sexta-feira, 14 de agosto de 2015

segunda-feira, 27 de julho de 2015

pudesse


pudesse cada pôr-do-sol levar consigo uma tristeza
pudesse cada crepúsculo aliviar-me um sofrimento
e seria, pois, cem vezes feliz
Telmo R. Nunes
27|julho|15 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Pataria

Não há muito tempo ouvi por aí...
 
"Se a um pato lhe falta a pata, ele é manco ou viúvo?"


Estes são os guardiões da Lagoa das Sete Cidades

segunda-feira, 20 de julho de 2015

São ilhas que habitam este “Arquipélago”. E são nossas!


 "Uma verdadeira obra de arte no regionalismo universalizante que marca a literatura açoriana. Se cada ilha é um mundo, este "Arquipélago" é um universo de emoções e sensações que transpira Açores por todos os poros."*

Assim escreveu o amigo Santos Narciso, no Atlântico Expresso e, por concordar, transcrevo-o agora. Talvez divirja apenas da menção a “literatura açoriana”, que me parece redutora, especialmente quando nos referimos a obras desta qualidade. (Ainda lhe hei de falar a este propósito; oxalá não se chateie comigo :)).
Tudo o que tenho lido sobre este livro (e não é pouco) é mais do que ajustado. Não irei fazer, por isso,  qualquer recensão sobre a obra, pois não iria acrescentar nada ao que já ficou tão bem dito e escrito por outros, por tantos outros, que o sabem fazer tão melhor do eu. O que faço questão de dar conta é que há já muito tempo que não me acontecia aquilo ao que o meu avô chamava de tentear o livro e, com o “Arquipélago”, dei por mim a fazê-lo de novo e com um gozo estrondoso: poupei-me à leitura para que o deleite perdurasse. Por isso e por tudo, obrigado, Joel!



*https://www.facebook.com/josemanuel.santosnarciso/posts/923424444389527

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Help! It's Dying


Memória das Minhas Putas Tristes



Três anos após a sua primeira edição, decidi ler o livro cujo nome empresta o título a este texto, Memória das Minhas Putas Tristes, escrito pelo Nobel da Literatura (1982), Gabriel García Márquez.
            Tal como já tive oportunidade de o reiterar aqui mesmo neste espaço, não sou grande apologista de Literatura recomendada, dou mais-valia à descoberta por meios próprios e após a leitura e posterior análise, efectuar a avaliação ao documento lido. Muito menos aprecio quando o livro é de outrem e não meu, impossibilita-me o seu livre e descuidado manuseamento, obriga-me a uma leitura com maior ou menor prazo, já que há que devolver o que a outros pertence. Para além disso, vejo-me sujeito a uma certa cautela, já que, uma página rota ou de outra forma violada, significa o ter de prestar muitas explicações. Mais ainda, não há nestas circunstâncias o desflorar das páginas virgens da recente compra, não há o avolumar da resma dos que para trás ficaram lidos…
            Ainda assim, e porque em torno deste, circunstâncias muito especiais existiram, optei por contrariar o que tanto prezo numa boa leitura e, não só me deixei levar por uma recomendação de uma amiga e grande apreciadora literária, como também decidi ler a obra num livro que não me pertence.
            Apesar de tudo não me arrependo.
            Devo dizer que desde há muito tempo me suscitava interesse este título tão peculiar. Ora, advindo de um Nobel e reconhecendo que para o ser há que escrever com uma enormíssima qualidade, foram realmente três anos de namoro que agora findam com o desfolhar da última página de tais “Memórias”.
            «No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem (…)», assim se iniciam um conjunto de recordações fictícias (julgo) por parte de um jornalista nonagenário boémio e agastado por uma vida levada aos píncaros no campo sexual, repleta de emoções fortes, vividas nos diferentes bordeis das cidades por onde circulava. Memórias de um bon vivan, que nem aos noventa o quis deixar de ser…
            Nesta obra Márquez consegue desnudar o sentimento pelo qual todos passamos mais cedo ou mais tarde: o medo de envelhecer, de nos tornarmos decrépitos aos olhos dos outros e às vistas do mundo. É algo transversal ao ser mortal e gastável, muito embora muitos teimem ainda negar tais pensamentos. Pura ilusão destes! Primeiro porque não enganam o tempo e depois não ludibriam para sempre o próximo. Todos iremos passar por uma situação assim, venha ela antes ou depois da real velhice. Ninguém está preparado para ser ou sequer para parecer velho. Todos suspeitamos e queremos acreditar que os adjectivos bom e velho só coexistem se do éter do Douro estivermos a falar, daí ninguém querer parecer gasto mas todos anseiam continuar bons, todos queremos crer sermos também “refinadas castas nos vales luminosos plantadas”.
            O “velho sábio” de Márquez reconheceu isso mesmo a um dia de iniciar a sua nona década de existência, outros senti-lo-ão mais cedo…
            Não há forma de evitar o inevitável. Por mais cuidados, cremes, intervenções que se paguem, o tempo não perdoa nem sequer tem preço: é para esses, os que não sabem envelhecer, uma luta desigual, perdida à nascença. Exteriormente podemos até enganar os desconhecidos, os menos atentos, mas no íntimo não nos embustearmos nem a nós próprios sequer.
             Resignemo-nos e aprendamos a viver as emoções que cada idade nos quer oferecer, ou podemos simplesmente tentar ludibriarmo-nos e tomarmos partido do patético, do ridículo, tentando, em vão, mostrar ao mundo que somos diferentes, especiais e que o tempo por nós não ousa passar… Será essa a ideia mor a transmitir nesta obra de García Márquez.
            O livro é bom. Agradou-me em pleno a forma como é escrito. O conteúdo, a história, a acção narrada não justifica três longos anos de namoro; um flirt, talvez!
Ainda assim é dele, e ele é só um Nobel da Literatura.
            Recomendo, pois!
           
