considerassem este texto «de cabal antipatia pelo american way of life (…)», como ficou registado pela mão da própria autora à partida para a sua segunda viagem aos EUA.
Natália Correia, fruto talvez da sua personalidade assumidamente mal-humorada, não se inibiu de, textualmente, apoucar muitos dos que, de certa forma, a terão exasperado durante esta viagem: ora pela vivência de situações envoltas em falta de idoneidade, «(…) percebi que a pressurosa ajuda do homenzinho, insistindo em retirar os embrulhos do táxi, obedecia a intuitos bem poucos generosos.», ora pela interação com indivíduos cujos discursos chegavam a ser insultuosos à inteligência da autora,  «O homem conhece a Europa. Esteve em Espanha e quer saber que língua se fala em Portugal. Foi a este sujeito que estive para responder que em Portugal éramos todos mudos. Mas não o fiz, com receio de que ele acreditasse…».
No atinente à segunda e derradeira viagens àquele país, percebe-se uma certa pacificação da autora com a região: «Regresso agora à América do Norte, e o impacto europeizante que me acolhe encandeia-me logo à chegada. Que modificação se operou
nesta caminhada do tempo, não tão longa para justificar esta drástica
rutura do velho isolacionismo norte-americano face à vida europeia, ao
ponto de ter eu a sensação de me achar numa Europa que já não encontro na sua velha colocação geográfica e cultural?», no entanto, claramente insuficiente para que lhe suscite qualquer tipo de especial deslumbramento. 
A terminar, deixo-vos duas citações retiradas do texto de 1950 que considero dignas de registo, talvez pela atualidade com que se revestem:
«O protesto é uma democracia de recurso.»
«(…) o meu ceticismo ante os meandros da política internacional inclinava-me a não acreditar na “pureza de intenções dos países empenhados em defender os interesses de outras nações”»

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

grotta #3


Apesar de serem muitos os motivos de interesse, não há como deixar de destacar a esplêndida entrevista ao professor Emanuel Jorge Botelho, assim como todo o seu belíssimo texto poético! Com efeito, o seu discurso é revelador “ de quem, com os anos, foi depurando a palavra, conservando só o essencial aos olhos do leitor.”

Aos promotores deste projeto, muitos parabéns! A evolução é evidente e a continuidade impõe-se!



quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Predo-me


Predo-me
Por não poder partir a palavra,
Pondo-a no patamar da emoção,
Pronunciá-la como me surge
                                          aos olhos,
A beleza vestida de perfeição.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

A Fajã de Cima ou como a bota de cano se tornou mais atraente que o salto alto

Tanto quanto é do meu conhecimento, esta obra inaugura uma via nas letras açorianas: uma espécie de nonsense à inglesa, polvilhado por uma comicidade fina e pouco habitual na literatura que por cá se produz, num texto que é, como afirma Nuno Costa Santos, “uma viva declaração de amor à freguesia da Fajã de Cima […]”.
Quem disse que o absurdo não está na moda?
Parabéns, Luís!

domingo, 2 de dezembro de 2018

Homenagem ao professor Emanuel Jorge Botelho

Entre tantos outros méritos e motivos de interesse, o encontro literário "Açores Arquipélago de Escritores” homenageia – com irrefutável justeza – Emanuel Jorge Botelho, o homem que prometeu dar a cada palavra a sua palavra de honra!
Parabéns!
17.nov.18 || Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas


Poetas do nosso tempo

Os poetas - bem sabemos - são almas generosas, mas há uns que teimam em ser mais poetas do que outros! Obrigado, Daniel!
Foto: Capa de "Buarquianas", de Daniel Gonçalves

Há nesta imagem um poema por escrever!


domingo, 25 de novembro de 2018

Ao Xico


Passaram já uns dias desde que a encontrei numa esplanada, bem no centro da cidade de Ponta Delgada. A tarde estava soalheira e a temperatura convidava a uma pausa. Sentei-me na única mesa disponível e percebi o espaço bem mais concorrido do que seria de esperar, fruto, é evidente, da nova vaga turística que não aprendeu ainda a distinguir épocas, para gáudio dos empresários locais. Esperei pelo empregado que, apenas a custo, poderei qualificar de diligente, pelo menos no que à arte de servir às mesas diz respeito, já que, dali, o observei largos minutos, enquanto flirtava com uma italiana loira, de tez clara e com o que parecia ser um apetite voraz pelo produto regional. Assim que me ouviu tossicar um pouco mais alto do que a boa educação recomenda, dirigiu-se a mim e, desfazendo-se em mesuras, assentou o meu pedido. Relevei. O sol, embora baixo, parecia empenhar-se em aquecer-me o coração e tudo parecia alinhado com os trâmites da felicidade. Não valia a pena o aborrecimento de uma chamada de atenção. Além disso, a moça era bonita e ele parecia, deveras, entusiasmado com a situação. Tirei do bolso o bloco de apontamentos e, quando me preparava para anotar algo de que agora não me recordo, vi-a pela primeira vez. Escrevia num Moleskine preto por pautar e usava uma Parker prateada, de tinta permanente, preta. As melhores! Uma figura elegante! Trajava um distinto anorak (prefiro a palavra em francês, por me parecer mais cosmopolita), mas claramente desajustado à temperatura que se fazia sentir. Por baixo, o que parecia ser uma casaca masculina em tons de vermelho com uma camiseta branca, muito simples. A ganga das calças ia sobrando ao longo das pernas e, nos pés, umas sapatilhas imaculadamente brancas, de solas brancas e cordões brancos. Marca da moda. Não cheguei a perceber o seu rosto, os óculos escuros e desmesurados não mo permitiram. Pela aparência geral, não teria mais de vinte e cinco anos. Notei que chorava. Chorava em silêncio e sozinha. Creio que o choro em solidão é o pior deles todos: corrói mais do que qualquer outro, por não se poder repartir; tem vontade própria; é de difícil extinção e exala sempre uma dor insanável. Em quase quarenta anos, recordo-me de ter chorado assim não mais do que três vezes! Envergando uma postura quase paternal, quis aproximar-me para a acudir! Ainda lancei um olhar como que a pedir licença para o fazer mas, nesse instante, naquele fim de tarde, aquela figura fina levantou-se e, pelo meio de um grupo de turistas eufóricos, desapareceu pelas ruas limítrofes. Ainda me levantei perscrutando a sua silhueta, mas em vão… Desapontado, mais com minha inoperância do que com qualquer outra coisa, deixei-me cair na cadeira de onde pulara momentos antes e dirigi os sentidos para o local de onde aquela mulher se levantara. Reparei que deixara um rasto perfumado e, na base da mesa, um pequeno papel dobrado em duas partes indistintas. Olhei de soslaio para um lado e para outro e reparei que a vida continuava indiferente às minhas preocupações: um homem estrangeiro na mesa ao lado bebericava a sua cerveja preta e, de livro em punho, não se apercebia de nada em redor. Estava absorto na leitura do grande Gabo. A sua escolha recaíra no “Cem Anos de Solidão”, uma belíssima edição em castelhano, se não me atraiçoou o vislumbre rápido e comprometido. Apesar do excesso de peso – há que dizê-lo – percebia-se requinte no gosto literário. À direita, o empregado de mesa ainda cortejava a sua italiana, que não se mostrava nada envergonhada perante os avanços atrevidos deste Don Juan micaelense. Levantei-me. Avancei e subtraí o manuscrito à mesa abandonada. Num ápice, regressei. Esperei um pouco. Recuperei o fôlego e olhei aquele papel. Parecia tratar-se uma folha do seu caderno sem qualquer remetente ou destinatário. Na página frontal, apenas repetida a palavra “Xico”, com letras trémulas, quase garatujadas. Voltei-a e, depois de ler a missiva que lá fora escrita, percebi o choro, a angústia e o vazio que aquela mulher trazia consigo. 
Morrera-lhe parte de si!

