quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
domingo, 4 de janeiro de 2026
Fantasia da Possibilidade, de Maria João Fraga
Apresentar o livro de outrem é sempre uma tarefa que se reveste de alguma complexidade e, não raras vezes, de extrema dificuldade. Penetrar os pensamentos do autor, e perceber a génese do seu trabalho, revela-se um sempre exercício interessante, mas nem sempre de fácil execução. Ora, esta é uma complexidão que aumenta exponencialmente neste caso em particular, e isto porque nos referimos a um livro que se sustenta em duas temáticas que têm tanto de complexas como de universais: o amor e o crime; o desejo e o logro. Ora, trazê-los à mesma narrativa, mesclando-os e trabalhando-os em paralelo é, desde logo, anúncio de uma leitura revestida de enorme subjetividade e de onde se excluiu de imediato uma interpretação completamente linear. Em a Fantasia da Possibilidade, o leitor será impelido a manter a sua atenção em constante alerta, assim como se verá obrigado a fazer emergir, a todo o momento, a sua sensibilidade e capacidade interpretativa. Não obstante a extensão do texto – que o baliza entre o conto e a novela, embora mais próximo desta do que daquele, dadas as categorias da própria diegese–, esta será uma leitura a carecer de uma atenção demorada, pois há por estas páginas muito daquilo que nós – sociedade atual – somos. Tenhamos, pois, a calma necessária e saibamos munirmo-nos das armas necessárias para enfrentar a batalha que aqui vem retratada.
Como referido anteriormente, as temáticas essenciais aqui afloradas são o amor e o crime – temas recorrentes desde sempre na literatura mundial e que estão ainda longe de se esgotar. A autora conseguiu, com reconhecida mestria, tecer uma trama que retrata o amor na sua versão mais pura, mas também aquilo que de pior se reveste a sociedade atual. Somos confrontados com verdadeiras ignomínias levadas a efeito por Pedro, um predador digital, que encontra na ingenuidade de Mariana a possibilidade de se servir e alimentar os seus próprios desígnios. Escudado por um perfil digital mavioso e valendo-se de fotografias agradáveis à vista, assim como de uma lábia apurada, usa e abusa da crédula Mariana, sem que esta perceba que está a ser vítima de uma verdadeira fraude, uma trapaça que resultará em consequências bem gravosas.
Desta forma, são diversas as vezes em que nós cidadãos de carácter e de princípios bem definidos, nos sentiremos esmurrados pela ação deste indivíduo interesseiro, ignóbil e de má rês.
Não obstante, poderá facilmente o leitor colocar-se no lugar da personagem principal ou, pelo menos, reconhecer as peripécias narradas em contexto real, mais próximo ou mais afastado, e isto porque o que aqui vem retratado já aconteceu a um familiar, a um amigo ou a um amigo de um amigo. De facto, o crime em contexto digital tem aumentado exponencialmente e, segundo os relatos a que vamos tendo acesso, têm sido cada vez mais elaborados e, de tal forma convincentes, que as vítimas nem se apercebem de que estão a ser enredadas pela selvajaria de criminosos sem escrúpulos. São verdadeiros predadores à solta, que se movem acoberto da obscuridade Internet e das redes sociais, com objetivo único de satisfazer aquilo que é o seu desejo e ânsia, sem, em momento algum, considerar os efeitos nefastos que o seu comportamento poderá espoletar na vida das vítimas. Não me estenderei muito mais neste campo, pois os oradores que se seguirão falarão com muito mais propriedade sobre estas questões em particular.
Fantasia da Possibilidade é uma narrativa que se apresenta dividida em duas partes, correspondendo cada uma delas a um estádio distinto da relação entre os dois personagens principais. Inicialmente, e como em qualquer história onde o amor é presença, há o enamoramento, a sedução, a conquista; é o momento do belo e do júbilo; fantasia-se com a possibilidade de uma relação feliz e acalenta-se a esperança de uma conexão singular entre os protagonistas. Os problemas começam a desenhar-se pouco depois: não se encontrando os intervenientes no mesmo estádio de envolvimento, não parece haver compromisso de uma das partes; os desejos de um aparentam estar consumados, enquanto os de outro fervilham com o brotar da relação. Começam as colisões e as desavenças e, por entre avanços e retrocessos, por entre embates mais ou menos pessoais – crenças divergentes e traços de personalidade antagónicos – dá-se uma rutura, iniciando-se dessa forma a segunda parte da obra, onde nos é servida, talvez, a centelha de toda a narrativa: os efeitos que uma relação desnivelada e crespa podem causar a uma pessoa vulnerável.
