domingo, 29 de abril de 2018
segunda-feira, 9 de abril de 2018
sábado, 24 de março de 2018
Mercado tradicional
Há dois tipos de pessoas no mundo: os que apreciam os mercados tradicionais ao sábado de manhã, e os outros.
Agrada-me pertencer ao primeiro grupo -- fascina-me a paleta de cores servida e à disposição do olhar; inebria-me o cheiro fresco a fruta colhida há pouco; seduz-me o pulsar das gentes que ali procuram a recompensa pela tez marcada pelo trabalho!
quinta-feira, 22 de março de 2018
sábado, 17 de março de 2018
In Açoriano Oriental
A propósito de «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares Nos Três Últimos Séculos», redigido por Antero de Quental:
Por ocasião da comemoração do 175.º aniversário de Antero de Quental, recuperei a obra decorrente da intervenção com que o autor abriu as Conferências do Casino, decorria o ano de 1871.
Primeira parte: Eu diria que um livro se cumprirá assim que conseguir marcar, de forma indelével, o seu leitor, impelindo-lhe questões interiores e exigindo-lhe, ao mesmo tempo, respostas absolutas. Uma leitura destas deverá potenciar mutações de pensamento e, consequentemente, mudanças de atitude, ou, pelo contrário, reforçará, cabalmente, crenças e traços de personalidade.
Haverá um elevado número de fatores endógenos e outros tantos exógenos que condicionarão uma leitura assim tão marcante, desde logo o estádio etário do leitor, a sua maturidade intelectual e desenvolvimento sensorial, o rol de vivências, assim como os meios familiar, socioeconómico ou demográfico, entre outros. Para que o fenómeno se dê, e uma leitura assim ocorra, terá de se agregar um conjunto de circunstâncias a que, ousadamente, designaria de ‘casualidades felizes’.
Este, a que hoje me reporto, abalou-me crenças e convicções. Infligiu-me grande inquietude de pensamento, agitando, ao mesmo tempo, a génese das origens, as fundações da minha própria educação.
Segunda parte: Um grande filósofo, pensador e professor incentivou-me certa vez a leitura do texto «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares Nos Três Últimos Séculos», redigido por Antero de Quental: «- É fundamental! Devemos primeiro perceber o passado do nosso país, para melhor perspetivarmos o seu futuro» – aconselhava.
Adquiri a obra, encetei a leitura e percebi por que motivo me fora recomendada, por que razão sobrevivera este texto não apenas ao constante passar do tempo, como também ao encerramento das próprias Conferências de onde brotara. Embora tido agora como atemporal, foi redigido a propósito do dia 27 de maio de 1871, por ocasião da abertura das “Conferências do Casino”, as tais dos grandes vultos do “Grupo do Cenáculo”, os da “Geração de 70”, as mesmas proibidas por Portaria do Ministério do Reino, em junho desse mesmo ano!
O texto – maravilhoso – agradou-me sobremodo, não apenas pelo retrato da sociedade civil de então, (com a qual ainda se podem estabelecer paralelos formidáveis) mas também, e essencialmente, porque me inculcou no espírito umas tantas questões às quais não consegui dar resposta imediata e me consumiram a quietude durante largo período.
Segundo Antero, as causas que estariam na base da decadência dos povos peninsulares passariam pelos Descobrimentos de novos mundos, pelo Absolutismo régio e pela transformação do Catolicismo, por via do Concílio de Trento.
As duas primeiras razões apontadas, embora inegavelmente complexas, são de clara perceção; a explanação sugerida é elucidativa e, corroborando-a ou não, ali ficam demonstrados possíveis fundamentos para o atraso no desenvolvimento da Península, comparativamente com os países europeus. A terceira e última razão aludida foi a que me suscitou grande desassossego e me conduziu a uma jornada ao âmago das minhas certezas.