  “Em memória do nosso Xico – a epístola que não queria ter escrito 

O nosso Xico partiu, mas sei que ainda deambula entre nós, a apaziguar-nos a mágoa! Se fecho os olhos, ainda oiço o cavalgar dos seus quilos a menos, em redor da nossa casa. Vejo-o sentado à porta de entrada, de cauda em pêndulo, à espera que a Susana lhe lance um sorriso ou uma palavra de carinho. Sem grande esforço, vejo-o correr pelo relvado, de forma inglória, perseguindo pardais ou pombas que teimavam em desafiá-lo com voos rasantes. Por vezes, oiço-o ladrar enervado com os melros-negros que – criminosos – lhe surripiavam, sempre que podiam, a ração do interior do canil. Olho para o que resta das palmeiras, das iucas-mansas ou das camélias que ele foi desarranjando ao longo do tempo e percebo, finalmente, que não havia mesmo problema algum, como o seu olhar triste me parecia querer indicar, quando o fechava de castigo, ainda com o focinho sujo de terra e com vestígios de raízes soltas. Foi a Susana que lhe escolheu o nome, no dia em que chegou a nossa casa e, desde esse momento, considerámo-lo como membro da nossa família. Era muito mais do que o nosso cão: o Xico era um Ser que adensava a nossa vida, que a tornava mais preenchida, que a animava e cobria de felicidade. Mesmo que não nos apercebêssemos disso todos os dias que o tivemos connosco, a tristeza e o vazio que agora sentimos comprovam a falta que ele nos faz. Como uma laranja que não chegou a amadurecer e cai desamparada da árvore, também o nosso Xico tombou, deixando toda uma vida por viver. Talvez por isso, nem ontem nem hoje, vieram os pardais, nem as pombas, nem os melros-negros! 
Crê que foste amado, Xico! 

S&T 

 Telmo R. Nunes a 25 novembro de 2018

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

in Açoriano Oriental


Encontro Literário “Açores Arquipélago de Escritores”
Agora que se apagam as luzes e as cadeiras vagam, há que fazer um justo reconhecimento à realização do encontro literário, “Açores Arquipélago de Escritores”.
São Miguel e Ponta Delgada, em particular, já mereciam um acontecimento cultural desta natureza, desta qualidade e envergadura. As sessões foram de uma riqueza literária imensa: houve conversas interessantíssimas com pessoas igualmente interessantes e com as quais habitualmente só nos cruzamos nas páginas dos livros. Houve lançamentos de obras, cursos, apresentação de filmes, sessões direcionadas às escolas e às crianças, debates, mesas redondas onde fervilharam ideias estimulantes e, como não podia deixar de ser, as devidas homenagens àqueles que serão os maiores entre pares. A nossa cidade, mas também a nossa ilha e os Açores foram, de facto, um “porto de cruzamento de diferentes culturas e literaturas (…)”.
Gostei do que vi e do que ouvi; gostei dos que abrilhantaram os diversos palcos e nos enriqueceram com as suas ideias. Não foi necessário expender grande esforço para apreciar, com redobrada atenção, as intervenções de oradores como Onésimo Teotónio de Almeida, João de Melo, Daniel Gonçalves, Joel Neto, Emanuel Jorge Botelho, Gonçalo M. Tavares, Pedro Mexia, João Pedro Porto, entre outros.
Como se afirmou amiúde ao longo daqueles dias, inaugurar um encontro literário com esta pujança e sucesso, acarreta uma pressão imensa para os envolvidos na sua organização, já que a fasquia se encontra agora num patamar de excelência que, certamente, será mantida nos encontros que se hão de suceder.
Registei, com especial agrado, o empenho em descentralizar as várias sessões por diversos locais da cidade e da ilha, fazendo chegar o livro a um público mais vasto e, sobretudo, mais diversificado, mas sublinhei também, e com grande satisfação, a paridade de género entre os autores convidados. Enriquecer o programa do encontro com nomes como Renata Correia Botelho, Paula de Sousa Lima, Leonor Sampaio Silva, Mariana Magalhães e Cristina Quental (todas autoras que figuram no PRL), Isabel Rio Novo, Diana Marcum (vencedora de um Pulitzer), Clara Macedo Cabral, Lélia Nunes, Filipa Martins, Dulce Garcia, entre outras senhoras, foi uma verdadeira mais-valia que, certamente, em muito contribuiu para o sucesso do evento.
Da perspetiva da assistência, na qual me situo, este encontro literário foi um êxito estrondoso que em muito engrandece, primeiramente, a Literatura e depois Ponta Delgada, São Miguel e os Açores, em geral. Julgo que entramos agora na rota dos grandes acontecimentos literários que se realizam no nosso país e, aberta esta janela, haja discernimento por parte das entidades oficiais para perpetuá-la.
Por tudo isto e mais, e porque ninguém louva aquilo que não gosta, a todos os envolvidos, mas com especial destaque ao curador do encontro, o multifacetado Nuno Costa Santos, assim como aos parceiros que se uniram a este projeto, um reconhecido obrigado!
Para o ano, cá vos esperamos!
Telmo R. Nunes