           
Telmo R. Nunes
26/04/08

quinta-feira, 9 de julho de 2015

in Açoriano Oriental




«Sim, pode amar-se uma casa como se ama uma pessoa»
Joel Neto, in Arquipélago
Nestes dias de maior calmaria laboral, providenciada pelo Estio que tarda em assumir-se, revisitei O Pastor das Casas Mortas, novela última escrita pela mão do professor Daniel de Sá. Devo, aliás, confessar que foi a primeira leitura em português, dado que anteriormente apenas lera a tradução, em inglês.
A obra, revestida de uma opulência textual, retrata de forma ímpar o abandono de um “Portugal ultrapassado” que muitos desconhecem e que outros tantos tudo fazem por esquecer, assim como contrapõe a desertificação desse interior continental, com a crescente centralidade litoral. Para tal, Daniel de Sá recria a quietude de uma pequena povoação serrana afetada pelo progressivo êxodo dos seus habitantes, erigindo-a na segunda metade do século passado.
Recorrendo a uma dolorosa enumeração que se estende ao longo de todo o texto, Daniel de Sá dá conta da partida das pessoas da Aldeia Nova da Serra. Uma após outra, é relatada a viagem de cada habitante desta pequena povoação, erguida nos pináculos do mundo: não só daqueles que buscaram, longe, melhores condições económicas, como também dos outros que fizeram a travessia última de toda uma vida. Com o tempo, restou apenas Manuel, o pastor que chamou a si a responsabilidade de manter dignas todas as casas da aldeia, preservando a lembrança daqueles que nela viveram; perpetuando a memória de um tempo ido, de um tempo feliz! “Foi pela casa da Rita que Manuel Cordovão começou a tentar manter a aldeia com ar de estar ainda viva, ou pelo menos em condições de receber a vida, se a vida voltasse algum dia a precisar de abrigar-se nela.”.
Na novela há também espaço aos sentimentos, concedendo-se especial enfoque à saudade e ao amor. Este é, aliás, o sentimento dominante e que instiga toda a trama. Ele existe não apenas entre homem e mulher mas, sobretudo, entre o pastor e a sua própria origem. Se por um lado há uma relação afetuosa, ainda que contemplativa, entre Manuel e Graça, por outro é notório o sentimento que Manuel nutre pela sua aldeia de sempre! Ele que não ousou partir; ele não quis alancar e decidiu, por amores, ficar a “guardar-lhe as memórias”. Não será a abnegação de Manuel uma forma sã de amar?
Os capítulos que alinham a novela - trinta e um, no total - são de uma riqueza eminente! Pequenas histórias revestidas por uma mescla temática, ainda que todas assentem numa ruralidade beirã que tão bem as une e distingue. Nelas são descritos objetos, lançados cheiros e criados ambientes, vive-se uma sucessão de personagens e espaços, numa fusão exímia de perspetivas que colocam em confronto, ainda que ténue, a quietude da ruralidade e a azáfama da urbanidade, almeja-se o “(…) câmbio entre o Purgatório e o Paraíso.” Se por um lado a vivência no alto da serra, pejada pela rudeza do pastoreio, com “(…) chuva grossa, basta, anunciada por relâmpagos e trovões (…)” é tida como aspeto telúrico fundamental na criação da personagem protagonista, Manuel Cordovão, por outro, a ‘incerteza’ de uma vida melhor reside numa emigração bem sucedida para a França, Suíça, Luxemburgo, ou, pelo menos, numa partida mais ou menos definitiva para a capital da metrópole.
