sábado, 23 de maio de 2020

NONSENSE STORY - VERÃO NA ILHA

Ao contrário do que era habitual no café do João Violante, a única conversação daquele dia deu-se entre os mais improváveis interlocutores: à esquerda, e arremessado à parede contígua à cozinha da Rosa, o velho calendário, trajando já a indumentária de Julho. No outro extremo da sala, e pousado numa empoeirada prateleira de vidro, mesmo por cima da ruidosa, mas aromática La Cimbali, o velho Phillips cinzento que, com a sua antena hirta e voltada a poente, vociferava há anos, à custa de quatro pilhas de 1,5 volts, trocadas de três em três meses.
A bizarria deu-se porque do calendário se insinuava uma mulher loira, provocante, de uma beleza completamente inusitada, lançando sorrisos e convidando: “Vamos A La Playa?”. O apelo fazia-se acompanhar de um céu azulíssimo, areia branca, umas quantas palmeiras ao fundo e quase roupa nenhuma.
Por outro lado, o velho rádio a pilhas esgrimia os seus argumentos apregoando a telefonia: “Hoje espera-se céu geralmente muito nublado, com períodos de chuva, por vezes forte e persistente na vertente Sul da ilha de São Miguel. O vento será forte a muito forte, vindo do quadrante Norte. Espera-se uma descida da temperatura em todo o arquipélago, com as máximas a atingirem os 14º em Ponta Delgada, e os 15º nas cidades de Angra do Heroísmo e da Horta”.
- Eh, João! Esse teu radiozim nã tem tarelo nenhum, hóme de Deus! Está dizendo pr’aí que vai chovê hoje? Homessa! – lançou num tom jocoso.
Estava muito calor, “um bafo”, como se dizia na ilha. O sistema de ar condicionado do café não trabalhava ia para três anos, mas mesmo que estivesse operacional, não aplacava a quentura que se abatia sobre São Miguel. Era um julho “à moda antiga”, como já se dizia pelas várias tertúlias micaelenses.
Bebeu o café gelado, pagou e despediu-se, fazendo-o com ares de gozo: -’Té logo, meus senhores! Vou esticar os ossos p’rá praia! - e saiu, afastando as fitas coloridas que protegiam o estabelecimento da presença de moscas e outros animais da mesma índole.
Procurou o Renault e conduziu em direção à praia das Melancias, aquela perto do complexo turístico novo. Estacionou e dirigiu-se ao imenso areal, apinhado de locais e turistas.
Com a calma de quem perscruta a vizinhança, dispôs a toalha. Livrou-se da t-shirt e pensou ir à água! Percorreu os últimos metros até ao imenso azul e…
- Rais parta! - O azul fresco dera lugar a um mar púrpura, viscoso, raiado e tóxico.
- Filhas da mãe! Não terão mais pr’onde ir, essas put#$%&? Rais bem que as parta! – praguejou com afinco! Incrédulo, maldisse a sua vida por mais uns minutos e, contrariado, tornou à toalha. Amarfanhou-a, colocou-a em torno do pescoço e, cabisbaixo, dirigiu-se ao Renault.
A viagem de regresso ao café do João Violante não durou mais do que cinco minutos. Estacionou o automóvel no mesmo lugar que ocupara e, “de orelha murcha”, reentrou no café, deixando-se escorrer silenciosamente pela cadeira de onde se levantara instantes antes.
Quando o viu entrar e antecipando o que teria acontecido, não resistiu:
- ‘Tás vendo como a telefonia tinha razão! – gracejou João Violante – Hoje n’é dia de praia, rapah dum corisco!

A fotografia é do Marco Costa e, segundo o que ele diz, não tem grande qualidade! 

Sem comentários: