sábado, 13 de julho de 2019

Yoga Azores


sexta-feira, 12 de julho de 2019

This is... Rabo de Peixe


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

in Açoriano Oriental


“Ler na Livraria” ao sábado de manhã

Para além do prazeroso reencontro com pessoas que partilham o gosto pela Literatura, as sessões “Ler na Livraria”, promovidas pelos responsáveis pela icónica LeyaSolmar, em Ponta Delgada, revestem-se da grande vantagem de trazerem ao conhecimento ou, pelo menos, à memória obras de referência que, por um ou outro motivo, se encontravam na obscuridade do esquecimento. Foi o caso de «Descobri Que Era Europeia», da autora açoriana Natália Correia, naquele sábado selecionado e comentado pela professora e escritora Leonor Sampaio Silva.
A edição que possuo – da editora Ponto de Fuga, março de 2018 – é a mais recente e é um pouco mais alargada do que a obra original, uma vez que se refere, ao contrário da primeira, às três viagens que a autora de «A Ilha de Circe» efetuou aos Estados Unidos da América: a primeira em 1950, com apenas vinte e seis anos, a segunda em 1978, a convite da Brown University e a última em 1983, em representação do então Presidente da República, General Ramalho Eanes, por ocasião da comemoração, naquele país, do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
Apesar de se reportar a três momentos temporais distintos e outras tantas viagens, o âmago do texto incide, essencialmente, no relato da primeira viagem àquele país. Nele, Natália procura retratar a essência do “american way of life”, assimilado através de inúmeras incursões por cidades da costa leste dos Estados Unidos da América, nomeadamente, Boston, Washington ou Nova Iorque, colocando-o em contraponto com a sua própria visão europeísta.
Apesar de se tratar de uma “obra de início de carreira”, como outros a catalogaram, Natália Correia adensa-a com uma interessante conjugação de géneros, pressagiando, claramente, o virtuosismo literário que lhe viria a ser reconhecido, posteriormente. Investidas pelo relato de viagem, reportagem, texto diarístico, prosa ficcional ou poesia criam um todo estruturalmente harmonioso e de leitura bastante interessante. O que poderia ter sido apenas um texto híbrido, descritivo e sem grandes linhas orientadoras, revela-se um documento profético (até no que à política económica da Europa concerne), exuberante e de uma profunda riqueza literária, onde a autora analisa comparativamente e em constância, o modo de vida de um lado e do outro do Atlântico.
Nesta viagem há ainda uma profunda jornada autorreflexiva até ao íntimo da própria autora que assume, aliás, que principia a expedição com muitas questões por responder, «Trouxe curiosidades para a América (…)», sendo que, no regresso, a poucas ou nenhumas conseguiu dar resposta plenas, «Nenhuma das minhas curiosidades foi satisfeita.». Não obstante, conclui que americanos e europeus são «estruturalmente diferentes» e o seu desapontamento com «a terra prometida» fá-la perceber que o seu lugar no mundo passará sempre pelo velho continente. Embora encontre no «Novo Mundo» laivos civilizacionais aceitáveis (quase sempre assentes em origens europeias), nomeadamente em contacto direto com algumas pessoas ou em visita a determinados espaços – galerias de arte, por exemplo – há por diversas vezes referência à falta de raízes daquele país, à superficialidade da sua cultura estética, o que lhe causa um monumental desencanto.
Serão, aliás, esses sentimentos de desilusão e frustração, cumulativamente com a sua integridade intelectual e consequente afastamento do ‘politicamente correto’, associados a uma escrita crua, corrosiva, pautada por disfemismos, ironia e por um sentido de humor apuradíssimo, que levaram a que muitos considerassem este texto «de cabal antipatia pelo american way of life (…)», como ficou registado pela mão da própria autora à partida para a sua segunda viagem aos EUA.
Natália Correia, fruto talvez da sua personalidade assumidamente mal-humorada, não se inibiu de, textualmente, apoucar muitos dos que, de certa forma, a terão exasperado durante esta viagem: ora pela vivência de situações envoltas em falta de idoneidade, «(…) percebi que a pressurosa ajuda do homenzinho, insistindo em retirar os embrulhos do táxi, obedecia a intuitos bem poucos generosos.», ora pela interação com indivíduos cujos discursos chegavam a ser insultuosos à inteligência da autora,  «O homem conhece a Europa. Esteve em Espanha e quer saber que língua se fala em Portugal. Foi a este sujeito que estive para responder que em Portugal éramos todos mudos. Mas não o fiz, com receio de que ele acreditasse…».
No atinente à segunda e derradeira viagens àquele país, percebe-se uma certa pacificação da autora com a região: «Regresso agora à América do Norte, e o impacto europeizante que me acolhe encandeia-me logo à chegada. Que modificação se operou
nesta caminhada do tempo, não tão longa para justificar esta drástica
rutura do velho isolacionismo norte-americano face à vida europeia, ao
ponto de ter eu a sensação de me achar numa Europa que já não encontro na sua velha colocação geográfica e cultural?», no entanto, claramente insuficiente para que lhe suscite qualquer tipo de especial deslumbramento. 
A terminar, deixo-vos duas citações retiradas do texto de 1950 que considero dignas de registo, talvez pela atualidade com que se revestem:
«O protesto é uma democracia de recurso.»
«(…) o meu ceticismo ante os meandros da política internacional inclinava-me a não acreditar na “pureza de intenções dos países empenhados em defender os interesses de outras nações”»

