domingo, 26 de abril de 2020

Flores de Quarentena

Cumpridas as cada vez mais compridas obrigações profissionais e domésticas, decidimos - a Susana e eu - dar um passeio pela mata que nos rodeia a casa. Assim que se apercebeu da saída iminente, o Filipinho ficou felicíssimo e correu de imediato para o portão. Regozijava e, em boa verdade, nós também! Nestes dias de confinamento, estes espaços circundantes granjeiam uma dimensão que até agora não possuíam. Hoje, vemo-los como uma extensão benigna da nossa própria liberdade, e facilmente percebemos a sorte que temos, comparativamente com a de alguns amigos que se veem obrigados a cumprir o distanciamento social confinados em pequenos apartamentos citadinos.
A tarde terminava, mas nem por isso se apresentava menos convidativo o passeio. O sol, ainda alto, aquecia-nos a pele acendendo uma sensação de benévolo conforto, e à medida que nos embrenhamos na vegetação, o chilrear dos pássaros convertia-se na melodia perfeita. 
Saímos com a intenção de colher flores. A Susana gosta muito de iluminar a sala com jarras vestidas de todas as cores. Embora não mo diga, sei que aprecia também o perfume que se adentra, assim que as coloca no local que lhes estava destinado há muito. Ela sabe fazer aqueles arranjos, quase profissionais, combinando verdura e flores na medida exata. Eu também gosto de as ver ali, assim como de sentir o seu perfume pela casa, mas o que mais aprecio é o tempo partilhado e, essencialmente, as memórias que, a partir delas, o Filipe e nós mesmos vamos criando.
A Susana colheu uns jarros viçosos e novos. Aguentarão uns bons dias. O Filipe e eu escolhemos uns malmequeres-amarelos.
Hoje foi um dia bom!

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Os dias adejam


Os dias adejam mais ou menos indistintos por um calendário cada vez mais comprido e de contornos sobejamente desconhecidos.
Ao contrário do que vamos lendo aqui ou vendo acolá, cá em casa, ainda não nos rebelamos contra toda esta situação: temos encarado este período de quarentena de forma tranquila, mas, ao mesmo tempo, de forma responsável e profundamente crítica, por não ser coisa pouca a que está em risco! Ao contrário do que temos percebido, consideramos pouco prudente a tomada de decisões precipitadas e denunciadoras de um cansaço excessivo, fruto do confinamento, e que se traduzem num sobejo de confiança, que nos parece injustificado e até perigoso, colocando mesmo em causa o esforço de tantos ao longo de tanto tempo. A este propósito, não percebemos como pode alguém ponderar a abertura de escolas ao mesmo tempo que se encerram de forma compelida lares de idosos e outras instituições iminentemente em risco de contágio generalizado. Simplesmente não nos parece correto…
Atendo-nos ao que podemos controlar, criámos as nossas novas rotinas e, talvez por isso, estejamos a conseguir lidar com esta realidade com relativa harmonia respirando, até, com alguma confiança. A presença constante do Filipinho tem-se revelado uma ajuda formidável; o labor e a atenção a que nos sujeita rege-nos a maior parte do dia e, depois de cuidarmos dele e de atimarmos outras responsabilidades quotidianas e profissionais, resta-nos pouco tempo, que procuramos aproveitar da melhor forma.
A Susana tem aprimorado a cozedura de pão, e eu continuo a fazer os iogurtes. O dela está cada vez melhor, os meus não passam daquilo! Para além das façanhas culinárias e dos afazeres domésticos tradicionais, temos reservado tempo para a escrita e mantido algumas leituras em dia: aguardo – com ânsia assumida – pelas entradas nos diários “Os Dias das Árvores”, de Isabel Rio Novo, e no “Mensagem do avô”, de António Mota, assim como procuro não perder um capítulo do recente projeto “Bode Inspiratório”. Para além destas preciosidades digitais, encetei a leitura de «O Beco da Liberdade», de Álvaro Laborinho Lúcio, e percebo agora por que razão o próprio fez questão de sublinhar repetidas vezes, no lançamento da obra em Ponta Delgada, que o texto em nada era autobiográfico… Um tratante, aquele juiz Guilherme Augusto Marreiro Lessa.
Temos procurado lembrar que este tempo de quarentena é também de Quaresma e que se vive, a partir de hoje, o Tríduo Pascal.
Decidimos manter as tradições que conseguirmos e, sob o olhar curioso do nosso pequeno Filipe, tingiremos hoje os ovos de Páscoa, usando, como em casa materna, cascas soltas de cebola. A Susana não conhecia esta tradição nortenha, mas vive-a com redobrado empenho, o que me deixa bastante satisfeito. Fruto dos tempos e do tempo, mercámos, por correio eletrónico, as provisões necessárias e confecionaremos um almoço pascal que se assemelhe o mais possível ao que as nossas mães fariam, com gosto redobrado, para toda a família.  Na lista incluímos um pão de ló de Margaride e um de Ovar, uns pacotinhos de amêndoas e um ovo de chocolate para o Filipe. A mãe achou-o demasiado grande, eu olho para ele e vejo um miminho em jeito de recompensa por tudo o que lhe é subtraído esta Páscoa!
O Livro dos Livros também já está aberto na página certa. O texto exposto será Evangelho da missa dominical e é segundo São João. Embora não devesse ser necessário, vem recordar-nos que a morte foi vencida pela ressurreição e que, nessa medida, há que ser paciente e ter esperança em dias melhores!