Como em Ilha Grande Fechada, por exemplo, também nesta obra Daniel de Sá consegue matizar todo um retrato nacional de época partindo de um conjunto de textos que, encadeados, não só conferem uma singular robustez à novela, como também adquirem uma capacidade ilustrativa muito pouco usual. Facilmente se visualiza nestas linhas a fuga dos milhares de portugueses, em meados do século passado, desde o medo na raia fronteiriça, até ao alívio nos países europeus mais desenvolvidos da época. Saliente-se também a crítica de costumes, assim como a sátira refinada à mesquinhez e à maledicência humanas, presente por todo o texto e materializada, sobretudo, na voz do povo, tribunal temível que brada em surdina: “Apesar (…) não haver provas de ter sido posta à prova a resistência das muralhas do seu pudor, a fama era ruim, tão ruim como a sua beleza. E, se alguma voz (…) se dispunha a defendê-la, logo havia uma boca a garantir que se Laura era honesta não o seria por vontade própria mas porque os homens da serra tinham o juízo no seu perfeito lugar.”
Do ponto de vista do leitor tradicional, com esta novela, dedicada “Às mulheres e aos homens que ainda acendem o lume nas últimas aldeias de Portugal”, Daniel de Sá demonstrou, uma vez mais, a sua efetiva mundividência, a sua enorme capacidade de absorver e assumir realidades que habitualmente não eram próximas, de as filtrar através de uma enorme sensibilidade e humanismo, e de as reinventar, valendo-se, para tal, de uma invejável e escorreita capacidade discursiva. Por outro lado, e segundo a opinião de um restrito número de estudiosos da obra de Daniel de Sá, esta terá sido uma narrativa desenrolada geograficamente bem longe da Beira Alta. Para estes, O Pastor das Casas Mortas, terá sido, sobretudo, uma viagem à infância e memórias do autor, uma navegação rumo à sua “Ilha-Mãe”, a ilha de Santa Maria, à qual Daniel de Sá declarou o seu amor: “Foi meu pai São Miguel, minha mãe, Santa Maria, e se se pode ter dupla nacionalidade, por certo poderá ter-se dupla “insularidade””.
Por tudo quanto fica supramencionado, e tal como afirmou Francisco Cota Fagundes, e tantos outros, Daniel de Sá foi “um dos grandes escritores portugueses dos últimos 50 anos e um dos maiores da literatura açoriana de sempre”.
Vale a pena ler autores açorianos!
Telmo R. Nunes
a 3 de julho de 2015

terça-feira, 19 de maio de 2015

In Açoriano Oriental

(TAL COMO O OUTRO, TAMBÉM ESTE TEXTO "DEVE SER LIDO, PELO MENOS, DUAS VEZES PELOS MUITO INTELIGENTES, E DAQUI PARA BAIXO, É SEMPRE A DOBRAR")

