domingo, 25 de novembro de 2018

Ao Xico


Passaram já uns dias desde que a encontrei numa esplanada, bem no centro da cidade de Ponta Delgada. A tarde estava soalheira e a temperatura convidava a uma pausa. Sentei-me na única mesa disponível e percebi o espaço bem mais concorrido do que seria de esperar, fruto, é evidente, da nova vaga turística que não aprendeu ainda a distinguir épocas, para gáudio dos empresários locais. Esperei pelo empregado que, apenas a custo, poderei qualificar de diligente, pelo menos no que à arte de servir às mesas diz respeito, já que, dali, o observei largos minutos, enquanto flirtava com uma italiana loira, de tez clara e com o que parecia ser um apetite voraz pelo produto regional. Assim que me ouviu tossicar um pouco mais alto do que a boa educação recomenda, dirigiu-se a mim e, desfazendo-se em mesuras, assentou o meu pedido. Relevei. O sol, embora baixo, parecia empenhar-se em aquecer-me o coração e tudo parecia alinhado com os trâmites da felicidade. Não valia a pena o aborrecimento de uma chamada de atenção. Além disso, a moça era bonita e ele parecia, deveras, entusiasmado com a situação. Tirei do bolso o bloco de apontamentos e, quando me preparava para anotar algo de que agora não me recordo, vi-a pela primeira vez. Escrevia num Moleskine preto por pautar e usava uma Parker prateada, de tinta permanente, preta. As melhores! Uma figura elegante! Trajava um distinto anorak (prefiro a palavra em francês, por me parecer mais cosmopolita), mas claramente desajustado à temperatura que se fazia sentir. Por baixo, o que parecia ser uma casaca masculina em tons de vermelho com uma camiseta branca, muito simples. A ganga das calças ia sobrando ao longo das pernas e, nos pés, umas sapatilhas imaculadamente brancas, de solas brancas e cordões brancos. Marca da moda. Não cheguei a perceber o seu rosto, os óculos escuros e desmesurados não mo permitiram. Pela aparência geral, não teria mais de vinte e cinco anos. Notei que chorava. Chorava em silêncio e sozinha. Creio que o choro em solidão é o pior deles todos: corrói mais do que qualquer outro, por não se poder repartir; tem vontade própria; é de difícil extinção e exala sempre uma dor insanável. Em quase quarenta anos, recordo-me de ter chorado assim não mais do que três vezes! Envergando uma postura quase paternal, quis aproximar-me para a acudir! Ainda lancei um olhar como que a pedir licença para o fazer mas, nesse instante, naquele fim de tarde, aquela figura fina levantou-se e, pelo meio de um grupo de turistas eufóricos, desapareceu pelas ruas limítrofes. Ainda me levantei perscrutando a sua silhueta, mas em vão… Desapontado, mais com minha inoperância do que com qualquer outra coisa, deixei-me cair na cadeira de onde pulara momentos antes e dirigi os sentidos para o local de onde aquela mulher se levantara. Reparei que deixara um rasto perfumado e, na base da mesa, um pequeno papel dobrado em duas partes indistintas. Olhei de soslaio para um lado e para outro e reparei que a vida continuava indiferente às minhas preocupações: um homem estrangeiro na mesa ao lado bebericava a sua cerveja preta e, de livro em punho, não se apercebia de nada em redor. Estava absorto na leitura do grande Gabo. A sua escolha recaíra no “Cem Anos de Solidão”, uma belíssima edição em castelhano, se não me atraiçoou o vislumbre rápido e comprometido. Apesar do excesso de peso – há que dizê-lo – percebia-se requinte no gosto literário. À direita, o empregado de mesa ainda cortejava a sua italiana, que não se mostrava nada envergonhada perante os avanços atrevidos deste Don Juan micaelense. Levantei-me. Avancei e subtraí o manuscrito à mesa abandonada. Num ápice, regressei. Esperei um pouco. Recuperei o fôlego e olhei aquele papel. Parecia tratar-se uma folha do seu caderno sem qualquer remetente ou destinatário. Na página frontal, apenas repetida a palavra “Xico”, com letras trémulas, quase garatujadas. Voltei-a e, depois de ler a missiva que lá fora escrita, percebi o choro, a angústia e o vazio que aquela mulher trazia consigo. 
Morrera-lhe parte de si!

  “Em memória do nosso Xico – a epístola que não queria ter escrito 

O nosso Xico partiu, mas sei que ainda deambula entre nós, a apaziguar-nos a mágoa! Se fecho os olhos, ainda oiço o cavalgar dos seus quilos a menos, em redor da nossa casa. Vejo-o sentado à porta de entrada, de cauda em pêndulo, à espera que a Susana lhe lance um sorriso ou uma palavra de carinho. Sem grande esforço, vejo-o correr pelo relvado, de forma inglória, perseguindo pardais ou pombas que teimavam em desafiá-lo com voos rasantes. Por vezes, oiço-o ladrar enervado com os melros-negros que – criminosos – lhe surripiavam, sempre que podiam, a ração do interior do canil. Olho para o que resta das palmeiras, das iucas-mansas ou das camélias que ele foi desarranjando ao longo do tempo e percebo, finalmente, que não havia mesmo problema algum, como o seu olhar triste me parecia querer indicar, quando o fechava de castigo, ainda com o focinho sujo de terra e com vestígios de raízes soltas. Foi a Susana que lhe escolheu o nome, no dia em que chegou a nossa casa e, desde esse momento, considerámo-lo como membro da nossa família. Era muito mais do que o nosso cão: o Xico era um Ser que adensava a nossa vida, que a tornava mais preenchida, que a animava e cobria de felicidade. Mesmo que não nos apercebêssemos disso todos os dias que o tivemos connosco, a tristeza e o vazio que agora sentimos comprovam a falta que ele nos faz. Como uma laranja que não chegou a amadurecer e cai desamparada da árvore, também o nosso Xico tombou, deixando toda uma vida por viver. Talvez por isso, nem ontem nem hoje, vieram os pardais, nem as pombas, nem os melros-negros! 
Crê que foste amado, Xico! 

S&T 

 Telmo R. Nunes a 25 novembro de 2018

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

in Açoriano Oriental


Encontro Literário “Açores Arquipélago de Escritores”
Agora que se apagam as luzes e as cadeiras vagam, há que fazer um justo reconhecimento à realização do encontro literário, “Açores Arquipélago de Escritores”.
São Miguel e Ponta Delgada, em particular, já mereciam um acontecimento cultural desta natureza, desta qualidade e envergadura. As sessões foram de uma riqueza literária imensa: houve conversas interessantíssimas com pessoas igualmente interessantes e com as quais habitualmente só nos cruzamos nas páginas dos livros. Houve lançamentos de obras, cursos, apresentação de filmes, sessões direcionadas às escolas e às crianças, debates, mesas redondas onde fervilharam ideias estimulantes e, como não podia deixar de ser, as devidas homenagens àqueles que serão os maiores entre pares. A nossa cidade, mas também a nossa ilha e os Açores foram, de facto, um “porto de cruzamento de diferentes culturas e literaturas (…)”.
Gostei do que vi e do que ouvi; gostei dos que abrilhantaram os diversos palcos e nos enriqueceram com as suas ideias. Não foi necessário expender grande esforço para apreciar, com redobrada atenção, as intervenções de oradores como Onésimo Teotónio de Almeida, João de Melo, Daniel Gonçalves, Joel Neto, Emanuel Jorge Botelho, Gonçalo M. Tavares, Pedro Mexia, João Pedro Porto, entre outros.
Como se afirmou amiúde ao longo daqueles dias, inaugurar um encontro literário com esta pujança e sucesso, acarreta uma pressão imensa para os envolvidos na sua organização, já que a fasquia se encontra agora num patamar de excelência que, certamente, será mantida nos encontros que se hão de suceder.
Registei, com especial agrado, o empenho em descentralizar as várias sessões por diversos locais da cidade e da ilha, fazendo chegar o livro a um público mais vasto e, sobretudo, mais diversificado, mas sublinhei também, e com grande satisfação, a paridade de género entre os autores convidados. Enriquecer o programa do encontro com nomes como Renata Correia Botelho, Paula de Sousa Lima, Leonor Sampaio Silva, Mariana Magalhães e Cristina Quental (todas autoras que figuram no PRL), Isabel Rio Novo, Diana Marcum (vencedora de um Pulitzer), Clara Macedo Cabral, Lélia Nunes, Filipa Martins, Dulce Garcia, entre outras senhoras, foi uma verdadeira mais-valia que, certamente, em muito contribuiu para o sucesso do evento.
Da perspetiva da assistência, na qual me situo, este encontro literário foi um êxito estrondoso que em muito engrandece, primeiramente, a Literatura e depois Ponta Delgada, São Miguel e os Açores, em geral. Julgo que entramos agora na rota dos grandes acontecimentos literários que se realizam no nosso país e, aberta esta janela, haja discernimento por parte das entidades oficiais para perpetuá-la.
Por tudo isto e mais, e porque ninguém louva aquilo que não gosta, a todos os envolvidos, mas com especial destaque ao curador do encontro, o multifacetado Nuno Costa Santos, assim como aos parceiros que se uniram a este projeto, um reconhecido obrigado!
Para o ano, cá vos esperamos!
Telmo R. Nunes

21 de novembro de 2018