terça-feira, 14 de abril de 2020

Dias atípicos

Vivemos dias atípicos, conturbados e de certezas escassas. Editam-se umas rotinas, enquanto outras, as mais sacramentais e de razão pueril, são mantidas com afinco e alguma resiliência.
Temo-nos desdobrado: a Susana está, como eu, a trabalhar a partir de casa; o Filipe, infatigável e satisfeito como nunca o víramos, retém-nos constantemente a atenção e o olhar. Está tão bonito e mostra-se tão feliz! Temos confecionado todas as refeições e temos sabido manter a casa nos parâmetros de arrumação e limpeza a que a nossa Sónia nos habituou...
A Susana fez pão e eu iogurtes!
O relvado está aparado e sem trevo. Dei cabo das costas a mondá-lo, mas, pela primeira vez em quarenta anos, arriguei um de quatro folhas. Lembrei-me, de imediato, daquele terceto do Emanuel Jorge Botelho: "já restam poucos trevos inteiros. / daqueles que dão quatro folhas / às cinco letras da sorte.". Tão bonito! Sequei a relíquia e guardei-a junto do poema!
Os carros estão lavados, a bicicleta e a mota oleadas. Também montamos um baloiço para o petiz, oferta dos tios e que esperava há tempo o tempo certo.
Temos visto as notícias, respeitado as indicações que nos são prestadas e lamentado o evoluir desta situação. Ouvimos o número de mortos aqui e além e, de imediato, averiguamos se esse número é inferior ao do dia anterior… Atemo-nos ao número… Meu Deus, será por aqui que começa a nossa desumanização? Quero crer que não. Com efeito, fazemo-lo, porque nos queremos imbuir da esperança ingénua de que este pesadelo está a chegar ao fim. Mas não está. Não me parece que este vírus esteja a dar sinais de abrandamento.
Temos acreditado no profissionalismo das pessoas que, pela responsabilidade que assumiram, têm combatido este vírus nas linhas mais avançadas desta guerra.
 Para além de tudo isto, temos feito algumas leituras. Terminei «A Trégua», do Primo Levi e, adindo-lhe as considerações que havia formulado do «Se Isto É Um Homem» – o seu precursor – sublinhei a ideia de que a humanidade está a ser, uma vez mais, colocada à prova. As grandes batalhas travamo-las agora, com lamentáveis perdas e inevitáveis privações, enquanto a caminhada final que nos conduzirá de regresso a casa, fá-la-emos mais tarde, só mais tarde, mas munidos da certeza de que nada será igual…
Mia Couto escrevia “Não se regressa nunca (…)”, mas o trevo continuará a aparecer e o relvado continuará a precisar de monda…

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A Vida no Campo – Os Anos da Maturidade Volume II


A propósito do diário A Vida no Campo, do escritor terceirense Joel Neto, escrevi em 2016 que, tal “Como Torga conseguiu engarrafar o sol que brilha sobre o “rio de oiro”, também Joel Neto conseguiu aprisionar em A Vida no Campo, a essência da ilha, a essência de todo um arquipélago e de tudo isto a que, comummente, designamos por ser ilhéu!”. Continua atual! Ainda bem!
Finda a leitura do volume II deste diário, parece-me justo aditar que o autor vive em demanda de uma certa redenção que lhe parece escapar a cada entrada que vai acrescentando. Ao folhear cada uma das páginas, é notória uma ânsia visceral de reencontro com o passado. Poder-se-á afirmar haver uma necessidade primária de contacto com o tempo ido, já que é desenvolvido um trabalho robusto no sentido de recuperar e perpetuar essa memória de uma realidade há muito vivenciada mas que, paralelamente, existe ainda – e bem arreigada –, constituindo o quotidiano de muitos dos que o autor conhece, respeita e quer enaltecer. No fundo, quererá exaltar a lembrança daquele que também ele já foi, bem antes das memórias lisboetas, universitárias, jornalísticas…
Não subsista, contudo, a ideia de que este segundo volume (ou o anterior) se limita a uma escrita complacente e caridosa para com os terceirenses, concretamente, para com os do lugar dos Dois Caminhos, na freguesia de Terra Chã. Ao invés, ficaram imortalizadas nestas páginas sentidas homenagens e honestos tributos aos homens e mulheres que, com o autor, repartem a serenidade bucólica que ali se pode espreitar, mas também que dali arrigam à terra, e à força do braço, o sustento de cada dia.
 Mesmo em outras obras suas, onde a trama diverge para outras geografias, é notória a relação umbilical que o autor conserva com a ilha de Jesus Cristo e com os Açores: ele parte sempre da ilha; ele sedia-se no arquipélago; ele coloca os Açores como centro do seu imaginário para, a partir desse ponto e valendo-se da mundividência que foi acumulando, encetar o relato das suas experiências com aquela voz tranquila que caracteriza as suas diegeses. Neste segundo volume de A Vida no Campo não é diferente e, seja em Lisboa ou San Jose, New Bedford ou Providence, em Ovar, Torres Novas ou Óbidos, Freiburg im Breisgu ou Porto Alegre, Joel Neto não se consegue dissociar da sua açorianidade, da sua condição de ilhéu açoriano da Terceira, da freguesia Ribeira Chã, filho pródigo do lugar dos Dois Caminhos, embora suspeite que esse nunca terá sido o seu desejo…
Tal como no outro volume, a cada entrada deste diário é-nos servido “um retrato pictórico altamente contagiante e esteticamente belo, sem abdicar, jamais, de um realismo e veracidade ímpares”, ilustrando, dessa forma, o que ainda é a vivência quotidiana em qualquer uma das nove ilhas dos Açores.
O segundo volume deste diário ganhou o apêndice «Os anos da maturidade», o que na prática lhe assenta muito bem, dada consistência que a escrita do autor vem adquirindo de obra para obra. Pese embora tenha falhado a leitura de um ou outro livro seu (dos de início de carreira literária), creio que será seguro falar de um Joel Neto anterior a Arquipélago e de um outro posterior a esse que será o seu primeiro grande sucesso nacional, a que se seguiu o incontornável Meridiano 28, na minha opinião, a sua Magnum opus até à data.
Em jeito de remate, e porque ainda me faz todo o sentido, ouso terminar da forma com que finalizei o comentário à leitura do primeiro volume deste diário:
“Com as devidas cautelas e distanciamentos que a geografia literária impõe, talvez os mais afoitos possam agora afirmar que, com o livro em punho, sair-se da ilha não mais seja a pior forma de nela ficar: poderemos agora levá-la connosco, transportá-la um pouco mais próximo do coração, à distância de uma leitura fugaz, arrebatada e, porque não, apaixonada!”
Ao autor, outra vez, os meus parabéns!