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

grotta #3


Apesar de serem muitos os motivos de interesse, não há como deixar de destacar a esplêndida entrevista ao professor Emanuel Jorge Botelho, assim como todo o seu belíssimo texto poético! Com efeito, o seu discurso é revelador “ de quem, com os anos, foi depurando a palavra, conservando só o essencial aos olhos do leitor.”

Aos promotores deste projeto, muitos parabéns! A evolução é evidente e a continuidade impõe-se!



quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Predo-me


Predo-me
Por não poder partir a palavra,
Pondo-a no patamar da emoção,
Pronunciá-la como me surge
                                          aos olhos,
A beleza vestida de perfeição.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

A Fajã de Cima ou como a bota de cano se tornou mais atraente que o salto alto

Tanto quanto é do meu conhecimento, esta obra inaugura uma via nas letras açorianas: uma espécie de nonsense à inglesa, polvilhado por uma comicidade fina e pouco habitual na literatura que por cá se produz, num texto que é, como afirma Nuno Costa Santos, “uma viva declaração de amor à freguesia da Fajã de Cima […]”.
Quem disse que o absurdo não está na moda?
Parabéns, Luís!

domingo, 2 de dezembro de 2018

Homenagem ao professor Emanuel Jorge Botelho

Entre tantos outros méritos e motivos de interesse, o encontro literário "Açores Arquipélago de Escritores” homenageia – com irrefutável justeza – Emanuel Jorge Botelho, o homem que prometeu dar a cada palavra a sua palavra de honra!
Parabéns!
17.nov.18 || Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas


Poetas do nosso tempo

Os poetas - bem sabemos - são almas generosas, mas há uns que teimam em ser mais poetas do que outros! Obrigado, Daniel!
Foto: Capa de "Buarquianas", de Daniel Gonçalves

Há nesta imagem um poema por escrever!


