terça-feira, 25 de outubro de 2022

Frente À Cortina De Enganos Norberto Ávila || 1936-2022


 Conheci pessoalmente Norberto Ávila por ocasião de uma longínqua visita sua ao estabelecimento de ensino onde leciono. Até então, reconhecia-o apenas pela sua ligação à RTP, onde desempenhara funções dedicadas à atividade teatral, em Portugal. Estava longe de saber da sua qualidade enquanto dramaturgo, das suas incursões pela poesia, pelo conto, pelo romance, e mais ainda que se tratava de um açoriano, da ilha Terceira. Desde essa altura passámos a trocar correspondência, que se intensificou após a publicação de um conto seu na revista literária «Grotta», e mais ainda após o reencontro pessoal ocorrido no âmbito do «Arquipélago de Escritores», na sua edição de 2019. Dentre uma diversidade de outros assuntos, debatemos ideias sobre literatura e trocámos alguns livros, tecemos uns comentários críticos sobre estes, tendo sido eu, e em larga medida, acrescentaria, o mais beneficiado desse comutar de considerações. A sua generosidade era evidente, característica que, cada vez mais, associo aos nomes maiores da nossa literatura. Com efeito, e tomando como minhas as palavras do físico, “Quanto maior o conhecimento, menor o ego […]”. 

Foi, precisamente, numa dessas trocas de mensagem que me escreveu pela primeira vez sobre o seu romance «Frente À Cortina De Enganos». Iria torná-lo público. Fiquei satisfeito, pese embora o formato encontrado pelo autor para tal publicação não me parecesse, na altura, o mais conveniente: seria a obra divulgada na página de uma rede social, capítulo a capítulo, alcançando fugazmente um ínfimo número de leitores que, por certo, não lhe prestaria a atenção devida, apanágio de grande parte da informação veiculada nestas plataformas. Nunca lhe dei conta dessa minha opinião, pensei que fazê-lo representaria uma ousadia da minha parte e, agora que já não lho posso transmitir, sinto algum constrangimento. Todavia, terão outros tido a coragem que me faltou, porque a obra chegou, pela sua própria mão, à editora Letras Lavadas, em Ponta Delgada e, aquando da morte do autor, estavam a ser preparadas as diligências finais para a sua publicação em livro. Com efeito, a professora Helena Chrystello, através da associação que ajuda a dirigir, prontificou-se a ultimar os detalhes finais da edição do romance, apresentado condignamente ao público, no Centro de Estudos Natália Correia, na Fajã de Baixo, e integrado no programa do 36.º «Colóquio de Lusofonia».

A obra, dedicada a Luiz Fagundes Duarte, “como testemunho de muita admiração e amizade”, teve como ponto de partida a peça teatral «Fortunato e TV Glória», sendo que, durante a leitura, e por diversas vezes, será percetível este cruzamento entre modos literários. Não raras vezes, sentir-se-á o leitor ante a narração de trechos que muito bem poderiam ser entendidos como didascálias, ou até mesmo como os típicos apartes, tão mais usuais em texto dramático.

«Frente À Cortina De Enganos» vem confirmar, (sem que houvesse, contudo, essa imprescindibilidade) a apuradíssima competência de escrita do autor, o seu vasto conhecimento vocabular e a sua incomum capacidade para a produção do diálogo. Fruto dessa sua vocação para a redação de texto dramático, depurou esta característica ao longo dos anos, sendo, talvez a par de Paula Sousa Lima, o autor açoriano contemporâneo que mais convincentemente escreve em discurso direto. Para além da riqueza vocabular e do uso imaculado do discurso antes referido, Norberto Ávila notabiliza-se ainda pelo recurso a variadíssimas estratégias narrativas que conferem uma dinâmica bem interessante à leitura: elipses, analepses e prolepses são alguns dos mais frequentes, sendo que a troca de voz narrativa e a interpelação direta ao leitor (influenciado, porventura, pelos apartes do texto dramático) são outras das estratégias contempladas. Por outro lado, é frequente o autor tomar a posição do leitor e, a este propósito, não há como deixar de destacar o “Capítulo 7.a”, assim designado por Ávila, onde o próprio assume responsabilidade e adita explicações àquilo que o leitor poderá estar a pensar naquele momento, considerando a prestação, até então, de uma determinada personagem. O seu brilhantismo estende-se ainda aos momentos de descrição. Não sendo adepto da usança frequente do advérbio de modo e, sobretudo, do recurso fácil ao adjetivo, é notório o cuidado que imprime nas suas descrições, valendo-se de comparações significativas para atingir o seu propósito descritivo: “[…] o condutor era um jovem de vinte e poucos anos, bronzeado no rosto e nos braços, cujo cabelo, castanho alourado, se diria um cacho de tremulantes caracóis, arrancado a um painel renascentista.” Para além de tudo o mais, há um fino sentido de humor que perpassa todo o romance, ridicularizando-se abertamente grande parte da sociedade, conferindo especial ênfase àqueles “novos-ricos” que vivem de aparências, mas também o povo e o clero. Aflora-se o “chico-espertismo”, tipicamente português, assim como se coloca em evidência a corrupção, a mentira, a trafulhice.