Joel Neto, A Vida no Campo – Os Anos da Maturidade, Cultura editora, 2019 
Telmo R. Nunes

sábado, 7 de dezembro de 2019

Avenida Marginal - Ficções, Ponta Delgada

Finda a leitura de Avenida Marginal - Ficções, Ponta Delgada, impus-me a redação de um comentário sobre a obra que, segundo afirma Maria Helena Frias – a editora –, em nota introdutória, “(…) tem grafia de escritores de renome, assim como novas vozes, que confirmam o valor criativo, literário e humanista de uma literatura notável.”. Não há como discordar!
Esta coletânea emerge como uma forma nobilíssima de homenagear Ponta Delgada; são-nos oferecidas representações distintas da própria urbe, capacitando o leitor de um vislumbre sobre a mesma, através da “sensibilidade” de onze contistas tão desiguais como Joel Neto, Nuno Costa Santos, Blanca Martín-Calero, Leonor Sampaio da Silva, Tiago Ribeiro, Maria das Mercês Pacheco, Mário Roberto, Leonardo, Carlos Tomé, Pedro Gomes ou Maria Brandão.
Se a uns, unanimemente, lhes reconhecíamos, há muito, méritos literários, outros há a quem, erradamente, se prognosticou terem sido escolhas arriscadas dentro do género. Não obstante, mostrando-se multifacetados e, tingindo as suas páginas de versatilidade criativa, foram capazes de criar ficções densas e muito bonitas, enredos curtos mas largos em significado, o que me parecem ser condições fundamentais na produção textual dentro desta tipologia, ou género literário de características tão peculiares.
Embora a civilidade me instigue à fuga da individualização (até porque apreciei sobremaneira os onze textos), não consigo deixar de enaltecer os contos de Joel Neto, de Leonor Sampaio da Silva e Pedro Gomes, por terem correspondido em pleno às mais altas expectativas que neles depositara. Por outro lado, e fator de interesse acrescido, como não destacar o conto de Mário Roberto, ele que tanto aprecia “vagabundear pelas artes” e, de igual modo, o do poeta Leonardo, que tanto divergiu das águas por onde talentosamente costuma navegar?
A apresentação pública do Avenida Marginal esteve a cargo de João Nuno Almeida e Sousa, que soube interpretar com fulgor, mas também com grande lucidez a essência da obra, tendo, nesse final de tarde ventoso, proferido um texto belíssimo, capaz de impelir até os mais céticos para uma leitura atenta da obra. Dentre tantas ideias ali lançadas, recordo uma que me ficou na “retina”, e que se relacionava com o facto de, por tantas vezes, não se conseguir distinguir aquilo que efetivamente é cultura e aquilo que se fica apenas pelo entretenimento.
Neste caso, não tenham dúvidas! Leiam-no, porque estarão a investir em cultura!

Aos promotores, autores e outros intervenientes, muitos parabéns!

Vários, Avenida Marginal – Ficções, Ponta Delgada, Artes e Letras, 2019

#livrosecoisasdessas

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Exposição de Autores açorianos

Exposição de Autores açorianos, na EBI da Maia, pelos alunos a turma A do 5.° ano de escolaridade.
Os autores selecionados pelos alunos foram

Paula de Sousa Lima;
Leonor Sampaio da Silva;
Malvina Sousa;
Emanuel Jorge Botelho;
Urbano Betencourt;
Joel Neto;
João Pedro Porto;
Pedro Almeida Maia.