domingo, 25 de novembro de 2018

Ao Xico


Passaram já uns dias desde que a encontrei numa esplanada, bem no centro da cidade de Ponta Delgada. A tarde estava soalheira e a temperatura convidava a uma pausa. Sentei-me na única mesa disponível e percebi o espaço bem mais concorrido do que seria de esperar, fruto, é evidente, da nova vaga turística que não aprendeu ainda a distinguir épocas, para gáudio dos empresários locais. Esperei pelo empregado que, apenas a custo, poderei qualificar de diligente, pelo menos no que à arte de servir às mesas diz respeito, já que, dali, o observei largos minutos, enquanto flirtava com uma italiana loira, de tez clara e com o que parecia ser um apetite voraz pelo produto regional. Assim que me ouviu tossicar um pouco mais alto do que a boa educação recomenda, dirigiu-se a mim e, desfazendo-se em mesuras, assentou o meu pedido. Relevei. O sol, embora baixo, parecia empenhar-se em aquecer-me o coração e tudo parecia alinhado com os trâmites da felicidade. Não valia a pena o aborrecimento de uma chamada de atenção. Além disso, a moça era bonita e ele parecia, deveras, entusiasmado com a situação. Tirei do bolso o bloco de apontamentos e, quando me preparava para anotar algo de que agora não me recordo, vi-a pela primeira vez. Escrevia num Moleskine preto por pautar e usava uma Parker prateada, de tinta permanente, preta. As melhores! Uma figura elegante! Trajava um distinto anorak (prefiro a palavra em francês, por me parecer mais cosmopolita), mas claramente desajustado à temperatura que se fazia sentir. Por baixo, o que parecia ser uma casaca masculina em tons de vermelho com uma camiseta branca, muito simples. A ganga das calças ia sobrando ao longo das pernas e, nos pés, umas sapatilhas imaculadamente brancas, de solas brancas e cordões brancos. Marca da moda. Não cheguei a perceber o seu rosto, os óculos escuros e desmesurados não mo permitiram. Pela aparência geral, não teria mais de vinte e cinco anos. Notei que chorava. Chorava em silêncio e sozinha. Creio que o choro em solidão é o pior deles todos: corrói mais do que qualquer outro, por não se poder repartir; tem vontade própria; é de difícil extinção e exala sempre uma dor insanável. Em quase quarenta anos, recordo-me de ter chorado assim não mais do que três vezes! Envergando uma postura quase paternal, quis aproximar-me para a acudir! Ainda lancei um olhar como que a pedir licença para o fazer mas, nesse instante, naquele fim de tarde, aquela figura fina levantou-se e, pelo meio de um grupo de turistas eufóricos, desapareceu pelas ruas limítrofes. Ainda me levantei perscrutando a sua silhueta, mas em vão… Desapontado, mais com minha inoperância do que com qualquer outra coisa, deixei-me cair na cadeira de onde pulara momentos antes e dirigi os sentidos para o local de onde aquela mulher se levantara. Reparei que deixara um rasto perfumado e, na base da mesa, um pequeno papel dobrado em duas partes indistintas. Olhei de soslaio para um lado e para outro e reparei que a vida continuava indiferente às minhas preocupações: um homem estrangeiro na mesa ao lado bebericava a sua cerveja preta e, de livro em punho, não se apercebia de nada em redor. Estava absorto na leitura do grande Gabo. A sua escolha recaíra no “Cem Anos de Solidão”, uma belíssima edição em castelhano, se não me atraiçoou o vislumbre rápido e comprometido. Apesar do excesso de peso – há que dizê-lo – percebia-se requinte no gosto literário. À direita, o empregado de mesa ainda cortejava a sua italiana, que não se mostrava nada envergonhada perante os avanços atrevidos deste Don Juan micaelense. Levantei-me. Avancei e subtraí o manuscrito à mesa abandonada. Num ápice, regressei. Esperei um pouco. Recuperei o fôlego e olhei aquele papel. Parecia tratar-se uma folha do seu caderno sem qualquer remetente ou destinatário. Na página frontal, apenas repetida a palavra “Xico”, com letras trémulas, quase garatujadas. Voltei-a e, depois de ler a missiva que lá fora escrita, percebi o choro, a angústia e o vazio que aquela mulher trazia consigo. 
Morrera-lhe parte de si!

  “Em memória do nosso Xico – a epístola que não queria ter escrito 

O nosso Xico partiu, mas sei que ainda deambula entre nós, a apaziguar-nos a mágoa! Se fecho os olhos, ainda oiço o cavalgar dos seus quilos a menos, em redor da nossa casa. Vejo-o sentado à porta de entrada, de cauda em pêndulo, à espera que a Susana lhe lance um sorriso ou uma palavra de carinho. Sem grande esforço, vejo-o correr pelo relvado, de forma inglória, perseguindo pardais ou pombas que teimavam em desafiá-lo com voos rasantes. Por vezes, oiço-o ladrar enervado com os melros-negros que – criminosos – lhe surripiavam, sempre que podiam, a ração do interior do canil. Olho para o que resta das palmeiras, das iucas-mansas ou das camélias que ele foi desarranjando ao longo do tempo e percebo, finalmente, que não havia mesmo problema algum, como o seu olhar triste me parecia querer indicar, quando o fechava de castigo, ainda com o focinho sujo de terra e com vestígios de raízes soltas. Foi a Susana que lhe escolheu o nome, no dia em que chegou a nossa casa e, desde esse momento, considerámo-lo como membro da nossa família. Era muito mais do que o nosso cão: o Xico era um Ser que adensava a nossa vida, que a tornava mais preenchida, que a animava e cobria de felicidade. Mesmo que não nos apercebêssemos disso todos os dias que o tivemos connosco, a tristeza e o vazio que agora sentimos comprovam a falta que ele nos faz. Como uma laranja que não chegou a amadurecer e cai desamparada da árvore, também o nosso Xico tombou, deixando toda uma vida por viver. Talvez por isso, nem ontem nem hoje, vieram os pardais, nem as pombas, nem os melros-negros! 
Crê que foste amado, Xico! 

