sábado, 4 de outubro de 2014

Manifesto pró-Negreiros



Como é possível tamanha mobilização em torno de uma corrente que é, tão-somente, uma verdadeira porcaria?! Como é que figuras destacadas – sumidades – da nossa praça se envolvem num circo destes? Será que as pessoas que aparecem, que dão a cara e até elogiam, estarão a par do que ali é grafado para todo o sempre? Não quero crer! 

QUE RENASÇA O MANIFESTO DO NEGREIROS! ABAIXO TODOS OS DANTAS QUE POR AÍ PROLIFERAM! 

 (…) SABERÁ GRAMMATICA, SABERÁ SYNTAXE, SABERÁ MEDICINA (…) SABERÁ TUDO MENOS ESCREVER QUE É A ÚNICA COISA QUE ELLE FAZ! (…)

Com estes novos Dantas, meus caros, garantidamente, nem gramática, nem sintaxe, nem medicina, nem escrever, nem nada…

(…) UMA GERAÇÃO QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI. (…)

Sinto-me indignado; não me revejo nesta geração e por isso refuto! Não por falta de fortuna, muito menos por cobiça, antes porque estou farto destes tudólogos que se julgam sabedores das verdades universais, assim como destes achistas que, nada sabendo, acham sempre qualquer coisa acerca de tudo! Não me alinho nesta maioria decrépita, nem nestes ideais caducos; não pertenço à pluralidade da ‘palmadinha nas costas’.
Talvez seja mesmo um tolo porque me insurjo contra estas tolices, no entanto, resta-me o sossego de perceber que, como eu, haverá por aí mais uns quantos tolos e juntos, qualquer dia formaremos a minoria da tolice!

Fotografia: expressodalinha.blogspot.com

Telmo R. Nunes
a 04/out/2014

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

in Açoriano Oriental




A obra O Carcereiro da Vila e Outras Estórias, da autoria do ‘Mestre’ Tomaz de Borba Vieira surgiu-me quase por um acaso. Aliás, será por esse feliz acaso que agora se dá este caso mas, previno, ao contrário do enunciado na obra, onde a narradora inicial seria “(…) trôpega na idade, mas ágil na arte de dizer.”, aqui encontrarão um trôpego, não pelos anos que carrega, mas antes em virtudes, especialmente as literárias que lhe escapam mais do que desejaria, pelo que faltar-lhe-ão, com toda a certeza, palavras suficientemente ajustadas ao comentário que agora é encetado.
As narrativas, oito no total, são de uma riqueza sublime! Revestidas de uma amálgama de temas, de cheiros e ambientes, de uma sucessão de personagens e espaços, de uma fusão exímia de perspetivas entre verdades que são nossas – açóricas – e um todo universal, advindo, por certo, da mundividência angariada ao longo de anos em viagem: se nos deparamos com um “Zé do Pico”, pescador e ex-combatente colonial, ou um repatriado de nome “John”, batizado João antes da família emigrar para a América, encontramos também um “Gino Martelli”, cozinheiro de profissão em Itália e especialista em “História e Estética da Escultura Florentina”. Tomaz consegue então ‘ser ilha’ sem nunca renunciar uma indelével cosmovisão, o que lhe enobrece sobremaneira o ser ilhéu!
Além das temáticas, o autor destaca-se também na minúcia do detalhe conseguindo, assim, sobrelevar o texto a um realismo que diria, quase sensorial. Em Bus Stop, por exemplo,narrativa dedicada a Daniel de Sá – o personagem, a quem se chama apenas o homem, “porque não interessa o nome dele”  “(…) viajava de tal maneira apertado que não precisava procurar apoio para se equilibrar (…)”, assim como os “sons [que] voavam em todos os sentidos, rente às orelhas (…)”. Desta forma, torna-se praticamente impossível ao leitor fugir ao incómodo, ao aperto ou ao barulho; Tomaz consegue com uma perícia indizível transportá-lo para dentro da narrativa e transformá-lo num dos passageiros daquele autocarro pejado de gente, trespassado por sons e povoado por cheiros, maus cheiros, arrisco…
Ainda a propósito desta narrativa, torna-se interessante salientar o recurso do autor a uma técnica de escrita muito pouco frequente, mas utilizada com um brilhantismo soberbo. A determinada altura, o protagonista – o homem – “(…) decidiu, sem mais desculpas, abandonar [a] estória. (…) [desistiu] de continuar em cena (…)” e, num ápice, cedeu o seu lugar ao narrador que o desempenhou até à conclusão da narrativa. Uma transição curiosa, geradora de uma perturbação quase inexplicável…
            O Carcereiro da Vila é ainda e também um espaço de declarada e acérrima recriminação política e ideológica. Quer na narrativa que empresta título ao livro, quer em Noites de Moscovo são criticadas com crueza (e com um refinado humor, diga-se) não apenas a ditadura salazarista, como também a incompetência das instituições que a serviam. Colocam-se em evidência as agruras e represálias impostas à pessoa que, de certa forma, se afastasse dos cânones impostos, o que a transformava em “inimigo do Estado (…) que convinha ser mantida debaixo d’olho.”, ou “O facto de a polícia estar convencida fosse lá do que fosse, era igual a estarem confirmadas todas as provas disso mesmo…”.
            Além de toda a riqueza temática e textual, há que evidenciar, ainda, a qualidade das ilustrações realizadas pelo próprio Tomaz de Borba Vieira. Neste território tão distinto da arte, dá-se o infeliz acaso de pouco poder explanar, já que, embora seja admirador confesso, o meu conhecimento é manifestamente curto para o poder fazer com alguma segurança. No entanto, devo dizer que foi um verdadeiro gáudio poder desfolhar o livro e perceber na imagem a interpretação feita a partir do texto, o que revela, no mínimo, uma perícia ímpar por parte do ilustrador, já que é também isso que se espera de uma boa ilustração textual.
Por tudo quanto fica supradito, ainda bem que, por acaso, se deu o caso de me encontrar com O Carcereiro da Vila; foi, deveras, um acaso muito bem-vindo.
Vale a pena ler autores açorianos!

