(Diz o DN que aumentaram os consumos e mortes por overdose em Portugal. Tenho pena que assim seja.)
Os problemas surgiram há cerca de cinco anos e meio, mais coisa, menos coisa…
O dia era, presumivelmente, o meu “dia feliz”; completava o meu décimo segundo aniversário e vivia-se o dia 12 desse mês.
Acordei feliz. Deixava a criancice para trás e ingressava na equipa dos adolescentes. Sonhara e planeara uma festa de arromba, com todos os meus amigos e familiares mais próximos; receberia inúmeros presentes e seria o centro de todas as atenções e o recetáculo de todos os mimos e carinhos.
Com efeito, naquele dia recebi muita coisa, mas nada do que ansiava…
Ao contrário do que era habitual, meu pai chegou a casa logo após a hora de almoço, aliás, foi acarretado para casa por essa hora. Vinha completamente bêbado, cheirava a vómito e praguejava como nunca o ouvira antes. Pelo que vim a descobrir mais tarde, nessa manhã fora chamado ao escritório do patrão que o despediu ”sem apelo nem agravo”. Segundo meu pai, “aquele filho de uma grande pu%&&$a roubara-lhe o chão” debaixo dos seus pés.
Não queríamos acreditar. E agora?
Os meses seguintes foram devastadores:
Estranhamos
Perguntamos
Apanhamos
Cintos
Vassouras
Ferros
Brados
Gritos
Sangue
Choro
A postura decaiu. Nunca mais consegui olhar aquele homem e nele reconhecer meu pai. Levantava-se bem tarde. Saía de casa.
Ébrio
Violência
Empenhou a casa, perdeu-a para o vinho. Arrendamos um casebre.
Minha mãe transformou-se num saco de porrada. Desesperou e, do desespero, imitou-o: nasceu-lhe o vício.
Ébrio,
ébria.
Nunca tínhamos o que comer e o pouco dinheiro que entrava, destinava-se ao vinho.
Ia à escola quando não tinha de curar os ferimentos de um ou de outro. Quando as escaramuças eram violentamente audíveis, um ou outro vizinho mais corajoso entrava pelo pardieiro adentro e resgatava-me para sua casa. No dia seguinte, já sabia que, ao regressar, levaria pancada do meu pai ou teria de acompanhar minha mãe ao hospital, onde já me conheciam bastante bem.
Foram meses assim.
Institucionalizado
Gritos
Revolta
Dor
Medo
Medo
Muito
Porquê?
Porquê eu?
Não!
Medo
Medo
Muito
Hoje, 12 de dezembro de 1994, faço 17 anos e já sei que não vou receber nem presentes, nem carinhos, nem mimos, nem merd#% nenhuma!
Vou olhar pela minha vida e fazer o que sempre fiz desde que para aqui me atiraram: tratarei dos “profs”, que teimosamente insistem que eu devia reaprender a ler, no intervalo cravarei dinheiro e outras cenas aos putos, e de tarde irei pelas ruas em busca de alguma cena que me renda algum…
Assim que tiver o suficiente, compro-a no sítio do costume.
Talvez por hoje ser o meu aniversário me façam um desconto…
À noite, se conseguir, volto para casa!
(O texto e imagens são da minha autoria, mas não têm qualquer relação entre si.)
Os problemas surgiram há cerca de cinco anos e meio, mais coisa, menos coisa…
O dia era, presumivelmente, o meu “dia feliz”; completava o meu décimo segundo aniversário e vivia-se o dia 12 desse mês.
Acordei feliz. Deixava a criancice para trás e ingressava na equipa dos adolescentes. Sonhara e planeara uma festa de arromba, com todos os meus amigos e familiares mais próximos; receberia inúmeros presentes e seria o centro de todas as atenções e o recetáculo de todos os mimos e carinhos.
Com efeito, naquele dia recebi muita coisa, mas nada do que ansiava…
Ao contrário do que era habitual, meu pai chegou a casa logo após a hora de almoço, aliás, foi acarretado para casa por essa hora. Vinha completamente bêbado, cheirava a vómito e praguejava como nunca o ouvira antes. Pelo que vim a descobrir mais tarde, nessa manhã fora chamado ao escritório do patrão que o despediu ”sem apelo nem agravo”. Segundo meu pai, “aquele filho de uma grande pu%&&$a roubara-lhe o chão” debaixo dos seus pés.
Não queríamos acreditar. E agora?
Os meses seguintes foram devastadores:
Estranhamos
Perguntamos
Apanhamos
Cintos
Vassouras
Ferros
Brados
Gritos
Sangue
Choro
A postura decaiu. Nunca mais consegui olhar aquele homem e nele reconhecer meu pai. Levantava-se bem tarde. Saía de casa.
Ébrio
Violência
Empenhou a casa, perdeu-a para o vinho. Arrendamos um casebre.
Minha mãe transformou-se num saco de porrada. Desesperou e, do desespero, imitou-o: nasceu-lhe o vício.
Ébrio,
ébria.
Nunca tínhamos o que comer e o pouco dinheiro que entrava, destinava-se ao vinho.
Ia à escola quando não tinha de curar os ferimentos de um ou de outro. Quando as escaramuças eram violentamente audíveis, um ou outro vizinho mais corajoso entrava pelo pardieiro adentro e resgatava-me para sua casa. No dia seguinte, já sabia que, ao regressar, levaria pancada do meu pai ou teria de acompanhar minha mãe ao hospital, onde já me conheciam bastante bem.
Foram meses assim.
Institucionalizado
Gritos
Revolta
Dor
Medo
Medo
Muito
Porquê?
Porquê eu?
Não!
Medo
Medo
Muito
Hoje, 12 de dezembro de 1994, faço 17 anos e já sei que não vou receber nem presentes, nem carinhos, nem mimos, nem merd#% nenhuma!
Vou olhar pela minha vida e fazer o que sempre fiz desde que para aqui me atiraram: tratarei dos “profs”, que teimosamente insistem que eu devia reaprender a ler, no intervalo cravarei dinheiro e outras cenas aos putos, e de tarde irei pelas ruas em busca de alguma cena que me renda algum…
Assim que tiver o suficiente, compro-a no sítio do costume.
Talvez por hoje ser o meu aniversário me façam um desconto…
À noite, se conseguir, volto para casa!
(O texto e imagens são da minha autoria, mas não têm qualquer relação entre si.)

