S&T 

 Telmo R. Nunes a 25 novembro de 2018

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

in Açoriano Oriental


Encontro Literário “Açores Arquipélago de Escritores”
Agora que se apagam as luzes e as cadeiras vagam, há que fazer um justo reconhecimento à realização do encontro literário, “Açores Arquipélago de Escritores”.
São Miguel e Ponta Delgada, em particular, já mereciam um acontecimento cultural desta natureza, desta qualidade e envergadura. As sessões foram de uma riqueza literária imensa: houve conversas interessantíssimas com pessoas igualmente interessantes e com as quais habitualmente só nos cruzamos nas páginas dos livros. Houve lançamentos de obras, cursos, apresentação de filmes, sessões direcionadas às escolas e às crianças, debates, mesas redondas onde fervilharam ideias estimulantes e, como não podia deixar de ser, as devidas homenagens àqueles que serão os maiores entre pares. A nossa cidade, mas também a nossa ilha e os Açores foram, de facto, um “porto de cruzamento de diferentes culturas e literaturas (…)”.
Gostei do que vi e do que ouvi; gostei dos que abrilhantaram os diversos palcos e nos enriqueceram com as suas ideias. Não foi necessário expender grande esforço para apreciar, com redobrada atenção, as intervenções de oradores como Onésimo Teotónio de Almeida, João de Melo, Daniel Gonçalves, Joel Neto, Emanuel Jorge Botelho, Gonçalo M. Tavares, Pedro Mexia, João Pedro Porto, entre outros.
Como se afirmou amiúde ao longo daqueles dias, inaugurar um encontro literário com esta pujança e sucesso, acarreta uma pressão imensa para os envolvidos na sua organização, já que a fasquia se encontra agora num patamar de excelência que, certamente, será mantida nos encontros que se hão de suceder.
Registei, com especial agrado, o empenho em descentralizar as várias sessões por diversos locais da cidade e da ilha, fazendo chegar o livro a um público mais vasto e, sobretudo, mais diversificado, mas sublinhei também, e com grande satisfação, a paridade de género entre os autores convidados. Enriquecer o programa do encontro com nomes como Renata Correia Botelho, Paula de Sousa Lima, Leonor Sampaio Silva, Mariana Magalhães e Cristina Quental (todas autoras que figuram no PRL), Isabel Rio Novo, Diana Marcum (vencedora de um Pulitzer), Clara Macedo Cabral, Lélia Nunes, Filipa Martins, Dulce Garcia, entre outras senhoras, foi uma verdadeira mais-valia que, certamente, em muito contribuiu para o sucesso do evento.
Da perspetiva da assistência, na qual me situo, este encontro literário foi um êxito estrondoso que em muito engrandece, primeiramente, a Literatura e depois Ponta Delgada, São Miguel e os Açores, em geral. Julgo que entramos agora na rota dos grandes acontecimentos literários que se realizam no nosso país e, aberta esta janela, haja discernimento por parte das entidades oficiais para perpetuá-la.
Por tudo isto e mais, e porque ninguém louva aquilo que não gosta, a todos os envolvidos, mas com especial destaque ao curador do encontro, o multifacetado Nuno Costa Santos, assim como aos parceiros que se uniram a este projeto, um reconhecido obrigado!
Para o ano, cá vos esperamos!
Telmo R. Nunes

21 de novembro de 2018

sábado, 25 de agosto de 2018

In Açoriano Oriental



Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias

Começam a rarear os bons adjetivos que qualifiquem condignamente a obra ficcional de Joel Neto, um dos expoentes mais cintilantes do atual panorama literário português. “Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias” é o último romance do autor de “Arquipélago” ou “Vida no Campo”, e nele é feita uma apologia ao amor, nas mais diversas formas de o sentir.

Podia ser Morgan Freeman, mas não era.”: eis a entrada que nos conduz a uma viagem no tempo, desde 2017 até 1939, com paragens obrigatórias em diferentes épocas e geografias mundiais. “Meridiano 28 O poder redentor das grandes histórias” arranca na Lisboa contemporânea, mas rapidamente se muda até uma Nova Iorque dos finais do século passado, onde C. Devon Fitzhugh, um excêntrico personagem, incita José Filemom Abke Marques, o narrador do romance, a escrever um livro, buscando a verdade sobre a presença de um agente nazi na ilha do Faial, arquipélago dos Açores.

A partir deste ponto, a ação desenvolve-se numa malha bastante complexa, mas nem por isso menos coerente. Com efeito, coerência e coesão entre todas as linhas narrativas nunca são colocadas em causa, e o rigor do detalhe encontra-se sempre presente ao longo de toda a diegese. Neste particular, sublinho o número de personagens enunciado na tábua inicial do romance – cerca de cem –, para que percebamos o trabalho hercúleo que o autor despendeu nesta intrincada teia de relações, para que da leitura resultasse – como resulta – uma escorreita sensação de que tudo se funde harmoniosamente.