Considerando os documentos Aprendizagens Essenciais de Português, definidas para o 5.º ano de escolaridade (2.º Ciclo do Ensino Básico), assim como O Perfil Dos Alunos À Saída Da Escolaridade Obrigatória, para além da transversalidade de lecionação da nova disciplina de História, Geografia e Cultura dos Açores (HGCA), e atendendo a que a entrevista é um dos textos não literários contemplados no programa, pareceu-nos muito interessante estes jovens alunos elaborarem uma pequena entrevista (seguindo a sua estrutura), a alguns dos autores açorianos mais proeminentes.

O objetivo geral do trabalho passa por dar a conhecer a toda a comunidade escolar não apenas os escritores, como também algumas das suas obras de referência. Para tal, foi organizada uma exposição de trabalhos biobibliográficos efetuados a partir da informação recolhida nas referidas entrevistas.
Foi um sucesso!

domingo, 6 de outubro de 2019

O terrorista elegante

Terrorista e elegante: será possível conjugar estes dois termos em um só indivíduo?
Sim, é possível. E quem o confirma são dois dos mais brilhantes contistas da literatura lusófona contemporânea: Mia Couto e José Eduardo Agualusa.
Perdoem-me o desrespeito alfabético, concedendo o posto primaz ao moçambicano, mas, do meu ponto de vista, ele é um dos maiores, um dos que mais contentamento sinto ao ler. Como eu, tantos outros o rotulam como um excecional contador de histórias, um ‘fazedor’ de palavras com uma imaginação que não parece conhecer fim. De qualquer forma, não me faltariam também ricos adjetivos para qualificar o angolano, caso o propósito agora passasse pela constatação do talento literário destes homens.
A obra, um conjunto de três novelas inicialmente previstas para a dramatização, encerra a curiosidade de ter sido escrita a quatro mãos. Ainda no introito, somos informados que ao escreverem «O terrorista elegante» os autores, sentados a uma mesa e num ambiente completamente descontraído, “rindo e brincando”, apostaram “na negação da ideia de que a criação literária é sempre um ato profundamente solitário”. Eu creio que assim é, e por isso não deixa de ser curioso também que as restantes duas composições tenham sido escritas a partir de cidades diferentes, fazendo-se os autores valer da cumplicidade entre ambos, sendo que um ia adindo texto ao escrito do outro, e isto como quem joga prazerosamente uma singela partida de ping-pong!
A perpassar toda a obra ondulam odores (benévolos ou perniciosos), gostos, cenários idílicos e citadinos e, claro, as temperaturas aquecidas e tipicamente africanas, que se traduzem não apenas nos corpos transpirados pela pujança do astro-rei, mas, sobretudo, nas abordagens sensuais ao eterno desejo do feminino, e que ambos autores tão bem souberam diluir nas entrelinhas mais agradáveis destas novelas.
Embora não se encontre explícita a autoria deste ou daquele excerto, essa informação perde relevância e interesse ao longo da leitura. Ainda que no início nos sintamos tentados a encontrar o rasto de um ou de outro autor, com o avançar da obra, essa necessidade perde relevância e, assim que nos damos conta, deixamo-nos ir ao sabor do deleite da leitura. Naturalmente, e em abono da verdade, aqui e além distinguem-se estilos e encontram-se vestígios. Leia-se a título de exemplo a passagem “Desta vez, sonhei. Sonhei, ora essa, não: pesadelei”, que pertence, claramente, ao indelével traço de Mia Couto.
As temáticas abordadas nas narrativas são díspares, muito embora na génese de todas se perceba a presença constante de um elemento: a morte.
Na primeira novela da obra, O terrorista elegante, que empresta título ao livro, é referido um angolano com especiais ligações a grupos terroristas internacionais. Suspeito de tentativa de atos dessa índole em território nacional, é detido em Lisboa e conduzido a interrogatório. Ainda que com alguma relutância, podemos extrapolar a ideia de que os autores quiseram lançar aqui uma fina crítica à forma de atuação, assim como a alguns métodos utilizados pelas forças de segurança, em casos de detenção. Durante o inquérito, o inusitado acontece e o prisioneiro leva a que os seus inquiridores comecem a questionar-se a si próprios. 
A segunda diegese, «Chovem amores na rua do matador», tem como protagonista Baltazar Fortuna, um pinga-amor cinquentão que procura redenção íntima e, para tal, vê-se na obrigação de matar as três mulheres com quem viveu ao longo da sua vida.
A terceira e última novela, «A caixa preta», refere-se a uma família desestruturada pela guerra, onde avó e neta vivem sozinhas, reféns do tempo e da memória, embrenhadas em segredos e assuntos proibidos, entretanto trazidos ao presente pela inesperada presença e morte de alguém…
 Ao lermos a informação de contracapa, “Dois dos maiores autores de língua portuguesa juntam-se para proveito e alegria dos seus leitores”, constatamos que ainda bem que se deu este acaso! Foi uma reunião muito feliz e, mais importante, resultou numa obra globalmente harmoniosa e cerzida pelo enorme talento de ambos.
Foi, de facto, um gosto reencontrar-me com estes senhores!
Uma palavra de apreço à Quetzal que, entre outros, teve o mérito de criar este volume, do qual é impossível não sublinhar o belíssimo design de capa, da autoria de Rui Rodrigues.