Esta é uma obra atual e de relevância assumida. Tenhamos presente que, mesmo em contexto escolar e desde tenra idade, tem havido a preocupação institucional de sensibilizar os utilizadores da Internet e das redes sociais, em particular, para a possibilidade de ocorrências desta índole. Ora, a publicação deste a Fantasia da Possibilidade é sintomático da preocupação e sensibilidade cívica da autora. Atentemos nos objetivos subjacentes a esta publicação, expressos pela própria, no introito com que abre a obra: “[…] pretende-se informar os utilizadores das redes sociais sobre a vulnerabilidade a que estão expostos, não só pelas várias vidas fictícias com que deparam e interagem, mas inclusive face a pessoas que julgam conhecer.” e “[…] divulgar uma mensagem de cautela e de incentivar a procura de apoio nas entidades competentes […]”. A atestar esta preocupação manifestada pela autora, cremos que não terá sido fruto do acaso que a obra feche com os testemunhos impactantes de três especialistas no âmbito das problemáticas abordadas: Dra. Marta Rêgo, psiquiatra; Dr. Pedro Gomes, psicólogo clínico e ainda uma fonte do Departamento de Investigação Criminal da Polícia Judiciária de Ponta Delgada.
Uma palavra de apreço também para a artista que ilustra a capa deste livro, já que o faz de forma admirável, conduzindo, desde logo, o leitor para o contexto que o espera no interior das páginas que se seguirão!
A terminar, gostaríamos de exortar a autora a não parar por aqui, a servir-se da sua alargada mundividência e a continuar a escrever sobre a vida, sobre as relações interpessoais e sobre a forma como todos poderemos evoluir enquanto seres humanos, tornando-nos cada vez mais melhores pessoas, mais empáticas e, sobretudo, mais bondosas umas com as outras.
A PIDE PELO OLHAR DE CASTANHEIRA
Histórias da PIDE Quando Salazar Mandava é o mais recente livro de José Pedro Castanheira, o mesmo autor, entre outros, de Os Últimos do Estado Novo (Tinta da China, 2023) ou Volta Aos Açores Em Quinze Dias(Tinta da China, 2022).
Neste volume, o jornalista do Expresso, agora aposentado, reúne seis das inúmeras reportagens que produziu sobre a PIDE/DGS, ao longo da sua riquíssima carreira jornalística. São histórias que contextualizam informação que, muitas vezes, nos chega dispersa e avulsa e, por isso, são de leitura muito recomendada. Ademais, é um texto extremamente interessante, com um valor histórico enorme e que resgata do esquecimento episódios absolutamente incríveis, alguns dignos de guião cinematográfico!
Pese embora a coesão textual que perpassa as seis narrativas que compõem este volume, assim como a constância da qualidade de escrita a que já nos habituou o autor, não quero deixar de destacar as reportagens sobre a vergonhosa detenção e consequente prisão de Calouste Gulbenkian, o homem mais rico do mundo, durante o seu refúgio em Portugal, por agentes da então chamada PVDE, (designação antecessora de PIDE), decorria o ano de 1942. Um episódio que envergonhou o país a nível internacional e, por isso, ocultado de quase todos os registos de então.
A segunda reportagem que me merece especial destaque refere-se à postura e conduta do Presidente Craveiro Lopes ante os poderes instalados. Foi uma descoberta interessante e, sobretudo, um acentuar da impressão que já tinha de Salazar e das suas políticas.
Por último, a minha predileta, a reportagem sobre a atuação do ex inspetor da PIDE Rosa Casaco, o seu envolvimento na morte do General Humberto Delgado e a forma como José Pedro Castanheira, um jornalista, conseguiu contactar o ex operacional da PIDE, agendar um encontro e entrevistar um homem que, há vinte e quatro anos, era procurado pela Interpol. A reportagem saiu no Expresso em duas edições consecutivas e o impacto que teve foi de tal forma estrondoso, que todos acusaram as diferentes polícias de incompetência e lassidão. Os ecos deste trabalho notável do jornalista do Expresso fizeram com que as autoridades reforçassem o seu empenho, o que redundou na captura de Casaco, dois meses depois da publicação da primeira parte da reportagem.
Para além destas, há ainda a dramática história de D. Eurico Dias Nogueira, Bispo no Niassa, em Moçambique, constantemente vigiado pela PIDE, a história do Crime de Belas, perpetrado por nomes grados da cultura portuguesa e ainda a reportagem da inesperada e não menos arrojada visita de Ievtuchenku, um poeta russo, que se deslocou a Portugal em 1967, a convite de Snu Abacassis, a sua editora em Portugal, e responsável pela Dom Quixote.
A boa notícia é que este é o volume um, pelo que tudo indica que, em breve, teremos um novo conjunto de narrativas tão peculiares como as que agora reveem a luz dos escaparates, reunidas num segundo volume.
Está de parabéns o autor por mais este excelente trabalho, que vem confirmar que o jornalismo sério, empenhado e livre ainda faz a diferença, mesmo à distância de mais de meio século dos factos narrados.
José Pedro Castanheira, Histórias da PIDE Quando Salazar Mandava, Tinta da China, 2025.
Telmo R. Nunes