21 de novembro de 2018

sábado, 25 de agosto de 2018

In Açoriano Oriental



Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias

Começam a rarear os bons adjetivos que qualifiquem condignamente a obra ficcional de Joel Neto, um dos expoentes mais cintilantes do atual panorama literário português. “Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias” é o último romance do autor de “Arquipélago” ou “Vida no Campo”, e nele é feita uma apologia ao amor, nas mais diversas formas de o sentir.

Podia ser Morgan Freeman, mas não era.”: eis a entrada que nos conduz a uma viagem no tempo, desde 2017 até 1939, com paragens obrigatórias em diferentes épocas e geografias mundiais. “Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias” arranca na Lisboa contemporânea, mas rapidamente se muda até uma Nova Iorque dos finais do século passado, onde C. Devon Fitzhugh, um excêntrico personagem, incita José Filemom Abke Marques, o narrador do romance, a escrever um livro, buscando a verdade sobre a presença de um agente nazi na ilha do Faial, arquipélago dos Açores.

A partir deste ponto, a ação desenvolve-se numa malha bastante complexa, mas nem por isso menos coerente. Com efeito, coerência e coesão entre todas as linhas narrativas nunca são colocadas em causa, e o rigor do detalhe encontra-se sempre presente ao longo de toda a diegese. Neste particular, sublinho o número de personagens enunciado na tábua inicial do romance – cerca de cem –, para que percebamos o trabalho hercúleo que o autor despendeu nesta intrincada teia de relações, para que da leitura resultasse – como resulta – uma escorreita sensação de que tudo se funde harmoniosamente.

O livro, que se divide em 5 partes, perpassa diversas épocas históricas e outros tantos pontos do globo, mas poder-se-á afirmar que o âmago do plot se reporta à ilha do Faial, nos idos anos 30 e 40 do século passado, a partir de onde o narrador se vê obrigado a reconstituir a vida de um familiar recém-falecido – Hansi Abke. Neste período, e com a II Guerra Mundial em pano de fundo, é-nos servida uma cidade da Horta cosmopolita, alegre, jovial, visitada amiúde por estrelas de cinema, desportistas e outros famosos de renome internacional, dos quais se destacam a bailarina Mitzi Mayfair ou o aviador Antoine de Saint-Exupéry, que amaravam no porto da Horta a bordo, entre outros, dos potentes Yankee Clipper, da Pan American.

Inversamente ao clima de guerra e à mortandade que cobriam de sangue quase toda a Europa continental, vivia-se então na pequena ilha do Faial um peculiar alheamento de todo aquele cenário dantesco. Ingleses e alemães conviviam em sã harmonia, fruto, sobretudo, da exploração dos cabos telegráficos, tão frutuosos na primeira metade do século passado. Uns e outros bailavam na Sociedade Amor da Pátria, faziam piqueniques nos locais mais idílicos da ilha, jogavam partidas de bridge, de ténis ou de croquet. Vivia-se um clima de aparente letargia face ao implodir de uma guerra com efeitos tão devastadores para ambas as partes.

«Natália (…) descrevia o naufrágio do U-581 ao largo da ilha do Pico, após um combate com uma flotilha de destroyers ingleses, em pleno Canal, a que muita gente pudera assistir a partir da doca da Horta (…)».

Ainda que de forma inusitada, todos na ilha pareciam querer assumir o papel de espetadores apáticos perante partição da Europa e do mundo.