Mia Couto e José Eduardo Agualusa. O terrorista elegante, Quetzal Editores, 1.ª edição, 2019.

#livrosecoisasdessas


sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Pouca Terra

Possivelmente, a mesma ilha - grande e fechada - que se defendeu "de ser água por detrás dos muros das arribas", e "que durante muito tempo só se abriu para deixar sair gente", é-nos agora retratada e descrita como a "obra perfeita" do vulcão, como terra povoada por gente; cidade com gente lá dentro, com "lugares ermos e misteriosos", e onde se fala de amor... Lugar de silêncio e de luz, de festa e de sombra.
A obra, prefaciada pelo poeta da ilha do sol, Daniel Gonçalves, é muito mais do que um rol de textos e imagens. Aliás, quão redutor seria afirmar que este é um conjunto de fotografias legendadas pela subtileza de uma rica prosa poética, ou, do mesmo modo, um texto ilustrado por imagens capazes de nos reter os sentidos?
Não!
Pouca Terra é bem mais do que isso! É muito mais! Estamos perante uma declaração de amor à ilha, ao arquipélago; aqui foi perpetuada, em forma de texto e de imagem, a condição humana que, desta vez, se quis ilhoa!

Leonor Sampaio da Silva (textos), Carlos Carvalho (imagens), Pouca Terra, Companhia das Ilhas, 2019

terça-feira, 20 de agosto de 2019

O Carteiro de Pablo Neruda

Negociadas umas curtas tréguas com fraldas e biberões, e considerando o outono que, assim parece, arribou antes do calendário o ditar, consegui pegar num dos livros que, há tempo, sentia vontade de ler. Já há anos lhe relanceara os sentidos, mas sem lhe prestar a merecida atenção.
Terminada agora a leitura desta extraordinária novela, de Antonio Skármeta, era meu intuito encetar um comentário mais rigoroso sobre o texto, mas as tréguas que me permitiram a leitura da obra terminaram e chegou a hora do biberão das cinco!
Seja como for, leiam-na! A minha edição é a da fotografia e, segundo me dizem, nasceu da comemoração do cinquentenário da editora Dom Quixote!
De resto, um abraço a cada um!

Antonio Skármeta, O Carteiro de Pablo Neruda, Dom Quixote, 2015

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

grotta #3


Apesar de serem muitos os motivos de interesse, não há como deixar de destacar a esplêndida entrevista ao professor Emanuel Jorge Botelho, assim como todo o seu belíssimo texto poético! Com efeito, o seu discurso é revelador “ de quem, com os anos, foi depurando a palavra, conservando só o essencial aos olhos do leitor.”

Aos promotores deste projeto, muitos parabéns! A evolução é evidente e a continuidade impõe-se!



quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Predo-me


Predo-me
Por não poder partir a palavra,
Pondo-a no patamar da emoção,
Pronunciá-la como me surge
                                          aos olhos,
A beleza vestida de perfeição.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

A Fajã de Cima ou como a bota de cano se tornou mais atraente que o salto alto

Tanto quanto é do meu conhecimento, esta obra inaugura uma via nas letras açorianas: uma espécie de nonsense à inglesa, polvilhado por uma comicidade fina e pouco habitual na literatura que por cá se produz, num texto que é, como afirma Nuno Costa Santos, “uma viva declaração de amor à freguesia da Fajã de Cima […]”.
Quem disse que o absurdo não está na moda?
Parabéns, Luís!

domingo, 2 de dezembro de 2018

Homenagem ao professor Emanuel Jorge Botelho

Entre tantos outros méritos e motivos de interesse, o encontro literário "Açores Arquipélago de Escritores” homenageia – com irrefutável justeza – Emanuel Jorge Botelho, o homem que prometeu dar a cada palavra a sua palavra de honra!
Parabéns!
17.nov.18 || Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas


Poetas do nosso tempo

Os poetas - bem sabemos - são almas generosas, mas há uns que teimam em ser mais poetas do que outros! Obrigado, Daniel!
Foto: Capa de "Buarquianas", de Daniel Gonçalves

Há nesta imagem um poema por escrever!