Norberto Ávila foi claramente um grande escritor português, pelo que, em boa hora, decidiu a Imprensa Nacional-Casa da Moeda publicar, em quatro volumes, os seus textos teatrais, relevando e, sobretudo, eternizando um dos mais notáveis dramaturgos portugueses do século passado. Todavia, e embora se ressalvem os apontamentos tidos pelos responsáveis quer da revista literária «Grotta», quer dos «Colóquios da Lusofonia», e em particular o empenho manifestado pela professora Helena Chrystello, sinto por parte dos responsáveis culturais da região um continuado e incómodo silêncio em relação à vida, mas, mormente, em relação à obra deste açoriano que o foi dos maiores.

Norberto Ávila, «Frente À Cortina De Enganos», Letras Lavadas, 2022


quarta-feira, 5 de outubro de 2022

ENTRE O MAR E A ROCHA. ESTÓRIAS



Embora editada em junho de 2021, só muito recentemente tomámos conhecimento da obra Entre o Mar e a Rocha – Estóriasda autoria do florentino Carlos Fagundes. Do mesmo modo, fruto, talvez, de alguma desatenção, só agora nos apercebemos do trabalho extraordinário que este professor de Português desenvolve, de forma mais ou menos sistemática, no seu blogue pessoal – Pico de Vigia 2 –, procurando resgatar, preservar e difundir as vivências, usos e costumes florentinos e, de uma forma mais alargada, os açorianos e até os continentais. Este volume, que chegou pela mão de um grande amigo e açoriano dos maiores, revelou-se uma descoberta espantosa, o que é bem sintomático do muito que há ainda por descobrir no universo da literatura açoriana.

A obra arranca com o prefácio de Onésimo Teotónio de Almeida, um texto soberbo, cujo título – Uma Ilha Que É Um Mundo –se assume bem revelador do tanto que o leitor poderá esperar das mais de quarenta narrativas que se lhe seguemCom efeito, cada uma das estórias narradas poderá ser assumida como uma janela com vista para um passado cronológico não muito distante, embora (e felizmente, acrescente-sesocial, cultural e economicamente longínquo. São nacos da verdadeira história da ilha das Flores e das suas gentesassumindo-se, em alguns casos, bem mais interessantes e, passe o exagero, mais proveitosos do que alguns dos textos inscritos em determinados compêndios escolares: não nos custa crer, por exemplo, que será através da leitura destes escritos que muitos dos leitores tomarão conhecimento do naufrágio dBidartuma robusta barca de três mastros, de origem francesa e que afundou desgraçadamente nos baixios da Fajã Grande, carreando para a morte sete homens, para além de ocultar o cadáver de um outro que havia perecido a bordo, vítima de escorbuto. 