Tal como em outras obras, também nesta, Joel Neto manifesta uma relação de amor com as ilhas açorianas, não se deixando cair, contudo, na tentação de se ater apenas a elas. A partir das ilhas dos Açores, mas olhando-as e integrando-as cuidadosamente num mundo mais amplo e complexo, ele compreende e (des)escreve um dos mais importantes acontecimentos da história de toda a humanidade. A sua cosmovisão, a sua concepção do mundo encontram-se bem patentes em cada uma das 420 páginas que perfazem a obra, mantendo, ainda assim, a génese discursiva na ilha, que nunca é deixada para trás. Não obstante tratar-se de um exercício de difícil execução (e isto é distintivo apenas dos grandes autores), ele vê os Açores como parte integrante de um mundo; o arquipélago é colocado lado a lado com geografias tão diversas como Lisboa, Nova Iorque, Friburgo, Porto Alegre ou Praga e, em momento algum, se nota ‘um forçar’ da açorianidade, antes se deixa transparecer um sentimento telúrico harmoniosamente integrado na mundividência própria do autor.

A este propósito não há como não recordar a mónita lançada por Daniel de Sá aos escritores açorianos, onde apelava que não cedessem aos lugares-comuns quando se tratasse de “cantar a terra”. Joel Neto interpreta isto na perfeição, não se inibindo de retratar os Açores sempre como parte de um todo maior, e fá-lo sem que isso belisque, um pouco que seja, a sua condição de ilhéu açoriano. Fá-lo com grande mestria, sem renegar, jamais, as origens que o trouxeram a este patamar de excelência, onde agora se encontra. Percebe-se que as fronteiras que a ilha impõe não foram suficientes para, de alguma forma, lhe manietar um espírito integral.

Por se retratar um período histórico que, pessoalmente, muito me diz, e pelo qual nutro especial interesse, confesso que a leitura que efetuei terá sido bem mais fugaz e sentimental do que propriamente técnica, mas confesso que não me arrependo. É um romance apaixonante, daqueles capazes de nos extasiar desde a primeira à última página.

Vale a pena ler autores açorianos!


Telmo R. Nunes
a 19 de agosto de 2018

domingo, 29 de abril de 2018

O mar

«o mar é como os deuses, porque não é deste mundo.»
 Emanuel Jorge Botelho, 30 crónicas (Vol. I), Letras Lavadas Edições || Artes e Letras Editora

sábado, 24 de março de 2018

Mercado tradicional


Há dois tipos de pessoas no mundo: os que apreciam os mercados tradicionais ao sábado de manhã, e os outros. Agrada-me pertencer ao primeiro grupo -- fascina-me a paleta de cores servida e à disposição do olhar; inebria-me o cheiro fresco a fruta colhida há pouco; seduz-me o pulsar das gentes que ali procuram a recompensa pela tez marcada pelo trabalho!

sábado, 17 de março de 2018

In Açoriano Oriental

A propósito de «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares Nos Três Últimos Séculos», redigido por Antero de Quental:

Por ocasião da comemoração do 175.º aniversário de Antero de Quental, recuperei a obra decorrente da intervenção com que o autor abriu as Conferências do Casino, decorria o ano de 1871.