Começo por congratular o Governo Regional dos Açores, a Secretaria Regional da Educação e Cultura, assim como todas as personalidades envolvidas na execução deste conjunto de ideias que sustentará quase todo o sistema de ensino ao longo dos próximos anos letivos. É de realçar e de louvar, até, a tomada de consciência de que nem tudo corre bem nas escolas açorianas. O insucesso e abandono escolares assumem, com efeito, proporções alarmantes no arquipélago, pelo que continuar de “olhos fechados” para esta realidade seria já uma postura pouco sensata.
Após a análise ao referido documento facilmente se percebe como está idealizado: parte de estatísticas atuais e nada auspiciosas e, em sintonia com a estratégia europeia para a educação e formação, define metas progressivas a atingir nos anos letivos de 2020/21 e, posteriormente, 2025/26, no que ao abandono e sucesso escolares concerne. Para tal, são definidos três eixos de ação prioritária, a saber: o “Foco na qualidade das aprendizagens dos alunos”, a“Promoção do desenvolvimento profissional dos docentes” e a “Mobilização da comunidade educativa e parceiros sociais”.
Com efeito, a criação deste ProSucesso é reveladora das boas intenções governativas, mas vai pouco além disso mesmo. Parece-me um documento com uma roupagem bem adornada, com objetivos muito bem delineados, com perspetivas de sinergias múltiplas entre pessoas e instituições mas, e carece dizê-lo, insípido no que à forma de os alcançar diz respeito. Exceção feita a um ou outro programa educativo isolado, e a uma ou outra medida promissora, tudo o resto me parece perigosamente utópico e/ou a necessitar de regulamentação urgente, para que se perceba o seu verdadeiro alcance e exequibilidade.
Analisando o eixo número um deste ProSucesso, “Foco na qualidade das aprendizagens dos alunos”, percebe-se que o Governo estabeleceu como prioridade a “Promoção da literacia de leitura”, que é, indubitavelmente, algo revestido de uma enorme importância e de inegável mais-valia ao desenvolvimento de competências diversas. No entanto,e escrevo-o empiricamente, são muito poucos os alunos que leem regularmente fora das salas de aula, e menos ainda os que o fazem de forma recreativa.Creio, por isso, estarmos diante de uma conceção utópica, faraónica, pelo menos, se temos a pretensão de que eles comecem a ler regular e autonomamente, ao ponto de desenvolverem de forma satisfatória a sua competência da leitura. No dito documento vejo alusão ao programa “Ler Açores”, ao Plano Regional de Leitura, à Rede Regional de Bibliotecas Escolares, às bibliotecas municipais, entre outras que, sendo instituições que já existem e que trabalham de forma séria e empenhada, deixa perceber que, no futuro próximo, muito mais terá de ser feito sob pena dos resultados não serem deforma nenhuma os agora expectáveis. Sugere-se, então, que se invista claramente nesta prioridade definida para este eixo, formando mais pessoal docente na área de biblioteca escolar, formando mais técnicos de BAD nas bibliotecas municipais, para que, desta forma, se tornem viáveis parcerias continuadas com as escolas, onde o livro deverá ser levado por especialistas diretamente à sala de aula. Deve ser feito um esforço financeiro no sentido de dotar as bibliotecas escolares com as obras de referência ou, pelo menos, com aquelas definidas nas metas de aprendizagem para cada um dos anos letivos. Ainda nesta linha de pensamento, torna-se imperiosa a renovação do acervo das bibliotecas da nossa rede escolar. Se queremos alunos motivados para a leitura, compreenderemos que “os olhos também comem”, e uma edição antiga e, por muitas vezes, decrépita, nunca é tão atrativa como uma atual e bem estimada.
Relativamente à medida transversal a implementar “Prof DA –Professores qualificados na resolução de dificuldades de aprendizagem”, gostaria de salientar que o diagnóstico precoce de dificuldades dos alunos deverá ser realizado sempre pelo docente que com o aluno trabalha diariamente, e não por um técnico a formar. Relembro, ainda, que as Unidades Orgânicas possuem professores de apoio, assim como docentes que integram os Núcleos de Educação Especial, muitos com formação específica nestas áreas de intervenção, pelo que, formar outros, parece-me um gasto acrescido e despropositado de recursos, numa altura em que os mesmos escasseiam. Assim, e sentindo-se essa necessidade, os docentes de apoio, em estreita ligação com o Serviço de Psicologia e Orientação– SPO, deveriam ficar incumbidos dessa intervenção precoce junto do alunos,após o diagnóstico efetuado pelo docente titular.
