“Não serve de desculpa. Há pessoas em situações piores e não se metem
na droga, mas, como tenho experiência com droga, tenho este escape."
In publico.pt 25/08/13
Numa altura em que a pobreza
espreita a cada esquina, e o desemprego emerge de um momento para o outro; numa
época em que a depressão familiar e a inversão de valores se entranham pelas
frinchas mal calafetadas da vida e, num período em que o Estado Social parece
condenado ao desaparecimento, muitos têm sido aqueles que, caídos em desespero
e sem esperança de amparo, buscam na fugacidade de um consolo intrujão o
alienar dos problemas quotidianos. Partem na ânsia do esquecimento, na
esperança do reencontro com momentos prazerosos e, invariavelmente, aterram nas
agruras mais vis que se possam imaginar.
Fruto de toda esta conjuntura começa
a ser por demais conhecida, e até bastante alarmante, a massificação de
recaídas de muitos dos sobreviventes ao flagelo das drogas nos idos anos 80 e
90 do século passado, com especial incidência nos casos de heroinómanos.
Descobrir uma veia onde ainda
seja possível receber com aquele agrado
a fininha agulha e… deixar-se ir… partir numa jornada traiçoeira em busca da
doce euforia voltou a ser a rotina de milhares de pessoas.
Em Portugal, na época áurea
destes consumos, não obstante todas as políticas de combate (e algumas bem
agressivas, que resultaram mesmo em cisões sociais entre os que olhavam os
toxicómanos como doentes e os outros que os viam como meros criminosos), 1% da
população consumia ou consumira então heroína, pelo que encontrar uma família
onde esse flagelo não se fizesse sentir, revelava-se uma tarefa complicada.
Lia-se que a heroína não sendo exclusiva dos “feios, porcos e maus”, era uma
epidemia transversal à sociedade, agravada por todos os outros problemas
associados: absentismo escolar, roubos, tráfico, alcoolismo, VIH, hepatite C,
overdose… morte! Segundo João Goulão, – diretor-geral do Serviço de Intervenção
nos Comportamentos Aditivos e Dependências – “duas gerações foram dizimadas por
consumos descontrolados”, e muitas mais seriam desse-se o caso de não se
concluir atempadamente que a prevenção, assim como o acompanhamento destas
pessoas deveriam ser permanentes na agenda política do nosso país. Com efeito,
deu-se um pequeno brilharete: reduziu-se a percentagem de mortes por consumo de
heroína a 0,5% da população, o que provocou de imediato a vinda de
especialistas mundiais ao nosso país.
Na atualidade constata-se que o
número de novos consumidores de heroína não é significativo, – os novos
toxicómanos optam por um policonsumo que, não sendo tão agressivo como o da
heroína, levanta também algumas discussões bem urgentes – mas a questão
agudiza-se se nos cingirmos ao atual número de recaídas dos que há duas ou três
décadas atrás eram os junkies que
semeavam o medo pelas principais ruas das nossas cidades. Hoje, toxicodependentes
com 40 ou 50 anos de idade, assim como os seus médicos acompanhantes e outros
responsáveis, apontam a situação de crise económica como um dos principais
fatores para estas recaídas: o difícil acesso aos cuidados de saúde, e o fim de
alguns apoios têm dificultado em larga medida a recuperação plena destes
indivíduos, e estarão na origem do triplicar das recaídas.
Numa sociedade onde a escassez de
dinheiro impera, a capacidade de resposta destes serviços tão especializados
tem, inevitavelmente, falhado, o que condiciona sobremaneira o tratamento
continuado destes indivíduos. Se antes se assistia, por exemplo, à
discriminação positiva destas pessoas em recuperação, nomeadamente em termos de
empregabilidade, dizem os responsáveis que face à taxa de desemprego
generalizada “não existe o à vontade necessário para que se batam por esta
questão”.
Outrora apontado como o inimigo
público número um, e gastos milhões em prevenção e apoios sociais, o consumo
desta droga parece agora suscitar pouco interesse nas pessoas com
responsabilidades políticas. É certo que outras necessidades bem mais prementes
estão na calha – há hoje gente a passar fome – no entanto, urge a
disponibilização de esforços, a articulação de estruturas de saúde que
garantam, uma vez mais, respostas eficazes a estas pessoas. Importa impedir o
recrudescimento deste flagelo, sob pena de assistirmos ao ruir de todo o
esforço financeiro e social feito por aqueles que antes de nós tanto
trabalharam pela erradicação do consumo desta maldita heroína!

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