Atente-se:
“Ora, a liberdade moral, apelando para o exame e a consciência individual, é rigorosamente o oposto do Catolicismo do concílio de Trento, para quem a razão humana e o pensamento livre são um crime contra Deus…”
ou ainda:
“Na sessão 14ª de Trento é a consciência cristã definitivamente encerrada. Sem confissão não há remissão de pecados! A alma é incapaz de comunicar com Deus, senão por intermédio do padre!”
É um texto farto em frases duras, pelo menos, para quem cresceu e foi educado no seio de uma família que se reja sob os preceitos do Catolicismo.
Terceira parte: Então, Cristianismo ou Catolicismo? Haverá ou não lugar a ‘um Cristianismo’ fora dos ditames do Catolicismo? Este amordaça e amedronta os seguidores, os crentes? Inibe-os ou não de viver em pleno o Cristianismo; inibe-lhes ou não a vivência em Cristo? Não será já o Catolicismo uma adulteração humana daquilo que deveria ter sido a fé Cristã, pura e simples, individual e, ao mesmo tempo, coletiva?
A noção genérica em que creio passa pelo Cristianismo como a génese da religião, a base de sustentação, o pilar que conduz à crença em Deus - Pai, Jesus Cristo - Filho, acompanhados pela força de um Espírito Santo. Tenho como certa a base em Jesus Cristo e que se trata, sobretudo, de sentimento. No que ao Catolicismo concerne, instigaram-me a crença de que ‘caminhava lado a lado’ com o Cristianismo, numa demanda que dura há já mais de dois milénios. Transmitiram-nos que uma completava a outra, mas, ponderando, necessitará o Cristianismo de qualquer complemento?
Hoje percebo mais facilmente aqueles que encaram o Catolicismo com algum distanciamento, que o veem como uma forma ou instituição, e que o reduzem a uma norma que modela a forma de viver e de sentir o Cristianismo. Percebo que o encarem como uma mera disciplina a seguir, que será (ou não) dispensável. Percebo que questionem se serão necessários estes preceitos concebidos pelos homens que nos antecederam para que se consiga viver em plenitude o Cristianismo...
Com efeito, ao olhar para todos os cerimoniais que se nos apresentam quotidianamente, o que se vê para além de encenações quase teatralizadas, e, em alguns casos, até idolatrias? Por que razão há cerimoniais e datas rigidamente estabelecidas para que se possa cumprir plenamente a vivência em Cristo? – bem sei que a qualquer altura se pode fazer a remissão dos pecados, mas naquelas datas específicas deve-se fazê-lo, sob pena de se cometer um “pecado maior”. E por que razão é necessário um intermediário para fazê-lo? Não será este um caminho de inibição? E recordemos, também, as atrocidades cometidas pelo Santo Ofício ao serviço destes preceitos católicos…
Que lugar deixa o Catolicismo às liberdades individuais? Tudo é regido por preceitos estritamente definidos: aquele que se rebele será herege, o que hoje não carregará o peso de outros tempos, é certo, mas, ainda assim, será apontado como diferente, pelo menos!
Não terá ido o Catolicismo um pouco longe de mais, adulterando as aspirações despretensiosas, simples, mas, ao mesmo tempo, plenas e sacras do Cristianismo? Esta igreja assim estruturada, que lugar deixa ao sentimento simples, espontâneo e sincero?
Naturalmente, o disserto anteriano é substancialmente mais vasto, rico e prodigioso do que aquilo que alguma vez poderia aqui deixar apontado. Na edição da obra que possuo, prefaciada pelo professor Eduardo Lourenço, usam-se expressões como «memorável intervenção» ou «referência mítica» e, aludindo a ideia inicial deste escrito, creio que cumpre ‘religiosamente’ a sua função maior: impelir questões, exigindo respostas!
Não será este o intento final de todo e qualquer bom texto?
Telmo R. Nunes
16 de fevereiro de 2018
segunda-feira, 5 de março de 2018
sexta-feira, 2 de março de 2018
quinta-feira, 1 de março de 2018
Vamos falar de Literatura?