Enquadrado neste primeiro eixo, os autores partem da premissa de que “As dificuldades de aprendizagem conduzem(…) ao insucesso escolar, à retenção e ao consequente (…) desinteresse por parte dos alunos com desempenhos mais fracos, com o risco de posterior abandono escolar (…) ”, para se concluir que “a retenção per se não é uma estratégia efetiva de intervenção no sentido de melhorar os resultados (…) a retenção não aparenta beneficiar os alunos a nível académico”. Neste sentido, sugere o documento que a retenção seja utilizada apenas em casos extremos. Ao contrário do que se afirma, a retenção pode e deve funcionar como agente dissuasor de comportamentos de risco, como sejam a falta de estudo e/ou comportamentos desviantes dos ditos regulares. Um discente terá de ter sempre presente que, se não cumprir com as suas obrigações, correrá o risco de ficar retido. Não esqueçamos nunca que a função da escola não se esgota na mera transmissão de conteúdos; nela o aluno deverá encontrar mecanismos que possibilitem a sua formação enquanto cidadão cumpridor e responsável, integrado numa sociedade onde terá de assumir todas as consequências dos seus atos. Por conseguinte,refuto por completo o programa “apoio mais – retenção zero”, proposto pelo documento no rol de projetos específicos.
Por sua vez, o “Programa Fénix - Açores”, não sendo uma novidade, dizem-me ser uma excelente iniciativa, que deveria ser alargada a toda a rede escolar da Região.
De todos os outros projetos e/ou medidas delineados, saliento os “Mediar – mediação e tutoria”, uma vez que carecem de muitas explicações adicionais, assim como de regulamentação, pelo que não tecerei quaisquer comentários.
Infelizmente neste eixo foi descurado o que realmente me parece essencial em todo este processo. Criam-se programas, inventam-se percursos alternativos, facilita-se a permeabilidade entre cursos de nível secundário, entre outros. É insuficiente, para não dizer completamente enganador.Há, pelo contrário, que reduzir as turmas, manter o chamado “Crédito Horário”. Há que criar nas escolas oficinas de estudo e apoios escolares extra matriz curricular, isto é, “aulas de apoio” que funcionem além do horário normal dos alunos e às quais estes tenham de assistir obrigatoriamente. Se um aluno se encontra com dificuldades, que se esperam ser transitórias, parece-me lógico que seja ele a envidar os maiores esforços no sentido de ultrapassar essas lacunas. Passagens de ano falaciosas, mudanças de curso, participação em ações de promoção da leitura, não serão suficientes se não houver esforço por parte do discente.
No que se refere ao segundo eixo que sustenta todo este documento, e que se relaciona diretamente com a vertente profissional dos docentes, comecemos por colocar em evidência a prometida desburocratização de procedimentos, para que os professores tivessem mais tempo para o que realmente era importante: a planificação e lecionação das aulas. Não será assim, por certo!
Efetuando uma leitura mais atenta a este eixo, deparamos comum texto pejado de belas citações e lugares-comuns, mas que em nada justificam as medidas que agora se pretendem implementar. “(…) nada substitui um bom professor (…) um bom professor serve,essencialmente, para ensinar quem não quer aprender”, ou “É importante que as famílias e a sociedade assumam as suas responsabilidades (…)”, lê-se no início deste capítulo. De que forma irão as famílias assumir tais responsabilidades? Por sua iniciativa,está provado que não cooperarão, e a questão das coimas foi retirada do Estatuto do Aluno em 2013…
Tenhamos presente que este ProSucesso surge fruto dos maus resultados escolares dos ALUNOS, e que estes derivam da efetiva desresponsabilização dos PAIS e encarregados de educação, no processo de ensino dos seus educandos mas, segundo a SREC, os principais atores desta mudança terão de ser os professores. Aos alunos pede-se apenas para que leiam mais. Aos pais que se empenhem na elaboração colaborativa do Plano de Promoção do Sucesso da Unidade Orgânica dos seus filhos!