Telmo Rodrigo Nunes
a 12 de setembro de 2014

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Os dias de hoje são deveras constrangedores: serei assim tão mau professor?




(porque há painéis formativos de reduzido interesse, há que ocupar a mente com os que valeram a pena, ou não…)

I - Tantas têm sido as vezes que me tem assolado a ideia da ubiquidade, para que pudesse ter a oportunidade de comprovar in loco os resultados de algumas estratégias educativas apregoados por alguns colegas de profissão.
Apetece-me mesmo questionar esta gente sobre o que fazem tamanhos talentos integrados em programas alternativos, ou quem terá sido o incompetente que avaliou aqueles ‘piquenos’ génios. Não o faço porque imagino que terá sido a mesma pessoa que adulterou/alindou o produto final do trabalho desenvolvido pelos alunos, e isto em função de uma bela fotografia que tão bem ilustra aqueles “magníficos” powerpoints, agora apresentados.
Não me parece nada razoável tamanha intervenção do professor no trabalho dos alunos: há que orientar, corrigir, até sugerir, mas calma… o trabalho terá de ser desenvolvido por eles e, inevitavelmente, terá de ser avaliado pelo docente – seja todo o processo, seja o produto final. Como conseguirão estes colegas avaliar o trabalho que eles próprios desenvolvem? 

II - Por outro lado, a Escola Inclusiva e a imperiosa demanda pela equidade.
No que a este aspeto concerne, devo confessar que concordo com os pressupostos que me foram apresentados pela enésima vez: a qualidade da Educação (e não digo aprendizagem) terá de assentar em noções como a igualdade, a garantia de direitos, participação, a socialização, entre outros. Não devemos sobrevalorizar nem desenvolver a nossa prática docente em função do que efetivamente não conduz aos resultados esperados (e não me refiro apenas a classificações mensuráveis quantitativamente). Recordo e reproduzo uma frase recente : “valorizamos o que medimos, ou medimos o que valorizamos?”


Se nos restringirmos apenas a uma visão teorizada, tudo quanto se expressa acerca da equidade e da inclusão na escola poderá ser muito válido e de reconhecida mais-valia. No entanto, e afastando desde já qualquer noção de censura ou crítica, constato que académicos que tão bem defendem esta linha de pensamento andam, há muito, longe da realidade das nossas escolas, ou ressalvo, longe da realidade das escolas que eu conheço. Apontam medidas conducentes ao sucesso, elencam estratégias e conteúdos a priorizar, sugerem disposições profícuas, mas talvez andem arredados do essencial: a VONTADE do aluno!
Falam em diferenciação - muito bem, é feita!
 Em diagnósticos - muito bem, são feitos!
Em organização de trabalho individual - muito bem, é feito!
Em planeamento consoante ritmos diferenciados - muito bem, é feito!
Em motivação - muito MAL, mas é feito!
Os docentes – pelo menos todos os que me rodeiam (excetuando, talvez, os referidos no primeiro parágrafo) – são os maiores ‘construtores’ de motivação que conheço ou ouvi falar. Nós fazemos o pino, se necessário, para que os nossos alunos se sintam imbuídos e/ou absorvidos por um ambiente favorável ao processo de ensino e, ainda assim, há sempre uns quantos que categoricamente não querem aprender. É disso mesmo que se trata: NÃO QUEREM APRENDER! Fazem firme questão de ser menos inteligentes e, se possível, procuram fazer-se acompanhar por toda a turma…
Quantas foram já as ocasiões do Não quero saber nada disso; Não faço e não és tu que me obrigas; Para que servem essas merd@s?; entre tantas outras…
Educação e equidade são então noções que deveriam mesmo deixar o domínio da utopia, mas não sendo eu como os colegas de quem vos dei conta no início do texto, parece-me que proximidade entre elas reside apenas e somente nos dicionários de língua Portuguesa.
De resto, tentemos ser todos os dias um pouco melhores, e, a todos, um bom ano letivo!

sábado, 12 de julho de 2014

Divino Espírito Santo em Ponta Delgada


.::Chegada das Sopas e demais dádivas::.