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Independentemente do que se possa
sentir pela Literatura produzida nos Açores ou pelos autores açorianos,
permitir-me-ei julgar que, com toda a justeza, estes deveriam ser acarinhados
por todos, sem exceção. No entanto, tenho lido que, por cá, não haverá uma
divulgação adequada ou, pelo menos, suficiente das obras dos autores regionais.
Não sei se corroboro esta ideia, mas, confrontando-a com a realidade de outras
regiões do país, parece-me, pelo menos, digna de reflexão séria.
Entremos,
por exemplo, na livraria Bertrand de Ponta Delgada e vejamos, com algum
cuidado, a prateleira que espreita ao fundo, anunciando a todos quantos ali
passem: “Autores Locais”. Ora, não conheço estante com propósito similar em
qualquer outra loja desta distribuidora nacional.
Depois,
recorde-se o dinamismo da livraria Leya Solmar, esse “centro cultural” ao
serviço da literatura de raiz açoriana, bem no centro da cidade de Ponta
Delgada: lançamentos, tertúlias, “Livros do ano”, encontro com escritores,
montras permanentes e exclusivamente dedicadas aos nossos autores.
Recordemos,
também, a pujança que agora demonstra o Centro Natália Correia, no que ao
lançamento de obras de autores locais diz respeito.
Por outro
lado, entrando numa das mais concorridas superfícies comerciais da ilha de São
Miguel e dos Açores – Solmar, em São Gonçalo –, facilmente somos cativados
pelas estantes exclusivas e repletas de livros de autores açorianos. Adite-se
que as mesmas se encontram em local de grande destaque. Embora, pessoalmente,
não aprecie a compra de literatura nestes espaços, a verdade é que eles
existem, e são, efetivamente, uma forma prática de colocar o livro próximo do
leitor.
Tenhamos em
mente, também, o espaço semanal que os principais jornais da ilha conferem à
recensão literária, tantas vezes dedicada à literatura produzida no
arquipélago. Não sendo o ótimo, é já significativo e digno de registo!
Relembremos,
entre tantas atividades de grande valia promovidas pelas editoras regionais, a
“Festa do Livro dos Açores”, dinamizada pela Publiçor/Letras Lavadas, onde, à
beira-mar e em plena época turística, centenas de títulos de autores açorianos
puderam ser dados a conhecer…
Considere-se
o destaque que “Temática Açores” traz aos autores locais! Um apêndice da CDU
(Classificação Decimal Universal), a “Temática Açores” cataloga e deposita as
obras de autores e temas açorianos em prateleira própria, conferindo-lhes claro
destaque. Isto não é frequente fora do arquipélago! Em qualquer biblioteca fora
dos Açores iremos encontrar a poesia de Antero bem próxima da do Camões, por
ambos serem dois grandes poetas portugueses. Por cá, em algumas bibliotecas, um
é açoriano, outro é português, e, por isso, “habitam” estantes distintas.
Atentemos
no empenho que a Associação de Antigos Alunos do Liceu Antero de Quental tem
vindo a despender junto dos atuais discentes e respetiva comunidade educativa,
no sentido de promover a obra e o patrono daquela instituição.
Consideremos
as Antologias de Autores Açorianos Contemporâneos (ed. AICL, Calendário de
Letras) lançadas recentemente, uma, inclusivamente, bilingue, numa tentativa de
fazer chegar aos nossos emigrantes o que de melhor se escreve pelos Açores, e
outra privilegiando o texto dramático, tantas vezes encarado como “parente
pobre” da nossa Literatura. Não esqueçamos os “Cadernos (e suplementos) de
Estudos Açorianos”, onde vida e obra de 33 autores (!) são disponibilizados
para consulta gratuita. Recordemos, ainda, a recente edição da “Bibliografia
Geral da Açorianidade”, que contempla cerca de 19500 verbetes, inscritos em
dois tomos de 800 páginas cada, totalmente dedicadas ao trabalho literário
produzido sobre os Açores, açorianos e tudo que à Açorinidade respeita.
Por outro
lado, tenhamos presente o empenho da SREC na integração da disciplina de
História Geografia e Cultura dos Açores, na matriz curricular dos alunos
açorianos. Creio tratar-se de um espaço onde facilmente se disseminarão os
principais textos dos maiores vultos da Literatura produzida no arquipélago.
Contemos
com os prémios literários (dois, pelo menos, de âmbito nacional) que
privilegiam obras inéditas, referenciáveis aos Açores.
Tenhamos em
mente que os Açores dispõem de um Plano Regional de Leitura próprio que,
aproveitado em subaproveitamento, destaca dezenas de obras de alguma forma
relacionadas com o arquipélago.
E depois,
bem, depois há o esforço desenvolvido em cada Unidade Orgânica do sistema
regional de educação. Embora creia que o oposto também possa ocorrer, julgo
que, na grande maioria das escolas do arquipélago, os escritores açorianos são
muito acarinhados, quer por alunos, quer pela generalidade do pessoal docente.
Na realidade que conheço, são colocadas em prática diversas atividades
específicas de promoção da Literatura produzida por cá. A cada ano letivo são
trabalhados muitos autores, seja a nível biobibliográfico, seja através de
oficinas de escrita ou a partir da sua própria produção textual, no apoio ao
desenvolvimento de competências fundamentais. Sob a orientação dos professores
de Português, algumas destas atividades são realizadas pelos alunos, em
estreita colaboração com os próprios escritores, o que favorece sobremodo a
aquisição de conceitos e/ou desenvolvimento de competências. Outras são levadas
a efeito com a cooperação de Bibliotecas e outras entidades exteriores à
escola. Refiram-se, também, os sempre enriquecedores encontros de alunos com
autores, onde se incendeiam de curiosidade auditórios a abarrotar. Não menos
importantes são as atividades desenvolvidas no interior das salas de aula, onde
o professor de Português coloca em prática a silenciosa responsabilidade de
difundir junto dos mais jovens aqueles textos de raiz açoriana de reconhecida
qualidade literária.
Por tudo
isto e mais, não creio que o problema esteja na difusão deficiente ou
desadequada da obra dos autores açorianos. Eventualmente, considerando o todo
nacional, até concebo que essa dúvida se coloque, mas, convenhamos, também não
há especial destaque conferido aos escritores minhotos, alentejanos ou
algarvios. É certo e desejável que mais e melhor poderá ser feito, mas é,
também, inegável o esforço que se tem produzido no sentido de engrandecer os
“nossos nomes de referência”!
Do meu
ponto de vista, o motivo de tais considerações encontra-se no fraco volume de
vendas que estas obras arrecadam. No entanto, a explicação encontrar-se-á a
jusante de todo este processo. De uma forma geral, as pessoas leem muito pouco,
e, quando por algum motivo o fazem, dão preferência, quase sempre, aquele
escritor da moda, aquele que até escreve umas “frases bonitas”, e as transforma
em posts coloridos por essas redes sociais fora.
Bem sabemos
que, tendencialmente, não valorizamos o que é nosso, mas, no que à Literatura
produzida nos Açores diz respeito, parece-me até que muito se tem conseguido, e
ainda bem! Tudo aquilo que se puder fazer para engrandecer a Literatura de raiz
açoriana será, com certeza, bem-vindo por todos aqueles que honram este
“arquipélago de escritores”!
Afinal,
como já afirmou um reputado crítico literário português, “Há qualidade açoriana
para um Prémio Nobel”.
A todos,
boas leituras!
Telmo R. Nunes
a 28 de fevereiro de
2018
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
terça-feira, 27 de fevereiro de 2018
Quem tem amigos...
Não percebi muito bem como tal terá acontecido, mas a verdade é que só quando fui arquivar a Revista GROTTA #2 é que depreendi que não comprara a número 1, correspondente ao ano de 2016! Ups...
Livrarias, hipermercados, vendas online » ESGOTADA!
Palavra puxa palavra, contacto puxa contacto... Chegou hoje!
Nice!
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
sábado, 24 de fevereiro de 2018
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
terça-feira, 13 de fevereiro de 2018
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
domingo, 11 de fevereiro de 2018
sábado, 10 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
Treasure Island
Eu sempre acreditei que o Capitão Flint, o Long John Silver e jovem Hawkins tinham passado por Ponta Delgada! Aqui fica a prova cabal!
Esta sim é a verdadeira "Ilha do Tesouro"!
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
na ausência do GPS...
«(…) decide comprar um
mapa e, se lhe tivessem feito a pergunta se ia viajar, responderia
afirmativamente. Precisava de encontrar novamente o caminho que atrás deixara
perdido. Sentia a falta daquela seguridade típica de quem percorre o trilho com
a certeza de encontrar aquilo que deseja e, por isso, resolveu comprá-lo.
Seria um mapa pequeno,
nada de muito complicado. Não teria ruas, nem estradas, nem locais, nem nomes,
nem nada. Aliás, no seu mapa não haveria nada escrito ou impresso. Seria apenas
uma folha em branco onde, a custo, iria então desenhar a estrada pela qual
pretendia caminhar.
No local de venda, por
certo, haveria vários. Alguns até bem mais bonitos! Uns maiores, outros mais
coloridos, alguns novos, outros gastos pelo tempo. Mas por esses já ela se tinha
guiado e o resultado nunca fora muito auspicioso. Ao fim de pouco mais de três
passadas, invariavelmente, verificava que estava completamente perdida, o que a
obrigava sempre a um recuo indesejado.
Agora, com o seu novo
mapa, a jornada seria um pouco diferente. Tomaria a direcção certa e, aos
poucos, alcançaria o tão desejado descanso.»
Telmo Nunes, Inês – A Dualidade de uma
Vida, Págs. 60 – 61 Chiado Editora, 2012
sábado, 2 de dezembro de 2017
In Açoriano Oriental
O
Outro Lado do Mundo -
Prémio
de Humanidades Daniel de Sá
“Aqui,
onde as águas têm o apelo da quietude,
o
meu pensamento contraria-as”
in, O Outro Lado do Mundo,
Paula de Sousa Lima
Paula de Sousa Lima
Por imposição laboral, vi-me
obrigado a faltar à chamada de apresentação das obras galardoadas com o “Prémio
de Humanidades Daniel de Sá”, referente ao ano de 2016. Tive pena! Gostaria de
lá ter estado para, condignamente, homenagear os autores premiados: no Ensaio,
Pierluigi Bragaglia, e na Criação Literária, Paula de Sousa Lima.
Relativamente ao Ensaio Novas Luzes sobre Povoamento e Topónimos das
Flores e Corvo: João da Fonseca e António Carneiro no Reino, em São Tomé e
Príncipe, em Cabo Verde e nos Açores (sécs. XV-XVI), de Bragaglia, confesso
que não li, muito embora, considerando a exigência imposta neste “Prémio de Humanidades
Daniel de Sá”, presuma tratar-se de uma obra de qualidade superior, pelo que a
sua leitura não há de atrasar.
Relativamente a O Outro Lado do Mundo, da autoria da
professora e escritora Paula de Sousa Lima, encetei a leitura logo que me foi
possível - a curiosidade a isso obrigou, e ainda bem que assim foi!
Surge-nos um texto requintado quer
na forma, quer pelo conteúdo que nos é oferecido. N´O Outro Lado do Mundo, nem tudo são rosas e contentamentos! Por se
tratar de uma narrativa localizada, essencialmente, na ilha de São Miguel, não nos
fiquemos pela elementar presunção de que leremos somente sobre agradáveis
passeios em tardes soalheiras ao longo das verdejantes cumeeiras que, do alto,
entreveem e protegem a lagoa de todos os amores. Como fica expresso no derradeiro
texto deste livro, e em jeito de epílogo, há que considerar o «desassossego» da
própria autora, o seu afastamento da «quietude» propagada pelo suave andamento
do mar que a todos nos confina. Não! Aqui reproduz-se o outro lado desse mundo
lisonjeiro, polido e mavioso; nele encontraremos o reverso do luzente buliço
citadino, «Um lado onde nada se acerta pelas certezas que foram instituídas
pela boa sociedade, aquela que só peca se o pecado puder ficar escondido numa
conchinha (…).» É-nos arremessada a
vida tal como ela é: sem recurso a eufemismos, adornos ou embelezamentos falaciosos.
Por aqui deambulam viciados em cocaína com tendências suicidas, uns sem-abrigoque
todos conhecem e para os quais nunca há tempo, mendigos acompanhados por cães
esqueléticos que também são lazarentos; convivem homens e mulheres que «bebem
vinho manhoso pela garrafa ou pelo pacote», e cujos dentes são «escuros da podridão vinda das entranhas
carcomidas pelo álcool»; vagueiam
ex-reclusos que não arranjam trabalho por terem lavado a honra em águas
manchadas pelo adultério; descreve-se friamente a sujidade de «indigentes,
tomados pelo vício», ou as rotinas atrozes de uma «puta fina» caída em desgraça e
tomada pela idade. Aqui assume-se «A condição humana desencarnada daquilo que a
torna aceitável (…)». O ‘ultraje’ é desenhado capítulo após capítulo, afinal,
somos colocados diante a «cloaca social da cidade».
A cada trecho, a autora – que domina
com mestria a arte de bem escrever – consegue que o leitor sorva cada vez mais
este outro lado da vida. Por via do relato veiculado pelo narrador – um mudo
que se assume como observador de episódios vários, e os narra com uma subtileza
rara – vemo-nos impelidos a, interiormente, mapear as diferentes dimensões da
vida que coexistem no mesmo espaço físico. A obra assume-se como um claro
convite à análise a esta dicotomia entre o lado benigno e aceitável da vida e
esse outro escuso que, por conveniência, procuramos sempre ocultar nos
recônditos do esquecimento.
Apesar do distanciamento que a
ficção impõe, a autora localiza todos estes episódios na cidade de Ponta
Delgada. Neste particular, poderão os leitores locais afigurar-se como
favorecidos por lhes ser mais acessível situar in loco a ação narrada, dado o recurso à toponímia atual da maior
cidade do arquipélago. Como o fizera o ‘poeta da cidade’, Emanuel Jorge
Botelho, na obra 30 Crónicas, também
Paula de Sousa Lima manifestou neste O
Outro Lado do Mundo um verdadeiro ato de amor pela urbe, «Conheço-lhe o
espaço: cada rua, cada travessa, cada passeio, cada esquina, cada recanto, cada
jardim, cada contorno de sombra que se enrosca no corpo das casas».
O
Outro Lado do Mundo é
também e ainda um notável hino ao Humanismo. Aliás, esta será, certamente, a
característica mais arreigada a toda a obra. Encontramo-lo bem patente na forma
como a autora - pelos olhos do narrador - vê o meio que a envolve, condiciona
e, em certa medida, protege. É colocado em evidência o modo como a «boa
sociedade» olha para os mais desfavorecidos, cujos trajetos de vida divergiram
dos tidos como exemplares. Para aqueles, dar uma esmola não é mais do que «alimentar
vícios» de quem «precisa é de trabalho». Em pleno Convento da Esperança, senhoras
e senhores distintos insistem em reclamar para si a misericórdia divina,
clamando pelos favores do Senhor Santo Cristo dos Milagres, mas, uma vez no
exterior, são incapazes de perceber porque «não limpam o Campo» daqueles que a
sociedade sacode «como moscas inoportunas». Por oposição, onde a maioria
vislumbra apenas a escória social, o narrador (que é da mesma forma um vizinho
extremoso, um prudente sobrinho e um verdadeiro amigo do seu amigo) vê «gente»,
gente que age apenas como gente. «Não é bonito, não é edificante. É humano». Renega-se
a altivez e o pretensiosismo e, em contraste, enaltece-se a condição humana do Ser.
Os méritos desta obra recaem,
ainda, no que ao aspeto formal concerne e, reservas existissem sobre o
virtuosismo da autora finalista do Prémio
Leya 2016, pode afirmar-se que estamos perante uma obra que será, no
mínimo, uma referência da literatura contemporânea produzida nos Açores. O
leitor é constantemente surpreendido: o expectável não acontecerá. Recordo com
agrado as situações dialogais, na sua forma pouco convencional, assim como o
recurso a mecanismos de narração de difícil manejo, mas que, em larga medida, dotam
o texto de um ritmo energético, que tão bem lhe assenta.
A terminar, uma palavra de apreço
e alento a todos os promotores e intervenientes neste prémio. Depois da obra Mau Tempo e Má Sorte - Contos Pouco
Exemplares, em 2014, da autoria da professora Leonor Sampaio Silva, surge-nos
este O Outro Lado do Mundo, como seu
digníssimo sucessor, elevando a fasquia da qualidade a níveis que, em larga
medida, dignificam o patrono que empresta nome a este Prémio Literário!
A todos, mas especialmente aos
galardoados, muitos parabéns!
Telmo
R. Nunes
a 23
de novembro de 2017
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
You'll never walk alone
segunda-feira, 1 de maio de 2017
Os TPC'S e as pautas, por Joaquim Machado
quinta-feira, 27 de abril de 2017
Saudade
Desse-se o caso de a saudade
enrugar, dir-se-ia que a que me acompanha e que comigo divide a existência era
já vista, pelo menos, como bem entrada na idade.
A minha saudade é uma saudade
adulta, bem alimentada pelo tempo e assaz nutrida pelo espaço. O distanciamento
a que me sujeitei foi-lhe engordando as ilhargas, obrigando-a, hoje, a
expandir-me o peito num sofrimento antigo, ao qual, por devoção, não quero dar
tréguas.
Sempre lhe dei toda a atenção que,
julgo, merece, mas reconheço que a minha saudade é daquelas que lacera, que faz
questão de, a cada dia, se fazer notar com maior intensidade.
Não sei se se pode chegar a
morrer de saudade, mas duvido, também, que se possa designar de viver uma
coexistência assim, quase insuportável.
Não quero com isto dizer que,
podendo, a extinguiria em mim.
NÃO! ISSO NUNCA!
É a saudade que me aguça a memória.
É ela que me afia o lápis dos sentidos e me redesenha cada rosto, cada
expressão, cada momento vivido e que vale a pena ser recordado.
A saudade que me habita não é de
cá, não tem endereço aqui. Não se quis ilhoa, nem creio que alguma vez se venha
a ilharizar. A minha saudade cresceu
e vive clandestina, tem o seu próprio tempo e o seu próprio espaço.
A minha Saudade.
Telmo R. Nunes
26 de abril de 2017
quarta-feira, 19 de abril de 2017
Janela da Memória
Vejo-me na Praça Dr. Luís, a
chegar ao antigo edifício da Câmara Municipal e lanço-me até à janela da minha
infância: a mais baixa e mais à esquerda para quem sobe a antiga escadaria que
se ergue desde a estátua da Venerável Sílvia Cardoso.
Paro.
Varrido pela lembrança, recordo,
com nostalgia, as inumeráveis vezes que lá me dirigi em busca da figura materna que, do outro lado do vidro e por mais de três décadas, ali se
debateu pelo conforto das nossas vidas. Umas vezes, rogando-lhe moedas com
sabor a morango fresco e baunilha crocante, outras, por intuitos de somenos
importância, e de que agora não tenho memória.
Chegado ao limiar da janela, que
erradamente recordava de guilhotina, percebo que já não preciso subir ao beiral
inferior da fachada para vislumbrar o interior de toda a sala. O tempo
encarregou-se de me poupar a esse esforço. Aproximo-me e percebo, com alguma tristeza,
a madeira corroída e implacavelmente pelada pela força dos elementos. Num toque
que busca outro tempo, deslizo os dedos pela ombreira e noto que caem por terra
lascas de madeira solta e gasta, adornadas, ainda, por um verde que é escuro, salpicado
por memórias de uma infância feliz.