É certo que formação contínua de qualidade sempre foi um desígnio da profissão, e muito bem; os professores terão se manter atualizados, mas para tal não é necessário qualquer tipo de “supervisão pedagógica” ou “acompanhamento científico”. Quem teve o pleno direito de supervisionar os docentes fê-lo a seu devido tempo e nas instituições devidas! Ainda a este propósito, note-se que esta supervisão e acompanhamento serão tanto mais intensos quanto menos satisfatórios forem os resultados dos alunos! Por outras palavras, o aluno não estuda, obtém classificações negativas, não fica retido mas, por sua vez, é o seu professor que terá supervisão e acompanhamento científico! Englobe-se, também, nesta grande falácia a formação a ministrar aos próprios Conselhos Executivos, aos Psicólogos escolares, aos professores bibliotecários, entre outros, e percebamos o risível da situação.
Pretende a equipa promotora deste ProSucesso que os docentes laborem em parceria; apela-se ao trabalho colaborativo. Tanto quanto sei, e atentando às realidades que conheço, sempre o fizeram. Uma reunião formal, um intervalo, “um furo”, um telefonema ou, mais recentemente, um e-mail, sempre funcionaram como meios para “afinar”estratégias conjuntas. Aliás, houve mesmo Conselhos Executivos que envidaram esforços no sentido de construir horários de professores com horas coincidentes, para que estes pudessem efetuar o seu trabalho em conjunto. Há até registo de escolas que conseguiam reunir todo o Departamento Curricular à mesma hora, pelo que o trabalho em parceria estava salvaguardado. Contudo, a tutela, com base na gestão do horário de trabalho no que à componente não letiva diz respeito, decretou que essas horas não seriam cumpridas na escola, deitando por terra todo o esforço que fora efetuado. Então, por que não coordenar os horários dos docentes para que estes se encontrem semanalmente e possam realizar todo o trabalho colaborativo necessário? Certamente será uma medida muito mais abrangente, profícua e considerada do que aquela encontrada pela SREC que pretende que se eleja um docente que coordene todo o processo a nível pedagógico, nomeadamente nas disciplinas de Português e Matemática. Acrescento, a este propósito, que repudio veemente a observação de aulas por parte deste colega eleito; não creio que traga qualquer mais-valia ao processo de ensino aprendizagem dos alunos. Será mais um fator de perturbação adicional, para além de conduzir a uma “perda de autoridade” pedagógica/científica do docente titular, aos olhos dos alunos.
Enquadrada neste eixo, e numa ótica de trabalho colaborativo, por que não assumir generalizadamente o que já algumas Unidades Orgânicas adotaram: renunciar em larga medida às horas de substituição nos horários de alguns docentes, e canalizá-las para o apoio às turmas com mais necessidades? Naquelas disciplinas onde os alunos evidenciassem maior insucesso, a escola teria o cuidado de disponibilizar um docente da área para apoio direto à turma, ou até mesmo a um grupo de alunos. Não é inédito, é exequível e, em muitos casos,vantajoso.
Mesmo antes de me referir sumariamente ao terceiro e último pilar deste documento, realço uma frase que constado eixo em análise: “Os alunos da segunda década do século XXI são muito diferentes daqueles para que a maior parte dos nossos docentes se preparou (…)”. Não posso aceitar esta ideia tão errada quanto redutora. É desta forma (demasiado perigosa) que se criam na opinião pública ideias completamente desfasadas da realidade. Qualquer pessoa menos informada ao ler o que acima fica transcrito, facilmente retém a ideia de que o corpo docente é constituído por uns “velhos acabados” que não são capazes de ensinar “as pobres crianças que, coitadinhas, estão cheias de negativas”. Há inúmeros professores com muitos anos de serviço que têm na turma X 100% de sucesso educativo consolidado e, na turma Y, 50 a 70% de negativas. Não é necessária qualquer interpretação mais aprofundada para facilmente se perceber quem são os responsáveis pelo insucesso. Senão veja-se: a docente é a mesma para ambas as turmas, a sua formação inicial é a mesma para as duas, a sua formação complementar/contínua é a mesma para uns e outros alunos, a capacidade de recurso a estratégias diversificadas é a mesma, os recursos disponíveis são os mesmos, visto tratarem-se de duas turmas da mesma escola. Logo, a responsabilidade maior não é da docente “velhinha”, é dos alunos da turma Y que, de forma honesta, confessam que não gostam da escola, que não estudam, nem querem saber daquilo para nada…
