domingo, 6 de outubro de 2019

O terrorista elegante

Terrorista e elegante: será possível conjugar estes dois termos em um só indivíduo?
Sim, é possível. E quem o confirma são dois dos mais brilhantes contistas da literatura lusófona contemporânea: Mia Couto e José Eduardo Agualusa.
Perdoem-me o desrespeito alfabético, concedendo o posto primaz ao moçambicano, mas, do meu ponto de vista, ele é um dos maiores, um dos que mais contentamento sinto ao ler. Como eu, tantos outros o rotulam como um excecional contador de histórias, um ‘fazedor’ de palavras com uma imaginação que não parece conhecer fim. De qualquer forma, não me faltariam também ricos adjetivos para qualificar o angolano, caso o propósito agora passasse pela constatação do talento literário destes homens.
A obra, um conjunto de três novelas inicialmente previstas para a dramatização, encerra a curiosidade de ter sido escrita a quatro mãos. Ainda no introito, somos informados que ao escreverem «O terrorista elegante» os autores, sentados a uma mesa e num ambiente completamente descontraído, “rindo e brincando”, apostaram “na negação da ideia de que a criação literária é sempre um ato profundamente solitário”. Eu creio que assim é, e por isso não deixa de ser curioso também que as restantes duas composições tenham sido escritas a partir de cidades diferentes, fazendo-se os autores valer da cumplicidade entre ambos, sendo que um ia adindo texto ao escrito do outro, e isto como quem joga prazerosamente uma singela partida de ping-pong!
A perpassar toda a obra ondulam odores (benévolos ou perniciosos), gostos, cenários idílicos e citadinos e, claro, as temperaturas aquecidas e tipicamente africanas, que se traduzem não apenas nos corpos transpirados pela pujança do astro-rei, mas, sobretudo, nas abordagens sensuais ao eterno desejo do feminino, e que ambos autores tão bem souberam diluir nas entrelinhas mais agradáveis destas novelas.
Embora não se encontre explícita a autoria deste ou daquele excerto, essa informação perde relevância e interesse ao longo da leitura. Ainda que no início nos sintamos tentados a encontrar o rasto de um ou de outro autor, com o avançar da obra, essa necessidade perde relevância e, assim que nos damos conta, deixamo-nos ir ao sabor do deleite da leitura. Naturalmente, e em abono da verdade, aqui e além distinguem-se estilos e encontram-se vestígios. Leia-se a título de exemplo a passagem “Desta vez, sonhei. Sonhei, ora essa, não: pesadelei”, que pertence, claramente, ao indelével traço de Mia Couto.
As temáticas abordadas nas narrativas são díspares, muito embora na génese de todas se perceba a presença constante de um elemento: a morte.
Na primeira novela da obra, «O terrorista elegante», que empresta título ao livro, é referido um angolano com especiais ligações a grupos terroristas internacionais. Suspeito de tentativa de atos dessa índole em território nacional, é detido em Lisboa e conduzido a interrogatório. Ainda que com alguma relutância, podemos extrapolar a ideia de que os autores quiseram lançar aqui uma fina crítica à forma de atuação, assim como a alguns métodos utilizados pelas forças de segurança, em casos de detenção. Durante o inquérito, o inusitado acontece e o prisioneiro leva a que os seus inquiridores comecem a questionar-se a si próprios. 
A segunda diegese, «Chovem amores na rua do matador», tem como protagonista Baltazar Fortuna, um pinga-amor cinquentão que procura redenção íntima e, para tal, vê-se na obrigação de matar as três mulheres com quem viveu ao longo da sua vida.
A terceira e última novela, «A caixa preta», refere-se a uma família desestruturada pela guerra, onde avó e neta vivem sozinhas, reféns do tempo e da memória, embrenhadas em segredos e assuntos proibidos, entretanto trazidos ao presente pela inesperada presença e morte de alguém…
 Ao lermos a informação de contracapa, “Dois dos maiores autores de língua portuguesa juntam-se para proveito e alegria dos seus leitores”, constatamos que ainda bem que se deu este acaso! Foi uma reunião muito feliz e, mais importante, resultou numa obra globalmente harmoniosa e cerzida pelo enorme talento de ambos.
Foi, de facto, um gosto reencontrar-me com estes senhores!
Uma palavra de apreço à Quetzal que, entre outros, teve o mérito de criar este volume, do qual é impossível não sublinhar o belíssimo design de capa, da autoria de Rui Rodrigues.

Mia Couto e José Eduardo Agualusa. «O terrorista elegante», Quetzal Editores, 1.ª edição, 2019.

#livrosecoisasdessas


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