Sentindo os pés assentes num chão
que é o meu, perpasso a nobreza do edifício e corporizo a memória do mais
intenso contentamento: vislumbro o velhinho Carvalho de Paços! Ele, que conta
com mais de três séculos, guarda segredos e memórias para sempre caladas, e
resiste, estoicamente, ao passar do tempo.
Ao contrário dos gladíolos de
Sophia, o meu Carvalho jamais deixará de estar na moda. Dado como morto três ou
mais vezes, outras tantas foi trazido à vida pela feitiçaria mais bondosa de
que há conhecimento, e foi, em boa hora, imortalizado na heráldica pacense. Dizem que de lá do alto interpreta a “firmeza e longevidade” do meu povo.
Pois que assim seja!
Telmo R. Nunes
19 de abril de 2017
quarta-feira, 5 de abril de 2017
A propósito da obra "30 Crónicas", de Emanuel Jorge Botelho
| "30 Crónicas" Vol. I e II Emanuel Jorge Botelho com ilustrações de Urbano Letras Lavadas | Artes e Letras |
Consta que os primeiros marinheiros que cá chegaram, deram a ilha como desabitada.
Redondo engano.
Deus já cá estava. Há muito tempo.
Redondo engano.
Deus já cá estava. Há muito tempo.
Escritas pelo professor Emanuel Jorge Botelho, estas crónicas surgem-nos como um verdadeiro mapear de vivências tidas ao longo dos anos e em primeira pessoa: umas derivadas desde a memória da infância, outras tidas a partir da idade adulta, e sempre acolhidas geograficamente pela bela cidade de Ponta Delgada...
Pautadas por temas recorrentes como afinidade paternal, o vínculo psicológico ao mar e sempre a relação com Deus, Emanuel Jorge Botelho oferece-nos um manancial de textos escritos em uma prosa poética como há muito não lia, e ao alcance de muito poucos...
Uma belíssima surpresa!
segunda-feira, 3 de abril de 2017
O Leitor
![]() |
| .::Imagem retirada a partir do Google::. |
“Banham-se,
depois ele lê, ela escuta, e finalmente fazem amor” – eis o ritual de Michael
Berg e Hanna Schimitz, um atípico casal alemão do final da década de 60. Ele,
um rapaz de tenra idade, adolescente apaixonado por uma mulher madura e
sexualmente bem mais experiente. Ela, mais velha, autoritária mas possuidora de
uma beleza física invejável. Eis o mote à obra de Bernhard Schlink,
recentemente adaptado ao cinema.
É
uma história de amor condenada à partida. Brota de uma natural casualidade e
prolonga-se no tempo obedecendo cabalmente a um conjunto de rituais em relação
aos quais se luta para que não se alterem. Tem o seu término com o abrupto
desaparecimento de Hanna. Só anos mais tarde e numa localização
espácio-temporal muito pouco provável se voltam a encontrar, reacendendo uma
chama há muito aligeirada, mas nunca extinta…
É
um livro essencialmente marcado pela sua história. De facto, o desenrolar do
enredo cria no leitor uma vontade imensa de continuar, faz emergir imagens e
conduz a imaginação a hipotéticos acontecimentos. É um relato cativante.
Outra
vertente que me agradou foi, sem dúvida, o relato de um período
histórico/político fascinante. A ocupação Nazi, a II Grande Guerra, os
dolorosos campos de concentração. Tudo ingredientes a uma reflexão intimista e
cruel sobre a legitimidade de uma geração, ou até mesmo de um povo.
É
realmente uma história extraordinária!
Contudo,
não partilho da opinião da crítica em geral que o classifica numa frase:
“brilhantemente pensado e escrito” - Parece-me demasiado... É certo que se
trata de relato pessoal e por demais marcado pela proximidade do autor ao
narrado, mas julgo que se impunha um pouco mais de aprumo lexical e um estilo
mais “elegante”… Tivessem esses cuidados, entre outros, e fariam deste um livro
de referência na Literatura Alemã.
Telmo
R. Nunes
30/Outubro/2009
sábado, 1 de abril de 2017
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