No que se refere à mobilização da comunidade educativa e parceiros sociais, nasce um novo paradigma – “escola em parceria”. Teoricamente, parece-me uma ideia bastante inovadora e até promissora. No entanto, não tenho quaisquer dúvidas de que, dos três eixos, este é o menos exequível; não consigo perspetivar uma colaboração estreita entre família, escola e parceiros sociais. Afirmo isto sem qualquer dúvida ou receio de me equivocar; se até à data e de uma forma mais ou menos generalizada, os pais e encarregados de educação dos alunos imbuídos em insucessos educativos voltaram as costas ao processo de aprendizagem dos seus filhos, por que razão o iriam fazer agora, e até de forma mais profunda, participando ativamente, responsabilizando-se pela realização do Plano de Promoção do Sucesso. Simplesmente não creio. Ainda assim, e numa lógica que agora se generaliza, a sociedade é trazida à tomada de decisões e essa pluralidade poderá ser benéfica. No entanto, não se olvide nunca que, a cada final de Ciclo, os alunos terão de passar por “um crivo” que continuará a ser igual para todos, sejam açorianos, continentais ou madeirenses. Neste contexto, parecem-me muito bem as ações programadas junto dos pais e encarregados de educação, a colaboração com as associações e organizações da comunidade, o incitamento ao retomar das associações de pais nas escolas, os panfletos de sensibilização, assim como todas as sinergias explanadas entre a SREC e as demais Direções Regionais elencadas. Aqui sublinhava a importância da Direção Regional do Emprego e Qualificação Profissional. Visto que há uma vontade eminente por parte da tutela em criar bolsas de professores, que seja criada uma denominada, Bolsa de Professores Explicadores. Esta seria composta por docentes em situação de desemprego que, automaticamente, sairiam das listas da Agência de Emprego e Qualificação Profissional (o que me parece positivo para o próprio Governo), e colocados a trabalhar nas escolas, mas diretamente nas Juntas de Freguesia, prestando apoio educativo aos alunos, nas instalações das próprias autarquias, em horário pós-laboral. Todos nos recordamos do ensino noturno, por exemplo. O docente pertence aos quadros da escola, mas leciona ao fim do dia, nas Juntas de Freguesia. Beneficiavam os alunos, os docentes desempregados, assim como o Governo que conseguia, desta forma, diminuir o número de desempregados na Região e elevar a taxa de sucesso escolar.
Em suma, e após análise aprofundada à informação tornada pública através do documento ProSucesso, o sentimento que me trespassa é, sem dúvida, a desilusão. Tendo em conta que decorre ainda uma discussão pública, oxalá não se perca aqui uma oportunidade notável de se valorizar a Escola. Os números que se referem ao insucesso e abandono escolares são, com efeito, assustadores, mas as medidas lá explanadas não irão,de forma nenhuma, atenuar este flagelo.
A génese deste massivo imbróglio em que a Região está inserida não está bem identificada. O problema não reside na docência, não está nos professores, nem nos conselhos executivos das nossas Unidades Orgânicas, como nos quer fazer crer este ProSucesso; as medidas a adotar não podem ser em função dos docentes e da sua atuação, simplesmente porque não são eles que desempenham mal a sua função; o foco deveria estar no aluno. Não devem ser os professores os penalizados pelo facto da maioria dos pais não saber desempenhar as funções de encarregado de educação, assim como também não devem ser os professores os atingidos pelo facto dos alunos serem cada vez mais desleixados, preguiçosos,mal-educados e, por muitas vezes, absentistas. 
É consensual que os nossos alunos deixaram simplesmente de estudar, e deixaram de o fazer porque nada lhes acontece. Os pais não se impõem, não os obrigam a estudar, perdeu-se o culto do estudo, o hábito de“perguntar a matéria”. A postura da maioria dos pais é de desleixo: “eu não aprendi isso, não o consigo ajudar”, nem é preciso! Para ensinar lá estão os professores. No entanto, é necessário mostrar-se interessado, questionar,inspecionar a mochila e os cadernos; é essencial deslocar-se à escola com regularidade; é imperioso defender a escola…Se estas práticas não tivessem sido descuradas durante anos, se os pais educassem condignamente os seus filhos,estaríamos hoje a discutir publicamente este ProSucesso?

Então, não penalizem os professores!

Telmo R. Nunes


                                                                     Maio, 2015