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

in Açoriano Oriental


Encontro Literário “Açores Arquipélago de Escritores”
Agora que se apagam as luzes e as cadeiras vagam, há que fazer um justo reconhecimento à realização do encontro literário, “Açores Arquipélago de Escritores”.
São Miguel e Ponta Delgada, em particular, já mereciam um acontecimento cultural desta natureza, desta qualidade e envergadura. As sessões foram de uma riqueza literária imensa: houve conversas interessantíssimas com pessoas igualmente interessantes e com as quais habitualmente só nos cruzamos nas páginas dos livros. Houve lançamentos de obras, cursos, apresentação de filmes, sessões direcionadas às escolas e às crianças, debates, mesas redondas onde fervilharam ideias estimulantes e, como não podia deixar de ser, as devidas homenagens àqueles que serão os maiores entre pares. A nossa cidade, mas também a nossa ilha e os Açores foram, de facto, um “porto de cruzamento de diferentes culturas e literaturas (…)”.
Gostei do que vi e do que ouvi; gostei dos que abrilhantaram os diversos palcos e nos enriqueceram com as suas ideias. Não foi necessário expender grande esforço para apreciar, com redobrada atenção, as intervenções de oradores como Onésimo Teotónio de Almeida, João de Melo, Daniel Gonçalves, Joel Neto, Emanuel Jorge Botelho, Gonçalo M. Tavares, Pedro Mexia, João Pedro Porto, entre outros.
Como se afirmou amiúde ao longo daqueles dias, inaugurar um encontro literário com esta pujança e sucesso, acarreta uma pressão imensa para os envolvidos na sua organização, já que a fasquia se encontra agora num patamar de excelência que, certamente, será mantida nos encontros que se hão de suceder.
Registei, com especial agrado, o empenho em descentralizar as várias sessões por diversos locais da cidade e da ilha, fazendo chegar o livro a um público mais vasto e, sobretudo, mais diversificado, mas sublinhei também, e com grande satisfação, a paridade de género entre os autores convidados. Enriquecer o programa do encontro com nomes como Renata Correia Botelho, Paula de Sousa Lima, Leonor Sampaio Silva, Mariana Magalhães e Cristina Quental (todas autoras que figuram no PRL), Isabel Rio Novo, Diana Marcum (vencedora de um Pulitzer), Clara Macedo Cabral, Lélia Nunes, Filipa Martins, Dulce Garcia, entre outras senhoras, foi uma verdadeira mais-valia que, certamente, em muito contribuiu para o sucesso do evento.
Da perspetiva da assistência, na qual me situo, este encontro literário foi um êxito estrondoso que em muito engrandece, primeiramente, a Literatura e depois Ponta Delgada, São Miguel e os Açores, em geral. Julgo que entramos agora na rota dos grandes acontecimentos literários que se realizam no nosso país e, aberta esta janela, haja discernimento por parte das entidades oficiais para perpetuá-la.
Por tudo isto e mais, e porque ninguém louva aquilo que não gosta, a todos os envolvidos, mas com especial destaque ao curador do encontro, o multifacetado Nuno Costa Santos, assim como aos parceiros que se uniram a este projeto, um reconhecido obrigado!
Para o ano, cá vos esperamos!
Telmo R. Nunes

21 de novembro de 2018

sábado, 25 de agosto de 2018

In Açoriano Oriental



Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias

Começam a rarear os bons adjetivos que qualifiquem condignamente a obra ficcional de Joel Neto, um dos expoentes mais cintilantes do atual panorama literário português. “Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias” é o último romance do autor de “Arquipélago” ou “Vida no Campo”, e nele é feita uma apologia ao amor, nas mais diversas formas de o sentir.

Podia ser Morgan Freeman, mas não era.”: eis a entrada que nos conduz a uma viagem no tempo, desde 2017 até 1939, com paragens obrigatórias em diferentes épocas e geografias mundiais. “Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias” arranca na Lisboa contemporânea, mas rapidamente se muda até uma Nova Iorque dos finais do século passado, onde C. Devon Fitzhugh, um excêntrico personagem, incita José Filemom Abke Marques, o narrador do romance, a escrever um livro, buscando a verdade sobre a presença de um agente nazi na ilha do Faial, arquipélago dos Açores.

A partir deste ponto, a ação desenvolve-se numa malha bastante complexa, mas nem por isso menos coerente. Com efeito, coerência e coesão entre todas as linhas narrativas nunca são colocadas em causa, e o rigor do detalhe encontra-se sempre presente ao longo de toda a diegese. Neste particular, sublinho o número de personagens enunciado na tábua inicial do romance – cerca de cem –, para que percebamos o trabalho hercúleo que o autor despendeu nesta intrincada teia de relações, para que da leitura resultasse – como resulta – uma escorreita sensação de que tudo se funde harmoniosamente.

O livro, que se divide em 5 partes, perpassa diversas épocas históricas e outros tantos pontos do globo, mas poder-se-á afirmar que o âmago do plot se reporta à ilha do Faial, nos idos anos 30 e 40 do século passado, a partir de onde o narrador se vê obrigado a reconstituir a vida de um familiar recém-falecido – Hansi Abke. Neste período, e com a II Guerra Mundial em pano de fundo, é-nos servida uma cidade da Horta cosmopolita, alegre, jovial, visitada amiúde por estrelas de cinema, desportistas e outros famosos de renome internacional, dos quais se destacam a bailarina Mitzi Mayfair ou o aviador Antoine de Saint-Exupéry, que amaravam no porto da Horta a bordo, entre outros, dos potentes Yankee Clipper, da Pan American.

Inversamente ao clima de guerra e à mortandade que cobriam de sangue quase toda a Europa continental, vivia-se então na pequena ilha do Faial um peculiar alheamento de todo aquele cenário dantesco. Ingleses e alemães conviviam em sã harmonia, fruto, sobretudo, da exploração dos cabos telegráficos, tão frutuosos na primeira metade do século passado. Uns e outros bailavam na Sociedade Amor da Pátria, faziam piqueniques nos locais mais idílicos da ilha, jogavam partidas de bridge, de ténis ou de croquet. Vivia-se um clima de aparente letargia face ao implodir de uma guerra com efeitos tão devastadores para ambas as partes.