.::Voluntário::.

.::Foliões::.


.::Partilha popular das Sopas de Espírito Santo::.

.:: Quando as 'pernocas' já não dão para mais... ::.
.::Símbolo maior do Espírito Santo::.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

in Açoriano Oriental




“Não serve de desculpa. Há pessoas em situações piores e não se metem na droga, mas, como tenho experiência com droga, tenho este escape."
In publico.pt 25/08/13

Numa altura em que a pobreza espreita a cada esquina, e o desemprego emerge de um momento para o outro; numa época em que a depressão familiar e a inversão de valores se entranham pelas frinchas mal calafetadas da vida e, num período em que o Estado Social parece condenado ao desaparecimento, muitos têm sido aqueles que, caídos em desespero e sem esperança de amparo, buscam na fugacidade de um consolo intrujão o alienar dos problemas quotidianos. Partem na ânsia do esquecimento, na esperança do reencontro com momentos prazerosos e, invariavelmente, aterram nas agruras mais vis que se possam imaginar.
Fruto de toda esta conjuntura começa a ser por demais conhecida, e até bastante alarmante, a massificação de recaídas de muitos dos sobreviventes ao flagelo das drogas nos idos anos 80 e 90 do século passado, com especial incidência nos casos de heroinómanos.
Descobrir uma veia onde ainda seja possível receber com aquele agrado a fininha agulha e… deixar-se ir… partir numa jornada traiçoeira em busca da doce euforia voltou a ser a rotina de milhares de pessoas.
Em Portugal, na época áurea destes consumos, não obstante todas as políticas de combate (e algumas bem agressivas, que resultaram mesmo em cisões sociais entre os que olhavam os toxicómanos como doentes e os outros que os viam como meros criminosos), 1% da população consumia ou consumira então heroína, pelo que encontrar uma família onde esse flagelo não se fizesse sentir, revelava-se uma tarefa complicada. Lia-se que a heroína não sendo exclusiva dos “feios, porcos e maus”, era uma epidemia transversal à sociedade, agravada por todos os outros problemas associados: absentismo escolar, roubos, tráfico, alcoolismo, VIH, hepatite C, overdose… morte! Segundo João Goulão, – diretor-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências – “duas gerações foram dizimadas por consumos descontrolados”, e muitas mais seriam desse-se o caso de não se concluir atempadamente que a prevenção, assim como o acompanhamento destas pessoas deveriam ser permanentes na agenda política do nosso país. Com efeito, deu-se um pequeno brilharete: reduziu-se a percentagem de mortes por consumo de heroína a 0,5% da população, o que provocou de imediato a vinda de especialistas mundiais ao nosso país.
Na atualidade constata-se que o número de novos consumidores de heroína não é significativo, – os novos toxicómanos optam por um policonsumo que, não sendo tão agressivo como o da heroína, levanta também algumas discussões bem urgentes – mas a questão agudiza-se se nos cingirmos ao atual número de recaídas dos que há duas ou três décadas atrás eram os junkies que semeavam o medo pelas principais ruas das nossas cidades. Hoje, toxicodependentes com 40 ou 50 anos de idade, assim como os seus médicos acompanhantes e outros responsáveis, apontam a situação de crise económica como um dos principais fatores para estas recaídas: o difícil acesso aos cuidados de saúde, e o fim de alguns apoios têm dificultado em larga medida a recuperação plena destes indivíduos, e estarão na origem do triplicar das recaídas.
Numa sociedade onde a escassez de dinheiro impera, a capacidade de resposta destes serviços tão especializados tem, inevitavelmente, falhado, o que condiciona sobremaneira o tratamento continuado destes indivíduos. Se antes se assistia, por exemplo, à discriminação positiva destas pessoas em recuperação, nomeadamente em termos de empregabilidade, dizem os responsáveis que face à taxa de desemprego generalizada “não existe o à vontade necessário para que se batam por esta questão”.
Outrora apontado como o inimigo público número um, e gastos milhões em prevenção e apoios sociais, o consumo desta droga parece agora suscitar pouco interesse nas pessoas com responsabilidades políticas. É certo que outras necessidades bem mais prementes estão na calha – há hoje gente a passar fome – no entanto, urge a disponibilização de esforços, a articulação de estruturas de saúde que garantam, uma vez mais, respostas eficazes a estas pessoas. Importa impedir o recrudescimento deste flagelo, sob pena de assistirmos ao ruir de todo o esforço financeiro e social feito por aqueles que antes de nós tanto trabalharam pela erradicação do consumo desta maldita heroína!