Tal como outros prosadores, de origem açórica ou não, e dos quais talvez emerja a rudeza das descrições com que Raul Brandão pintou o Corvo e as vivências corvinas, em As Ilhas Desconhecidas (Artes e Letras, 2.ª ed., 2018), também na obra em análise, Carlos Fagundes dá a conhecer, sem grandes derivas ao eufemismo ou mesmo à dissimulação, a ilha das Flores, servindo-nos, com apurado realismo, uma povoação paupérrima, campesina e em tudo rural, onde o milho e o gado assumem especial relevo na vida de gente pobre, mas trabalhadora e muito honrada. Evidencia, declaradamente, o esquecimento dos Açores pelo(des)governo do Estado Novo, salientando, ao mesmo tempo, as nefastas consequências que daí advieram, não apenas para os florentinos, mas para os açorianos em geral: não havia médicos nem vias de comunicação que atravessassem a ilha, o subdesenvolvimento era absoluto e marcado pela pobreza, pela fome, pela deficiente ou mesmo pela ausência de instrução escolar e pela falta de rendimentos, o que redundava, em muitas das vezes, na emigração, fosse a clandestina ou então aquela operada dentro dos trâmites legais. Tristemente, era pelo bojo que os açorianos se viam enxotados da sua própria terra, e, para os pobres que ousassem permanecer, ficava-lhes assegurado trabalho «(…) desmesurado, duro, cansativo, escravista, esgotante, a impregnar-lhe o corpo de cansaço e de sofrimento. Mas trabalho digno, honrado, humilde, verdadeiro e empenhado, a aurorar-lhe o espírito de dignidade e alegria». Por contraponto com a realidade presente, e num esforço para apartar quaisquer ilações políticas que possam chegar acopladas, celebremos, pois, o longo percurso percorrido, em pouco mais de metade de um século, não descurando, todavia, o tanto que ainda se encontra por concretizar. Estas narrativas poderão ser vistas como uma forma de resguardo e imortalização de ritos useiros e costumeiros da existência e vicissitudes daqueles que povoaram o mais ocidental território nacionalpodendo olhar-se cada uma delas como um frame do filme que por ali se vivenciou ao longo de parte significativa do século XX.

Neste comentário, torna-se impossível olvidar a dimensão religiosa que marca, de forma indelével, a maior parte destas narrativas, o que é bem revelador do papel que Deus e a religião assumem na vida dos florentinos e dos açorianos, em geral. Carlos Fagundes mune-se de uma linguagem aparentemente simples, valendo-se de um vocabulário muito cuidado, algumas vezes até vetusto, mas nunca arcaico, característica especialmente notória naqueles textos que, de alguma forma, se relacionam com a religiosidade e com os preceitos do culto. Tenhamos presente não apenas a sua formação académica, no seio da milenar exigência religiosa, ministrada no Seminário de Angra, como também a antiguidade de alguns dos ritos litúrgicos ou outros de ordem telúrica que vai desfiando ao longo das diegeses. Por outro lado, referências a diferentes toponímias (por muitos desconhecidas), assim como o recurso a regionalismos e metáforas de compreensão menos instantânea, tendem a demorar a leitura, mas não deixam de enriquecer sobremaneira o textotornando-o mais verossímil e, sobretudo, conferindo-lhe uma notável literariedade.

 

Carlos Fagundes, Entre o Mar e a Rocha. Estórias, Companhia das Ilhas, 2021

quarta-feira, 27 de julho de 2022

CASOS QUE NÃO VÊM AO ACASO



Embora seja uma conceção quase generalizada de que o conto é um género literário em franco declínio por não ser vendável, por já não se mostrar atrativo ao gosto da maioria dos leitores, cada vez mais voltados para o romance ficcional ou histórico, com o passar dos anos e com a multiplicidade de edições de sucesso, torna-se inevitável reconhecer o vigor que este tem vindo a readquirir no mundo literário português. Arriscar-se-ia até a afirmação de que o género está viçoso e que tem vivenciado dias de alguma glória, considerando as obras de grande qualidade que continuam a chegar às livrarias nacionais. Relanceando esta temporada e circunscrevendo-nos somente ao universo literário micaelense, rememoremos o sucesso das antologias de contos Avenida Marginal Calipso ou então a obra Nariz de Santo e Outros Momentos, da autoria de Tomaz Borba Vieira. Para além destes, e um ou outro que, inadvertidamente, teremos esquecido, torna-se inevitável destacarmos, também, a obra Casos Que Não Vêm Ao Acaso, da autoria de Mário Roberto, sendo a responsabilidade editorial da Artes e Letras.