«Natália (…) descrevia o naufrágio do U-581 ao largo da ilha do Pico, após um combate com uma flotilha de destroyers ingleses, em pleno Canal, a que muita gente pudera assistir a partir da doca da Horta (…)».

Ainda que de forma inusitada, todos na ilha pareciam querer assumir o papel de espetadores apáticos perante partição da Europa e do mundo.

Tal como em outras obras, também nesta, Joel Neto manifesta uma relação de amor com as ilhas açorianas, não se deixando cair, contudo, na tentação de se ater apenas a elas. A partir das ilhas dos Açores, mas olhando-as e integrando-as cuidadosamente num mundo mais amplo e complexo, ele compreende e (des)escreve um dos mais importantes acontecimentos da história de toda a humanidade. A sua cosmovisão, a sua concepção do mundo encontram-se bem patentes em cada uma das 420 páginas que perfazem a obra, mantendo, ainda assim, a génese discursiva na ilha, que nunca é deixada para trás. Não obstante tratar-se de um exercício de difícil execução (e isto é distintivo apenas dos grandes autores), ele vê os Açores como parte integrante de um mundo; o arquipélago é colocado lado a lado com geografias tão diversas como Lisboa, Nova Iorque, Friburgo, Porto Alegre ou Praga e, em momento algum, se nota ‘um forçar’ da açorianidade, antes se deixa transparecer um sentimento telúrico harmoniosamente integrado na mundividência própria do autor.

A este propósito não há como não recordar a mónita lançada por Daniel de Sá aos escritores açorianos, onde apelava que não cedessem aos lugares-comuns quando se tratasse de “cantar a terra”. Joel Neto interpreta isto na perfeição, não se inibindo de retratar os Açores sempre como parte de um todo maior, e fá-lo sem que isso belisque, um pouco que seja, a sua condição de ilhéu açoriano. Fá-lo com grande mestria, sem renegar, jamais, as origens que o trouxeram a este patamar de excelência, onde agora se encontra. Percebe-se que as fronteiras que a ilha impõe não foram suficientes para, de alguma forma, lhe manietar um espírito integral.

Por se retratar um período histórico que, pessoalmente, muito me diz, e pelo qual nutro especial interesse, confesso que a leitura que efetuei terá sido bem mais fugaz e sentimental do que propriamente técnica, mas confesso que não me arrependo. É um romance apaixonante, daqueles capazes de nos extasiar desde a primeira à última página.

Vale a pena ler autores açorianos!


Telmo R. Nunes
a 19 de agosto de 2018

domingo, 29 de abril de 2018

O mar

«o mar é como os deuses, porque não é deste mundo.»
 Emanuel Jorge Botelho, 30 crónicas (Vol. I), Letras Lavadas Edições || Artes e Letras Editora

sábado, 24 de março de 2018

Mercado tradicional


Há dois tipos de pessoas no mundo: os que apreciam os mercados tradicionais ao sábado de manhã, e os outros. Agrada-me pertencer ao primeiro grupo -- fascina-me a paleta de cores servida e à disposição do olhar; inebria-me o cheiro fresco a fruta colhida há pouco; seduz-me o pulsar das gentes que ali procuram a recompensa pela tez marcada pelo trabalho!

quinta-feira, 1 de março de 2018

Vamos falar de Literatura?