O livro, que se divide em 5 partes, perpassa diversas épocas históricas e outros tantos pontos do globo, mas poder-se-á afirmar que o âmago do plot se reporta à ilha do Faial, nos idos anos 30 e 40 do século passado, a partir de onde o narrador se vê obrigado a reconstituir a vida de um familiar recém-falecido – Hansi Abke. Neste período, e com a II Guerra Mundial em pano de fundo, é-nos servida uma cidade da Horta cosmopolita, alegre, jovial, visitada amiúde por estrelas de cinema, desportistas e outros famosos de renome internacional, dos quais se destacam a bailarina Mitzi Mayfair ou o aviador Antoine de Saint-Exupéry, que amaravam no porto da Horta a bordo, entre outros, dos potentes Yankee Clipper, da Pan American.

Inversamente ao clima de guerra e à mortandade que cobriam de sangue quase toda a Europa continental, vivia-se então na pequena ilha do Faial um peculiar alheamento de todo aquele cenário dantesco. Ingleses e alemães conviviam em sã harmonia, fruto, sobretudo, da exploração dos cabos telegráficos, tão frutuosos na primeira metade do século passado. Uns e outros bailavam na Sociedade Amor da Pátria, faziam piqueniques nos locais mais idílicos da ilha, jogavam partidas de bridge, de ténis ou de croquet. Vivia-se um clima de aparente letargia face ao implodir de uma guerra com efeitos tão devastadores para ambas as partes.

«Natália (…) descrevia o naufrágio do U-581 ao largo da ilha do Pico, após um combate com uma flotilha de destroyers ingleses, em pleno Canal, a que muita gente pudera assistir a partir da doca da Horta (…)».

Ainda que de forma inusitada, todos na ilha pareciam querer assumir o papel de espetadores apáticos perante partição da Europa e do mundo.

Tal como em outras obras, também nesta, Joel Neto manifesta uma relação de amor com as ilhas açorianas, não se deixando cair, contudo, na tentação de se ater apenas a elas. A partir das ilhas dos Açores, mas olhando-as e integrando-as cuidadosamente num mundo mais amplo e complexo, ele compreende e (des)escreve um dos mais importantes acontecimentos da história de toda a humanidade. A sua cosmovisão, a sua concepção do mundo encontram-se bem patentes em cada uma das 420 páginas que perfazem a obra, mantendo, ainda assim, a génese discursiva na ilha, que nunca é deixada para trás. Não obstante tratar-se de um exercício de difícil execução (e isto é distintivo apenas dos grandes autores), ele vê os Açores como parte integrante de um mundo; o arquipélago é colocado lado a lado com geografias tão diversas como Lisboa, Nova Iorque, Friburgo, Porto Alegre ou Praga e, em momento algum, se nota ‘um forçar’ da açorianidade, antes se deixa transparecer um sentimento telúrico harmoniosamente integrado na mundividência própria do autor.

A este propósito não há como não recordar a mónita lançada por Daniel de Sá aos escritores açorianos, onde apelava que não cedessem aos lugares-comuns quando se tratasse de “cantar a terra”. Joel Neto interpreta isto na perfeição, não se inibindo de retratar os Açores sempre como parte de um todo maior, e fá-lo sem que isso belisque, um pouco que seja, a sua condição de ilhéu açoriano. Fá-lo com grande mestria, sem renegar, jamais, as origens que o trouxeram a este patamar de excelência, onde agora se encontra. Percebe-se que as fronteiras que a ilha impõe não foram suficientes para, de alguma forma, lhe manietar um espírito integral.

Por se retratar um período histórico que, pessoalmente, muito me diz, e pelo qual nutro especial interesse, confesso que a leitura que efetuei terá sido bem mais fugaz e sentimental do que propriamente técnica, mas confesso que não me arrependo. É um romance apaixonante, daqueles capazes de nos extasiar desde a primeira à última página.

Vale a pena ler autores açorianos!


Telmo R. Nunes
a 19 de agosto de 2018

domingo, 29 de abril de 2018

O mar

«o mar é como os deuses, porque não é deste mundo.»
 Emanuel Jorge Botelho, 30 crónicas (Vol. I), Letras Lavadas Edições || Artes e Letras Editora

segunda-feira, 9 de abril de 2018

sábado, 24 de março de 2018

Mercado tradicional


Há dois tipos de pessoas no mundo: os que apreciam os mercados tradicionais ao sábado de manhã, e os outros. Agrada-me pertencer ao primeiro grupo -- fascina-me a paleta de cores servida e à disposição do olhar; inebria-me o cheiro fresco a fruta colhida há pouco; seduz-me o pulsar das gentes que ali procuram a recompensa pela tez marcada pelo trabalho!