Primeira parte: Eu diria que um livro se cumprirá assim que conseguir marcar, de forma indelével, o seu leitor, impelindo-lhe questões interiores e exigindo-lhe, ao mesmo tempo, respostas absolutas. Uma leitura destas deverá potenciar mutações de pensamento e, consequentemente, mudanças de atitude, ou, pelo contrário, reforçará, cabalmente, crenças e traços de personalidade. 
Haverá um elevado número de fatores endógenos e outros tantos exógenos que condicionarão uma leitura assim tão marcante, desde logo o estádio etário do leitor, a sua maturidade intelectual e desenvolvimento sensorial, o rol de vivências, assim como os meios familiar, socioeconómico ou demográfico, entre outros. Para que o fenómeno se dê, e uma leitura assim ocorra, terá de se agregar um conjunto de circunstâncias a que, ousadamente, designaria de ‘casualidades felizes’. 
Este, a que hoje me reporto, abalou-me crenças e convicções. Infligiu-me grande inquietude de pensamento, agitando, ao mesmo tempo, a génese das origens, as fundações da minha própria educação. 
Segunda parte: Um grande filósofo, pensador e professor incentivou-me certa vez a leitura do texto «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares Nos Três Últimos Séculos», redigido por Antero de Quental: «- É fundamental! Devemos primeiro perceber o passado do nosso país, para melhor perspetivarmos o seu futuro» – aconselhava. 
Adquiri a obra, encetei a leitura e percebi por que motivo me fora recomendada, por que razão sobrevivera este texto não apenas ao constante passar do tempo, como também ao encerramento das próprias Conferências de onde brotara. Embora tido agora como atemporal, foi redigido a propósito do dia 27 de maio de 1871, por ocasião da abertura das “Conferências do Casino”, as tais dos grandes vultos do “Grupo do Cenáculo”, os da “Geração de 70”, as mesmas proibidas por Portaria do Ministério do Reino, em junho desse mesmo ano!
O texto – maravilhoso – agradou-me sobremodo, não apenas pelo retrato da sociedade civil de então, (com a qual ainda se podem estabelecer paralelos formidáveis) mas também, e essencialmente, porque me inculcou no espírito umas tantas questões às quais não consegui dar resposta imediata e me consumiram a quietude durante largo período.
Segundo Antero, as causas que estariam na base da decadência dos povos peninsulares passariam pelos Descobrimentos de novos mundos, pelo Absolutismo régio e pela transformação do Catolicismo, por via do Concílio de Trento.
As duas primeiras razões apontadas, embora inegavelmente complexas, são de clara perceção; a explanação sugerida é elucidativa e, corroborando-a ou não, ali ficam demonstrados possíveis fundamentos para o atraso no desenvolvimento da Península, comparativamente com os países europeus. A terceira e última razão aludida foi a que me suscitou grande desassossego e me conduziu a uma jornada ao âmago das minhas certezas.

Atente-se:
“Ora, a liberdade moral, apelando para o exame e a consciência individual, é rigorosamente o oposto do Catolicismo do concílio de Trento, para quem a razão humana e o pensamento livre são um crime contra Deus…” 
ou ainda:

“Na sessão 14ª de Trento é a consciência cristã definitivamente encerrada. Sem confissão não há remissão de pecados! A alma é incapaz de comunicar com Deus, senão por intermédio do padre!”

É um texto farto em frases duras, pelo menos, para quem cresceu e foi educado no seio de uma família que se reja sob os preceitos do Catolicismo. 
Terceira parte: Então, Cristianismo ou Catolicismo? Haverá ou não lugar a ‘um Cristianismo’ fora dos ditames do Catolicismo? Este amordaça e amedronta os seguidores, os crentes? Inibe-os ou não de viver em pleno o Cristianismo; inibe-lhes ou não a vivência em Cristo? Não será já o Catolicismo uma adulteração humana daquilo que deveria ter sido a fé Cristã, pura e simples, individual e, ao mesmo tempo, coletiva?
A noção genérica em que creio passa pelo Cristianismo como a génese da religião, a base de sustentação, o pilar que conduz à crença em Deus - Pai, Jesus Cristo - Filho, acompanhados pela força de um Espírito Santo. Tenho como certa a base em Jesus Cristo e que se trata, sobretudo, de sentimento. No que ao Catolicismo concerne, instigaram-me a crença de que ‘caminhava lado a lado’ com o Cristianismo, numa demanda que dura há já mais de dois milénios. Transmitiram-nos que uma completava a outra, mas, ponderando, necessitará o Cristianismo de qualquer complemento? 
Hoje percebo mais facilmente aqueles que encaram o Catolicismo com algum distanciamento, que o veem como uma forma ou instituição, e que o reduzem a uma norma que modela a forma de viver e de sentir o Cristianismo. Percebo que o encarem como uma mera disciplina a seguir, que será (ou não) dispensável. Percebo que questionem se serão necessários estes preceitos concebidos pelos homens que nos antecederam para que se consiga viver em plenitude o Cristianismo...
Com efeito, ao olhar para todos os cerimoniais que se nos apresentam quotidianamente, o que se vê para além de encenações quase teatralizadas, e, em alguns casos, até idolatrias? Por que razão há cerimoniais e datas rigidamente estabelecidas para que se possa cumprir plenamente a vivência em Cristo? – bem sei que a qualquer altura se pode fazer a remissão dos pecados, mas naquelas datas específicas deve-se fazê-lo, sob pena de se cometer um “pecado maior”. E por que razão é necessário um intermediário para fazê-lo? Não será este um caminho de inibição? E recordemos, também, as atrocidades cometidas pelo Santo Ofício ao serviço destes preceitos católicos… 
Que lugar deixa o Catolicismo às liberdades individuais? Tudo é regido por preceitos estritamente definidos: aquele que se rebele será herege, o que hoje não carregará o peso de outros tempos, é certo, mas, ainda assim, será apontado como diferente, pelo menos!
Não terá ido o Catolicismo um pouco longe de mais, adulterando as aspirações despretensiosas, simples, mas, ao mesmo tempo, plenas e sacras do Cristianismo? Esta igreja assim estruturada, que lugar deixa ao sentimento simples, espontâneo e sincero?
Naturalmente, o disserto anteriano é substancialmente mais vasto, rico e prodigioso do que aquilo que alguma vez poderia aqui deixar apontado. Na edição da obra que possuo, prefaciada pelo professor Eduardo Lourenço, usam-se expressões como «memorável intervenção» ou «referência mítica» e, aludindo a ideia inicial deste escrito, creio que cumpre ‘religiosamente’ a sua função maior: impelir questões, exigindo respostas!
Não será este o intento final de todo e qualquer bom texto?
Telmo R. Nunes
16 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 1 de março de 2018