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Independentemente do que se possa sentir pela Literatura produzida nos Açores ou pelos autores açorianos, permitir-me-ei julgar que, com toda a justeza, estes deveriam ser acarinhados por todos, sem exceção. No entanto, tenho lido que, por cá, não haverá uma divulgação adequada ou, pelo menos, suficiente das obras dos autores regionais. Não sei se corroboro esta ideia, mas, confrontando-a com a realidade de outras regiões do país, parece-me, pelo menos, digna de reflexão séria.
Entremos, por exemplo, na livraria Bertrand de Ponta Delgada e vejamos, com algum cuidado, a prateleira que espreita ao fundo, anunciando a todos quantos ali passem: “Autores Locais”. Ora, não conheço estante com propósito similar em qualquer outra loja desta distribuidora nacional.
Depois, recorde-se o dinamismo da livraria Leya Solmar, esse “centro cultural” ao serviço da literatura de raiz açoriana, bem no centro da cidade de Ponta Delgada: lançamentos, tertúlias, “Livros do ano”, encontro com escritores, montras permanentes e exclusivamente dedicadas aos nossos autores.
Recordemos, também, a pujança que agora demonstra o Centro Natália Correia, no que ao lançamento de obras de autores locais diz respeito.
Por outro lado, entrando numa das mais concorridas superfícies comerciais da ilha de São Miguel e dos Açores – Solmar, em São Gonçalo –, facilmente somos cativados pelas estantes exclusivas e repletas de livros de autores açorianos. Adite-se que as mesmas se encontram em local de grande destaque. Embora, pessoalmente, não aprecie a compra de literatura nestes espaços, a verdade é que eles existem, e são, efetivamente, uma forma prática de colocar o livro próximo do leitor.
Tenhamos em mente, também, o espaço semanal que os principais jornais da ilha conferem à recensão literária, tantas vezes dedicada à literatura produzida no arquipélago. Não sendo o ótimo, é já significativo e digno de registo!
Relembremos, entre tantas atividades de grande valia promovidas pelas editoras regionais, a “Festa do Livro dos Açores”, dinamizada pela Publiçor/Letras Lavadas, onde, à beira-mar e em plena época turística, centenas de títulos de autores açorianos puderam ser dados a conhecer…
Considere-se o destaque que “Temática Açores” traz aos autores locais! Um apêndice da CDU (Classificação Decimal Universal), a “Temática Açores” cataloga e deposita as obras de autores e temas açorianos em prateleira própria, conferindo-lhes claro destaque. Isto não é frequente fora do arquipélago! Em qualquer biblioteca fora dos Açores iremos encontrar a poesia de Antero bem próxima da do Camões, por ambos serem dois grandes poetas portugueses. Por cá, em algumas bibliotecas, um é açoriano, outro é português, e, por isso, “habitam” estantes distintas.
Atentemos no empenho que a Associação de Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental tem vindo a despender junto dos atuais discentes e respetiva comunidade educativa, no sentido de promover a obra e o patrono daquela instituição.
Consideremos as Antologias de Autores Açorianos Contemporâneos (ed. AICL, Calendário de Letras) lançadas recentemente, uma, inclusivamente, bilingue, numa tentativa de fazer chegar aos nossos emigrantes o que de melhor se escreve pelos Açores, e outra privilegiando o texto dramático, tantas vezes encarado como “parente pobre” da nossa Literatura. Não esqueçamos os “Cadernos (e suplementos) de Estudos Açorianos”, onde vida e obra de 33 autores (!) são disponibilizados para consulta gratuita. Recordemos, ainda, a recente edição da “Bibliografia Geral da Açorianidade”, que contempla cerca de 19500 verbetes, inscritos em dois tomos de 800 páginas cada, totalmente dedicadas ao trabalho literário produzido sobre os Açores, açorianos e tudo que à Açorinidade respeita.
Por outro lado, tenhamos presente o empenho da SREC na integração da disciplina de História Geografia e Cultura dos Açores, na matriz curricular dos alunos açorianos. Creio tratar-se de um espaço onde facilmente se disseminarão os principais textos dos maiores vultos da Literatura produzida no arquipélago.
Contemos com os prémios literários (dois, pelo menos, de âmbito nacional) que privilegiam obras inéditas, referenciáveis aos Açores.
Tenhamos em mente que os Açores dispõem de um Plano Regional de Leitura próprio que, aproveitado em subaproveitamento, destaca dezenas de obras de alguma forma relacionadas com o arquipélago.
E depois, bem, depois há o esforço desenvolvido em cada Unidade Orgânica do sistema regional de educação. Embora creia que o oposto também possa ocorrer, julgo que, na grande maioria das escolas do arquipélago, os escritores açorianos são muito acarinhados, quer por alunos, quer pela generalidade do pessoal docente. Na realidade que conheço, são colocadas em prática diversas atividades específicas de promoção da Literatura produzida por cá. A cada ano letivo são trabalhados muitos autores, seja a nível biobibliográfico, seja através de oficinas de escrita ou a partir da sua própria produção textual, no apoio ao desenvolvimento de competências fundamentais. Sob a orientação dos professores de Português, algumas destas atividades são realizadas pelos alunos, em estreita colaboração com os próprios escritores, o que favorece sobremodo a aquisição de conceitos e/ou desenvolvimento de competências. Outras são levadas a efeito com a cooperação de Bibliotecas e outras entidades exteriores à escola. Refiram-se, também, os sempre enriquecedores encontros de alunos com autores, onde se incendeiam de curiosidade auditórios a abarrotar. Não menos importantes são as atividades desenvolvidas no interior das salas de aula, onde o professor de Português coloca em prática a silenciosa responsabilidade de difundir junto dos mais jovens aqueles textos de raiz açoriana de reconhecida qualidade literária.
Por tudo isto e mais, não creio que o problema esteja na difusão deficiente ou desadequada da obra dos autores açorianos. Eventualmente, considerando o todo nacional, até concebo que essa dúvida se coloque, mas, convenhamos, também não há especial destaque conferido aos escritores minhotos, alentejanos ou algarvios. É certo e desejável que mais e melhor poderá ser feito, mas é, também, inegável o esforço que se tem produzido no sentido de engrandecer os “nossos nomes de referência”!
Do meu ponto de vista, o motivo de tais considerações encontra-se no fraco volume de vendas que estas obras arrecadam. No entanto, a explicação encontrar-se-á a jusante de todo este processo. De uma forma geral, as pessoas leem muito pouco, e, quando por algum motivo o fazem, dão preferência, quase sempre, aquele escritor da moda, aquele que até escreve umas “frases bonitas”, e as transforma em posts coloridos por essas redes sociais fora.
Bem sabemos que, tendencialmente, não valorizamos o que é nosso, mas, no que à Literatura produzida nos Açores diz respeito, parece-me até que muito se tem conseguido, e ainda bem! Tudo aquilo que se puder fazer para engrandecer a Literatura de raiz açoriana será, com certeza, bem-vindo por todos aqueles que honram este “arquipélago de escritores”!
Afinal, como já afirmou um reputado crítico literário português, “Há qualidade açoriana para um Prémio Nobel”.
A todos, boas leituras!
Telmo R. Nunes
a 28 de fevereiro de 2018