Mário Roberto é um multifacetado (e não menos talentoso) artista micaelense, que aprecia “vagabundear pelas artes”. A sua reconhecida inquietude cultural e artística condu-lo da escrita à fotografia, da pintura à representação, do desenho ao cinema e a tantas outras áreas de interesse. No que se refere concretamente à escrita, e depois de algumas incursões pela poesia e texto dramático, depois de participações em volumes coletivos, apresenta-nos este Casos Que Não Vêm Ao Acaso, que se assume como o seu terceiro livro de contos, sucedendo a (A)casos da Alma e Luzsombra, ambos comercialmente esgotados. A apresentação da obra ocorreu recentemente na Igreja da Graça, em Ponta Delgada e ficou a cargo do próprio autor e da sua editora, Maria Helena Frias. Para além da apresentação do livro, dos contornos da sua conceção e dos objetivos que lhe serviram de base, houve também uma mostra de dois microfilmes, gravados durante o período de confinamento pandémico, baseados em dois dos contos presentes na obra. Digna de registo foi também a apresentação, ao piano, de uma obra de Tchaikovsky – Maio, por Amélia Vieira, jovem aluna do Conservatório Regional de Ponta Delgada, que tanto abrilhantou aquele momento.

Servindo-se de uma multiplicidade de registos, Mário Roberto reúne nesta obra mais de três dezenas de textos, cujas temáticas são amplamente diversificadas, alargando-se da acérrima crítica social e política à desfaçatez do próprio vizinho do lado, da crítica aos usos e costumes até à incompetência de diversos agentes profissionais. Há também espaço para a amizade e para o amor, há lugar para a sedução, para a mendicidade, para o direito dos animais, no fundo, o que vamos deslindando a cada texto são os principais focos de interesse do próprio autor. Uma amplitude temática assinalável que vem atestar, de certa forma, a irreverência do escritor. Curiosamente, há entre quase todos os contos um chão urbano que os perpassa e agrega: é, no fundo, retratada a vida citadina que tanto parece influenciar o modo de pensar e de agir do autor. Aliás, serão as suas vivências quotidianas e citadinas a centelha que o motiva para a escrita: não nos custa crer que grande parte dos textos presentes nesta obra terão como génese o movimento que, a cada dia, se experimenta na Rua Pedro Homem, local de eleição e de trabalho do autor. 

Valendo-se de uma linguagem clara e uma escrita escorreita, Mário Roberto varia o tom de narração a cada texto volvido, apresentando-se ora mordaz, satírico, excessivo, ora melancólico, contemplativo ou surreal. Numa ótica muito própria, certamente turvada pelo gosto individual, parece-nos que a exploração do absurdo se encontra muito bem desenvolvida em alguns destes textos, dos quais se destacam “De Como Eça de Queirós Se Encontrou Com Andy Warhol”, ou “A Cracker”. Embora possamos encontrar as raízes deste movimento no século XIX, conquanto seja um campo explorado também por Luís Rego, outro virtuoso escritor açoriano, nesses textos, Mário Roberto transporta-nos por uma espécie de nonsense à inglesa, salpicado por um humor inteligente e mordaz, o que confere um enorme regozijo, ao mesmo tempo que empresta novidade à leitura.

Este é um conjunto de contos deveras interessante, de leitura bastante agradável, alegre, viva, e que facilmente nos arranca um sorriso. Todavia, não deixa de se assumir também como palco de uma voz irreverente, avisada e cáustica, bem à imagem de Mário Roberto, o artista da cidade!  

  

Mário Roberto, Casos Que Não Vêm Ao Acaso, Artes e Letras editora, 2022

 

terça-feira, 5 de julho de 2022

A Escrava Açoriana

 

«Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura, emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim de um longo e trabalhoso dia.»

Miguel Torga, Um Reino Maravilhoso, 1941

O público-leitor exigia e Almeida Maia não desapontou. Depois do sucesso de Ilha-América (Letras Lavadas edições, 2020), o autor dá agora a conhecer A Escrava Açoriana, um extraordinário romance, alicerçado em factos verídicos, minuciosamente documentados e adornado com um expediente ficcional extremamente atrativo e, em tudo, verossímil. É recuperada a temática da emigração açoriana – presente também no seu último trabalho de grande fôlego –, mas, desta vez, a ocorrida no último quartel do século XIX, e que teve como destinos o Havai e, sobretudo, o Brasil. 

Antes de tudo o resto, importa saber que A Escrava Açoriana retrata uma história de vida difícil, de superação e de resistência; dá-nos conta de como o arrojo no feminino (em tempos brutos e másculos) pode desafiar e vencer a força das imposições sociais. É uma história de suplantação de barreiras, de preconceitos e crendices, mas é também o retrato fiel de uma sociedade misógina, entregue à miséria, à fome e ao cinzentismo, matizada assim mormente pelo distanciamento geográfico e pela negligência absoluta de um reino em luta árdua pela manutenção do poder estabelecido. Era a penúria e a indigência a escorraçarem os açorianos das suas próprias ilhas.

Rosário – a protagonista – é a representação clara da vontade e da tenacidade daqueles que almejam ser um pouco melhor, dos que procuram mais além, dos que não se resignam e ousam partir em busca da quimera. Rosário pertence ao grupo daqueles corajosos que alicerçam o progresso e a mudança social, mesmo quando essa transição não se perspetiva harmoniosa. Ela será a prova de que a evolução de uma sociedade e de um país, em geral, é tangível, somente, através da vontade das próprias pessoas. Não subsista, porém, a ideia de que estaremos ante uma mulher impoluta e de alma imaculada. Toda a heroína trava os seus combates, pelo que se pode esperar também um carácter determinado, capaz das grandes atrocidades, em busca dos objetivos a que se propôs. 

A obra arranca numa Ponta Delgada campesina, a feder a peixe e a sofrer com a quebra dos rendimentos provindos da transação comercial da laranja, atividade comercial que durante anos sustentou a economia micaelense. Os morgados ressentem-se e o povo vive na penúria. Os que ousam o sonho, veem na travessia para o Brasil uma possibilidade de enriquecimento mais ou menos rápido, mais ou menos certo. Entram em cena os engajadores, trafulhas que nada mais fazem do que ludibriar pobres diabos que, depois de se empenharem no pagamento do seu bilhete ou assinarem contratos fraudulentos, se veem reféns de uma dívida paga exclusivamente através de trabalho escravo, prostituição ou outras atividades de índole similar. Após as peripécias da longa travessia até à costa brasileira, chegam todas as vicissitudes de uma emigração nas condições já descritas.

Aquando da apresentação da obra em Ponta Delgada, sugeria a Professora Susana Goulart Costa algo que conservei na retina da memória, e que se relaciona com uma possível visão da temática aqui ficcionada abandonando aquele tempo e aquele espaço. Abstraindo-nos de datas, factos e locais marcantes que sustentam a diegese, torna-se possível percecionar toda uma visão muito mais abrangente, com paralelos por toda a humanidade, e desde o início dos tempos: está aqui subjacente a ideia primária da busca incessante por melhores condições de vida, e até a adaptação do individuo às condições que o envolvem. No que se refere ao caso específico da emigração açoriana, é certo que, mesmo naquele fluxo que rumou “às califórnias de abundância” anos mais tarde, também se encontrarão bastos exemplos de viagens mais ou menos falhadas e sonhos amplamente gorados. Curiosamente, tanto neste caso agora descrito na obra em apreço, como noutros que se busquem na diáspora açoriana residente nos EUA ou no Canadá, não faltarão exemplos da saudade do “pio do milhafre”, assim como do aceno lançado pela ilha e sentido lá longe, a Oeste de “ilha-mãe”. O regresso futuro que domina a condição presente.

A Escrava Açoriana é o sexto romance do autor e aquele que melhor representa a sua maturidade literária, alicerçada em dez anos de vida dedicada à escrita. Desta vez, e fruto da sua consistência e qualidade ficcional, conta com a chancela da Cultura, uma editora de âmbito nacional que, certamente, o ajudará a cativar um público mais vasto e diversificado. Apercebamo-nos ou não, a insularidade e sequente distanciamento dos polos culturais portugueses são ainda um claro entrave àqueles açorianos que procurem transpor a barreira arquipelágica, mesmo para aqueles que pautem o seu trabalho pelo rigor, empenho e seriedade, como é o caso do autor em causa.

Este é um romance marcado pela força do feminino, desde logo pela confessa vontade do autor de eleger uma mulher como protagonista, aliás, um desígnio seu, como poderemos comprovar no texto de agradecimento com que encerra a obra. Depois, contemos também com a voz do narrador, que chega, uma vez mais, no feminino, o que se revela uma vantagem, já que carrega um pouco mais de sensibilidade e torna mais reais e credíveis todas as descrições de uma sociedade marcadamente patriarcal e machista, com todas as amorfias que tal condição acarreta. O “impulso decisivo” para esta escolha chegou com a leitura da poesia de Marianna Belmira de Andrade, assim como pela inspiração na vida de Alice Moderno, como confessou o autor no dia de apresentação da obra.

Este é um romance soberbo e bastante original, sobre uma temática amplamente ignorada por grande parte da sociedade portuguesa. Chega redigido numa prosa elegante, escorreita, mas também muito precisa, rica e minuciosa, plenamente capaz de conduzir o leitor através daquelas que foram as mutações sociais, económicas e até mesmo políticas operadas em Portugal e no Brasil, na transição do século XIX, para o século XX.

Com um olhar atento e um cuidado extremo com o detalhe histórico, mas também com uma veia criativa muito ativa, não há como deixar de aplaudir a forma brilhante como o autor traz à narrativa a peça Emigrantes, quadro icónico do pintor micaelense, Domingos Rebêlo, o que é também sintomático da enorme sensibilidade cultural do autor.

Esta é uma história dura, talvez das mais marcantes de toda a emigração açoriana e portuguesa; uma história que tinha de ser contada e, mais do que tudo, uma história que não devia repetir-se. No entanto, e permitindo-me a partilha do título de uma notícia veiculada em dezembro de 2021, por um dos meios de comunicação social mais influentes em Portugal, terei de assumir que o problema não ficou sepultado com o peso dos anos, e que ainda se encontra entre nós, não exclusivamente no Brasil ou no Havai, mas em Portugal, em nossa casa, mesmo ao nosso lado!

«O trabalho escravo continua em explorações agrícolas no Alentejo (…)». *

*in:https://cnnportugal.iol.pt/videos/trabalho-escravo-continua-no-alentejo-a-lei-existe-mas-faltam-as-condenacoes/61ca20160cf21847f0a197ef , consultado a 05 de julho de 2022

Pedro Almeida Maia, A Escrava Açoriana, Cultura Editora, 2022

#livrosecoisasdessas


segunda-feira, 4 de julho de 2022

Homenagem em Paços de Ferreira

 Ontem foi um dia muito marcante: decidiu a Câmara Municipal de Paços de Ferreira homenagear um grupo de cidadãos, em  “reconhecimento do meritório trabalho desenvolvido em prol da promoção cultural no Município de Paços de Ferreira (….)”. 

Parece-me uma iniciativa muito louvável, pelo que, além do meu profundo agradecimento, endereço-lhes também os meus parabéns.

Não pude estar, mas representou-me a minha mãe, e tão bonita que ela estava!




#livrosecoisasdessas

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#Câmara Município Paços de Ferreira

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Os Velhos


“Ir morrendo é pior do que morrer”

Paula de Sousa Lima, Os Velhos


É incontestável a animação literária e cultural vivenciada no arquipélago e em São Miguel, em particular. Tem sido uma temporada incomum, com fulgor extraordinário e com uma qualidade que muito nos deve orgulhar.

Um dos livros lançados e, seguramente, um dos mais esperados foi Os Velhos, o mais recente romance de Paula de Sousa Lima, autora, entre outros de O Outro Lado do Mundo (Prémio de Humanidades Daniel de Sá), Pretérito Quase Perfeito e Outros Contos, Variações em Dor Maior, Os Últimos Dias de Pôncio Pilatos ou O Paraíso (Finalista do Prémio Leya). O seu lançamento ocorreu na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, tendo sido responsável pela apresentação pública, o professor e crítico literário Vamberto Freitas, que a todos presenteou com uma intervenção de excelência.

A escolha de Os Velhos para título desta obra é perfeita, sendo por aí mesmo que se inicia o forte abalo nas convicções do leitor. Ainda antes de abrirmos o livro e de o folhearmos é, de imediato, evocado um mundo para o qual olhamos muitas vezes com desconforto, ou, pelo menos, relanceamos com um espírito longínquo e reticente: a velhice. Não me custa crer que haja quem o vá preterir nos escaparates, pela conveniência de não se confrontar com o assunto que ali vem explanado. Estudado antropologicamente, não é incomum furtarmo-nos ao tema, talvez por a velhice representar a condição final do Ser Humano, por não gostarmos de enfrentar o limiar da passagem para a dimensão seguinte, ou, talvez ainda, por ser nessa fase que teremos de abandonar, em definitivo, aquela ideia tonta que nos alimenta a mocidade e idade adulta e que se relaciona com a imortalidade. Só aí, quando já ecoarem os passos de um caminho inevitável e sem retorno, é que nos daremos conta da nossa própria finitude. Paula de Sousa Lima lança já um alerta para aqueles mais incautos. Por outro lado, mesmo não assumindo ainda essa condição etária, a velhice de outrem, de um familiar próximo, por exemplo, é encarada, demasiadas vezes, como um verdadeiro empecilho na engrenagem do dia-a-dia: todos temos as nossas obrigações e contas para pagar, e, por isso, precisamos de tempo e disponibilidade física e mental para desenvolvermos a nossa atividade profissional. Há também o imperativo dos ginásios ou das corridas ao fim do dia, aqueles encontros das quintas-feiras com os amigos de sempre, as mil e uma atividades extracurriculares dos filhos e, claro, restando algum tempo, pois que se empregue no restabelecimento de energias numa qualquer socialização que se agende. Ficam os velhos para trás.

Em Os Velhos é intensa a crítica social, sobretudo à forma como, tantas vezes, são tratados os nossos idosos, como são preteridos e/ou ludibriados em troca das trivialidades que nos vão alimentando o ego e, sobretudo, a carteira. Colocam-se a nu as fragilidades de um sistema de apoios sociais que, quando funciona, fá-lo muito deficitariamente. Mostra-se, sem pudor, como se maltratam aqueles que mais mimados e protegidos deviam ser. Se quiséssemos assumir uma postura simplista neste comentário, poderíamos apenas escrever que Paula de Sousa Lima redigiu um belo livro sobre pessoas velhas e as suas circunstâncias pessoais e familiares. Mas, pelo contrário, se optarmos por dar conta de uma leitura mais séria e aprofundada do volume em apreço, então teremos de enunciar que foi escrito um livro extraordinário sobre a sociedade atual e sobre a hierarquização dos valores que a regem, especificamente, sobre a forma como lidamos com as pessoas integradas nos escalões etários mais altos. «(…) são estes os dias modernos, implacáveis, que não deixam lugar aos velhos, que determinam esconder os velhos, apartá-los da vida (…)»

Valendo-se das vivências de três personagens principais, da história do nosso próprio país, assim como de uma estrutura assente em duas sequências divididas em vários andamentos, onde se entremeiam analepses com o tempo da narração, Paula de Sousa Lima retrata e censura toda uma sociedade patriarcal, com especial enfoque naquela da segunda metade do século XX, onde, acoberto dos imperativos de uma Ditadura velhaca, o poder do homem sobre a mulher era tido como normal, e, por isso, o espancamento e violação, o agrilhoar da mulher numa pocilga ou expulsá-la de casa, o adultério ou a censura eram atos desculpáveis e causados exclusivamente pelo comportamento feminino. 

Embora expectável considerando as obras já publicadas e pelo que vai escrevendo regularmente na imprensa regional, não podemos deixar de sublinhar o meticuloso cuidado empregue no discurso, na sintaxe, na semântica e na morfologia, pelo que, como sempre, ler Paula de Sousa Lima é também expandir o conhecimento da Língua: «(…) diz-se aborreceu, mas a palavra é fracota, melhor seria exasperou, desesperou, enfureceu, agastou, assanhou, enraiveceu, encolerizou, embraveceu, irou, danou (…)»

Dir-se-ia que foi um verdadeiro ato de coragem escrever desta forma sobre esta temática. Para além de se assumir como um texto profundamente inovador, vem, ao mesmo tempo, contribuir para a discussão que, por estes dias, volta à montra da nossa sociedade, e que se relaciona com a despenalização da morte medicamente assistida. Sendo certo que não é questão exclusiva dos mais velhos, não deixa de ser verdade que são eles quem mais a procura e deseja, pelo que também aqui se poderão colher argumentos para consolidar opiniões.  

Como tão bem enunciou Vamberto Freitas na apresentação desta obra, Paula de Sousa Lima demonstrou a “original capacidade de fazer arte com um tema proibitivo”. Embora seja triste e angustiante; conquanto seja errado e condenável colocarmos os nossos velhos nesse patamar tão rebaixado é esta a verdade crua em que vivemos. Nesse sentido, tenhamos também a capacidade de fazer arte com quem nos precedeu e assegurou que hoje pudéssemos deter uma existência integrados numa sociedade moderna, mas que se quer um pouco mais justa e aperfeiçoada.

Que este Os Velhos nos inculque as perguntas certas e nos guie até às respostas que realmente fazem a diferença.

Paula de Sousa Lima, Os Velhos, Letras Lavadas edições, 2022

📷 Letras Lavadas edições