sexta-feira, 8 de outubro de 2021

O Cão Dos Olhos Dourados

 

João de Melo é, como sabemos, um dos expoentes mais cintilantes da nossa riquíssima Literatura portuguesa contemporânea. É um autor que reúne consenso. Quando dele ou da sua obra se fala são sempre os bons adjetivos que emergem e adornam a conversa. Lembro-me de ter falado com ele uma vez apenas, na Livraria Leya SolMar, em Ponta Delgada. Um encontro casual, muito breve e marcado pelo embaraço que me embargou a voz e turvou o pensamento durante todo o tempo. Recordo que nesse dia corroborei a boa impressão que já havia formulado acerca do homem além do autor: afável, educado, ponderado e sempre com uma palavra de incentivo dirigida a quem o interpela. Não será por mero acaso que outros grandes do panorama literário português se lhe referem como “mestre”.

Por estes dias, está o autor novamente de parabéns. O seu mais recente romance, «Livro de Vozes e Sombras» foi reconhecido com mais um galardão. Após o “Grande Prémio de Literatura dst”, chega agora o “Prémio Literário Urbano Tavares Rodrigues”. Um justo reconhecimento considerando a riqueza (literária, estética, histórica…) daquela obra. Talvez agora possamos deixar cair, em definitivo, aquela ideia de que a sua obra completa ficaria, para sempre, refém do seu livro «Gente Feliz Com Lágrimas».

À margem destes títulos de grande fôlego, João de Melo encontrou ainda tempo para nos surpreender com a sua primeira narrativa infantil, «O Cão Dos Olhos Dourados», publicado em agosto, pela D. Quixote. Com a qualidade de escrita que todos lhe reconhecemos e à qual já nos habituou, mas completamente acessível a leitores mais novos, João de Melo dá-nos a conhecer a singular história de um cão muito especial. É-nos contada a fantástica aventura de "Nick", um cão “pacífico, mansinho” a quem só “lhe faltava falar”. A narrativa é apresentada de forma emotiva e sempre muito comprometida, ficando essa função a cargo de um pai de família, claramente tocado pelo amor, e que, de forma pedagógica, procura resolver todos os problemas à medida que estes vão surgindo. Coincidência, ou talvez nem tanto, o livro, lançado em agosto, aborda de forma muito evidente a questão do abandono dos animais, um flagelo que se repete anualmente, durante o período das férias de verão e que traz à montra da vida a negligência de alguns adotantes. Para além da amizade e do amor, do companheirismo é a pedagogia da adoção responsável que aqui está bem vincada o que, tratando-se de um livro destinado a crianças e jovens, se reveste de uma valia assinalável, considerando o contributo prestado à formação e desenvolvimento de personalidades.

Procurámos tentear a leitura desta obra e conseguimos que durasse alguns dias. Em todos, a exploração do texto foi consubstanciada por momentos muito agradáveis e vividos em família. Lemos o "Nick" (como nos pedia o pequeno Filipinho) a três vozes: a da mãe, a minha e a dele, que através das belíssimas ilustrações de Célia Fernandes, também já recriava e nos narrava as aventuras do seu próprio Nick.

De facto, e como tão bem o regista João de Melo, «As crianças hão de ser sempre a promessa e a esperança de um mundo melhor para os homens e para os animais». Por esta razão e por tantas outras, ao autor é agora reclamada a continuidade da escrita dentro deste mundo mágico que é a Literatura infantojuvenil.

João de Melo, «O Cão Dos Olhos Dourados», D. Quixote, agosto, 2021


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