Vamos falar de Literatura?



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Independentemente do que se possa sentir pela Literatura produzida nos Açores ou pelos autores açorianos, permitir-me-ei julgar que, com toda a justeza, estes deveriam ser acarinhados por todos, sem exceção. No entanto, tenho lido que, por cá, não haverá uma divulgação adequada ou, pelo menos, suficiente das obras dos autores regionais. Não sei se corroboro esta ideia, mas, confrontando-a com a realidade de outras regiões do país, parece-me, pelo menos, digna de reflexão séria.
Entremos, por exemplo, na livraria Bertrand de Ponta Delgada e vejamos, com algum cuidado, a prateleira que espreita ao fundo, anunciando a todos quantos ali passem: “Autores Locais”. Ora, não conheço estante com propósito similar em qualquer outra loja desta distribuidora nacional.
Depois, recorde-se o dinamismo da livraria Leya Solmar, esse “centro cultural” ao serviço da literatura de raiz açoriana, bem no centro da cidade de Ponta Delgada: lançamentos, tertúlias, “Livros do ano”, encontro com escritores, montras permanentes e exclusivamente dedicadas aos nossos autores.
Recordemos, também, a pujança que agora demonstra o Centro Natália Correia, no que ao lançamento de obras de autores locais diz respeito.
Por outro lado, entrando numa das mais concorridas superfícies comerciais da ilha de São Miguel e dos Açores – Solmar, em São Gonçalo –, facilmente somos cativados pelas estantes exclusivas e repletas de livros de autores açorianos. Adite-se que as mesmas se encontram em local de grande destaque. Embora, pessoalmente, não aprecie a compra de literatura nestes espaços, a verdade é que eles existem, e são, efetivamente, uma forma prática de colocar o livro próximo do leitor.
Tenhamos em mente, também, o espaço semanal que os principais jornais da ilha conferem à recensão literária, tantas vezes dedicada à literatura produzida no arquipélago. Não sendo o ótimo, é já significativo e digno de registo!
Relembremos, entre tantas atividades de grande valia promovidas pelas editoras regionais, a “Festa do Livro dos Açores”, dinamizada pela Publiçor/Letras Lavadas, onde, à beira-mar e em plena época turística, centenas de títulos de autores açorianos puderam ser dados a conhecer…
Considere-se o destaque que “Temática Açores” traz aos autores locais! Um apêndice da CDU (Classificação Decimal Universal), a “Temática Açores” cataloga e deposita as obras de autores e temas açorianos em prateleira própria, conferindo-lhes claro destaque. Isto não é frequente fora do arquipélago! Em qualquer biblioteca fora dos Açores iremos encontrar a poesia de Antero bem próxima da do Camões, por ambos serem dois grandes poetas portugueses. Por cá, em algumas bibliotecas, um é açoriano, outro é português, e, por isso, “habitam” estantes distintas.
Atentemos no empenho que a Associação de Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental tem vindo a despender junto dos atuais discentes e respetiva comunidade educativa, no sentido de promover a obra e o patrono daquela instituição.
Consideremos as Antologias de Autores Açorianos Contemporâneos (ed. AICL, Calendário de Letras) lançadas recentemente, uma, inclusivamente, bilingue, numa tentativa de fazer chegar aos nossos emigrantes o que de melhor se escreve pelos Açores, e outra privilegiando o texto dramático, tantas vezes encarado como “parente pobre” da nossa Literatura. Não esqueçamos os “Cadernos (e suplementos) de Estudos Açorianos”, onde vida e obra de 33 autores (!) são disponibilizados para consulta gratuita. Recordemos, ainda, a recente edição da “Bibliografia Geral da Açorianidade”, que contempla cerca de 19500 verbetes, inscritos em dois tomos de 800 páginas cada, totalmente dedicadas ao trabalho literário produzido sobre os Açores, açorianos e tudo que à Açorinidade respeita.
Por outro lado, tenhamos presente o empenho da SREC na integração da disciplina de História Geografia e Cultura dos Açores, na matriz curricular dos alunos açorianos. Creio tratar-se de um espaço onde facilmente se disseminarão os principais textos dos maiores vultos da Literatura produzida no arquipélago.
Contemos com os prémios literários (dois, pelo menos, de âmbito nacional) que privilegiam obras inéditas, referenciáveis aos Açores.
Tenhamos em mente que os Açores dispõem de um Plano Regional de Leitura próprio que, aproveitado em subaproveitamento, destaca dezenas de obras de alguma forma relacionadas com o arquipélago.
E depois, bem, depois há o esforço desenvolvido em cada Unidade Orgânica do sistema regional de educação. Embora creia que o oposto também possa ocorrer, julgo que, na grande maioria das escolas do arquipélago, os escritores açorianos são muito acarinhados, quer por alunos, quer pela generalidade do pessoal docente. Na realidade que conheço, são colocadas em prática diversas atividades específicas de promoção da Literatura produzida por cá. A cada ano letivo são trabalhados muitos autores, seja a nível biobibliográfico, seja através de oficinas de escrita ou a partir da sua própria produção textual, no apoio ao desenvolvimento de competências fundamentais. Sob a orientação dos professores de Português, algumas destas atividades são realizadas pelos alunos, em estreita colaboração com os próprios escritores, o que favorece sobremodo a aquisição de conceitos e/ou desenvolvimento de competências. Outras são levadas a efeito com a cooperação de Bibliotecas e outras entidades exteriores à escola. Refiram-se, também, os sempre enriquecedores encontros de alunos com autores, onde se incendeiam de curiosidade auditórios a abarrotar. Não menos importantes são as atividades desenvolvidas no interior das salas de aula, onde o professor de Português coloca em prática a silenciosa responsabilidade de difundir junto dos mais jovens aqueles textos de raiz açoriana de reconhecida qualidade literária.
Por tudo isto e mais, não creio que o problema esteja na difusão deficiente ou desadequada da obra dos autores açorianos. Eventualmente, considerando o todo nacional, até concebo que essa dúvida se coloque, mas, convenhamos, também não há especial destaque conferido aos escritores minhotos, alentejanos ou algarvios. É certo e desejável que mais e melhor poderá ser feito, mas é, também, inegável o esforço que se tem produzido no sentido de engrandecer os “nossos nomes de referência”!
Do meu ponto de vista, o motivo de tais considerações encontra-se no fraco volume de vendas que estas obras arrecadam. No entanto, a explicação encontrar-se-á a jusante de todo este processo. De uma forma geral, as pessoas leem muito pouco, e, quando por algum motivo o fazem, dão preferência, quase sempre, aquele escritor da moda, aquele que até escreve umas “frases bonitas”, e as transforma em posts coloridos por essas redes sociais fora.
Bem sabemos que, tendencialmente, não valorizamos o que é nosso, mas, no que à Literatura produzida nos Açores diz respeito, parece-me até que muito se tem conseguido, e ainda bem! Tudo aquilo que se puder fazer para engrandecer a Literatura de raiz açoriana será, com certeza, bem-vindo por todos aqueles que honram este “arquipélago de escritores”!
Afinal, como já afirmou um reputado crítico literário português, “Há qualidade açoriana para um Prémio Nobel”.
A todos, boas leituras!
Telmo R. Nunes
a 28 de fevereiro de 2018