Apresentar o livro de outrem é sempre uma tarefa que se reveste de alguma complexidade e, não raras vezes, de extrema dificuldade. Penetrar os pensamentos do autor, e perceber a génese do seu trabalho, revela-se um sempre exercício interessante, mas nem sempre de fácil execução. Ora, esta é uma complexidão que aumenta exponencialmente neste caso em particular, e isto porque nos referimos a um livro que se sustenta em duas temáticas que têm tanto de complexas como de universais: o amor e o crime; o desejo e o logro. Ora, trazê-los à mesma narrativa, mesclando-os e trabalhando-os em paralelo é, desde logo, anúncio de uma leitura revestida de enorme subjetividade e de onde se excluiu de imediato uma interpretação completamente linear. Em a Fantasia da Possibilidade, o leitor será impelido a manter a sua atenção em constante alerta, assim como se verá obrigado a fazer emergir, a todo o momento, a sua sensibilidade e capacidade interpretativa. Não obstante a extensão do texto – que o baliza entre o conto e a novela, embora mais próximo desta do que daquele, dadas as categorias da própria diegese–, esta será uma leitura a carecer de uma atenção demorada, pois há por estas páginas muito daquilo que nós – sociedade atual – somos. Tenhamos, pois, a calma necessária e saibamos munirmo-nos das armas necessárias para enfrentar a batalha que aqui vem retratada.
Como referido anteriormente, as temáticas essenciais aqui afloradas são o amor e o crime – temas recorrentes desde sempre na literatura mundial e que estão ainda longe de se esgotar. A autora conseguiu, com reconhecida mestria, tecer uma trama que retrata o amor na sua versão mais pura, mas também aquilo que de pior se reveste a sociedade atual. Somos confrontados com verdadeiras ignomínias levadas a efeito por Pedro, um predador digital, que encontra na ingenuidade de Mariana a possibilidade de se servir e alimentar os seus próprios desígnios. Escudado por um perfil digital mavioso e valendo-se de fotografias agradáveis à vista, assim como de uma lábia apurada, usa e abusa da crédula Mariana, sem que esta perceba que está a ser vítima de uma verdadeira fraude, uma trapaça que resultará em consequências bem gravosas.
Desta forma, são diversas as vezes em que nós cidadãos de carácter e de princípios bem definidos, nos sentiremos esmurrados pela ação deste indivíduo interesseiro, ignóbil e de má rês.
Não obstante, poderá facilmente o leitor colocar-se no lugar da personagem principal ou, pelo menos, reconhecer as peripécias narradas em contexto real, mais próximo ou mais afastado, e isto porque o que aqui vem retratado já aconteceu a um familiar, a um amigo ou a um amigo de um amigo. De facto, o crime em contexto digital tem aumentado exponencialmente e, segundo os relatos a que vamos tendo acesso, têm sido cada vez mais elaborados e, de tal forma convincentes, que as vítimas nem se apercebem de que estão a ser enredadas pela selvajaria de criminosos sem escrúpulos. São verdadeiros predadores à solta, que se movem acoberto da obscuridade Internet e das redes sociais, com objetivo único de satisfazer aquilo que é o seu desejo e ânsia, sem, em momento algum, considerar os efeitos nefastos que o seu comportamento poderá espoletar na vida das vítimas. Não me estenderei muito mais neste campo, pois os oradores que se seguirão falarão com muito mais propriedade sobre estas questões em particular.
Fantasia da Possibilidade é uma narrativa que se apresenta dividida em duas partes, correspondendo cada uma delas a um estádio distinto da relação entre os dois personagens principais. Inicialmente, e como em qualquer história onde o amor é presença, há o enamoramento, a sedução, a conquista; é o momento do belo e do júbilo; fantasia-se com a possibilidade de uma relação feliz e acalenta-se a esperança de uma conexão singular entre os protagonistas. Os problemas começam a desenhar-se pouco depois: não se encontrando os intervenientes no mesmo estádio de envolvimento, não parece haver compromisso de uma das partes; os desejos de um aparentam estar consumados, enquanto os de outro fervilham com o brotar da relação. Começam as colisões e as desavenças e, por entre avanços e retrocessos, por entre embates mais ou menos pessoais – crenças divergentes e traços de personalidade antagónicos – dá-se uma rutura, iniciando-se dessa forma a segunda parte da obra, onde nos é servida, talvez, a centelha de toda a narrativa: os efeitos que uma relação desnivelada e crespa podem causar a uma pessoa vulnerável.
Esta é uma obra atual e de relevância assumida. Tenhamos presente que, mesmo em contexto escolar e desde tenra idade, tem havido a preocupação institucional de sensibilizar os utilizadores da Internet e das redes sociais, em particular, para a possibilidade de ocorrências desta índole. Ora, a publicação deste a Fantasia da Possibilidade é sintomático da preocupação e sensibilidade cívica da autora. Atentemos nos objetivos subjacentes a esta publicação, expressos pela própria, no introito com que abre a obra: “[…] pretende-se informar os utilizadores das redes sociais sobre a vulnerabilidade a que estão expostos, não só pelas várias vidas fictícias com que deparam e interagem, mas inclusive face a pessoas que julgam conhecer.” e “[…] divulgar uma mensagem de cautela e de incentivar a procura de apoio nas entidades competentes […]”. A atestar esta preocupação manifestada pela autora, cremos que não terá sido fruto do acaso que a obra feche com os testemunhos impactantes de três especialistas no âmbito das problemáticas abordadas: Dra. Marta Rêgo, psiquiatra; Dr. Pedro Gomes, psicólogo clínico e ainda uma fonte do Departamento de Investigação Criminal da Polícia Judiciária de Ponta Delgada.
Uma palavra de apreço também para a artista que ilustra a capa deste livro, já que o faz de forma admirável, conduzindo, desde logo, o leitor para o contexto que o espera no interior das páginas que se seguirão!
A terminar, gostaríamos de exortar a autora a não parar por aqui, a servir-se da sua alargada mundividência e a continuar a escrever sobre a vida, sobre as relações interpessoais e sobre a forma como todos poderemos evoluir enquanto seres humanos, tornando-nos cada vez mais melhores pessoas, mais empáticas e, sobretudo, mais bondosas umas com as outras.

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